26 de novembro de 2008

Popularidade no Google

Até poucos anos passados, índices de popularidade eram números que se referiam a políticos e personagens públicos de primeira grandeza, aquelas pessoas a quem interessava contratar caras pesquisas de opinião pública sobre a veiculação e aceitação de seus nomes, as tais celebridades – reais ou presumidas. Com o advento da internet o mundo mudou, principalmente após a introdução dos fantásticos mecanismos de pesquisa, que representam a meta-revolução da informação: não só tudo está veiculado, mas está ao alcance de qualquer internauta. Tais engenhos de pesquisa permitem, em muitos casos, constatar imediatamente a veiculação e mesmo a reverberação dos nomes pela grande rede. Basta lançar o nome pretendido nos sites de busca e temos um número mágico que representa a visibilidade da pessoa naquele instante.
Claro que o procedimento, do ponto de vista metodológico, é completamente cheio de buracos, não tem validade absoluta. Mas é uma brincadeira que se pode fazer sempre e a custo tendente a zero. Na verdade, o procedimento é mais válido como comparação entre pessoas da mesma esfera e cujos nomes sejam realmente indicativos do indivíduo, excluídas as possibilidades de homônimos e parônimos. Senão vejamos:
  • Aproximadamente 154.000.000 para "barack obama".
  • Aproximadamente 27.700.000 para lula.
(Pesquisa de 26 de novembro de 2008, às 8h31, hora de Brasília.)
Consideremos a enormidade da presença do presidente americano, comparada a nosso líder petista, posto o fato de que o nome do eleito do Norte é relativamente novo na mídia, mais ainda se comparado aos 20 ou 30 anos de carreira pública de Lula. Consideremos ainda que, para o nome Barak Obama, não deve haver muitas ocorrências que não se refiram ao recém-eleito, ao passo que Lula é um apelido relativamente comum, e ainda existem os moluscos cefalópodes cujo nome se confunde com o do Presidente. Para extirpar dúvidas, comparemos os nomes completos:
  • Aproximadamente 4.120.000 para "Luiz Inácio Lula da Silva".
  • Aproximadamente 2.310 para "barack houssein obama".
(As pesquisas estão sendo feitas ao tempo em que redijo este artigo – tudo na atualidade tem que ser em tempo real e imediatista. Refaça a pesquisa quando ler esse artigo e obterá números diferentes.)
Bastante curiosa a inversão de números ocorrida aqui, entre os presidentes. Provavelmente só pode indicar a menor ocorrência de nome completo na cultura de um que de outro.
Teste você com outras pessoas públicas, compare os governadores dos estados, compare jornalistas, verifique os BBBs. Que tal comparar os autores?
  • Aproximadamente 2.400.000 para "josé saramago".
  • Aproximadamente 6.720.000 para "paulo coelho".
Observe que, aqui, ambos possuem nomes que os identificam bem, são os dois vivos e presentes na mídia mundial, são pessoas de mesmo jaez e mesma estatura, o que permite concluir que feitiçaria dá mais repercussão que Nobel. Pessoalmente, não sei qual destes é mais chato.
Bom mesmo é quando trazemos a comparação para a esfera de nossas relações. Verifiquei recentemente os “índices Google” de alguns colegas revisores, usei os nomes pelos quais eles se apresentam no Orkut, em nossa comunidade de profissionais. Obtive os seguintes dados:
  • 957 para"saulo krieger"
  • 250.000 para"camila rodrigues"
  • 3 para"telma mazzocato"
  • 5 para"martha studart"
  • 48 para"robson falcheti"
  • 41.800 para"josé muniz"
  • 5,190 para"felipe de paulo"
  • 317 para"maria helena benedet"
  • 17.600 para"miss ceará"
  • 2.540 para"thomé de oliveira"
  • 9.070 para"letícia cortes"
Observe-se que alguns têm outras atividades, além da revisão, o que distorce o dado. Existem nomes, Letícia Cortes, por exemplo, que sugerem grande homonímia, a maior parte das ocorrências não reporta a colega em questão. Camila Rodrigues ainda mais, é uma combinação de nomes relativamente comum. Robson Falcheti é uma combinação que remete exclusivamente ao revisor, nosso colega; este é bem jovem, o que explica a menor incidência. Saulo Kriger deve ser só um, a combinação de nome também é mais rara. Naturalmente, quando não estamos tratando de pessoas de vida pública e o nome realmente identifica o indivíduo, o dado determinante é se a pessoa tem produção voltada para a internet ou se opta por outros canais. Ou a combinação produção e homonímia: Thomé de Oliveira é um nome para o qual deve haver mais de uma pessoa, mas o colega revisor tem diversas outras atividades de visibilidade: é músico e trabalha com vídeo, faz roteiros e outras participações. Já Miss Ceará é fake de um dos colegas que, naturalmente, concorre na formulação do número com a beldade cearense, o que distorce completamente o número alcançado.
Bem, dei alguns exemplos de como usar a ferramenta. Apontei algumas considerações metodológicas, bem simples, de como fazer melhor a comparação. Não é científico. Mas a brincadeira é boa e os indícios que aponta são significativos.
Resta apresentar meu próprio índice:
  • Aproximadamente 9.910 para "públio athayde".
Eu tenho um homônimo, um só, mas ele é muito jovem e não tem produção. Praticamente todas as ocorrências se referem a mim. A maioria se refere a minha atividade de videomaker; apesar da pequena produção, os vídeos postados na rede se replicam em milhares de sites, em cascata. Boa parte das referências a meu nome estão ligadas a publicações de artigos e poesia pela web afora. Tenho escrito bastante. Escrevo e publico na internet. Bem, há bastante referência também a minha atividade como revisor. Cruzando o dado de meu nome com o nome comercial, obtenho:
  • Aproximadamente 435 para "públio athayde" keimelion.
Esse dado acima corresponde ao meu índice a ser comparado com outros revisores exclusivamente nessa qualidade.
Sabem esses números significam? Muito pouca coisa. Se desejarmos uma "identidade" na net, no sentido de gostarmos de ser identificados por nos feitos e malfeitos, devemos adotar um nome mais ou menos raro, mais ou menos simples, mais ou menos... Eu tive a sorte de ter um nome assim, não precisei inventar nada. As pessoas que desejam ficar conhecidas e ser facilmente encontradas, mas não têm tais nomes, estão mudando, adaptando seus apelidos cartoriais. Há o recuso em moda do hífen (nosso amigo aí!). Temos os Donadon-Leal, Souza-Silva, Mota-Filho, etc... Outros inventam palavras mesmo: meu amigo Julio Cesar de Souza Reis virou Julio Meiron (enfiou o Meiron no nome, no cartório, direitinho). José Ribamar da Costa virou José Sarney e alçou píncaros da glória.
Quando pesquisarem por seus nominhos no Google, não se esqueçam de inverter - pra quem tem coisas publicadas e pode ter sido invertido pelas normas.
  • Aproximadamente 371 para "athayde, publio".
Esse dado reporta quase exclusivamente as publicações e citações bibliográficas.
Divirtam-se agora fazendo os levantamentos dos “índices Google” dos colegas, amigos e familiares. Claro, não deixem de verificar também os desafetos. Não é ótimo esse mundo em que podemos obter números para comparar as pessoas?

Leiam:
Google: popularidade em queda
publicado em janeiro de 2009.
Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.



