31 de outubro de 2008

Pela volta do vosmecê

André Leandro
A linguagem é uma forma de expressão por uso de palavras, escritas ou faladas, com o objetivo de comunicação. Ela caracteriza um indivíduo, grupo e espaço por possuir uma série de variações, devidas a seu objetivo, pois, para que haja comunicação, a linguagem deverá se adaptar às diferentes situações.

No tempo atual, a linguagem sofre determinadas mudanças em conseqüência dos avanços tecnológicos. Os mais apocalípticos e saudosistas dizem que, por causa disso, estão se perdendo as belas palavras e expressões da língua.

Ao debater esse assunto, é importante pensar na maneira de uso e na evolução da linguagem. É completamente plausível que um jovem use “vc” ao escrever em bate-papo, já que o receptor da mensagem entenderá, e escreva “você” em uma redação para o vestibular, onde é necessário o uso da linguagem padrão. De fato, determinadas expressões caem em desuso, mas simplesmente por não ser mais ponto de conhecimento comum e não mais fazerem parte da cultura dos falantes. E, por existir uma nova cultura, novas expressões surgirão. Portanto, nem tudo se perde, já que a linguagem se adapta ao meio e à cultura dos falantes.

Também é importante lembrar a produção literária. Essa preserva palavras e expressões e a ainda pode rebuscá-las. Assim, os autores ganham a função de preservadores. Mas, se ainda acha pouco a preservação em livros, faça a campanha pela volta do vosmecê.

O processo de evolução de uma língua caminha junto à cultura dos falantes e, por assim ser, acontece de maneira lenta. Algo se perde, se ganha e se mantém o tempo inteiro, pois não é um processo com fim, mas constante. Portanto, ao ser prático e usar uma abreviação qualquer, não se descabele, amanhã seu jornal não virá com ela no título.

Julio Meiron: mostra a cobra e mata a pau

Já faz tempo que conheço a cobra do Julio. É uma jibóia com certidão de nascimento emitida e endossada pelo IBAMA. Ela tem um chip implantado, de modo a não haver nenhuma possibilidade de equívoco em sua identificação.
Certa vez fui preterido em função da danada da jibóia: eu tinha um café da manhã agendado com meu amigo Meiron que quase se transformou em almoço, pois, antes de me encontrar, não é que aquele excelentíssimo artista se deu conta de que precisava comprar alimento para seu réptil? Não sabem os senhores, mas para alimentar o danado do bicho se fornecem dos tais ratinhos conhecidos como cobaias, podendo ser servidos in natura e vivos, ou mortos e congelados! Mas vamos deixar os aspectos nutricionais do tal. O fato é que fiquei esperando enquanto Julio atravessou meia São Paulo para comprar os tais ratos e eu passei fome.
A bendita cobra é personagem familiar, convive na casa de Julio com os demais moradores, quase todos humanos. Estou convicto de que o digníssimo exemplar da nossa fauna é o mais lúcido ser por ali, mas tem práticas em que é exclusivo, como a castidade.
A cobra do Julio tem integrado sua expressão estética, tem feito parte de diversas exposições em que gera polêmica em suas plácidas performances. A cobra, entubada, já foi motivo que quererem entubar o artista, numa das manifestações mais incoerentes que presenciei. Quase agrediram meu amigo alegando que ele estava fazendo mal á cobra: evidente que para os ambientalistas a digna conselheira de Eva está acima de qualquer artista plástico.
Já no Senado da República, o discurso da cobra, eloqüente em seu silêncio, foi interpretado das mais diversas formas, favoráveis umas, desfavoráveis outras, aos mais diversos alvos. Muito curioso sempre como interpretam os discursos (sub)reptícios! Para os seguranças da Casa, cabras quase todos, cobra é bicho-ruim, assim diz o evangelho, assim lhes contaram as avós, mas por seguro preferiram não bulir com a danada, ignorantes do fato de sua falta de peçonha. Afinal, aquela jibóia deve ter sido a única cobra sem veneno no Senado!
Cobra aqui, cobra ali, descobra agora onde Julio Meiron vai enfiar sua cobra. O certo é que a serpente tem dado asa à publicidade em torno do nome de seu proprietário. E se cobra tivesse asas, bem, aí as performances da cobra do Julio seriam outras – mas se é apenas a conjunção atrapalhativa, não nos cabe introduzi-la na estética alheia.

Na foto, a jibóia salva de ser
expulsa do Senado da República
pela prestimosa interferência
do Senador Suplicy.


Deu na FolhaOnLine

O Globo também noticiou

Terra deu espaço



Articulando

Coletânea de artigos de Públio Athayde. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos. Clique nos links o no livro para adquirir.

Os caminhos para as minas

Situadas no interior do centro-sul, as minas eram localidades de difícil acesso. De São Paulo aos núcleos mineradores a viagem era de sessenta dias. Havia três caminhos de acesso. O que foi aberto por Fernão Dias Pais passava por Atibaia e Bragança e alcançava a Mantiqueira. O outro, saindo de São Paulo, percorria Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Jacareí, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Lorena para chegar às três principais regiões mineradoras: Ribeirão do Carmo, Ouro Preto e Rio das Velhas. Um terceiro caminho passava por Mogi-Guaçu e correspondia, grosso modo, ao traçado da Estrada de Ferro Mojiana, hoje desativada.
O Rio de Janeiro, no começo, não dispunha de acesso direto às minas, o que dificultava o seu comércio. Mas rapidamente se beneficiou com a abertura do “caminho novo”, construído em três anos (de 1698 a 1701) e aperfeiçoado entre 1701 e 1707, a hoje tão decantada Estrada Real.
Com a sua abertura, a viagem do Rio para Minas poderia ser realizada em doze ou dezessete dias, conforme o ritmo da marcha.

Palácio da Liberdade
Sede do Governo de Minas


Aos mineradores não eram cobrados apenas o quinto, também “direitos de entradas” (sobre os produtos vindos de fora, em alguns casos até 75% do valor da mercadoria no Rio), “direitos de passagem” (pedágio cobrado nos rios), dízimos para a Ordem de Cristo e o “subsídio voluntário” (criado pelo marquês de Pombal para ajudar na reconstrução de Lisboa depois do terremoto de 1755). Dos dízimos pagos pelos mineiros ao receberem suas datas provinham os ordenados dos funcionários régios que patrulhavam as Minas. Todas as estradas, rios e passagens possuíam casas de registro e o ouro só podia circular em barras ou com uma guia.
Bem mais recentemente inventaram uma tal Estrada Real. Nada contra o desenvolvimento turístico ou até mesmo a invenção de uma nova tradição.
Mas o que devemos observar é que a estrada real é bem mais um Caminho para Brasília que os antigos caminhos para as Minas do Ouro...
A Estrada Real é parte da pavimentação entre os palácios da Liberdade e do Planalto! Isso sim!
Palácio do Planalto
Presidência da República

O Curral de Pedras e a arqueologia da mineração do século XVIII.



O entorno de Ouro Preto ainda está repleto de vestígios da atividade mineradora dos séculos XVIII e XIX. São muitos quilômetros de canais, centenas ou milhares de bocas de minas, ruínas de residências, muros e sítios cuja natureza ou função permanece indeterminada.
O Curral de Pedras faz parte desse conjunto, situando-se nos limite entre a zona urbana e a rural, destaca-se por sua dimensão e pela hipótese de que não teria sido originalmente um curral, mas uma fortificação. Trata-se de um quadrilátero de cerca de 200m de perímetro, edificado com muros de pedra cuja denominação deve ser, segundo meu pensamento, ligada ao uso tardio.
As paredes de pedra tinham mais de 2m de altura, com cerca de 1m de largura na base. Havia edificações internas e uma série de obras hidráulicas complementares.
A edificação tem sido agredida nas últimas décadas, numa intervenção predatória e rápida; suas paredes têm sido destruídas. Não se tem notícia de referências historiográficas ou documentais sobre o sítio.
Meu objetivo aqui será apenas apresentar algumas questões indicativas do estado de abandono de todos os sítios da arqueologia da mineração no entorno de Ouro Preto, apresentando, como exemplo, o Curral de Pedras, edificação que sempre me impressionou, desde a infância, e que já foi demolida em mais de 70% desde que eu a conheci.
Todo o conjunto das ruínas mineratórias está relegado pelas autoridades, desprezado pelos historiadores e ignorado pela população. Não havendo interesse comercial na exploração dos sítios arqueológicos (turismo), não há que se falar neles, que se investir neles, que os estudar...
Fui capaz apenas, para este trabalho, de localizar e fotografar alguns aspectos da ruína e do itinerário até ela, registrando o estado do sítio e do acesso a ele de forma meramente indicativa. Creio que o mínimo que fiz demonstra a necessidade de levantamento competente, por equipe multidisciplinar de profissionais, a ser complementada por profunda pesquisa documental, de sorte a se formar uma base para a proposta de tombamento do sítio e documentação de toda a área.
O estado da ruína é de completa depredação, desmonte. Acredito que motivados pela busca de algum tesouro sonhado, ao longo dos últimos anos, pessoas desavisadas e inescrupulosas têm sistematicamente demolido o que resta da edificação. Pelo isolamento em que se situa a ruína, nenhuma outra hipótese parece justificar a constante agressão ao edifício.
Este é, de resto, o estado geral de todo o sítio arqueológico do entorno de Ouro Preto. Nunca foi dada atenção científica a ele, assim como sempre foi desprezado como atrativo turístico ou como área de preservação.
Os canais estão todos assoreados, as “caixas-d’água” soterradas ou desmoronadas, as minhas desmoronadas, os suspiros – estes sempre evitados.
Não há levantamento, não há mapeamento, não há estudo documental. É como se a atividade mineradora não tivesse existido ao alcance dos olhos, como se o ouro brotasse na Casa dos Contos por geração espontânea e fosse convertido em templos, escultura, talha, poesia e inconfidências sem que tivesse sido arrancado ao solo às vistas de qualquer cidadão.
Essa história toda está contada no livro:


Autor: Públio Athayde

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28 de outubro de 2008

Dono do que compra?


