22 de agosto de 2010

Texto da memória


Este texto não se faz por partes. Ele é concebido, projetado e registrado em conjunto, todas as partes ao mesmo tempo. Trata-se uma recuperação de memória e seu registro simultâneo, trata-se de dar estrutura sintática a cada lembrança e explorar semanticamente cada possibilidade representativa das palavras para fixar uma memória. Trata o texto de ser de uma macroestrutura representativa estática tentando fixar uma estrutura hipercomplexa e dinâmica. E o texto não é todo a um só tempo, mesmo já o sendo. O texto é a parte dele em que estamos, mesmo sendo o que já dele conhecemos e o que viremos a conhecer. Assim como a vida, ou as memórias – que são igualmente apenas o presente e a afloração do agora, também sendo o perfeito e o mais-que-perfeito tanto quanto os devires. E note aqui que saí do campo das metáforas, não substituindo texto por vida – apenas traçando entre ambos o paralelo material.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
[…] (Gregório de Matos)
As pesquisas envolvendo busca de memória, principalmente as baseadas na oralidade, têm a fala como veículo das lembranças e os artifícios metodológicos (posto que toda metodologia é artificial em busca de uma complexidade fática inalcançável) resultam em procedimentos de elicitação da informação de diversos sujeitos passivos na pesquisa por um (ou mais) pesquisadores ativos.

17 de agosto de 2010

Memória e imagem

Foto: MUSEU DA IMAGEM E MEMÓRIA DE CONGONHAS
 
Memórias nos acorrem livremente, sem que para isso seja necessário maior esforço ou concentração.
Há imagens que acodem à mente facilmente e em sequência ordenada à medida que são chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamente quando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. (Agostinho de Hipona, 1999)
Quando faz o exercício intelectual de abstrair a existência do conhecimento teórico e filosófico, sobra para Henri (Bergson, 1999) a presença da imagem. Imagem como elemento da percepção sensorial do exterior, da existência alterna, exterioridade e alteridade ao Ego – ultrapassando aqui aquele autor. Dentre os registros sensoriais, há claro privilégio para o imagético. E o conhecimento pela imagem, que em Bergson era possível para o mundo exterior, inclusive para o exterior do próprio sujeito que, mesmo se conhecendo interiormente, sobre esse ângulo não o fazia por imagem, alcança agora os limites do interior do corpo alheio ou próprio, pois os registros imagéticos rudimentares da radiografia estão há muito superados pela tomografia computadorizada, capaz de registros materiais do interior dos indivíduos como não o eram à época do autor. E os registros sensoriais que permitiam aos indivíduos a existência em conflito com o mundo exterior adverso, permitem-lhe agora combater os males internos de natureza física.
Tudo se passa como se, nesse conjunto de imagens que chamo universo, nada se pudesse produzir de realmente novo a não ser por intermédio de certas imagens particlares, cujo modelo me é fornecido por meu corpo. (Bergson, 1999, p. 12)
E pelas semelhanças e contrastes entre as imagens se constrói o conhecimento. E as redes neurais, preconizadas pela neuroanatomia do XIX, agora são mapeadas à exaustão pelos escâneres magnéticos, tomógrafos ou microscópios eletrônicos, cada um sob um prisma, reproduzindo em imagens a estrutura geradora da emoção e da lembrança, registrando-lhe até mesmo a atividade, sem contudo decifrar-lhe a completa motivação ou natureza transcendente ao registro imagético. E a representação das imagens em nosso cérebro é de tal natureza significativa que pode ser presumida pela grande parcela daquele órgão reservada a seu processamento, assim como pela dimensão do nervo ótico, condutor dos dados visuais.
O cérebro é parte do mundo material, que nele é representado principalmente por imagens. O cérebro não condiciona as imagens, mas as interpreta. O cérebro interpreta as relações entre as imagens do corpo e as exteriores como movimento. Compreendendo o corpo como matéria ou imagem, Bergson infere que se o corpo é capaz de agir sobre os outros corpos, sofre deles igualmente influência, em qualquer das duas naturezas.
Essa influência é recíproca e sua manifestação de maior interesse aqui é a memória.
Se, por acaso, alguma coisa, como qualquer corpo visível, desaparece da vista, não da memória, conserva-se interiormente a sua imagem e, procura-se, até que seja restituída à vista. Logo que for encontrada, é reconhecida pela imagem que está dentro de nós. Não dizemos que encontramos o que estava perdido, se não o reconhece-mos, nem o podemos reconhecer, se não nos lembrarmos: mas aquilo que, de fato, estava perdido para os olhos, conserva-se na memória. (Agostinho de Hipona, 1999).

