A psicologia em Belisário: o último dos romanos
A psicologia dos personagens em Belisário: o último dos
romanos não é adorno; é o próprio motor secreto do romance. A narrativa se
organiza menos em torno de grandes reviravoltas externas e mais em torno de
deslocamentos internos, de consciência, de desejo, de culpa, de medo. O que
torna o livro tão denso é justamente o fato de que cada personagem importante é
construído como um nó de forças psíquicas e sociais, nunca como tipo fixo. A
interioridade aqui não é psicologismo barato; é campo de tensão em que se
cruzam história, poder e inconsciente.
Belisário, por exemplo, é figura que se presta facilmente
à leitura heroica, mas o romance recusa esse caminho fácil. Psicologicamente,
ele é construído como sujeito da medida, da contenção, da prudência. Em termos
weberianos, ele encarna a ética da responsabilidade, não da convicção: não age
para afirmar o eu grandioso, mas para responder às exigências concretas da
situação. Essa postura, porém, não é frieza; é forma de elaboração. À luz da
psicanálise contemporânea, poderíamos dizer que Belisário é alguém que
conseguiu, em grande parte, transformar pulsões de destruição e desejo de
glória em algo como sublimação: a energia que poderia se manifestar como
vaidade ou crueldade aparece como cálculo, cuidado, atenção ao outro. Ele não é
santo, o romance não o idealiza, mas é alguém que parece ter feito o trabalho
interno de domesticação da hybris. Isso o coloca em contraste radical
com o ambiente da corte, onde o narcisismo, no sentido de Christopher Lasch,[1]
é quase norma estrutural: o mundo em que o reconhecimento vale mais que a
substância, e em que a imagem importa mais que o gesto.
Procópio, por sua vez, é o personagem em que a psicologia
se torna mais visível, porque é ele quem narra e, ao narrar, se expõe. Ele é
sujeito dividido, atravessado por conflitos que lembram, em muitos aspectos, a
estrutura neurótica descrita por Freud[2]
e relida por Lacan:[3]
há o eu que deseja ser racional, objetivo, “historiador”, e há outro eu que
ama, inveja, teme, admira, ressente. O romance explora essa divisão sem jamais
reduzi-la a diagnóstico. Procópio é, ao mesmo tempo, o intelectual que acredita
na força da forma, na frase bem construída, na narrativa ordenada, e o homem
que percebe que essa forma foi usada para trair, omitir, distorcer. A culpa que
o atravessa não é apenas moral; é também epistemológica: ele se pergunta o que
fez com aquilo que viu, como transformou experiência em texto, e que tipo de
violência simbólica cometeu ao fazê-lo. Aqui, a teoria sociológica de Bourdieu[4]
ajuda a iluminar o quadro: Procópio é agente situado em campo específico, o
campo intelectual ligado ao poder imperial, e sua subjetividade é moldada por
essa posição ambígua, dependente do favor, mas desejoso de autonomia. O romance
mostra como essa posição produz a psicologia da hesitação, da autocensura, da
duplicidade, que não é simples fraqueza individual, mas efeito de estrutura.
A relação entre Procópio e Belisário é, talvez, o ponto
mais delicado psicologicamente. Ela não é nomeada como amor, mas tudo na
construção narrativa aponta para investimento afetivo intenso, que a
psicanálise poderia descrever como transferência, idealização e, em certa
medida, identificação. Procópio projeta em Belisário a figura de integridade
que ele próprio não consegue encarnar; ao mesmo tempo, sente-se responsável por
como o mundo verá esse homem. Há algo de melancólico, no sentido de Freud[5]
e de Judith Butler,[6]
nessa relação: o objeto amado não pode ser plenamente possuído nem plenamente
dito, e essa impossibilidade retorna como trabalho interminável de escrita. O
narrador escreve para reparar, para fazer justiça, para se reconciliar consigo
mesmo, mas sabe que nenhuma narrativa será suficiente. Esse excesso de
investimento afetivo, que o romance procura tratar com extrema sobriedade,
reorganiza toda a psicologia do narrador: ele não é apenas alguém que conta a
história de um general; é alguém que tenta, ao contar, salvar algo de si.
Justiniano, embora apareça menos por dentro, é construído
como figura psíquica e política ao mesmo tempo. Ele encarna o que a teoria
política contemporânea, de Schmitt[7]
a Agamben,[8]
chamaria de soberania: o poder de decidir sobre o estado de exceção, de
suspender regras, de fazer e desfazer destinos. Psicologicamente, isso se
traduz em subjetividade marcada pela distância, pela frieza calculista, pela
incapacidade de reconhecer plenamente a alteridade dos outros. Se Belisário é o
homem da medida, Justiniano é o homem da abstração: pensa em termos de império,
de projeto, de glória, e essa escala o afasta das vidas concretas que mobiliza.
A sociologia de Elias sobre a sociedade de corte ajuda a entender esse tipo de
personalidade: o soberano é, ao mesmo tempo, centro de tudo e isolado de todos,
cercado por intrigas, bajulações e medos. O romance sugere que essa posição
produz uma psicologia específica, em que a confiança é rara, a paranoia é
estrutural e o outro é sempre, em alguma medida, instrumento.
