21 de outubro de 2008

A cruz e o beijo

Duas manifestações estéticas cujas referências cristãs diretas e polêmicas têm dado motivo a contestações por parte de pessoas que se sentem ofendidas. As pessoas recorrem ao poder público, a quem as duas peças pertencem, patrimônio que são de municipalidades, uma na Argentina, outra na Itália. As pessoas denunciam ao clero romano das respectivas dioceses. O clero pressiona os governos. E os governos, lá e cá dão ouvido às queixas, porém respondem ambos no sentido de que preservarão integralmente o direito da manifestação estética de cada um dos artistas e exercerão o próprio direito de expor as obras.
La Historia de Amor más Grande, más Bella y más Heroica de Todos los Tiempos, fotomontagem de Mauro Guzmán exposta no Museu Castagnino em Buenos Aires que mostra o Super-Homem beijando Cristo.
Zuerst die fusse (primeiro os pés), assemblage de Martin Kippenberger, exposta no Museion, museu de Bolzano, Itália, mostra uma rã verde crucificada.
Não farei aqui crítica estética dos objetos, mas informo que tenho apreciação favorável de ambos. É bem claro que os artistas jogaram contra valores estabelecidos, contestando-os ou mesmo os reafirmando, dependendo da leitura que se faça de cada peça, já que ambas permitem interpretações muito amplas.
Quero apontar outra abordagem sobre esses episódios, qual seja o discurso dos poderes públicos, que pode ser traduzido da seguinte forma: “eu reafirmo, confirmo e manifesto a liberdade de expressão”. Mas será que, ao acolher e expor obras polêmicas os governos estão mesmo exercendo e acolhendo a verdadeira liberdade expressiva – e esse é o ponto – ou usando a claríssima controvérsia religiosa para mascarar o verdadeiro cerceamento às liberdades de manifestação e pensamento?
Uma das formas de testar a questão pode ser imaginando, como fizeram algumas das pessoas que reclamaram contra a exposição dessas “heresias”, se os tais governos adquiririam e exporiam estrelas de Davi com sapos pregados ou Tio San beijando Maomé (os exemplos são meus). Essas hipóteses parecem descartadas pelo fato de que nada se tenha verificado que se aproxime delas. Ofender a fé cristã, ou fazer inimigos no Vaticano pode. Ofender o islã, ou ter inimigos em Meca é bem mais complicado.
Aqui entram em pauta algumas ponderações bem distintas; a primeira é que está em moda o comportamento politicamente correto. Assim, não é bom ofender os judeus, que foram tão maltratados pelo mundo afora e se deram tão bem em Wall Street – pelo mesmo motivo, não se pode questionar nenhuma política do Estado de Israel, seja ela murar, identificar e cercear de modo tão semelhante ao dos nazistas em Varsóvia nos anos de 1940. Do mesmo modo não é bom dizer que o islã é uma religião opressora, mesmo que seja uma fé propagada a ferro e fogo desde que Gabriel resolveu soprar o Corão no ouvido de Maomé. Já o cristianismo, esqueçamos que em seu nome as populações das Américas foram trucidadas e da África escravizadas durante uns 400 anos... A Santa Sé de Roma não tem mais tropas e já entendeu que suas excomunhões valem hoje menos que ações da Mesbla; mas como os vigários do Papa andaram papando mais criancinhas pelo mundo afora nas últimas décadas que todos os comunistas durante um século, dá para se aceitar colocar em cheque os valores da cruz e é melhor não bulir com a estrela e o crescente.
Resumo da missa: os governos estão topando fazer os valores cristãos de boi de piranha para ostentar sua pseudo-tolerância, sua hipocrisia em forma de liberdade de expressão. Enquanto dão guarida a agentes culturais que resguardam o direito de uns ofenderem outros, que coisas estarão sendo ocultadas? Não vamos botar fogo no mundo em nome de nenhuma liberdade, mas usemos a liberdade para controlar o mundo. Bem moderno isso. Só para encerrar, lembremo-nos de que entre beijo e crucifixão existe relação causal direta com fundamentação bíblica. Na relação entre eleger alguém que pague o pato e trair o escolhido a história se repete. Será que é a vez de sacrificarmos o conceito de liberdade?

Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

4 comentários:

  1. É próprio da humanidade manter-se por conveniências e interesses próprios. Isso estende-se até os governos hipócritas desde indivíduos que armam um marketing denominado arte em benefício da própria fama.

    No mais: "crucifixão"? Era pra ser crucificação ou um grande crucifixo? Risos

    Frase célebre que explica muita coisa: "Enquanto dão guarida a [agentes culturais que resguardam o direito de uns ofenderem outros],..."

    ResponderExcluir
  2. Obrigado por comentar; crucifixão: substantivo feminino
    m.q. crucificação
    Confira com mestre Houaiss.

    ResponderExcluir
  3. Hauehauea... Consultei um outro "mestre" mesmo. Embora as duas formas sejam corretas, não é muito comum ou usual "crucifixão" para o ato de crucificar.

    ResponderExcluir
  4. Hum... eu troco 1000 ações da Mesbla por uma excomunhão. Ia ser todo chique hoje em dia... ia ter atestado que uns caras de batina não gostam de mim. Adoraria! Colocaria o papel num quadro de vidro como se fosse diploma de honestidade e bom carácter e mostraria, pomposo e vaidoso, a todo mundo que visitasse minha casa!

    ResponderExcluir

Diga o que disser, eu publico se me aprouver.