12 de março de 2014

Mudanças de nome

No Brasil, as grandes reformas são as mudanças de nome. Algo não vai bem? Troca-se-lhe o apelido.
Assim, antigamente, havia censura – o primeiro contato que tínhamos com ela era na porta do cinema, exatamente onde aprendíamos que fraudar uma carteirinha de colégio não seria tão mal assim, afinal, era apenas para ver alguns peitos e bundas.
Mudar o nome é certeza de melhora
no Brasil.
Depois, com a Constituição de 1988, cujo nome foi imediatamente mudado para “A Cidadã” (poderia ter sido “A Meretriz” – mas o doutor Ulisses estava com a melhor das intenções e completamente míope); bem, com o advento da nova Carta, a censura foi proibida. Como não seria de bom alvitre deixar impúberes verem os já costumeiros peitos e bundas no cinema (em casa, na TV paga, podem à vontade – ou então na Globo, depois do JN), inventaram uma classificação indicativa cujo escopo seria orientar os pais quanto à conveniência de seus rebentos adolescentes verem no escurinho e comendo pipoca aquelas partes antes pudendas agora despudoradas. Pois bem, a isso se prestava a classificação indicativa: categorizar o espetáculo (pois o mesmo se aplica ao cinema, ao teatro, ao circo). Já ontem, vi na porta do cinema de um shopping um aviso informando que o fulano, para ver... já disse muito o que se vê, todo mundo sabe: pra ver um pouco de sacanagem na telona agora tem que exibir a carteira de identidade. Mas não era exatamente assim quando tomávamos o primeiro contato com a censura? Mudaram o nome de censura para classificação indicativa – mas coisa permanece do mesmo tamanho: serve apenas para os mais crescidos falsificarem o documento de identidade e entrarem nas salas de recreação. Só que agora a falsificação é de um documento público. Só que agora é muito fácil escanear e imprimir em altíssima resolução: você pode não saber fazer isso, mas os adolescentes sabem. Mas afinal, não faz tão mal assim, pois é apenas para ver (pô! Como vou dizer agora para ficar diferente?), para ver aquela putaria fora de casa.
Pare refrescar a memória: quantos nomes teve o imposto do cheque? CPMF, IPMF e já tentaram pregar a coisa de novo em nós com outro par de nomes; quando inventarem uma sigla sonora pega. E a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), creio que sucedânea da OTN, e depois virou BTN (Bônus do Tesouro Nacional) e soltou um filhote BTNF (F de fiscal) e acho que teve outros apelidos; como chama agora? Para concluir o parágrafo financeiro e monetário: quantos nomes já teve nossa moeda? Toda vez que não cabe mais zeros no papel o capilé muda de apelido: Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Real – listando apenas alguns das repúblicas.
Nos anos sessenta e setenta, quando os subversivos (era assim que a todo mundo se referia aos esquerdopatas àquele tempo) assaltavam um banco, todo mundo chamava de assalto mesmo, mas eles mudavam o nome para expropriação. Agora, quando os mesmos equerdopatas (agora não são mais subversivos, o nome mudou para Governo) te assaltam, eles não chamam mais de expropriação, porém de tributação, mas a grana vai mesmo é para Cuba e outros mesmos lugares autoritários, como dantes. Ou para alguns bolsos, não mais na Suíça que ficou manjada, mas algum paraíso fiscal ínfimo.
Já no ensino (que agora chamam de educação, mas não educa ninguém na verdade – nem ensina mais como dantes), o grupo virou primário, o pré-primário virou primeiro ano, o primeiro grau virou ciclo básico, o ginásio virou científico e depois virou segundo grau, o execrado vestibular único está redivivo com o apelido de ENEM (bem mais substancializado, agora com a dimensão nacional), professoras agora são chamadas de tias e pivete safado sem vergonha agora é menor infrator. Tudo isso, no Brasil. Pode-se fazer lista de nomes para todos os órgãos públicos; não deve haver um só que não tenha passeado por meia dúzia de apelidos nos últimos decênios – sempre para o melhor serviço do cidadão (essa palavra – cidadão – vem da mudança de nome e fusão da nobreza, povo e clero, lá na França, nos fins do XVIII: enfiaram todos os gatos no mesmo balaio, mas pouco, bem pouco tempo depois os ex-nobres grimparam aos castelos, os padres subiram novamente às aras e o povo, sempre o zé-povo, permaneceu ao rés do chão).
O SUS já foi INAMPS e INPS e o Sandu virou SAMU – algo assim, o INSS, por sua vez, já foi IAPM, IAPC, IAPB, IAPI, IPASE, IAPETEC, ISS, IAPTEC, CAPFESP, IAPFESP – sem forçar muito. Contudo, isso melhorou muito – claro que as melhoras foram todas devidas às mudanças de nome. Por causa disso tudo, não há muito tempo, tive uma indisposição em Ouro Preto e chamei um táxi para acorrer ao pronto atendimento médico. Pedi ao taxista: – Leve-me ao pronto socorro! Quando vi que o motorista tomava um rumo diferente do que deveria, fui questionar. O moço estava me conduzindo a uma república estudantil de lá que se chama “Pronto Socorro”! O atendimento médico de emergência tem outro nome, ou tinha – se já não mudou novamente.
Para melhor ou para pior, as pessoas também mudam de nome: José Ribamar da Costa virou Sarney, Luiz Inácio da Silva virou Lula, ambos se deram as mãos e caminham juntos pela seara da república de bananas. Trocaram Império por República – mas os mandantes permaneceram. Trocaram Arena pra PDS, MDB pra PMDB. E os políticos trocam de partido mais que de cuecas. E quando não dá para trocar, invertem: já ouve uma República Velha, depois uma Nova, então sapecaram Nova República – mas os caras são os mesmos, só as caras que derreteram como imagens de cera em incêndio no museu. Trocaram escravidão por salário mínimo. Trocaram mucama por secretária do lar. Trocaram alhos por bugalhos. Melhorou muito.
A fúria da mudança de nomes chagou às raias da loucura com o advento do politicamente correto, estabelecendo-se uma novilíngua em que não há mais crioulos, doidos ou sambistas, senão afrodescendentes, portadores de sofrimento mental e ritmista afro. Assim o samba de crioulo doido passou a ser ritmo afro de afrodescendente portador de sofrimento mental, mas continua sendo Brasil, que já foi Terra de Santa Cruz. Amém!