André Leandro

A sociedade atual possui uma série de valores provenientes do ideário iluminista, um deles é a liberdade.
O Brasil foi um país escravagista até 1888, mas, mesmo antes disso, pregou liberdade, como em 1822, com sua independência em relação a Portugal. A partir disso, pode-se notar que o conceito de liberdade variará com a época e com o interesse de quem está no poder.
Hoje a sociedade vive uma nova relação de liberdade e escravidão. Existem leis que garantem ao cidadão sua individualidade e seu direito de expressá-la, negando ou aceitando situações de acordo com seus interesses. Mas, apesar disso, o indivíduo sempre fará a escolha necessária para sobreviver e, atualmente, sobrevivência está diretamente relacionada a dinheiro que, por sua vez, relaciona-se ao interesse do capitalista.
O capitalista veicula, através dos meios de comunicação de massa, uma ideologia, tenta convencer o grande público do que é necessário para viver, para estar incluso na sociedade. E para ter acesso a isso o ser humano agirá de diferentes maneiras, por exemplo: trabalhar muito e tentar subir na vida como um bom burguês, roubar, prostituir-se, traficar. Assim, o homem se torna escravo do consumismo e, por conseqüência, do dinheiro.
Até o século XIX o indivíduo não escolhia ser escravo. Na atual sociedade o ser humano abre mão de sua liberdade. Seja vivendo em função de produzir riquezas, mesmo que isso seja maléfico a seu corpo e mente, seja cometendo atos ilícitos. O homem não domina mais o que pode comprar, mas se encontra dominado pelo desejo de possuir, como se ele dependesse do objeto para existir ou para poder ser útil.

21 de outubro de 2008

A cruz e o beijo

Duas manifestações estéticas cujas referências cristãs diretas e polêmicas têm dado motivo a contestações por parte de pessoas que se sentem ofendidas. As pessoas recorrem ao poder público, a quem as duas peças pertencem, patrimônio que são de municipalidades, uma na Argentina, outra na Itália. As pessoas denunciam ao clero romano das respectivas dioceses. O clero pressiona os governos. E os governos, lá e cá dão ouvido às queixas, porém respondem ambos no sentido de que preservarão integralmente o direito da manifestação estética de cada um dos artistas e exercerão o próprio direito de expor as obras.
La Historia de Amor más Grande, más Bella y más Heroica de Todos los Tiempos, fotomontagem de Mauro Guzmán exposta no Museu Castagnino em Buenos Aires que mostra o Super-Homem beijando Cristo.
Zuerst die fusse (primeiro os pés), assemblage de Martin Kippenberger, exposta no Museion, museu de Bolzano, Itália, mostra uma rã verde crucificada.
Não farei aqui crítica estética dos objetos, mas informo que tenho apreciação favorável de ambos. É bem claro que os artistas jogaram contra valores estabelecidos, contestando-os ou mesmo os reafirmando, dependendo da leitura que se faça de cada peça, já que ambas permitem interpretações muito amplas.
Quero apontar outra abordagem sobre esses episódios, qual seja o discurso dos poderes públicos, que pode ser traduzido da seguinte forma: “eu reafirmo, confirmo e manifesto a liberdade de expressão”. Mas será que, ao acolher e expor obras polêmicas os governos estão mesmo exercendo e acolhendo a verdadeira liberdade expressiva – e esse é o ponto – ou usando a claríssima controvérsia religiosa para mascarar o verdadeiro cerceamento às liberdades de manifestação e pensamento?
Uma das formas de testar a questão pode ser imaginando, como fizeram algumas das pessoas que reclamaram contra a exposição dessas “heresias”, se os tais governos adquiririam e exporiam estrelas de Davi com sapos pregados ou Tio San beijando Maomé (os exemplos são meus). Essas hipóteses parecem descartadas pelo fato de que nada se tenha verificado que se aproxime delas. Ofender a fé cristã, ou fazer inimigos no Vaticano pode. Ofender o islã, ou ter inimigos em Meca é bem mais complicado.
Aqui entram em pauta algumas ponderações bem distintas; a primeira é que está em moda o comportamento politicamente correto. Assim, não é bom ofender os judeus, que foram tão maltratados pelo mundo afora e se deram tão bem em Wall Street – pelo mesmo motivo, não se pode questionar nenhuma política do Estado de Israel, seja ela murar, identificar e cercear de modo tão semelhante ao dos nazistas em Varsóvia nos anos de 1940. Do mesmo modo não é bom dizer que o islã é uma religião opressora, mesmo que seja uma fé propagada a ferro e fogo desde que Gabriel resolveu soprar o Corão no ouvido de Maomé. Já o cristianismo, esqueçamos que em seu nome as populações das Américas foram trucidadas e da África escravizadas durante uns 400 anos... A Santa Sé de Roma não tem mais tropas e já entendeu que suas excomunhões valem hoje menos que ações da Mesbla; mas como os vigários do Papa andaram papando mais criancinhas pelo mundo afora nas últimas décadas que todos os comunistas durante um século, dá para se aceitar colocar em cheque os valores da cruz e é melhor não bulir com a estrela e o crescente.
Resumo da missa: os governos estão topando fazer os valores cristãos de boi de piranha para ostentar sua pseudo-tolerância, sua hipocrisia em forma de liberdade de expressão. Enquanto dão guarida a agentes culturais que resguardam o direito de uns ofenderem outros, que coisas estarão sendo ocultadas? Não vamos botar fogo no mundo em nome de nenhuma liberdade, mas usemos a liberdade para controlar o mundo. Bem moderno isso. Só para encerrar, lembremo-nos de que entre beijo e crucifixão existe relação causal direta com fundamentação bíblica. Na relação entre eleger alguém que pague o pato e trair o escolhido a história se repete. Será que é a vez de sacrificarmos o conceito de liberdade?

Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

15 de outubro de 2008

Música colonial, cérebro retórico e êxtase religioso

A interpretação de peças de música de outras épocas é uma mimese contemporânea, posto que o distanciamento histórico, os problemas técnicos e as transformações ambientais inviabilizam a reprodução da obra como teria sido em sua origem. O pensamento retórico e a religiosidade são alguns dos fatores que interferem na leitura da música colonial.

O texto que se segue foi produzido no XV Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Nível de Especialização em Cultura e Arte Barroca, Universidade Federal de Ouro Preto, na disciplina Música no Brasil Colonia e submetido à Professora Elisa Freixo.
Por razões técnicas, está publicado aqui sem as notas que são bastante relevantes para sua melhor compreensão.


Essa história toda está contada no livro:


Autor: Públio Athayde

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1 Da descrição do som, do tom e da melodia colonial ...

Música colonial, cérebro retórico, êxtase religioso
1 Da descrição do som, do tom e da melodia colonial ...
A caverna em que habito fica numa região em que há muitas outras. Passei nela uma madrugada acordado, tentando ouvir o silêncio da noite – nem havia estrelas. As outras pessoas que vivem comigo não produziam nenhum ruído, provavelmente dormissem...
Mas o que menos pude ouvir foi o silêncio. Não havia nenhum fogo em minha espelunca, mas várias luzes penetravam pelas frestas, nenhuma delas natural. Mas havia ruídos das cavernas adjacentes, de todos os lados, das pessoas transitando entre elas, e dos fogos sempre acesos em algumas delas, de animais... Nunca há silêncio, quando há tantas cavernas.
Do silêncio da noite, aquele que nos permite ouvir a voz das estrelas, só pude ter a saudade de algum dia bem distante quando estive em lugar bem menos habitados, lugar em que o fogo mais perto, em linha reta, teria viajado alguns anos antes de chegar a mim. E os ruídos eram das folhas, dos insetos, o ar se movimentando... Sons que não se sobrepõem ao éter ou ao atrito da atmosfera com o planeta em seu giro diário.
Fiquei imaginando qual seria, há 200 anos, o som da noite no lugar mesmo em que nasci ... Quando ali haveria poucas cavernas e a centésima parte das pessoas dentre as quais eu vivo. E muito poucos lumes e candeias competiam com a radiação dos astros.
Entendi então que, para ter uma idéia qualquer sobre a noção de som, a compreensão de tons e a melodia da música colonial, o ponto de partida seria a aceitação do fato de que os habitantes das cavernas por perto de onde eu nasci, 200 anos antes dessa efeméride, seriam em número muito menor, teriam muito menos fogos a crepitar pela noite, ficariam muito mais recolhidos depois de o sol se por... E estariam muito mais propriamente afetados pela calada da noite. E não é na calada da noite – agora no sentido moderno mesmo da expressão – que estamos mais afetados pelos medos, pelas melancolias, pelos fantasmas e pelas fés? Acredito que a centésima parte das pessoas produzam a centésima parte dos ruídos e tenha motivos para ter cem vezes mais medos.
Fico imaginando a acuidade auditiva dessas pessoas acostumadas a perscrutar dentre o mais profundo abismo sonoro das noites setecentistas os ruídos mas horripilantes das travas e os mais alentadores hinos angelicais.
Nesse contexto de outrora e de agora, dois elementos de análise surgem a se considerar: o som enquanto fenômeno físico e, simultaneamente, inserido em concepções culturais; e, do outro lado, a música propriamente dita, isto é, o som “culturalmente organizado” pelo homem.
Fico imaginando como reagiriam aqueles mesmos mallei, inci, estapi et colcleæ, que nunca ouviram música eletrônica, nunca se submeteram à poluição moderna, e que receberam sempre a centésima parte do esforço a que os nossos sistemas estão submetidos. Certamente, o sistema auditivo não há de ser o mesmo há 200 anos. É um período mito curto para que tenhamos mudado, fisicamente, pelo processo evolutivo, genético, mas pelo ambiente e pelas transformações nele, certamente o fenótipo há de ser outro.
“Na terminologia da teoria da recepção, o leitor ‘concretiza’ a obra [musical], que em si mesma não passa de uma cadeira de marcas negaras organizadas numa página. (…) A obra cheia de ‘indeterminações’, elementos que, para terem efeito, dependem da interpretação (...), e que podem ser interpretados de várias maneiras, provavelmente conflitantes entre si.”