23 de novembro de 2008

Os Indesejáveis


As cidades do Ciclo do Ouro se tornaram pólos turísticos nas Minas Gerais, mas a urbanização e o desenvolvimento trouxeram para o ambiente citadino um visitante indesejável, representando um mal a ser combatido.

Wilde Lacerda
aquarela



Os Idesejaveis



21 de novembro de 2008

Aos voluntários nas ONGs


A existência de uma entidade é uma corrida de revezamento. Cada um de nós corre nossos metros como pode. Mas em qualquer outra ONG não tem linha de chegada nem pódio. Não se trata de um bastão pra cada um segurar de sua vez, é um poste que temos que segurar juntos; um cai, levanta e pega de novo; outro cai e é pisoteado; vez em quando chega alguém pra tomar o lugar de alguém que caiu; alguns postes são largados à beira da estrada ou no meio do caminho pra atrapalhar outras equipes. Uns postes são de bambu: finos e lisinhos, outros são de paineira: grossos e cheios de espinhos! Tem entidade que distribui medalhas pra todo mundo! Medalhas de Gratidão pra quem cortou o poste e começou a corrida, Bons Serviços pra que fica mais tempo com o poste no lombo, Valor pra quem é pisado pelo meio da corrida. As medalhas maiores e mais bonitas ficam para o Comitê Olímpico. O reconhecimento dos corredores é bom: valoriza as pessoas e estimula outros é emprestarem o ombro; mas é ruim se a chama da motivação for substituída pela fogueira das vaidades. O tiro de largada é a consciência da solidariedade, mas não temos fitas a romper com peito estufado: lembremo-nos de que a meta é a corrida em si. Cada um tem seu papel: os mais baixos ficarão pendurados no poste quando a rota passar no fundo do vale, mas serão fundamentais para transpor os cumes - se estiverem no segmento médio do poste, ou ao contrário se sua posição for às extremidades. Tem função pra todo mundo. Bom, em tempos de Lula na presidência, estamos no reino das metáforas... Saudações e abraços.



Retórica da ação nas poéticas visuais

Conheça o Blog
As Quatro estações: Mimeses
Cesar Ripa
Equinócio da primavera

  • Actio – do grego hipocrisis (ação): preparar o que foi escrito para ser proferido; acrescentar ao discurso efeitos de voz, gestos, mímicas; nesta etapa o orador deve tratar o texto como ator. Por extensão, tomo o termo ação como preparação de qualquer tipo de texto.
  • Dispositio – do grego taxis (disposição): ordenar os argumentos e os elementos encontrados, buscando a organização interna do discurso, seu plano. A melhor tradução para dispositio seria composição, mas este termo será adotado aqui com os cuidados para não gerar ambigüidade, pois compositio, em latim, diz respeito unicamente ao arranjo das palavras no interior da frase. Numa sintagmática aumentativa ela seria a primeira classe, seguida pela conlocatio, que designa a distribuição das frases no interior de cada parte, e a dispositio que designa a disposição das partes no todo. REBOUL, 2000.
  • Elocutio – do grego aexis (elocução): redigir o discurso, zelando por seu estilo e ornamentação.
O objeto de arte apresenta-se e apresenta arte e poesia, demandando espaço, tempo e se pauta pela disposição preconizada. Essa apresentação é recurso retórico integrado na elocução com o objetivo de alcançar as significações e públicos desejados.
Todos os elementos integrantes, textos, suporte, signos, personagens, são articulados – ou seja – postos com arte. Isso significa que cada aspecto da estrutura demanda conhecimento de fatores e variáveis intervenientes no resultado e que a operacionalização das ações tenha escopo adrede concebido. À natureza específica dessa forma de operacionalização é que se chama arte.
O referido escopo de se pôr com arte os elementos em interação significativa é construto que, por ter um tipo linguagem caracterizada pela complexidade do belo, pela polissemia, pela flexibilidade e por muitos mais aspectos, inclusive subjetivos – motivo de querelas teóricas há milênios por essa especificidade tão fugidia, mas totalmente perceptível, rege a arte de modo muito especial e se chama poesia.


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Retórica da ação  nas poéticas visuais - Arte - Poética - Prolepse



Retórica da ação nas poéticas visuais - Arte

Revisar seu texto é na Keimelion.
Cesar Ripa
Equinócio de outono

  • Arte – Regras, & methodo, com cuja a ob∫ervação ∫e fazem muitas obras, aggradaveis, & nece∫∫aria à Republica. Ne∫te fentido Arte se differença de Sciencia, cujos pricipios con∫i∫tem em demon∫traçoens, & ne∫te proprio ∫entido ∫e divide a Arte em dous ramos, a ∫aber o das Artes Liberaes, que fão ∫ete, Grammatica, Rhetorica, Logica, Aritmetica, Mu∫ica, Architetura, A∫trologia, & ∫e cõprehendem ne∫fte ver∫o: Lingua, Tropus, Ratio, Numerus, Tomus, Angelus, A∫tra, & o das artes mechanicas, que tambem fão ∫ette principaes, das quaes dependem todas as mais, Agricultura, caça, guerra, todos os oficios fabris, a cirurgia, as artes de tecer, & navegar. (BLUTEAU, 1712). Por arte entenda-se aqui a tradução do grego tecné (técnica), conjunto de regras que podem ser analiticamente desvendadas, terminologicamente objetivadas e sistematicamente ensinadas. REBOUL, 2000:XIV.
Os procedimentos técnicos da síntese dos ornatos da elocução são encenados no texto poético-visual, disso decorre sua estruturação em forma especular, tal como texto decorrente de vários textos – música, poesia e imagens – produzidos a partir da análise das tópicas da invenção e segundo prescrito na disposição. Os ornatos, que figuram significações análogas às dos conceitos obtidos pela análise da matéria da inventio e da dispositio, são-lhes sobrepostos, multiplicando-os como sinédoques de efeitos icônicos. Não se trata nunca de expressão de conceitos, ou de exercício de teoria estética, mas sempre de dramatização iconográfica de conceitos por meio de técnicas retóricas e representações objetivamente partilhadas. Fazendo a análise e a classificação das imagens da elocução com as categorias aristotélicas, busca-se a maravilha, pois esta aplicação permite aproximar conceitos de coisas distantes e detalhá-los pela reapresentação de suas particularidades icásticas e fantásticas como substância nova na síntese, qualidade diferente, quantidade alteradas, lugar outro, relação diversa, tempo distinto, situação transitória, hábito divergente .
Assim como Camões sempre pensa a poesia como artifício que resulta de operações técnicas (para ele, o poema é literalmente poiema, produto, controlado racionalmente por preceitos), a poesia visual pressupõe inúmeras ações desta natureza.
Na poesia, música ou pintura, o artifício do ato da invenção é operado como máquina ou maquinação, do latim machina, do grego mekhané, (invenção astuciosa), como na expressão “máquina do mundo”, do Canto X de Os Lusíadas. Em latim, o equivalente de mekhané é ingenium, de gignere, (gerar), e designa o talento intelectual da inventio retórico-poética a que geralmente se associa instrumentum, de instruere, (dispor), como na expressão ciceroniana que define a inteligência, instrumentum naturæ, (instrumento da natureza). Os objetos das poéticas visuais são engenhos, na linguagem retórica.