13 de agosto de 2010

Minha gênese

Casa em que fui criado, em Ouro Preto
 
Sou quinto filho, caçula extemporâneo. Meus pais , primos entre si, advêm de antigas famílias portuguesas radicadas no Brasil ainda pelo tempo da Colônia, na maior parte das raízes. No século e meio que me antecedeu, todos os troncos familiares indicam meus ancestrais e os colaterais situados posições socioeconômicas da média para cima. Parece que meus pais representariam um vale no gráfico que expressasse as situações sociais de meus ancestrais.
Três varões e deles me separa uma irmã, dez anos mais velha que eu, antecederam-me na prole de meus pais. Pela diferença de idade, só muito depois da maturidade deixei de ser – de um modo ou de outro – menos ligado a eles que eles entre si.
Meu pai  tinha curso médio, exerceu os ofícios de desenhista e montador mecânico, um operário de qualificação intermediária nas indústrias metalúrgicas da região. Detestava a condição de empregado. Sempre que entrevia a possibilidade, aventurava-se em algum negócio próprio, malversando capitais de heranças, indenizações trabalhistas e raras economias nas mais diferentes empreitadas falimentares.
Minha mãe  tinha formação de magistério. Lecionava vez ou outra pelas escolas das redondezas quando a bolsa requeria – o que não era raro. Mas não tinha nenhuma vocação para o ofício de mestra. Formou-se em Turismo já madura, quando eu já havia ingressado na universidade. Mas o bacharelado não lhe serviu a outra coisa além de ao exercício – novamente – do magistério, agora no ensino técnico. Ela e eu fomos colegas no último emprego que ela teve, um dos primeiros meus: uma escola estadual em Mariana.
Meus avôs eram médico e farmacêutico um, juiz de direito outro – assim como o pai de ambos. Estes três foram internos no Seminário de nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana, a seus tempos, mesmo lugar em que eu estudaria com muitas décadas de intervalo. Minhas avós provinham de famílias muito abastadas, ligadas às grandes propriedades rurais, mineração aurífera e todo tipo de renda da propriedade. Nenhuma delas teve educação formal superior, mas aquelas prendas que cabiam às moças de posses a seu tempo não lhes foram negadas.
Ainda pela minha infância, meus irmãos foram saindo de casa. Saiam e depois voltavam, segundo as marés da vida lhes fossem favoráveis aqui ou alhures. Depois foram se casando, mas as idas e vindas continuaram bissextas e o lar paterno teimava em ser-lhes o porto seguro.
Este lar, de minha infância e primeira parte de minha vida adulta, foi também para mim o estaleiro de minha formação e a doca onde me abriguei a cada mau sucesso. A casa ainda está lá, quando escrevo estas linhas. Mas já não há pais nem filhos nela: está vazia e à venda. Do desmonte daquele lar os objetos da infância e dos ancestrais ali acumulados tomaram outros rumos, em anemocoria de recordações latentes em coisas cuja ordem ou desordem, proximidade e guarda residia um discurso que está agora perdido – exceto na memória. E para que esta memória se reconstrua surge este texto.
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Revisão de dissertção ou tese só na Keimelion.