Será que os dois senhores da montagem que se seguem ouvem da mesma viola o mesmo som?
Dois observadores,
A e B, diante de uma viola.

A relatividade é elemento importante na representação. A realidade do som da viola para de A foi diferente da realidade do da mesma viola para B.
O gramático John Wallis (Grammatica Linguæ Anglicæ, 1653) , na busca de uma iconicidade na linguagem e, portanto, dos sons, resumiu assim a fórmula: “Soni rerum indices.” Para ele, a ordem das palavras reflete a ordem do mundo, teoria que, já no passado da semiótica, parece simpática para uma abordagem do que tencionamos nesse artigo.
No ocidente, ocidental, o som sempre teve um quê de misterioso. Onipresente e, ao mesmo tempo, evanescente, o som não se rende ou se submete facilmente a um raciocínio acostumado com coisas, locais e configurações estáveis, som é mutação.
Som é mutação e música é som no tempo. Quando esse tempo é histórico, quando falamos de música do passado, a relativização é exponencial, pois estamos lidando com um objeto artístico produzido e consumido naquele tempo, algo que se esgotou em sua fruição. Os registros que permanecem do objeto, as partituras, são imperfeitos em mais de um sentido, longe de serem capazes de propiciar a reprodução dos sons daquela época. As performances atuais de músicas do século XVIII serão sempre reinterpretativas.
E se os sons são representações das coisas, observemos que são representações sincrônicas, representam as coisas que lhe são contemporâneas em sua evanescência. O sons e as coisas do passado se contaminam reciprocamente pela natureza vã de sua essencialidade, por pertencem concomitantemente ao tempo do perfectum. Um tempo de outra mentalidade, de outras pessoas, diferentes motivações e tudo o mais que costumamos costurar sob o rótulo de ideologia.
Segundo Terry EAGLETON , pelas concepções ideológicas, abrem-se os conceitos e as determinações estruturais sobre as possibilidades “dos sentidos dos signos”, remetendo-se à desconstrução – crítica das oposições hierárquicas que estruturam o pensamento ocidental: dentro/fora, corpo/mente, literal/metafórico, fala/escrita, presença/ausência, natureza/cultura, forma/sentido. Assim, o sujeito e objeto constituem um sistema complexo com contradições, oposições, contrastes, que vivem e se auto-influenciam e, com isso, ampliam o jogo lingüístico:
(…) “a linguagem é muito menos estável do que os estruturalistas clássicos achavam. Em lugar de ser uma estrutura bem definida, claramente demarcada, encerrando unidades simétricas de significantes e significados, ela passa a assemelhar-se muito mais a uma teia que se estende sem limites, onde há um intercambio e circulação constante de elementos, onde nenhum dos elementos é definível de maneira absoluta e onde tudo está relacionando com tudo."

A relatividade exposta acima, em História, é elemento absoluto, qualquer deslize nos leva à diacronia, ao mais terrível equívoco no ramo. Quando estamos tratando de historiar aspectos sensoriais, temos que ter a noção precisa de que os sentidos também sobrem modificação ao longo dos séculos, tanto por fatores ambientais, os mais diversos, quanto pela forma como eles são educados.
Refletirá a ordem, a percepção e a retórica dos sons a natureza das coisas. A música espelhará, como estrutura orgânica de som assim como a linguagem – de alguma – forma a essência de uma sociedade, uma era, um pensamento? Sou levado a crer que sim, e é nessa hipótese que calço meu argumento. Mas não podemos ouvir a música com nossos ouvidos modernos supondo que o homem de alguns séculos a ouviu com o mesmo ouvido, nem do ponto de vista físico.
A semiótica, como ferramenta que nos permite a compreensão de sons, palavras, imagens em todas as dimensões, fundamenta toda linguagem baseada em esquemas perceptivos. Os processos de percepção são objetos dos estudos semióticos. Sendo a semiótica, também, o estudo dos processos de comunicação – não há mensagem sem signos nem comunicação sem mensagem – a aplicação destes conceitos, que são de emocionais, sensoriais até os mais sofisticados de elaboração em tropos e simbólica, nos processos de criação artística são inexoráveis para o sucesso análise de um signo qualquer.

2 …à demonstração da harmonia, do ritmo e da composição retórica ...

Música colonial, cérebro retórico, êxtase religioso
2 …à demonstração da harmonia, do ritmo e da composição retórica ...

O povoamento de Minas contou com a presença de homens que para cá vieram movidos pelo desejo de fortuna, atraídos pela oportunidade de nova vida, ou fugidos de um mercado de trabalho já saturado. Aqui eles cavaram e ocuparam suas tocas. Não estiveram somente os diretamente interessados na atividade extrativa. Aos poucos, os aglomerados iniciais de pessoas transformaram-se em vilas e a formação desses pequenos grupos de cavernas atraiu, além dos caçadores de riquezas, inúmeros representantes das artes e ofícios e, entre suas fileiras, os músicos estavam presentes e bastante ativos. Isso se constata pelas as inúmeras festas da Igreja e da Coroa para as quais foram constantemente requisitados. A pesquisa sobre a prática musical religiosa em Minas Gerais concentrou-se em torno de vilas cuja prosperidade econômica e cultural já se mostrava conhecida pelos estudos desenvolvidos a respeito de seus artistas e artífices mais representativos. Como no caso de Ouro Preto e Mariana, também pelo fato de terem sido capitais.
Segundo Francisco Curt Lange , os colonizadores das Minas “achavam-se limitados a um só gênero: a música religiosa”. E as funções litúrgicas eram “o principal métier dos músicos mineiros”. Tal visão foi ainda mais estimulada a medida em que os arquivos remanescentes nada registravam fora desta área. Não se acreditava na possibilidade dessa “música particular”, ou profana, não ter sobrevivido ao tempo pelo fato de não ter sido guardada pelas instituições religiosas e municipais, como as obras sacras. Mas a ausência de prova não prova a ausência.
Hoje se sabe que os rituais da vida cívica estavam, da mesma forma, eivados de musicalidade. Infelizmente, os registros musicais dessa outra face da expressão musical não se preservaram como aqueles religiosos, pelas mais diferentes circunstâncias.
É de se esperar que a natureza retórica dessa “música cívica” tenha sido correspondente à da religiosa, mas especular não é lícito em História, exceto como exercício de hipótese preliminar. Havemos de nos ater ao discurso retórico da musica religiosa, para os efeitos deste texto. Tentarei estabelecer alguns pontos de aproximação entre o que se pode perceber por algumas interpretações e reinterpretações contemporâneas, bem como de algumas emulações daquele estilo.
As características formais da musica religiosa setecentista nas Gerais está bem assente:
“O discurso musical barroco é um discurso fundamentado inteiramente na varietas permanente, oferecida pela harmonia seqüencial, pela continuidade melódica. (...) Outros parâmetros introduzem-se no discurso para garantir o princípio da varietas que, preocupação essencial da retórica do Barroco, passa a integrar o discurso musical na sua totalidade.”
Duprat continua o fragmento acima, contrapondo o pateos como característica contrastante, no classicismo, às varietas do barroco. As variações podem indicar uma retórica de circunlóquio em contraste à sedução emotiva. Aqui se pode notar o caráter didático da obra barroca. Não estamos, no sáculo XVIII em época de inovações, pelo menos não é época em que as investidas estéticas não são muito bem vistas.
Vive-se nas Minas, entrementes, um paradoxo: a liturgia, a retórica teológica e o pensamento político estimulam e até mesmo impingem um padrão de decoro em todos os comportamentos e manifestações, inclusive as de natureza estética. Esse padrão se alicerça nas emulações, no argumento de autoridade, na repetição sígnica, como garantia de significados. No entanto, os clássicos a serem emulados não estavam presentes. As bibliotecas permaneciam na Europa, os arquivos, as anotações dos mestres... O único suporte abundante – até por ser ambulante – era a memória e esta, malgrado os prodígios de que era capaz àquela altura, é um parco recurso à emulação. De tal circunstância resulta que à emulação pretendida sucede uma criação sub-reptícia, contrafeita, hipoteticamente indesejada, mas que podemos constatar inexorável.
A varietas, nesse processo, restringe-se aos aspectos da tekné tal como hoje a compreendemos, em detrimento das ars contemporânea. E o pateos se imiscuí avant la letre no contexto musical dessa sociedade culta desgarrada, mas não descontextualizada. O desgarramento, segundo meu entendimento, leva a certos avanços e peculiaridades que fazem da música produzida nas Minas do século XVIII possuidora de características que a identificam pelo isolamento, a contextualizam pela técnica e a distinguem por sua emotividade singular.
DUPRAT acredita que a próxima etapa do estudo desta música seja caracteriza-la no que ela tem de próprio, depurando do distanciamento e das miscigenações étnicas o produto no que lhe é singular, abandonando o ranço de estar nele sempre em busca do modelo europeu emulado. Trata-se de superar os aspectos musicológicos técnicos pela abordagem etnomusicológica, sociomusicológica e semiológicomusicológica. A interdiscilpinaridade e a transversalidade das abordagens não podem mais ser relegadas.
A proposta é que a releitura da música do Setecentos seja consciente de que será, para sempre, distanciada de sua época. Não terá mais sua função social, religiosa, teológica ou sígnica. Nenhum CD, home theatre, surraund, ou qualquer parafernália nos transportará ao século XVIII. Tampouco instrumentos de época, levantamentos musicológicos aprofundados e absolutamente eficazes do ponto de vista técnico, locação em templos coloniais, performance litúrgica... Nada disso é máquina do tempo. O homem, o ouvinte será outro. Será ignorante dos signos, será incréu, será intimorato, será surdo aos apelos setecentistas por uma série de razões. Nossa capacidade tecnológica pode romper as barreiras da similitude física dos sons além de nossa acuidade auditiva, mas ainda assim a experiência que vivenciaremos será estética, artificial, hedonista mesmo já que o próprio sentido da representação evanesceu.
O ritmo pode ser o mesmo, mas o coração vai bater diferente. A harmonia das notas pode ser recuperada inteiramente, mas sua interpretação não estará, nunca mais, em harmonia com os sentimentos dos ouvintes. Os ouvidos para os quais aquelas músicas foram feitas retornaram às cinzas e mal lhes poderemos suceder. Somos os herdeiros do patrimônio musical, mas, como soem os sucessores, malversamos.