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Retórica da ação nas poéticas visuais - Poética

Revise texto com a Keimelion.
Cesar Ripa
Primavera

  • “Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.” ALMEIDA (sXVI) apud MUHANA, 2006.
Até aqui foram apontados principalmente os aspectos retóricos da poesia visual considerando sua gênese e sua proposta de discurso. Como levantamento retórico, aponta o que pode ser ou não ser, hipóteses constituintes ontológicas no texto plástico. Quanto aos elementos poéticos, indicam aspetos metafísicos (no sentido de sua imaterialidade) e da possibilidade de esses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta.
Em certo sentido, e em linguagem atual, serão apontadas aqui algumas idéias – com plena consciência de seu caráter provisório – e indicativos de continuidade da investigação em curso. O que não é, mas pode vir a ser.
A investigação estética, investigação pela produção e para a produção, assim como a investigação pelo conhecimento, têm a característica de que, concluída a etapa, ela já pode ser reiniciada, pois se não tiver sido trilhado o caminho do conhecimento do que fazer, certamente já se terá progredido em alguns passos na direção contrária do que não se fazer.
Posto que, poeticamente, o artifício resulte de maquinações do engenho e do instrumento, significando a ficção produzida com arte e indústria visando fim determinado, as invenções, fricções e experimentalismos – esta a novidade – serão os fios a moverem essa máquina do poema visual, na contemporaneidade, exercitando-se a poética cujo impacto estético decorra da forma utilizada, da configuração das imagens no espaço do suporte que a suplemente .
A questão que se coloca não é se o belo , de alguma forma, é alcançado, mas antes se – por se prender ou se desprender tão fortemente quanto desejado de elementos ligados ao belo residente na grandeza, na unidade, na proporção e na ordem preconizadas pela retórica – terá havido aproximação desse desiderato, ainda que não haja enteléquia.
A questão seguinte é se as qualidades dinâmicas do produto: tensão, energia, força, vibração, atração, inerentes à sensibilidade contemporânea, foram conjugadas no construto em harmonia ou contraponto às noções de balanceamento (proporção e ordem), composição (unidade), espaço (grandeza) do mesmo modo, poeticamente.
Na fugacidade da poesia visual, apesar do esquema flagrantemente aristotélico da retórica e seus desdobramentos, pela ambigüidade e polissemia dos instrumentos verbais e não-verbais das obras que foram objeto direto da mimese , dos quais foram extraídos os topoi, o referencial resta mais alicerçado no pensamento platônico.
  • Mimese em retórica: figura em que o orador, usando discurso direto, imita outrem, na voz, no estilo ou nos gestos; literatura: recriação, na obra literária, da realidade, a partir dos preceitos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das Idéias [É em ARISTÓTELES, na Poética (XXI-128), que se encontra a primeira teorização acerca desse procedimento da arte; no entanto, para este filósofo, a mimese seria a imitação da vida interior dos homens, suas paixões, seu caráter, seu comportamento (idem, II e III)]; literatura: a partir do Classicismo (s. XV), princípio que orientou os artistas quinhentistas e seiscentistas que acreditavam ter a arte greco-latina qualidades superiores, devendo por isso ser imitada. HOUAISS.
O tempo da doutrina concomitante ao engenho (a obra de arte) estabelece uma promiscuidade salutar entre os elementos temporais cronológicos e kairológicos, resultantes dessa busca de meta-referências e especularidade intertextual, trazendo a desordem como ponto de partida para a invenção. Desordem inventiva, daquela situada à borda do caos. A questão deste tempo não-reconciliado vai tornando nítida uma série de paradoxos na disposição do invento, no corpo de cada figuração, paradoxos que se aceleram e se retroalimentam no desvelamento recíproco de doutrina e engenho.
A obra de arte é exercício estético pautado pela forma, território por excelência da retórica. Mas como discurso pretensamente convincente, em delícia de atração e repulsa, é autoconvincente – ou procura sê-lo. Assim, nos meandros nas metáforas e metonímias, no abscôndito das polissemias e da complexa trama intersemiológica poderá ser encontrada a autopoiesis.
No discurso da forma, de referências tópicas constantes, na transdisciplinaridade entre lugares-comuns, ressurge ou fulgura a autoria personalíssima, expressão inexoravelmente constituída de mimeses consciente ou inconscientemente hauridas. A essência do ser se sobrepondo, contrapondo ou – mais que tudo – se expondo em discurso poético que, como representação, trata da projeção da experiência e expectativa vivenciais pelas lentes dos lugares-comuns emulados.


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Retórica da ação nas poéticas visuais - Prolepse

Cesar Ripa
Outono

  • Prolepse é a figura de retórica que consiste na previsão de objeções, refutando-as a priori; antecipação de um argumento ou réplica em relação a uma esperada objeção. HOUAISS.
Não cabe discutir a psicologia do eu poético-visual, nem cabe buscar na obra confessionalidade autoral, tampouco se podem denegar ambas as coisas. Se não se pretende em nossos dias o mais perfeito afastamento pessoal do objeto da ciência, escusado dizer é que não se pretenda tal façanha em produto cuja função seja estética.
Nas poesias visuais, os planos das superfícies dos signos conectam-se aos planos das superfícies dos suportes. As interfaces são criadas entre suportes e signos em combinações diferentes e eles suplementam-se ou friccionam-se, a ponto de fazerem da imagem design ubíquo que permeie outras e diversas manifestações estéticas e exercícios linguageiros.
A busca não é por uma doutrina, caracterização ou mesmo investigação teórico-bibliográfica no campo da arte, mas da produção nesse campo; todavia a doutrina está latente no invento e vice-versa. A poesia visual é a entrega à prática polissêmica transdisciplinar, subsunção a meta-referências retóricas sublimando-as na autofagia do modelo que foge à frieza da categorização aristotélica podendo inclusive aderir-lhe à estrutura. Aceitando-lhe os fundamentos, mas negando-lhe as conseqüências.
A reapropriação da retórica figura como ressonância de causalidade acrônica, espécie de isomorfia não-contígua, decorrente da idéia de recaimento (retombée) . Para explicitar essa idéia, o caminho adotado pode ser o cotejo entre os campos da arte e da ciência, à luz das relações entre esses dois campos e a opção pela investigação no campo da estética negando implicitamente a dicotomia ortodoxa dos campos . Em segundo passo, elementos daquela arte e daquela ciência são examinados empiricamente sob o prisma da mesma episteme, quando “a seqüência de recaimentos assegura a primazia da artificialização como via possível para encararmos a rede de textos que se entrecruzam, gerando uma mestiçagem fértil e salutar de saberes e estéticas irmanados” .
A isomorfia consiste em encarar na poesia visual a prática retórica operacional para teatralizar, no âmbito do discurso artístico, a incorporação, pela expressão plástica, de linguagens artísticas e reflexivas afins. Ao aquiescer à expansão desse intercâmbio estético e discursivo, são engendrados simulacros que evocam recursos técnicos a que já se aludiu como neobarrocos , mas prefira-se o cioso distanciamento de enquadramentos que tendem a se tornar restritivos, quando não minimizantes, afinal, não existem mais modelos a copiar nessa episteme visual que tem sede na ruptura.
O jogo especular transdisciplinar das poesias visuais deixa ao espectador o trânsito pelos espaços interespeculares, não sem lhe esconder alguns pontos de vista, mas sem querer limitar-lhe a vista a um ponto. E nesse jogo de palavras, como no jogo de espelhos, há caminhos para se perder, mas os há para se achar ou para achar o outro. “A consciência desse espaço vacante, onde repousava a solidez dos pilares conceituais a sustentar verdades irrefutáveis erigidas pela ratio, franqueia a proliferação retórica, a metástase irreprimível do discurso, a contrapelo da linguagem econômica e funcional, refratária ao desperdício.”
Essa linguagem econômica e funcional, tão característica da manifestação artística dos dias de hoje, é a expressão da poesia visual. É a linguagem que, criando espaços vacantes entre os espelhos e prismas da significância pretendida, estabelece os limites e a forma a serem ocupados pela interpretação.
O produto repleto de retórica e de poéticas do tempo e do espaço contemporâneo que pode parecer paradoxal, mas passado e presente coexistem. As poéticas visuais reinscrevem continuamente em seus diferentes suportes a multiplicidade apontada pelos concretismos, tão farta de signos visuais que se atualizam a cada processo, mas podem reinscrever com os signos da retórica, tal se está postulando.
Cada processo de atualização dos signos e suportes abre possibilidades visuais, mas também, auditivas, tácteis. Sobretudo são propostas discursivas. Cabe sobrepor à metáfora do labirinto especular o desfiladeiro de ecos, não transpondo a construção imagética do raciocínio para a sonora, mas transliterando os tropos literários e musicais para a expressão plástica e, aí sim, amplificar pela matéria que ocupa o espaço de ressonância a experiência sensorial-estética. Essa é a tentativa.
Resta que não caberá ao autor, nem ao crítico, interpretar ou explicar o objeto de arte quanto ao que reside no óbvio ou o transcende, pois tal seria o mesmo que destruir a obra. Fiquem os textos em aberto, mantidos os espaços lúdicos para o autor e os intérpretes na eterna dialética reinterpretativa.