18 de novembro de 2013

25 de outubro de 2013

O princípio do fim da liberdade

O princípio do fim da liberdade já exige alarme total.
"Liberdade não é meramente tirar as correntes de alguém, mas viver de uma forma que respeita e aumenta a liberdade dos outros."
[ Nelson Mandela ]
Já não existe liberdade no Brasil, não por termos correntes nos atando, mas por elas estarem sendo forjadas elo por elo, pelo cerceamento dos direitos estar sendo paulatina e seguramente imposto. Se a liberdade está diminuindo, ela já não existe - é o raciocínio de Mandela no sentido inverso. Estamos perdendo o direito de expressão (vide biografias e censura judicial a jornais e sites), estamos perdendo o direito à propriedade (vide invasões de terras, imóveis e centros de pesquisa), estamos perdendo a segurança jurídica, estamos perdendo a cidadania. Estamos perdendo a possibilidade de que haja alternância no poder! Isso é gravíssimo. Mais de um ano antes das próximas eleições o governo já tem a vitória praticamente garantida! Isso não só configura a exclusão da oposição, mas a impossibilidade e inviabilidade de que os atos do governo atual venham a ser auditados por outro grupo. O governo atual fará tudo - absolutamente tudo - para não deixar o poder. Fará tudo simplesmente porque eles não apodem deixar o controle do caixa. Eles não podem ter suas contas auditadas, não podem perder os mecanismos de gestão de que tomaram posse. O grupo que controla o país já não é um partido no governo, é um estamento no controle do Estado, eles se apossaram de todos os segmentos de expressão e controle social, da mídia e dos três podres poderes da república. Das agências e das autarquias. Das empresas públicas e das de economia mista. Tenho dito e não quero dizer amém.