3 …à mimese na composição, no desempenho, na escuta...

Música colonial, cérebro retórico, êxtase religioso

3 …à mimese na composição, no desempenho, na escuta...
As principais referências da música sacra brasileira sempre incluem nomes do período colonial, como Padre José Maurício Nunes Garcia, Lobo de Mesquita, Manoel Dias e outros de Minas e do Rio, em maior escala. Pesquisadores ainda acrescentam estudos de alto nível e descobertas de obras perdidas ou não-catalogadas ao acervo já existente. Por influência da formação católica da época e sem a presença de uma música popular – que estava longe (no tempo) de encontrar sua identidade e longe (no espaço) dos centros de ensino musicais, quase todos religiosos – não poderia ser diferente. Os compositores se aperfeiçoaram na vertente sacra e deixaram peças de qualidade comparável às de grandes mestres europeus do barroco e do classicismo.
Dos nomes mais atuantes da música erudita nacional contemporânea, destaca-se Amaral Vieira, membro da Academia Brasileira de Música, um dos compositores brasileiros mais premiados, e que reproduz a ambientação das grandes missas barrocas e românticas, como no Te Deum (1984).
Ao compor emulando a música setecentisata, Amaral Vieira o faz com mais propriedade a aproximação com aquela música que, de certo ponto de vista, muitos daqueles que procuram reviver as composições de Lobo de Mesquita e seus coetânios. Essa alegação eu faço no sentido em que, provavelmente, para aqueles autores antigos, as peças tinham função determinada... Eram compostas para serem executadas numa efeméride, efemericamente. Sem repetição. A música composta para um missa ou um ato cívico não era executado em outro. Muitas vezes não era executada nunca mais. Essa idéia de repertório, de construir um acervo, como uma discoteca em que escolhemos um CD ou uma peça segundo nosso humor ou a ocasião, era completamente desconhecida; o comum, certamente, seria o uso didático das composições prontas ou mesmo a auto-emulação: usar fragmentos ou idéias de uma composição em outra, combinados com idéias novas e emulações de outros autores.
Assim, qualquer estudo, emulativo em composição, performático no desempenho, tem o mesmo sentido reinterpretativo, historicizante – no sentido de Spengler , nunca poderá ser visto como revival existencial.
O estudo do desempenho musical marca a passagem de uma análise das estruturas sonoras à análise do processo musical e suas especificidades. Abre mão do enfoque sobre a música enquanto “produto” para adotar um conceito mais abrangente, em que a música atua como “processo” de significado social, capaz de gerar estruturas que vão além dos seus aspectos meramente sonoros. Assim o estudo historiográfico do desempenho deverá, de todas as atividades musicais, seus ensejos e suas funções na comunidade, adotar perspectiva processual do acontecimento cultural.
Sabe-se que toda ação social está sujeita a uma dinâmica própria de cunho cultural. Além dos aspectos simbólicos e dos teores comunicativos, são importantes para o processo cultural incluindo seus parâmetros de contexto, forma e gêneros. Para a pesquisa musical, em que música, significa uma forma específica de comunicação não-verbal e em que o fator processual, as partes não-fixadas (registradas) e improvisadas tomam espaço central da investigação, é importante adotar o mesmo enfoque que nos estudos de outras manifestações culturais etéreas.
Ao mesmo tempo em que um sistema definidor de espaço e tempo dá ao desempenho musical limitação nessas duas dimensões principais, há outros sistemas de signos, dos quais dispõem os seus agentes ativos: a formação do “elenco”, os atores/interpretes, a interpretação, a entonação, a comunicação corporal. Ao lado dos signos visuais como a decoração e a organização do espaço, há os elementos acústicos, como a música e outros tipos de sons, ecos, ressonâncias, reverberações. Devem ser considerados texto e enredo do desempenho, com seus significados léxicos, sintáticos e simbólicos. Os produtores e protagonistas do desempenho dependem desta soma de elementos, que constituem o plano sensório e de convenção geral. Conjuntamente aos elementos da dramaturgia, temos aí a matéria-prima com a qual se constroem outras grandezas, pelo desempenho o acontecimento sonoro da música traz à tona fenômenos diversos, por vezes inesperados e inclusive extra-acústicos.
Ilustração 2 - CD da
Slovak Philharmonic
Orchestra and Choir.


Vou considerar alguns aspetos do Te Deum in Stilo Barroco, Opus 213 do pianista e compositor Amaral Vieira com a interpretação da Slovak Philharmonic Orchestra and Choir, sob a regência de Mario Kosik. Escrita em 1986, é um adequado tributo, particularmente na recriação da sonoridade das grandes obras corais do período Barroco, bem como no caráter essencialmente religioso da composição. Está obra, eu a comparo outras que me ocorrem, mas com a limitação de minha memória e minha ignorância musical, minha percepção dessas performances será sumária e certamente eivada de equívocos, mas corro o risco.
Já na Abertura, ouço referências a Händel, desde os primeiros compassos, mas a linha de perguntas e respostas que se sucede já me lembra ainda que remotamente, os autores mineiros. Trata-se de uma abertura festiva, portanto creio que a grande quantidade de instrumento, o tamanho da orquestra, apresenta-se coerentes com o número de músicos que se poderia reunir eu uma ocasião muito especial. Em situações mais rotineiras essa grande orquestração seria incoerente. Os metais discursam em primeiro plano, com as cordas os suportando em contraponto. A Abertura se divide em duas partes, me parece que a segunda é construída sob a forma de fuga, com um discurso articulado em forma evolutiva, retórica mesmo.
O Te Deum, propriamente, é a parte em que o coro se apresenta pela primeira vez, depois de uma breve introdução eivada de referências à Abertura. Aqui os temas e sua evolução se tornam ricamente emuladas dos compositores setecentistas, dos fins do século, mesmo me parecendo que orquestração um pouco grandiosa demais, muito rica em estruturas segundo MELO . A emulação de Händel, principalmente nas frases dos metais, ainda é uma constante. Os louvores, marcados pela percussão, são ampliados pelo uníssono do coro e sublinhados pelos metais. Seria grande a comoção que essa peça provocaria, certamente mesmo no século XVIII. Não imagino que ela causasse estranheza ao grande público se fosse executada há 200 anos. Seguem-se o Te ergo quaesumus , intimista e delicado, o Aeterna fac, no qual a grandiloqüência do Te Deum reaparece, o Salvum fac populum é em ritmo declamatório e o In te Domuno superavi retorna aos temas da Abertura, articulando, nas partes formais da peça, seqüências do texto e das apropriações em clara retórica de proposição circular.
Tive o cuidado de fazer minhas observações antes de ler o crítico (James Melo) e a felicidade de encontrar nele boa parte de meus apontamentos corroborada. A mais clara referência, Händel, é a tópica dominante.
Destaquei esse autor e essa obra por pretender exemplificar que a emulação, como exercício ou manifestação estática pertinente e com validade para a fruição, não perde sua aplicabilidade com o advento do neoclassicismo.
Nem mesmo a função se distancia, nem a forma, nem a mercantilização da música como produto. Essa peça foi encomendada para um casamento. Certamente um casamento “burguês” – usando essa palavra num sentido antiquado e impreciso.