Referências

BLUTEAU, Rafael. Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, etc. autorizado com exemplos dos melhores escriptores portuguezes e latinos, e oferecido a el-rey de Portugal D. João V., 8 tomos. Coimbra, 1712 a 1721.
CASA NOVA, Vera & BAHIA, José Aloise. O que se passa aí? Acesso a em 2 de julo de 2007.
FAZENDA, Carla Maria Arantes. O sentido da cor: uma investigação interdisciplinar. São Paulo: FAU/USP (Tese), 2001.
HANSEN, João Adolfo. A máquina do mundo. Acesso a em 2 de julho de 2006.
HANSEN, João Adolfo. Barroco, neobarroco e outras ruínas. Teresa. Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 2, 2001.
HERKENHOFF, Paulo. Monocromos, a autonomia da cor e o mundo sem centro. In: Ferreira, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Jneiro, FUNARTE, 2006; p.365-80.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Editora Objetiva, 2001.
MONGELLI, Lênia Márcia. A indisciplinada retórica de Platão. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
MUHANA, Adma. Discurso sobre o poema heróico. Comentário. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
PEDROSA, Mário. Ciência e Arte: vasos comunicantes. In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 2006; p.49-54.
PEDROSA, Mário. Ciência e Arte: vasos comunicantes. In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 2006; p.49-54.
REBOUL, O. Introdução à Retórica. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2000.
TREFZGER, Fabíola Simão Padilha. Neobarroco – a apoteose do artifício. Acesso a em 1 de julho de 2007.
Leia a série toda:
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20 de novembro de 2008

Pessoas inteligentes


As pessoas que não são inteligentes costumam não entender como a inteligência funciona.

A frase é minha,
dou pra você.




Foto ilustrativa, o retorno


Publiquei há algum tempo, um artigo intitulado Foto Ilustrativa, em que dava azo a algumas divagações. Alguns devem ter achado interessantes meus argumentos e idéias. O CDL de Porto Alegre reproduziu o tal artigo em sua newsletter, o que gerou grande revolta de um de seus leitores, expressa na mensagem que me foi gentilmente repassada pela assessoria de imprensa daquela entidade. Agradeço pelo favor. Publico a seguir a mensagem recebida pelo CDL. Não argumentarei nada, não vejo polêmica.

De: Rafael Fay [mailto:rafaelfay@gmail.com]
Enviada em: quinta-feira, 20 de novembro de 2008 13:54
Para: Sinara Oliveira da Silva
Cc: Vilson Noer
Assunto: Re: Foto Ilustrativa

Prezados Almir Freitas, Ariana Oyarzabal e Sinara Oliveira Silva,

Respondo aos senhores por constar seus nome como responsáveis pela publicação dos textos da CDL news.

Sou publicitário e fiquei indignado ao ler o artigo acima mencionado. Talvez pela sua falta de experiência ou pela falta de conhecimento de causa vieram a fazer críticas severas à frase "foto ilustrativa" que acompanha anúncios publicitários. Pois bem, tal frase é aplicada em TODOS os países do mundo por boa prática em relação ao próprio consumidor. Quando se vende um apartamento na planta, a imagem "meramente ilustrativa" expõe como será o prédio no futuro, uma vez que o mesmo ainda NÃO EXISTE e seria impossível ter uma foto do mesmo. E sabe o que mais? Caso tal prédio já existisse e fosse realmente fotografado, a frase "foto ilustrativa" ainda assim deveria ser aplicada, pois a foto estaria estampada em um pequeno anúncio e não impressa em uma folha ou lona vinílica do tamanho real do prédio. Catálogos, folders, panfletos, outdoors, sites da internet e outras tantas formas de venda onde imagens de produtos são expostas trazem tal frase em respeito ao consumidor, mostrando que as imagens correspondem SIM a tais produtos, mas ali estão em tamanho diminuído para caber no anúncio. Aproveito para lhes perguntar: se alguma vez os senhores comeram em uma famosa rede americana de hambúrgueres devem ter visto que há painéis com imagens enormes dos lanches oferecidos, e quando os seus sanduíches são servidos eles não têm 50 centímetros de largura como a imagem da "foto ilustrativa". Por que não chamar o PROCON ou fazer um discurso sobre os direitos do consumidor, uma vez que os seus sanduíches não têm meio metro, nem a mesma "cara" da foto, inclusive com discrepâncias quanto à quantidade de gergelins? Tal reclamação seria uma tragicomédia... Comédia pela reclamação, e trágédia pela falta de discernimento dos clientes.
A frase "foto ilustrativa" é BOA PRÁTICA em respeito ao consumidor.
E aproveito para perguntar-lhes: cada vez que os senhores precisaram enviar fotos 3x4 suas a alguém, por acaso os senhores escreveram no canto ou no verso da foto a frase "foto ilustrativa"? Nunca? Bem, devo dizer então que tratava-se de uma imagem caluniosa, a não ser que o tamanho das suas cabeças correspondessem ao tamanho das cabeças "ilustradas" nas fotos. E quanto às pessoas que receberam as fotos, devo julgar que as mesmas deveriam esperar que as suas cabeças fossem do tamanho das cabeças "ilustradas nas fotos"?
Gostaria que esta errata fosse publicada na próxima edição da CDL NEWS, pois o artigo "foto ilustrativa" foi escrito por uma pessoa mal informada em relação ao assunto. Caso tivessem consultado um publicitário, não teriam publicado tal artigo que fere a moral dos profissionais da publicidade que muito se esforçam para vender os produtos dos próprios lojistas, muitos destes dirigentes e sócios da CDL Porto Alegre.

Atenciosamente,

Rafael Fay
(51) 9951.5036
rafaelfay@gmail.com



Reveillon em Buenos Aires

Anjos do Cemitério Recoleta.
Passei o último por lá, então aqui estão algumas impressões que podem ajudar a programar ou desistir dessa empreitada portenha. Quanto aos lugares, imagino que a maior animação bonairense seja o cemitério da Recoleta, a turistada fica toda em volta... Você já esteve lá? Aprendi que aquele povo não enterra os mortos, eles os preservam em caixões que ficam à mostra, em prateleiras nos sepulcros. Bem, a visita à necrópole é programa diurno, mas a noite é animadíssima em volta dela; um regalo pra quem ama o vinho. Os preços estão vis.
Caixões na Recoleta.