15 de outubro de 2013

À beira das trevas: 50 anos em 5

Soube de fonte segura que a meta dos petralhas agora é a de fazer 50 anos em 5... Não, não é à JK (aquele burguês incompetente!). A ideia é levar o Brasil à completa miséria, tal como está Cuba. Mas querem fazer aqui em 5 anos o estrago dos 50 anos da ditadura dos Castros lá.
Isso aqui vai virar um Cubão... Com 40 anos de atraso, segundo os projetos juvenis de dona Dilma, mas antes tarde que nunca!
Estamos à beira das trevas.
Socorro!
A infraestrutura está prestes a ruir, a economia do Estado em vias falimentares, a extorsão tributária da classe média vai aos pícaros da glória, a leniência com os mega fraudadores e corruptores ativos e passivos é publicíssima e notória.
Os magistrados são (quase) todos vendidos - até no mais excelso pretório - onde isso pode ser visto ao vivo e em rede nacional! Os parlamentares recebem de um tudo, dinheiros com os mais diversos nomes: subsídio, verba compensatória, prebendas, côngruas, laudêmio, enfiteuse, mesadonas! Sempre em troca de votos subservientes que agora, extinto o voto parlamentar secreto, poderão ser ainda mais bem aferidos.
A data para o estouro da maior bolha, segundo as bolas de cristal mais bem polidas, gira em torno de abril de 2015. Até lá, o balão dos déficits vai inflando com as copas e as eleições, a demagogia eleitoreira solapando o Erário em seus estertores falenciais, com esporádicas injeções de recursos vindos de artimanhas tão prosaicas (e coerentes) quanto a "exportação" das plataformas petrolíferas para, em seguida, alugá-las ao comprador!
Depois de abril de 2015, meus amigos, reeleitíssima dona Dilma, com o judiciário e os parlamentos no bolso, restará a noite dos cristais quando a situação ficar intangível pela vereda em que segue.
Quem gritar vai para o xilindró. Todos conhecem o cardápio dos regimes duros. E se já está duro aguentar a corja petralha no momento atual, aguardem para ver a cor da fumaça depois que a gritaria começar! Eles vão puxar a corda, vão cerrar o laço que já têm no pescoço dos cidadãos de bem que não se calam diante da incúria presente ou da vilania que desponta no horizonte de trevas.
Imprensa? Não existe: todos os jornais do país são diários oficiais do Estado. Não precisaram mais nada que comprar, com as verbas públicas, todos os espaços publicitários na mídia. Está calada a voz de qualquer jornalista sério; de quase todos.
A academia? Todinha aliciada. ALICIADA! Insuflaram pó de dinheiro nos olhos da universidade; hoje, cada IES é uma agência petralha, em desserviço do contribuinte que sustenta a esbórnia. Sindicatos, bem, nunca houve isso por aqui; sabe quem já passou perto de um que aquilo é uma mina de ouro para os seus dirigentes, cujo expoente máximo, comprovação da tese, é o enedáctilo.
Socorro! Eu quero me arribar!

14 de setembro de 2013

Os três poderes podres

ART. 2º da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o LEGISLATIVO, o EXECUTIVO e o JUDICIÁRIO”
Esse artigo é um postulado, obsoleto - muito mais uma elegia a Montesquieu que uma verdade praticável. Não há apenas três poderes (de fato) e não há independência nem de fato nem de direto entre eles. A teoria dos tês poderes deriva dos três estados do antigo regime, da santíssima trindade e da mania que as pessoas têm de dividir as coisas em três (inclusive por simbolismos maçônicos) - mas ela é artificial e não comporta a complexidade do Estado pós-moderno.
O Estado moderno está em processo de autofagia,
incapaz de se dar conta de que os modelos do
século XVIII não se prestam mais à complexidade
da sociedade nem servem a ela.
O Leviatã está comendo seu próprio rabo.
Duas outras manias que o brasileiro precisa perder: Achar que resolve coisas com leis - leis não existem para resolver situações - elas deveriam prever situações e prever a variância e a imponderabilidade do futuro. Resolver com lei degenera em casuísmo. A lei deve ser abstrata e restrita, renunciando à veleidade de abarcar todas as hipóteses mas delineando os princípios fundantes.
A outra mania é querer extrair do emaranhado legal as justificativas para quaisquer procedimentos e impedimentos. As ações e restrições deveriam ser pautadas por princípios - este sim, delineados pela regra, mas não insculpidos nela. Tais como os princípios da isonomia, transparência, devido processo... Não há de ser por essa ou aquela norma caduca (como o Regimento do STF) da qual sobra um mísero fragmento do qual se extrai um procedimento contrário a todo senso lógico - e a qualquer princípio de boa gestão.

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Revisão de dissertção ou tese só na Keimelion.