4 …à compreensão da retórica e êxtase religioso.

Música colonial, cérebro retórico, êxtase religioso
4 …à compreensão da retórica e êxtase religioso.

Como parte da retórica, tradição e religiosidade, a música estava nas ruas – acompanhando cortejos, procissões, danças e cavalhadas – e nos templos, no ato das missas e quaisquer outros ofícios.
“Imprescindíveis em qualquer ato solene, os serviços musicais possuíram lugar cativo nesses eventos, servindo tanto ao anúncio da festa, para os quais muitas vezes usavam-se trombetas, tambores e sinos; quanto ao acontecimento festivo em si, onde os conjuntos assumiam a cena musical.”
Por permear tantos momentos nas vidas das pessoas, organizar calendários festivos e religiosos, inserir-se nas manifestações tradicionais, representando, simultaneamente, um produto de altíssimo valor comercial, quando veiculada pelas mídias e globalizando o mundo no nível sonoro, faz da música um assunto complexo e rico de possibilidades para a investigação e o saber histórico, musicológico e antropológico.
Mas estamos tratando de música religiosa, que tem função litúrgica ou paralitúrgica, e que sempre subordina sua estética à retórica de uma religião que, por sua vez, também tem funções sócias, políticas e na formação ideológica.
“Se a religião cumpre funções sociais, tornando-se, portanto, passível de análise sociológica, tal se deve ao fato de que os leigos não esperam da religião apenas justificações de existir capazes de livrá-los da angústia existencial da contingência e da solidão, da miséria biológica, da doença, do sofrimento ou da morte. Contam com ela para que lhes forneça justificações de existir em uma posição social determinada, em suma, de existir como de fato existem, ou seja, com todas as propriedades que lhes são socialmente inerentes”.

Na introdução à obra de BOURDIEU, MICELI sintetiza a noção de campo religioso como:
“campo de forças onde se enfrentam o corpo de agentes altamente especializados (os sacerdotes), os leigos (os grupos sociais cujas demandas por bens de salvação os agentes religiosos procuram atender) e o “profeta” enquanto encarnação típica do agente inovador e revolucionário que expressa, mediante um novo discurso e por uma nova prática, os interesses e reivindicações de determinados grupos sociais”.
A utilização da noção de campo intelectual serve para determinar uma característica fundamental de autonomia da produção de bens simbólicos dos intelectuais e, a partir disto, como eles se prestam a “progressivamente a ingressar por sua própria conta, e não mais apenas por procuração ou por delegação, no jogo dos conflitos entre as frações da classe dominante” . Mais do que situar o músico nas relações de forças no dentro do campo intelectual, discuto como esta característica da autonomia que contém o campo intelectual é matizada pela música no interior do campo religioso em relação de forças com a Igreja e o Estado absolutistas.
As práticas religiosas acompanhadas por música, e que comportam esta observação através do campo intelectual e do campo religioso, este com mais intensidade, devem ser observadas na medida em que a realidade e a musicalidade se integram no plano político e social, sem se oporem ao plano místico e religioso, mas em concerto harmônico e discreto.
A arte, como possibilidade sensível de apreender e elaborar verdades sobre o mundo, manifesta-se, entre outras maneiras, pela música sacra, notadamente, pela inerência da dimensão religiosa evocada. Entretanto, tal evocação não significa arte pela arte, destituído de adequação à realidade, pois viver a sensação pura não é arte, mas catarse, movimento mecânico funcional na direção de uma descarga descomprometida com a forma. A música pode ser apreendida atualmente como movimento de ir e vir. Para nós, o ir e vir musicais pressupõem construção, desconstrução e reconstrução da realidade, e não mero movimento fechado em si mesmo como certamente seria a altura do Setecentos. Na música sacra, ao se permitir evadir da vida real e adentrar a dimensão lúdica da própria existência, o religioso potencializa o real e o perspectiva em razão de seus sonhos, desejos e crenças mais profundos, a serem ditos apenas pela linguagem sensível e simbólica. A missa é a forma excelentíssima de teatro sacro, uma vez que dramatiza a dimensão mística diante das regras de representação dos papéis por elas impostos à cena. Interpretar música sacra significa ter muito bem incorporadas as regras de conduta a serem representadas e, ao mesmo tempo, possuir a misticidade para convencer a “platéia” dessa apresentação. A musicalidade, na sua manifestação visceral, caracteriza-se como estado profano, diferente do sagrado como parte integrante do cotidiano e que pode ser visto até como reforço desse mesmo cotidiano. A musicalidade pura é o mito sem o rito. É Dioniso em sua errância, sem qualquer comprometimento em suas manifestações, a não ser consigo mesmo. O músico sacro ritualiza o mito mediante o fito: Dioniso é contextualizado. A idéia de sacralidade musical difundida pelo senso comum relaciona-se à força do significado, do envolvimento do músico em relação à fé. Interpretar música sacra chega a ser, em determinadas situações, uma espécie de devoção. No entanto, a autonomia da música remete o intérprete para fora da realidade, e não para acima dela, dimensão sagrada por excelência. O tempo do intérprete é o do prazer ou o do desprazer mundano. Não há qualquer abertura concreta que possibilite comunicação com os deuses. Por outro lado, não se pode deixar de pensar também que o êxtase religioso é uma forma de manifestação da sensibilidade levada ao extremo, em que o músico é jogado pelo movimento que ele detonou... A vertigem musical pode remeter a um sentimento de ascese... E se o sagrado por definição é tudo aquilo que se opõe ao profano, o numinoso é uma realidade além dos pares de opostos: sacerdotes, ministros, autores e interpretes de música sacra quase sempre são pagos... Mas isso é uma eternamente em aberto.
Afinal, o que são os templos, senão grandes cavernas onde as pessoas se encontram para ouvirem sons, músicas e palavras, cuja natureza, organicidade, propósito, estrutura e fundamentos desconhecem? O que seria das pessoas se tivessem consciência de que há muito mais que transcendência mística naqueles sons?
O que menos pude ouvir num templo foi o silêncio. Há ali sempre luz, natural ou sobrenatural. Há ruídos, de todos os lados, das pessoas transitando e dos fogos sempre acesos, de deuses... Nunca há silêncio, quando há cavernas sagradas.
Do silêncio da noite, aquele que me permitiu ouvir a voz das estrelas, só pude ter a saudade de algum dia, bem distante, quando estive em lugar em que havia fé, lugar em que o fogo estaria mais perto. E os ruídos eram das folhas, dos insetos, o ar se movimentando... Sons a que não se sobrepõem os das libações sagradas ou ao atrito das moedas fazendo, com o planeta, seu giro diário.
Ficarei mesmo imaginando qual seria, há 200 anos, o som da noite no lugar mesmo em que nasci ... Quando ali havia poucas cavernas e a centésima parte das pessoas dentre as quais eu vivo. E muito poucos lumes e candeias competiam com a radiação dos astros.


Essa história toda está contada no livro:


Autor: Públio Athayde

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Bibliografia

Música colonial, cérebro retórico, êxtase religiosos
Bibliografia


AMARAL, Carlos Eduardo. A música sacra brasileira, hoje. Continente Multicultural, julho de 2006.
ATHAYDE, Públio. Manual para redação acadêmica. Belo Horizonte, Editora Keimelion, 2003.
BASTOS, Rodrigo Almeida. A ordem sagrada da república colonial. Mímeo, s.n.t.
BLIKSTEIN, I. Kaspar Hauser ou A fabricação da realidade. São Paulo: Cultrix, 1985.
BOSCHI, Caio César. Os Leigos e o Poder. Irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática, 1986.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1982.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
DUPRAT, Regis. A música sacra no Brasil Imperial; Revista IPHAN 29, 2001. p243-255.
JOURDAIN, Robert. Música, cérebro e êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, 1988.
LANGE, Francisco Curt. A Música no Período Colonial em Minas Gerais. Seminário sobre a cultura mineira no período colonial. Belo Horizonte. Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais, 1979.
LIMA, Patrícia C. Fonemas da criação | uma doce investigação semiótica dos começos. Universidade Federal de Pernambuco, Brasil. Centro de Artes e Comunicação, Departamento de Design - Curso de Pós-graduação em Design da Informação. Recife, setembro, 2004.
MIRANDA, Daniel. Músicos de Sabará: a prática musical religiosa a serviço da Câmara (1749-1822). UFMG/FAFICH, 2002. Dissertação de Mestrado.
NEVES, José Maria. Arte, artesanato e tradição na música colonial brasileira; Revista IPHAN 28, 1999. p174-197.
PEDERIVA, Patrícia Lima Martins e TRISTÃO, Rosana Maria. Música e Cognição. Ciências & Cognição; Ano 03, vol 09, 2006.
PINTO, Tiago de Oliveira. Som e música. Questões de uma Antropologia Sonora. Revista de Antropologia. vol.44 no.1 São Paulo 2001.
ROSANVALLON, Pierre. Por uma História Conceitual do Político (nota de trabalho). In: Revista Brasileira de História. São Paulo, 15(30). 1995.
SANTAELLA, Lúcia. Semiótica aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004.
SCHAFF, A. Langage et Conaissance. Paris: Anthopos, 1974.
VIEIRA, Amaral. Te Deum in stilo barroco, opus 213. Missa Choralis, Opus 282. Slovak Philharmonic Orchestra and Chois. Reg. Mario Kisik. São Paulo: Pulus, 1998.
EAGLETON, Terry. “Intentio Lectoris: apontamentos sobre a semiótica da recepção”. In: EAGLETON, Terry. Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva, 1995.