Mudei de ano num buteco chamado Saara, naquela região. Aqui estou nele e ei-lo em foto diurna. Hei de me lembrar de tomar mais uma garrafa de espumante ao voltar lá - naquela terra eles ainda chamam vinho espumante de champanha, só não sei se pra Alka-Seltzer também usam a mesma palavra.

Para comer, fuja como o diabo foge da cruz de qualquer restaurante que tenha as palavras PARILLA ou PAPAS no cardápio – são armadilhas para turistas. Questão de sobrevivência básica ficar longe deles. Os restaurantes espanhóis por lá são bons e os italianos razoáveis. Para o café da manhã, leve uma marmita com algumas cochinhas e pães de queijo, se você for sujeito a algum tipo de crise pela abstinência desses alimentos. Ah, as tais das media lunas não são médias de café-com-leite não, nem degrau na escala pequena-média-grande: trata-se de um croissant mal amassado. Sobrevivi àquela coisa chamada parillada completa! Urgh! Mas não é para qualquer estômago não. E comi em Porto Madero muito bem.
Adicionar legendaBrinde de ano-novo.
masmo com as grandes economias desabando).
Veja: há uma escavação "arqueológica" debaixo de um viaduto, havia lá um centro de tortura onde cerca de 1800 foram "eclipsados"...
Na noite, procurei por um tango legal, fiquei horrorizado que a maioria parece Hollywood, inclusive pelos preços. Entendi logo que tango em Buenos Aires é igualzinho às encenações do Triunfo Eucarístico que fazem em Ouro Preto: nada litúrgico, só pra turista ver. Tem tango na rua também, mas é o mesmo espetáculo para turista em versão mais barata. Os cassinos estavam fechadinhos, e tinha um monte de empregados deles acorrentados na frente da Casa Rosada, em protesto. Também proibiram as apostas do turfe por lá, estava um qüiproquó (na derivação metonímica) no caso. Muitas das opções da noite não abrem no fim de ano: vacancias (férias deles – azar dos turistas).

Baladas na Recoleta.
Chopp de R$15? bebi desse não, mas tinha muito.

Feira? Fui não; descobri há bastante tempo que todas as feiras são exatamente iguais: completamente globalizadas. Todas as feiras têm exatamente as mesmas figuras polutas e odorentas, vendendo as mesmas pulseirinhas torcidas e amassadas, com um diferencial regional arquetípico: se for na Bahia aparecem uns berimbaus, em Porto Alegre uns porongos, em Ouro Preto uns cinzeiros de pedra-sabão... Objetos estes que podem, todos, ser encontrados nos aeroportos da região ou nas feiras. Nos aeroportos são um pouco mais caros e os vendedores mais perfumados e polidos.

Outra entidade onipresente é aquele conjunto andino, tocadores de flautas de Pã e zabumbas peludas, que já vi em meio mundo: sempre as mesmas musiquinhas melosas e as mesmas caras mal lavadas. Tadinhos, os K7 evoluíram pra CDs - essa foi a grande modificação havida na trupe nos últimos 500 anos.
Viajar é ótimo, mas turismo é uma praga. Nascido e criado em Ouro Preto, acostumei-me a ver turista do mundo todo da ótica do habitante local. Aprendi que mais importa explorar o turista que o turismo.
Tango em via pública.
Sou viajante, na medida de minhas posses - mas não quero me tornar turista. Sou viajor, farofeiro não! Sabe aqueles pacotes de 15 países europeus em 12 dias? Ainda existem! Fiquei pasmo na agência de viagens outro dia, quando descobri isso - e eu já estava programando minha viagem de fins de 2008.

E por aí vai...

Optar por um pacote pode ser indicado em muitos casos, eu nunca fiz, mas talvez fizesse para ir ao Egito, Butão, algum lugar cuja língua seja totalmente desconhecida e a cultura muito diferente.
Pacotes têm a vantagem dos preços, claro e tranqüilidade administrativa... Mas o que vale é a atitude do viajante, daí é que se diferenciam os proveitos na viagem.
Eu sou do tipo hotel de $8 e restaurante de $80! Cada um com suas escolhas e suas encolhas. Amém.

Leia neste blog:  Causa perdida - Crônica curta do chimarrão - A cruz e o beijo - Pela volta do vosmecê

19 de novembro de 2008

Dêzão e Dêlinha

Dêzão & Dêlinha em... Chamada urgente!
Clique na imagem, acompanhe o blog de tirinhas...

Carência

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CARÊNCIA

Tão carente esta noite quanto em outras tantas,
Sofro angustiado a dor de quem não tem destino,
Recorro a Maria, a Virgem, e às outras Santas,
Sabendo-me infiel, cometo este desatino.

Perco a vida e a esperança de toda glória,
Pois me falta inspiração e força para luta,
Desconhecendo-me parte desta História,
Onde o homem comum é só filho da puta.

Penso que o tempo não fluindo mais, paro agora,
Lembro-me de tudo em que não sei pensar,
Fico devendo à mente, que não intui hora,

Um outro motivo para o grande pesar
Que me torna a vida sem rumo, deixa doente,
Sem saber ao menos do que sou tão carente.

Belo Horizonte,18 de maio de 1995.
Interpretação e produção do autor, Públio Athayde.
Este soneto integra a obra

Sonetos para Ser entendido
que pode ser obtida gratuitamente no



17 de novembro de 2008

Demonstração da retórica nas poéticas visuais

A proposta deste artigo inclui discutir a possibilidade de existência de diversos os graus de mimese sobrepostos nas poéticas visuais, como de resto é característico se estabelecer uma cadeia contínua de referências entre signos nas artes discretas, estabelecendo o vínculo de auctoritas, virtualmente imprescindível ao decoro erudito e assimilado ou negado no engenho estético moderno. Essa sobreposição de mimeses, além da emulação entre artes distintas, compreende a transversalidade da leitura interpretativa.
A transversalidade proposta refere-se ao colateral, ao que passa ou atravessa os objetos significativos. “Transversalidade” aqui remete à idéia de “fenda”, “abertura”, “alinhamento em outra direção”. A transversalidade é abertura, possibilidade metodológica para expressão plástica, ao alinhar os conteúdos tópicos em outra direção, estabelecendo novas relações entre os pontos de vista: os que são teoricamente sistematizados e emulados das artes eruditas e os que estão na vivência, no cotidiano autoral. A transversalidade é estratégia de resgate da percepção ampla da realidade mediante emprego de determinados elementos de grande potencial significativo, denominados, nesse caso, de eixos/temas transversais (musical, literário, pictórico) .
O limite da transversalidade seria o que os sofistas definiram como programa de ενκυκλιοσ παιδεια (paidéia cíclica ou enciclopédia, conjunto de todas as ciências). Preocupando-se com a compreensão generalista no limite possível da completude. O programa da ενκυκλιοσ παιδεια foi retomado e elaborado pelos retóricos romanos, que transmitiram o esquema das orbis doctrinæ (doctrinarum orbem) aos mestres do ensino medieval. A idéia foi retomada por Diderot e D’Alembert.
A emulação entre as artes, preconizada desde a antiguidade, era composta por procedimentos miméticos que, inclusive, ordenavam os efeitos de uma arte em outra, visando o amplo alcance das funções retóricas: ensinar, agradar e convencer.
Platão fundamenta a possibilidade da contraposição entre pintura e poesia no décimo livro da República. O filósofo estabelece três aspectos em que podem assentar os pontos de contacto existentes entre pintura e poesia: o ontológico, o gnosiológico e o psicológico, isto é, o âmbito da essência própria da atividade: a imitação (mimesis), reapropriação dos conhecimentos, dos lugares comuns, inexistentes em relação à fabricação e ao uso do que está a representar, mas apenas no que toca sua aparência e aos efeitos produzidos no espectador.
A relação entre esses aspectos foi compreendida como circular e contínua.
Chama-se à reapropriação entre campos de expressão estética distintos mimese transversal, postulando que seja a emulação complexa e abrangente, capaz de fornecer elementos expressivos mais compreensivos em suas amplitudes representativa e retórica.
Na expressão platônica, essa mimese transversal processa no campo gnosiológico, mas permite melhor aproximação do ser pelo aprofundamento da emulação mimética e, conseqüentemente, produzirá efeitos psicológicos mais abrangentes.
O objetivo da representação visual de obras musicais, poesia, dança ou até culinária é o de recriar-lhes interpretações, ampliar-lhes a acessibilidade por um código mais universal que a língua escrita e que interaja complementarmente ou subsidiariamente. Amplifica-se a acessibilidade pela extensão sensorial, difundindo aquelas obras de arte pela pluralidade de mídias, permitindo aperfeiçoar a fruição além do hedonismo.
A poesia visual permite, assim como qualquer texto, diversos graus de acessibilidade, de acordo com a ilustração e cultura do receptor. A universalidade do código não significará unicidade interpretativa nem uniformidade afetiva.
O objetivo das poesias visuais não é fazer doutrina da percepção sensorial, estética ou intersemiológica. O propósito é o de esquecer a classificação e ir à prática. Abandonar os modelos e aderir a eles. Abandonar como simplificação e aderir como referência ou como negação, em delícia de atração e repulsão. Por isso mesmo o autor opta pela expressão plástica: uma série de painéis a óleo ou uma instalação, não uma tese.
A pretensão, intenção e direção é a da produção artística. Não se trata de fazer ciência; não seria esta a proposta, ainda que haja investigação metódica da qual resulte a base cognitiva para a produção material, conhecimento como meio e não fim.
Ao cabo do processo, cabe até discutir a investigação e os resultados dela, apresentados materialmente, uma invenção sempre polissêmica, subsunção a meta-referências retóricas sublimandas na autofagia do modelo alheio à categorização aristotélica, mas fiel a sua estrutura. Quer lhe aceitando os fundamentos, quer os negando, sempre lhe refutando as conseqüências.
A compreensão ampla da textualidade, a ser alcançada pelo recurso das multimídias, não é, absolutamente, novidade. Assim como as emulações na produção artística não o são. A homologia é parte necessária da retórica e é o que se busca. O exercício consiste em aplicar essas técnicas com eficácia. Algum tipo de sinestesia, não no sentido próprio – fenômeno perceptivo bastante estudado, que consiste na confusão de sentidos – mas como a percepção simultânea de dois ou mais sentidos, com resultante única, uma impressão final convergente, tende a ser propiciada pela abordagem da proposta. Trata-se de um fusionismo.
A semiótica é ferramenta que permite a compreensão de sons, palavras, imagens em todas as dimensões. Ela fundamenta as linguagens todas, baseadas em esquemas perceptivos. Os processos de percepção são objetos dos estudos semióticos. Sendo a semiótica, também, o estudo dos processos de comunicação – “não há mensagem sem signos nem comunicação sem mensagem” – aplicação desses conceitos, que são emocionais, sensoriais e racionais na elaboração metafórica e simbólica, nos processos de criação do texto visual e da informação é inexorável para o sucesso na obtenção de um signo qualquer: um logotipo, uma marca, a identidade visual de uma instituição, o conceito para uma campanha publicitária, ou produção de um objeto de arte baseado na retórica e emulando cultura.
“As imagens feitas para significar uma coisa diversa daquela que se vê com o olho não têm outra regra mais certa, nem mais universal que a imitação (...).” A produção da arte deve então ser feita em perspectiva semântica, interrogando as formas de significação e os tipos de significado presentes em determinada obra de arte precedente. Nesse sentido, a tarefa primordial da emulação é investigar as obras antecedentes, isolá-las analiticamente, estudar as relações existentes entre as partes e as relações entre o todo e as partes.
A interrelação entre diversas formas de arte e o estudo dessa transdisciplinaridade não são novidades; a comparação de Horácio entre a poesia e a pintura se apresenta quase atemporal. Desde a antiguidade até as poéticas mais recentes, passando pelo ataque platônico, a formulação horaciana é reiterada inclusive pela utilização que dele fez o Renascimento .
Transdisciplinaridade, do latim trans, que indica o movimento entre partes. É aquilo que está “ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento”. A transdisciplinaridade “engloba e transcende o que passa por todas as disciplinas, reconhecendo o desconhecido e o inesgotável que estão presentes em todas elas, buscando encontrar seus pontos de interseção” . Piaget, Jantsch, Michaud estabelecem uma taxonomia da interdisciplinaridade, situando a transdisciplinaridade como patamar superior dessa escala. A transdisciplinaridade é concepção de pesquisa baseada em novo marco de compreensão. O marco de compreensão é compartilhado por várias disciplinas e vem acompanhado por interpretações epistemológicas recíprocas. Assim, cria-se a transdisciplinaridade pela construção de novo modelo de aproximação entre realidade e objeto significativo.
A interdisciplinaridade existe na ação em movimento , e esse movimento pode só ser percebido em sua natureza ambígua, tendo a metamorfose, a incerteza como pressupostos. O projeto interdisciplinar nasce de locus bem delimitado, portanto são fundamentais a contextualização – que exige a recuperação ampla da memória – e a análise conceitual – que facilita a compreensão de elementos interpretativos do cotidiano; é necessário compreender-se a linguagem em sua expressão e comunicação, uma linguagem reflexiva e corporal. Nas questões da interdisciplinaridade, todo projeto é composto por um pró (o que antecede) e um jecto (que impulsiona para frente).
O cotejo entre as artes já foi realizado sob diferentes óticas e parece indubitável que não se tenha encontrado maneira mais precisa e sincrética para exprimir a complexidade que a analogia e a intertextualidade. Quando Horácio, no verso 361 da sua Ars poetica, escreve o famoso ut pictura poesis, ele já era herdeiro de um costume poético solidamente consolidado, mas é também filho de seu tempo. Para compreender o sentido da comparação, temos que considerar o contexto em que são escritas as palavras do poeta latino e, antes de perguntar por suas implicações, especular sobre o que não implicam.
No Renascimento, a pintura tinha forte componente da retórica e era mesmo equiparada a ela. Admitindo que a doutrina pictórica renascentista estivesse imbuída claramente de retórica; isso não significa que o vínculo entre pintura e arte oratória tivesse sido estabelecido à margem da poética . Como acontece com as artes em geral e pela poética em particular, a doutrina pictórica fica impregnada da estruturação e da terminologia retóricas, mas nesse fato não se deve ver aproximação entre duas atividades que se afastam nos objetivos e nas metodologias. Assim, segundo esse pensamento, o tópico horaciano ut pictura poesis não pode ser estendido em sentido completamente lato.
Ao valorizar a visão em detrimento da audição e propor que a poesia, arte da imitação como a pintura, é imagem, assim como o pincel imita os topoi narrativos das écfrases (ἔκ-φρασις) de autoridades, Horácio implica que também a pena deve imitar o pincel, produzindo metáforas visualizantes de efeitos maravilhosos, adequados simultaneamente à utilidade e ao prazer. O que justificará a pretensão de reflexividade no lugar-comum horaciano.
Mas resta mais um ponto segundo o qual é perfeitamente possível a aproximação entre pintura, escultura, literatura, música, etc.: trata-se da mimese e de sua elaboração metafórica. Trata-se de aproximação poética, gene comum na base do construto, perfeitamente identificável e bastante conhecido.
Assim, identificada a geratriz comum às manifestações artísticas, pode-se prosseguir entre elas usando como ponte o mesmo elemento de conexão.
Existem três tipos de obras, quanto à narrativa: um que conta uma história, outro que “pinta” um quadro e ainda a arte absoluta, aquela auto-sustentável. Para poesia visual, a escolha mais óbvia seria a escolha das raízes dentre obras de referencias do segundo caso, por terem serem escritas propositadamente para descrever uma ação narrativa completa no tempo e estarem imbuídas de contornos estruturas formais propícias à associação imagética natural que elas mesmas propõem.
Emulam-se na poesia visual manifestações de duas ou mais formas de arte opostas inclusive pelo suporte tempo/espaço: a pintura situa-se num eixo de concepção espacial, bidimensional, deixando o aspecto temporal em aberto e em construção a cada vez que a obra é visitada por um espectador, ao passo que a música segue o inverso disso, o espectador constrói o espaço, pois a música situa-se sobre o tempo; já a poesia escrita é atemporal e virtualmente não depende também do espaço; tratando de poesia declamada, algumas das características de temporalidade apontadas à música são semelhantes.
Assim, pintar ou esculpir referências à música e poesia prende-se mais à maneira de interpretar a obra musical ou poética, em oposição à história que a música conta, que propriamente a um confronto de suportes , ou de dimensões físicas (tempo e espaço). A poesia visual não possui necessariamente eixo narrativo linear, assim, é possível adotar a narratividade envolvendo música ou literatura em sentido muito mais aberto a livres interpretações. A linearidade dos textos musical e literário é substituída pela circularidade, pois qualquer ponto de partida procede.
Os conceitos estéticos e ontológicos se abrem ideologicamente, desdobrando-se sobre as determinações estruturais das possibilidades “dos sentidos dos signos” , remetendo-se à desconstrução – crítica das oposições hierárquicas que estruturam o pensamento ocidental: dentro/fora, corpo/mente, literal/metafórico, fala/escrita, espaço/tempo, presença/ausência, natureza/cultura, forma/sentido, letra/música, arte/ciência. O sujeito e o objeto constituem sistema complexo com contradições, oposições, contrastes, que vivem e se auto-influenciam e, com isso, ampliam o jogo lingüístico.
A relatividade exposta acima, em História ou em Estética é elemento absoluto, qualquer deslize leva à diacronia, ao mais terrível equívoco no ramo. Quando se trata de representações identificadas como manifestações estéticas, necessariamente estamos imbricados em múltiplos aspectos sensoriais, no mínimo – desconsiderados todos os demais fatores, inclusive os ideológicos. É necessário ter-se a noção precisa de que os sentidos também sofrem modificação ao longo dos séculos, tanto por fatores ambientais, os mais diversos, quanto pela forma como eles são educados.
Refletirá a ordem, a percepção e a retórica a natureza das coisas. A poesia visual espelhará, como estrutura orgânica, assim como a linguagem – de alguma forma, a essência de uma sociedade, uma era, um pensamento? Sou levado a crer que sim e é nessa hipótese que calço meu argumento. Não se pode ouvir a música setecentista com ouvidos modernos, supondo que o homem de alguns séculos a ouviu com o mesmo ouvido de hoje, nem do ponto de vista físico. Nem podemos ler versos de duzentos anos como se tivessem sido escritos hoje – pois, em sede de mutação, o sentido da palavra é a instância mais fluida.
É na elaboração do mais alto grau metafórico, empreendendo a mimese nessa trama de sinais, que se estabelece a compreensão dos processos semióticos das obras de arte e que se pôde obter um produto mais próximo à realidade e de sua compreensão figurativa ou abstrata – tanto do ponto de vista visual direto quanto simbólico discreto.
Urdir esta complexa trama de conexões múltiplas implica o enfrentamento com a diversidade discursiva pretensamente intimidativa, legitimada pelos saberes cristalizados. É modo de devorar o objeto a ponto de desfigurá-lo, realizar a carnavalização da retórica nesse ritual canibalístico e fazer do banquete dionisíaco fonte produtiva de texturas híbridas, polifônicas, babélicas : eis alguns dos propósitos poéticos-visuais.
O discurso transdisciplinar das poéticas visuais, a retórica iconográfica na linguagem contemporânea, tem por um lado amplificada sua eficácia, mas se torna mais neutra à medida que sua linguagem é mais complexa, metafórica, metonímica, universalista. Prosseguindo na linha desta aparitmese, o discurso deixa de ser dominante, para ser dialógico; deixa de ser didático para ser didascálico, deixa de ser literal para ser literário; o discurso desta retórica não é jornalístico, mas é cotidiano e atual; não é discurso persuasivo, mas não deixa de ser sugestivo . É discurso apofântico, lúdico, polêmico, aberto.