12 de outubro de 2008

Falácia e falência


Comemora hoje o Banco do Brasil seu segundo centenário. Não sei como, nem o porquê. Verdade que, em 1808, foi criado um Banco do Brasil, destinado a prover "os meios e os recursos de que as rendas reais e as públicas necessitarem para ocorrer às despesas do Estado" (alvará de 12 de outubro de 1808). Infelizmente, aquela instituição sobreviveu apenas até o ano de 1829, quando não pode mais resistir à voracidade do Estado contra seus haveres e ao saque em metal de lastro que a Corte fez ao voltar para Portugal, além dos ônus com a Guerra da Independência primeiro e, depois, a da Cisplatina. A liquidação do Banco do Brasil se dá por Lei de 23 de setembro de 1829, portanto a instituição fundada no reinado de D. Maria I (a Louca) não durou muito mais de 20 anos, não os 200 que agora alegam.
Irineu Evangelista de Souza, depois Barão e Visconde de Mauá, criou outro Banco do Brasil em 1851. Esse segundo Banco do Brasil tem uma forte carga simbólica de suas ligações permanentes com o mercado de capitais (cuidado, portanto!). As reuniões preparatórias e a assembléia de constituição foram no salão da Bolsa do Rio de Janeiro. Já havia Bolsa antes de haver o segundo Banco do Brasil.
Com que cara de pau vem agora o Banco do Brasil dizer que tem 200 anos? Não passa de puro golpe publicitário ao arrepio da História. O governo, principal acionista – tem parte na mentira, a parte do dono! Que mais se poderia esperar dos detentores do Planalto?

9 de outubro de 2008

Uma celebração camoniana



Quatro sonetos de Luís de Camões dão origem a 56 composições em que o poeta Públio Athayde desenvolve sugestões de cada um dos versos da significativa tetralogia.
Tomado como primeira frase dos novos poemas, o verso do grande luso é o mote que conduz o desempenho do sonetista ouro-pretano no virtuosismo de uma delicada, difícil e audaciosa operação.
Com domínio das artes poéticas e conhecimento atilado do estilo, vocabulário e gramática da era quinhentista, Públio Athayde celebra a admiração pela herança maior da poesia de língua portuguesa ao desdobrar, verso a verso, a emoção e o engenho do vate.
Como num jogo de espelhos em galeria de ecos, as estrofes redimensionam o encantamento do verso camoniano, auscultando-lhe a sonoridade e mergulhando em sua paixão.
"Agoas claras que das fontes vem", os sonetos escritos entre 1996 e 1998 revelam a erudição notável e a fina sensibilidade do autor.
Ao evocar "despojos doces do meu bem passado", ele restabelece o culto do amor tal como ensinado pelo sacerdote supremo da alma gentil. Oferece-nos uma realização admirável, que rende merecida e necessária homenagem a Camões, na aurora do quinto centenário da transplantação da língua portuguesa para as terras luminosas de Pindorama.

PREFÁCIO DE CAMONIANAS
Obra de Públio Athayde
que pode ser lida em: Camonianas.

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, é Prefeito de Ouro Preto, MG, jornalista, curador de arte e personalidade da cultura internaciona.

8 de outubro de 2008

A morte do subjuntivo e a falta de fé no sujeito

Leitor compulsivo e ex officio que sou, além de bom ouvinte da nossa língua, tenho observado os dois fenômenos do título, para os quais chamo a atenção dos interessados: o subjuntivo, aquela forma verbal que a gente estudava usando se, que e quando, para ajudar a decorar, está morrendo, morre do que morrem os recursos e as belezas do vernáculo, da falta de uso; quanto ao sujeito, aquele trapinho da oração que pratica ou recebe uma ação, perdeu toda a credibilidade, talvez seja por estarmos tratando de sujeitos brasileiros ou portugueses em sua maioria, já mesmo um tanto desacreditados no mercado.
Por mais que minha observação não seja produto de nenhuma investigação criteriosa e minha análise não se revista de aparato lingüístico profissional, o que ressalto são apenas dois pontos que têm me causado incômodo.
A primeira questão, a agonia da forma verbal, tenho observado principalmente nos textos escritos. Acredito mesmo que o óbito do subjuntivo já tenha sido devidamente atestado na fala, ressalvando-se algum erudito que cisme em falar como escreve, talvez por muito escrever, mas ele é a andorinha que não faz verão. Mas tem sido novo para mim, e um pouco incômodo, dar com construções como: “algum erudito que cisma em falar” – “talvez é por estarmos tratando” – “minha análise não se reveste de aparato lingüístico”. Dá para se ouvir essas coisas sem arrepiar, mas minha reclamação é que estamos lendo isso constantemente, raríssimo o uso daquele modo verbal mesmo em textos. Vamos destacar a função do subjuntivo para dar a ele algum alento: modo verbal “que expressa a ação ou estado denotado pelo verbo como um fato irreal, ou simplesmente possível ou desejado, ou que emite sobre o fato real um julgamento”. Palavras de mestre Houaiss. Se for irreal, possibilidade ou desejo, ou se for uma opinião, um juízo, uma hipótese, o enunciado que venha no subjuntivo. Guardemos o modo indicativo, o mais vira-latas das conjugações, para as coisas certas e bem sabidas: “Dá para se ouvir essas coisas” – “ele é a andorinha que não faz verão” – “Vamos destacar a função do subjuntivo”.
O descrédito no sujeito é fenômeno recorrente na fala, a mais dinâmica das facetas das línguas. Fico me perguntando se tal ocorrência tem algum fundamento psicossocial, por estamos mesmo perdendo nossas fés, ou por as pessoas estarem mesmo merecendo desconfiança. O fenômeno ocorre porque as pessoas estão separando o sujeito do resto da fala por uma pausa, para pensar o que dizer – ou mentir – mas na escrita essa pausa é representada por vírgula e ocorre que a danada da vírgula não pode se meter entre o sujeito e o predicado; a vírgula é a colher de pau entre o marido (sujeito) e a mulher (predicado). Então sapecam um pronome, depois da pausa, para ele substituir o sujeito e fazer o serviço dele: “O descrédito no sujeito, ele é fenômeno...” – “A primeira questão, ela tem sido observada...” – “O fenômeno, ele ocorre porque as pessoas...” Nada errado nessas construções, erro formal não há. Minha implicância é com a recorrência delas. É bem verdade que alguns sujeitos não merecem mesmo nenhuma confiança, mas todos eles? Qual o problema em podarmos boa parte desses pronomes e vírgulas, deixando os sujeitos livremente recebendo ou praticando as ações que lhes são devidas? Acredito que as pessoas, ao falar, ganhem credibilidade em seu discurso e maior fluência se passarem a ter fé nos sujeitos e suprimirem de suas declarações boa parte desse artifício de raciocínio ou falseamento.
A ressurreição do subjuntivo empresta aos verbos o sentido mais próprio e a confiança no sujeito se reflete na fidedignidade do discurso. Assim tenho pensado.
Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

7 de outubro de 2008

Conjugado no tempo político, modo eletivo


Eu mil réis
Tu te rales
Ele é reles
Nós nos reais
Vós aos reis
Eles aos raios

Notícia: Berlengas adere ao acordo de unificação da língua portuguesa.


Santa Goma Dão - Alta fonte ligada ao governo de Berlegnas deixa vazar a intenção do Presidente Doutor António da Silva Goma de aderir ao acordo de unificação da língua portuguesa. Segundo aquele assessor, o grande interesse na aderência será dos países já signatários do pacto, que terão facilitado seu acesso à enorme produção literária daquele paraíso socioeconômico. O site oficial daquele país ainda não veicula nenhuma referência à possibilidade de fusão ortográfica aventada. Todavia o assessor asseverou que a reserva é parte da estratégia do Presidente ASG para conseguir inserir no acordo seu pleito mais significativo: a abolição do pingo do i. Ainda segundo a fonte, o Presidente ASG não entende a função daquele signo e despreza a grande quantidade de tintas malvertidas em sobrestar à letra. Para finalizar, o assessor presidencial informou que a primeira providência do governo berlengano será promover uma licitação e qualificar um revisor que reitre os pingos dos ii de PALAVRAS SOLTAS uma das mais significativas páginas da literatura de Berlengas. O Gabinete de Leituras Aconselhadas (GLA) das Berlengas, presidido pelo ilustre Presidente, Doutor António da Silva Goma, benfeitor do país e da humanidade, vai sabatinar os candidatos e promover a edição prínceps de um Vocabulário Orthográphico.