Significação

Para representar as metáforas emuladas são levantados os signos mais representativos. As estações do ano, por exemplo: uma cena ou paisagem situadas em estação do ano bem determinada geralmente correspondem ao estado de alma do sonhador. As cenas alegres acontecem quase sempre na primavera ou verão, os sonhos de renascimento na primavera. Não obstante, com maior freqüência se tem consciência do elemento característico da estação (por exemplo: sol muito forte, brotos nas árvores ou neve que cai) antes da estação em conjunto. Na interpretação, há que se ter em conta tanto o elemento subjetivo dominante quanto a estação em si mesma. Tanto os signos quanto os significados se codificaram em representações metafóricas e repletas de emulações transversais.
Sendo a poesia visual montagem de signos codificados e abstratos, ela é construída (e interpretada) em referência às convenções associadas ao gênero polímnico, utilizando meio específico de comunicação. Embora existam discrepâncias em relação à possibilidade de se dizer a mesma coisa em dois ou mais sistemas semióticos que utilizem unidades semânticas diferentes, e sendo consciente das limitações que tal diferença estabelece em relação aos possíveis códigos utilizados , a proposta é aproveitar favoravelmente tais fatos. Se os diversos sistemas semióticos fossem sinônimos, então a proposta iconográfica da poesia visual não faria sentido nenhum.
As teorias que lidam com a construção dos sentidos na relação entre leitores incluem opções entre: objetivistas, para quais o significado está inteiramente incorporado ao texto (sendo então o significado simplesmente transmitido ao leitor); construtivistas, para quais o significado é construído na interação entre texto e leitor; terminando nos subjetivistas, para quais o significado é recriado segundo interpretação do leitor. Isso pode ser resumido em duas tendências gerais: as formais e as dialogais. Ao se estabelecer o texto iconográfico, definem-se os elementos semânticos (e entre eles os não-verbais) a serem aproveitados em função das suas possibilidades narrativas (com as suas potencialidades conotativas, designativas, simbólicas, indicativas ou icônicas), com o objetivo de entabular comunicação direta com o leitor. Estabeleceram-se os códigos e subcódigos que organizam o sistema de signos textuais, procurando conscientemente refletir valores, atitudes, crenças, paradigmas e práticas, a fim de que as relações entre eles gerassem o sentido desejado nos leitores, mesmos os de diversas culturas e diferentes graus de erudição. Nesse sentido, observa-se a necessidade de ultrapassar os elementos comumente aceitos e gerais no percurso inventivo. Procura-se incorporar algum elemento conectado às visões autorais de mundo. O desafio é grande. É daí a idéia de lidar com algumas das questões humanas mais culturalmente inquietantes, entre que se contam sexo, morte, origem da vida, existência de Deus (ou de algum tipo de ser superior), o Além (da morte, da terra, a vida extraterrestre). Em termos mais gerais e usando terminologia mítica e psicanalítica: a resultante da relação entre Eros e Tanatos, entre a invenção e a destruição.
(continua no tópico seguinte)

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Está publicado no





Universalidade

(continuação do tópico acima)
A universalidade dos temas outro aspecto que sempre impressionou em arte. As metáforas e metonímias inerentes aos temas da poesia visual alcançam uma gama enorme de culturas, sendo os mesmos tópicos e motes emulados com freqüência enorme e reinterpretados sob as mais diferentes versões e em diferentes linguagens e manifestações estéticas.
Retomando o exemplo do tema das estações do ano, excelente para demonstrar como a Ciência e a Arte sempre tiveram presença transversal na cultura humana , assim como se interpenetram de modo incruento. Neste tema a Física se junta à Astronomia para explicar o fenômeno, enquanto a Música, a Pintura e a Poesia possibilitam viagens à imaginação, permitindo ver como esse mote tem estado presente há alguns séculos em várias culturas.
Partindo de diferentes objetos e eventos de arte, tais que se harmonizem com a vivência cultural ocidental em especial, podem-se recuperar fragmentos das ontologias climática e astronômica, por um lado – e estética, por outro, tanto presentes nas obras de poesia, música e pintura emulando as quatro estações, e assim motivar a construção de modelo mental que tenha suas bases na Física, na Matemática e na Música, Poesia e Pintura como representações estéticas daquele modelo.
A construção desse modelo é feita a partir de parâmetros multidimensionais e da rememoração de fatos do cotidiano, como observação de sombras ao longo de um dia ou do ano, relacionando-as à altura em que o Sol é visto no céu e às diferentes posições da Terra em seu movimento de translação. Tal construção se dá no entrelaçamento entre a observação climática (astronômica) e a sensibilidade estética, possibilitando a expressão retórica dos diferentes climas e afetos pelo fato de o planeta estar em diferentes posições ao longo de seu caminho em torno do Sol. Essa situação fática se traduz, por exemplo, em cromatismos distintos a cada estação, variações de temperatura e a uma série enorme de eventos de grande influência no cotidiano e com correspondências nas diversas regiões do Planeta.
Ao gerar representações mais amplas para explicar qualquer fenômeno cotidiano, nosso conhecimento intuitivo assume, de forma implícita, princípios sobre a natureza da realidade e atua conforme eles. No caso das estações do ano, o que se mostra sensorialmente perceptível para todos é o aquecimento maior ou menor de acordo com a distância entre o Sol e a Terra – o que ocorre em todas as áreas habitadas do planeta, ainda que em intensidades variadas. “O modelo físico da distribuição da radiação pela superfície de acordo com o ângulo de incidência foi elaborado pela ciência para dar sentido a uma realidade que não é facilmente percebida pelo senso comum imerso em figurações estéticas culturais.” Mas o modelo estético se propõe representar simultaneamente a realidade física do clima e a universalidade dos afetos que lhes correspondem bem como as correspondentes metáforas. É uma proposta universalizante.
O tema das quatro estações é um lugar-comum. Mas tão comum e tão sem lugar que é universal. A única abordagem para o universal passa a ser a proposta da retórica aristotélica de contrapô-lo ao particular deixando esta para o exercício do historiador e aquele para o poeta. A proposta é que o poema visual, expressão retórica da mimese transversal, é abordagem universalizante de temas universais.

Referências

EAGLETON, Terry. “Intentio Lectoris: apontamentos sobre a semiótica da recepção”. In: EAGLETON, Terry. Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva, 1995.
BLANCO Pablo Sotuyo, A potencialidade narrativa de uma “construção” sonoro-musical (2ª parte – Do Processo Criativo). Acesso a em 28 de fevereiro de 2007.
CITELLI, Adilson. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 1986.
FAZENDA, Carla Maria Arantes. O sentido da cor: uma investigação interdisciplinar. São Paulo: FAU/USP (Tese), 2001.
HERNANDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: ArtMed, 1998.
HANSEN, João Adolfo. “Ut pictura poesis e verossimilhança na doutrina do conceito no século XVII.” In: VV. AA. Para Segismundo Spina. São Paulo: Iluminuras, Fapesp, Edusp, 1995.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Editora Objetiva, 2001.
MONGELLI, Lênia Márcia. A indisciplinada retórica de Platão. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
MORA, Carlos de Miguel. Os limites de uma comparação: ut pictura poesis. Ágora. Estudos Clássicos em Debate 6 p7-26, 2004.
NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999.
PEDROSA, Mário. Ciência e Arte: vasos comunicantes. In: Ferreira, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 2006; p.49-54.
QUEIROZ, Glória Pessoa, LIMA, Maria da Conceição Barbosa, VASCONCELLOS, Maria das Mercês Navarro. Física e arte nas estações do ano. Rev. Lat.-Am. de Educação em Astronomia – RELEA, n. 1, p. 33-54, 2004.
RIPA, Cesare. Iconologia overo descrittione dell'imagini universali cavate dall'antichità et da altri luoghi da Cesare Ripa perugino. Opera non meno utile, che necessaria à poeti, pittori, & scultori, per rappresentare le virtù, vitii, affetti, & passioni humane. Roma: per gli heredi di Gio. Gigliotti, 1593.
SALLES, Filipe. Imagens Musicais ou Música Visual – Um estudo sobre as afinidades entre o som e a imagem, baseado no filme ‘Fantasia’ (1940) de Walt Disney”. São Pulo: PUC/SP (Dissertação), 2002.
SANTAELLA, Lucia. Semiótica aplicada. São Paulo: Editora Thomsom, 2004.
TREFZGER, Fabíola Simão Padilha. Neobarroco – a apoteose do artifício. Acesso a

Versão completa do artigo, devidamente anotada, pode ser obtida clicando aqui.
Está publicado no

14 de novembro de 2008

Revisão de prova...

"Oi profeçor, tudo joia?
Esto iscreveno pra pergunta da nota na prova semana passada. foi tipo assim mei ruim né
será que num da pra repitir a prva o faz~e de novo a mesma?
é que vai sê foda no fim do ano se eu num passaá intão vai, lá - tipo assim repete a nota ou então eu vou ver como eu fasso
num si não, vosse cascou mesmo na nota do povo, mais na minha foi dimais intão eu axo qeu meresso uma revizão pelo menos
valews"
Enviei, de brincadeira, o texto acima a um amigo, professor de português. A universalidade do questionamento e o absurdo da interpelação são tão corriqueiros que o colega achou mesmo que se tratava de algum aluno dele, mesmo o envio tendo sido assinado por mim!
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Revisão de dissertção ou tese só na Keimelion.