“QUOD TIBI FIERI NON VIS, ALTERI NE FECERIS”

“QUOD TIBI FIERI NON VIS” – O que não queres que te façam? O que temes que te aconteça? O que temes de teu próximo? Que medo tem o homem de seu semelhante? Por que? Finalmente, como evitá-lo?
O homem teme o homem, pois lhe sendo semelhante aspiram ambos as mesmas coisas pelos mesmos motivos, temem-se, pois concorrem e, mais ainda, pois o fazem em igualdade de condições.
O homem, para se precaver contra os outros homens, faz o Estado, que é a aliança entre seus semelhantes, fundada no temor mútuo.
Hobbes e Locke tratam da constituição do Estado partindo, desde certo ponto, da descrição da situação de sua inexistência: a condição natural. Mas esta condição natural apresenta, para um e outro, aspectos distintos que influirão de forma acentuada nas conclusões a que chegam e na argumentação que tecem; embora essas características distintas, importantes a meu ver, se apresentem, elas são bastante sutis para passarem despercebidas, nesse caso se perderá, ao se buscar o fio da meada, o ponto a partir do qual de distinguem as concepções e opiniões dos dois autores sobre Estado.
Para Locke, o estado de natureza pressupõe a liberdade perfeita, inexistência completa de peias injustas, a agir sem qualquer limitador coercitivo. A existência de qualquer indivíduo opressor representaria, nesse caso, cessar o estado de natureza, inevitavelmente implicaria renúncia de liberdade ou submissão, voluntária ou involuntária, de um ao outro, um dos dois estaria privado de sua liberdade perfeita, o estado de natureza; já em acordo no qual cada um abdicasse de parte diferente de sua liberdade, abrindo mão ambos de seu estado natural perfeito, poder-se-ia ter preservado o estado natural e a lei da natureza, desde que a parte de liberdade maior de que um dos envolvidos abdicasse se destinasse à preservação da liberdade restante. Nesse estado de liberdade perfeita não implica liberdade total, todos estão sujeitos a leis naturais e igualitárias, que outorgam aos diferentes indivíduos direitos iguais, pois estes indivíduos são iguais em sua origem e constituição, sem privilégio algum.
Ao estado de natureza correspondem direitos que lhe são peculiares, os direitos naturais. Aqueles direitos oriundos da igualdade primária entre os indivíduos e das necessidades iguais daí decorrentes.
Já para Hobbes, o estado natural é o estado de conflito, a beligerância e ausência completa de entendimento entre os homens, decorrente mesmo de sua condição de semelhança e decorrente concorrência, já que movidos pelas mesmas paixões: aspirações e temores.
Para Hobbes ainda, direito natural “é a liberdade que cada um possui de usar seu próprio poder” de forma amplamente volitiva, para a autopreservação, e liberdade é a ausência total de fatores limitadores do direito natural. O fator limitativo do “jus naturale” é a “lex naturalis”, não se excluindo, todavia, do “status naturalis” o primeiro e excluída a segunda. A lei natural seria o elemento de superação do estado natural, segundo minha compreensão de Hobbes.
Voltando às perguntas iniciais, o que o homem teme em seu semelhante é a própria semelhança, o fator inerente à sua própria natureza e, para evitá-lo, o homem segue normas sujeitas a esta natureza, as leis naturais – elemento originalmente impeditivo do conflito generalizado. Isto se dá, a meu ver, em Locke assim como em Hobbes, apenas que para o primeiro estado natural compreende a lei natural e para o segundo esta é superação daquele.
Aquilo que não queres que te façam, é o que o estado natural supõe. É que te privem da vida, da parcela de liberdade a qual não renunciaste, dos desejos que te acometem, das paixões que te estimulam.
A construção evangélica – “QUO TIBE FIERI NON VIS” – faço aqui dela alegoria, aproveitando-me de sua construção passiva para ilustrar a concepção limítrofe do estado natural, para a qual tendem Locke e Hobbes, sem que qualquer um dos dois alcance ou adote. É a concepção segundo a qual o estado natural compreende as paixões livres de qualquer ação imperativa que as limite. Tal ação imperativa surgirá em plano ulterior quando o estado natural estiver superado.
“ALTERI NE FECERIS” – Como esperas impedir aquilo que não queres que te façam? O que fará que não aconteça o que temes? Como se livrar do medo do próximo? Perdurará sempre o medo do homem pelo seu semelhante? Como?
O homem criou normas de convivência para impedir aquela ação indesejável de outrem. A concorrência entre os homens, se inerente à natureza humana, passa a ser posta à sujeição de regras a que todos, igualmente, pela sua própria condição humana, estão sujeitos.
O homem criou o Estado, feito de leis e normas, para que estas pudessem conter os homens uns aos outros, e dessa forma cada um pudesse exercer seu direito, sem que a beligerância imperasse ou ameaçasse amiúde.
A condição natural concebida diferentemente, e diferentemente compreendida por Hobbes e Locke como fundamento constituinte da gênese do Estado, gera concepções distintas de sua constituição.
Se para Hobbes as leis da natureza, sendo contrárias às paixões humanas, não se aplicam naturalmente, faz-se então necessária a existência de mecanismo impositivo que as façam respeitar compulsoriamente. Tal mecanismo o homem o encontra no estado leviatânico, opressor, mas propiciador da condição necessária para fazer cessar o conflito beligerante peculiar à condição natural primitiva.
A instituição deste estado se dá quando grande número de pessoas outorga a um individuo ou a um grupo bem mais diminuto o direito de personificar aquelas pessoas todas, para agir segundo o interesse do grande grupo e em seu nome. O ato da outorga é o criador do Estado. É a partir daí que este Estado irá imperar sobre todos os indivíduos do grupo, determinando-lhes o agir segundo o interesse coletivo.
Locke, que viu no estado natural a liberdade perfeita, inclusive a liberdade de se defender em caso de ameaça, vê na sociedade coletiva – no Estado – o abandono da própria iniciativa em defesa de seus direitos, o homem deixando de ser juiz em causa própria e passando a confiar no arbítrio de outrem para a preservação dos interesses seus próprios e da coletividade.
Tanto em Locke quanto e Hobbes, o que vemos na constituição de Estado é outorga. Em Locke o homem outorga o direito de se defender “per si” quando se vê sob ameaça iminente; em Hobbes o homem outorga sua personalidade – ou parte ponderável dela – à coletividade.
Novamente temos ponto de convergência entre os autores –a outorga – e posto de divergência, pelo menos aparente – o objeto da outorga.
Também voltando às perguntas iniciais; é submetendo-se ao Estado que o homem espera se ver livre de suas apreensões. É tornando o Estado seu representante, para Hobbes, ou tornando o Estado seu Juiz, para Locke, que o homem se separa do estado de natureza e dos riscos peculiares a este estado.
Em minha alegoria, o “ALTERI NE FECERIS”, voz ativa, modo imperativo negativo, nesta construção latina, representa o mando do Estado. O mando que é a lei civil impelindo o mando do Estado. O mando que é a lei civil impedindo o conflito e a situação beligerante que é temível e indesejável. A regra do não fazer aos outros.


Articulando

Coletânea de artigos de Públio Athayde. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos. Clique nos links o no livro para adquirir.

3 de outubro de 2008

Xadrez e escolha racional

Xadrez e escolha racional: aplicação lúdica da teoria dos jogos
Há alguns anos eu me dedicava intensamente ao jogo de xadrez. Horas a fio de estudos, treinos, partidas jogadas nas mais diferentes situações.
Tal afixionamento provocava-me algumas vezes, principalmente quando me excedia muito em “partidas às cegas”, uma curiosa experiência: sonhava que estava jogando, mas a frustração por não ter adversário que respondesse a meus lances fazia-me acordar depois de muita espera angustiada pela decisão do adversário inexistente.
Minha mente não podia aceitar aquela situação diferente da anterior, quando depois de cada problema solucionado (e feito o lance por mim), surgia novo problema (resultado da jogada do adversário).
Meu subconsciente não assimilava a ruptura da relação dialética amigo-inimigo. Eu não podia aceitar a situação que se colocava: analisada – em sonho – determinada posição eu executava o lance hipotético. Seguia-se interminável espera pela resposta que jamais viria, a fadiga mental se acirrava sem nenhum proveito ou desenlace.
Faltava um indivíduo na operação. Faltava outra entidade capacitada a tomar decisão, efetuar escolha. Não faltavam os outros elementos componentes do comportamento esperado em vão (o lance adversário): as normas estavam assimiladas, as teorias correntes de tática e de estratégia eram conhecidas, os fatores psicológicos, comportamentais, as condicionantes sociais e biológicas do adversário em sonho estavam postas. Nem todas essas condições, pretensamente determinantes de sua capacidade decisória, reunidos, tinham o condão de me propiciar efetuar um lance qualquer pelo adversário.
Faltava a intencionalidade oposta que daria racionalidade ao jogo.
Todas as teorias sobre as prováveis ações do adversário não me tornavam apto a fazer por ele aquilo que lhe é mais característico: decidir; de forma racional e lógica.
A situação do sonho não é diferente da real, acordado também, nem eu nem qualquer outro enxadrista jamais tomou qualquer decisão por seu adversário. Supõe-se, prevê-se, instiga-se, mas não se impõe o arbítrio.
O que mais me intriga, ainda hoje, é a percepção parcial, pelo subconsciente, da impossibilidade de se efetuar por outrem qualquer opção. Nem o mais libertino devaneio de sonho jamais me permitiu executar o lance pelo adversário.
Vejo agora que mesmo a ação de se efetuar o lance sendo composta por uma série de determinantes históricos (a psicologia do enxadrista, sua ideologia, sua formação teórica e técnica, sua experiência pregressa na atividade específica), não serão esses fatores que determinarão em última instância o lance – ou qualquer ação decisória de caráter individual – a ser efetuado em uma situação qualquer. Ainda que a escolha do lance seja racional, e mesmo por isso, e componente de um planejamento estratégico predeterminado.
Por que, se numa situação artificialmente simples, como é o xadrez em relação a toda vida de cada indivíduo, e suficientemente complexa ao mesmo tempo, para ser integrada por diversos componentes históricos, tais como os que mencionei, a escolha final em cada situação de decisão está apartada dos referidos componentes históricos e determinada pela racionalidade da escolha, seria diferente em qualquer outra situação da realidade?
O emprego do jogo de xadrez como artifício para análise dos comportamentos decisórios me parece muito apropriado, por ser um jogo de soma zero, com ponto de sela e maximin presumivelmente existentes. Primeiramente por que seu ponto de sela e maximin estão situados em limite inalcançável tanto humanamente quanto tecnologicamente, posto que, das 10E180 (dez expoente cento e oitenta) situações possíveis, resultam estratégias absolutamente inquantificáveis. Mas também por que sua complexidade sujeita-o a determinantes históricos tão múltiplos que podem compreender até opções estéticas.
O que se torna patente para mim, feitas essas comparações é a inexeqüibilidade da ação dissociada de um interesse motor, a racionalidade da ação decisória mesmo quando a solução do jogo é inexistente – ou inatingível, o que tem o mesmo efeito, o caráter a-histórico da opção final. Não se aplicam a objeções marxistas ao individualismo metodológico segundo tal análise.
O que foi colocado até aqui é que cada ação não é determinada historicamente. Tal afirmativa não pode ser transposta para o conjunto das ações.
A racionalidade implícita de cada decisão do jogador está subordinada ao grau de informação que ele tem sobre a situação em que se encontra: conhecimento de tática e estratégia, conceitos valorativos, senso posicional adquirido pela prática, estudo das partidas dos adversários e dos jogadores mais conceituados. O coeficiente de racionalidade pode ser avaliado em função da informação teórica de que o enxadrista está munido, e não em relação a um ponto de sela indeterminável e estratégias dele derivadas.
De tal observação decorre que, se cada lance não é determinado, quer por considerandos histórico, quer por motivos de ordem estratégica, e sim pela racionalidade imediata da situação taticamente considerada; o mesmo não se observa em relação às opções de maior alcance.
Certamente nas ações tomadas em seu coletivo notar-se-ão fatores inegavelmente oriundos de determinantes históricos. Se cada lance na partida de xadrez é arbitrário, sujeito a passionalidades momentâneas e determinado pela busca de eficácia na consecução do objeto tático, a opção feita pela linha de abertura, ou pela defesa adotada, são ambas determinadas de forma inteiramente influenciadas por fatores alheios ao campo exclusivo da racionalidade decisória; há determinantes na escolha de linha de conduta, no xadrez ou fora dele, que compreendem tanto racionalidade pura quanto componentes ambientais.
O enxadrista não está isolado das normas determinantes de seu procedimento ou das teorias elaboradas sobre os diversos temas do jogo, não joga necessariamente segundo a opinião corrente em cada situação, não pautará compulsoriamente suas opções pelas análises de seus “segundos” (analistas que acompanham os mestres em campeonatos).
Acho que a maioria das observações que fiz quanto ao xadrez são transportáveis para a realidade social, sem grandes distorções em relação ao modelo.
Não constituem, de forma alguma, novidade as comparações entre o jogo de xadrez e outras situações complexas. Nem foi meu interesse inovar por aí.
Pretendi apenas fazer menção à experiência pessoal – a dos sonhos – que considero comportar intrigantes aspectos da relação com o adversário na disputa racional, principalmente considerando a própria racionalidade como o componente gerador da situação.



Articulando

Coletânea de artigos de Públio Athayde. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos. Clique nos links o no livro para adquirir.

2 de outubro de 2008

Fé e confiança

Geralmente andam juntas, mas entendo que fé e confiança sejam conceitos bem distintos. Essa afirmativa pode ser incômoda, certamente é provocativa. Mas quero que me entendam desde já como respeitador das fés alheias e confiante na boa-fé das pessoas.
Meu conceito de fé é que ela seja a crença irracional naquilo que é improvável; irracional no sentido de que não pode ser racionalizada, não pode ser demonstrada, estando acima da capacidade dedutiva e além da constatação empírica; improvável nos sentidos de que não é passível de prova e de que a hipótese fática seja remota. Fé é uma crença exprimível, partilhável, apesar de amplamente subjetiva, mas abstrata e complexa em sua gênese. Tem origens sociais, psicológicas e culturais.
Compreendo a confiança como a crença baseada no juízo de probabilidades e na experiência. A confiança pode ser demonstrada, os fatores que a constituem são relacionáveis e constituídos de eventos empíricos. Quando existe razoável parcela de probabilidade de que aqueles eventos se repitam, ou se reproduzam assemelhadamente, e de que as mesmas relações se processem, dizemos que temos confiança. Confiança é então a crença demonstrável, exprimível, complexa sim, mas seus graus de abstração e subjetividade são muito menores. Não tem relevantes fatores psicológicos intervenientes, tem menores influências sociais ou culturais que a fé.
Não tratarei de religião – que é seara alheia, mas de política – que é onde minha ignorância é um pouco menor. Recomendo a todos pensar se têm votado com fé ou com confiança em seus candidatos.
Quem vota com fé, escolhe por adesão: pratica o mesmo voto que seu grupo familiar, de seu segmento profissional, de sua turma ou de sua religião. Votar com fé é se deixar levar por fatores sociais e psicológicos que podem ser simpáticos, mas nem sempre resultarão em eleger bons candidatos. O voto desse tipo é conhecido por voto de cabresto, voto de rebanho, e o eleitor que age assim é o gado eleitoral que segue a madrinha da tropa. O eleitor que se deixa seduzir pela fé eleitoral é convencido por promessas fáceis de cumprimento difícil, senão impossível. Essa fé não é baseada na experiência, não tem base na análise do currículo do candidato ou seu partido, portanto não tem base empírica. A fé eleitoral é uma paixão que nem sempre pode ser explicada, como as paixões todas. E como as demais paixões, o voto de fé tende a resultar em tragédia política. Quase todos nos lembramos bem de um país que elegeu com grande fé um caçador de marajás e que se viu obrigado a afastá-lo em meio ao mandato. Quase todos nós temos experiências próprias ou vimos políticos serem eleitos pela fé e frustrarem o eleitor. Exemplo típico de voto por fé é eleger alguém por ser filho ou neto de outro político, como se as relações familiares determinassem necessariamente o caráter ou a competência de alguém.
Votem com confiança. Votar com confiança significa raciocinar sobre os candidatos e partidos segundo suas propostas: elas são viáveis? Dá para fazer o que está sendo prometido? Como? Votar com confiança é não se deixar levar pelas opiniões do grupo, não se deixar seduzir por simpatias indefiníveis. Votar com confiança é analisar os dados disponíveis sobre a vida do candidato (descartar os boatos), sobre as propostas de seu partido. Os motivos de uma escolha baseada na confiança são demonstráveis, você pode explicar a quem desejar. Exemplo de voto por confiança é escolher o candidato indicado por um partido ou grupo cujas idéias e ações têm comprovadamente correspondido a seus anseios.
Tenham olhos sobre os políticos que estão agora no exercício de seus mandatos. Eles foram eleitos com fé ou com confiança? Fé e confiança podem ser traídos, apenas quero destacar que é muito mais fácil trair e enganar a fé que a confiança. Pensem sobre essas idéias antes de decidirem os votos futuros. O eleitor é o juiz de fato na escolha eleitoral livre. A eleição é verdadeiramente livre quando a escolha é feita em candidatos de sua confiança, escolhidos por critérios claros. O juízo baseado em fatos é que gera a confiança, acreditar que existe possibilidade maior de resultados melhores.
Há muito mais coisas envolvidas, mas em poucas linhas ficam levantadas essas idéias em que confio. Para completar, por mais antagônicos que sejam os conceitos de fé e confiança, eles não se excluem. É possível ter fé e confiança na mesma idéia ou pessoa, o importante é que se saiba o limite de cada uma dessas crenças. Principalmente na hora do voto.




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Revisão de dissertção ou tese só na Keimelion.