A corte, como coletivo, é quase personagem psicológico em
si. Ela funciona como laboratório de afetos sociais: inveja, ressentimento,
medo, desejo de ascensão, prazer na queda alheia. A teoria de Norbert Elias[9]
sobre o processo civilizador e a sociologia de Goffman[10]
sobre a apresentação de si em contextos formais são chaves úteis aqui. O
romance mostra como os indivíduos, nesse ambiente, aprendem a modular gestos,
palavras, silêncios, de modo a sobreviver no espaço em que tudo é observado e
tudo pode ser usado contra alguém. Essa pressão constante produz subjetividades
defensivas, calculistas, muitas vezes cínicas. Em contraste, a psicologia de
Belisário aparece quase como anomalia: ele não joga o jogo com a mesma
intensidade, e é justamente isso que o torna, ao mesmo tempo, admirado e
perigoso aos olhos dos outros.
Há também nítida dimensão coletiva da psicologia que o
romance explora com sutileza: a da cidade, do povo, dos soldados. A forma como
Constantinopla reage ao perigo, ao rumor, à glória e ao esquecimento revela
algo como um inconsciente social, no sentido de Cornelius Castoriadis:[11]
um conjunto de significações imaginárias que organizam o modo pelo qual a a
comunidade percebe a si mesma e ao seu tempo. O medo das invasões, a confiança
quase mágica nas muralhas, a rapidez com que o pânico se dissipa quando o
perigo recua, tudo isso compõe a psicologia coletiva que não é mero pano de
fundo, mas parte da textura do mundo em que os personagens se movem. Belisário
e Procópio não são apenas indivíduos; são sujeitos atravessados por esse
imaginário social, ora confirmando-o, ora resistindo a ele.
Outro aspecto particularmente interessante é a maneira
como o romance trabalha a relação entre interioridade e forma social. A
psicanálise, especialmente em autores como Winnicott[12]
e Bollas,[13]
insiste na ideia de que o eu se constitui em relação a ambientes, familiares,
institucionais, culturais. Aqui, o ambiente é o Império em transformação, a
corte, o exército, a cidade. A psicologia dos personagens não pode ser separada
dessas estruturas. Belisário é quem é também porque se formou naquele mundo em
que a guerra é constante, em que a lealdade é ambígua, em que a glória é
instável. Procópio é quem é porque aprendeu a escrever no sistema que
recompensa a obediência e pune a franqueza. O romance, ao mostrar essas
trajetórias, sugere algo próximo da sociologia de C. Wright Mills:[14]
a ideia de que biografia e história se cruzam, e que compreender um indivíduo
exige compreender o contexto histórico que o molda.
Por fim, a psicologia dos personagens em Belisário: o
último dos romanos é inseparável de alguma ética. Não se trata apenas de
entender “como eles são por dentro”, mas de perguntar o que fazem com aquilo
que são. Belisário, com sua prudência e sua recusa do exibicionismo, encarna a
forma de caráter que lembra as virtudes clássicas reinterpretadas por Alasdair
MacIntyre:[15]
constância, coragem, justiça, temperança, mas sempre sob o signo da consciência
dos limites. Procópio, com sua culpa e seu esforço de reparação, encarna a
ética da responsabilidade tardia: ele não pode desfazer o que escreveu, mas
pode tentar escrever de outro modo. Justiniano e a corte, com sua psicologia do
poder, encarnam o risco permanente de reduzir o outro a função. O romance, ao
explorar essas psicologias, não oferece diagnósticos fechados; oferece, antes,
um campo de reflexão em que o leitor é convidado a reconhecer, nesses homens de
outro tempo, estruturas psíquicas e sociais que continuam, de formas
diferentes, a nos atravessar.
[1] Lasch, C. (1979). The
culture of narcissism: American life in an age of diminishing expectations.
New York: W. W. Norton. Lasch diagnostica a formação de um
sujeito defensivo, fragilizado e voltado para a autopreservação, um “eu mínimo”
que emerge da crise das instituições sociais e da erosão da vida pública. É
exatamente esse diagnóstico que foi aplicado para pensar a subjetividade tardo‑antiga
e suas ressonâncias contemporâneas.
[2] Freud, S. (1914). Zur Einführung des
Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, 6, 1-24. Freud formula a teoria do narcisismo, introduz
o “ideal do eu” e descreve a vulnerabilidade constitutiva do sujeito, empregados
aqui para pensar a subjetividade tardo‑antiga.
[3] Lacan, J. (1949). Le stade du miroir
comme formateur de la fonction du Je. Revue française de
psychanalyse, 13(4), 449-455. Lacan apresenta pela primeira vez, de forma
pública e sistemática, a teoria do estádio do espelho, fundamental para a
análise do eu como construção imaginária e precária.
[4] Bourdieu, P. (1972). Esquisse
d’une théorie de la pratique, précédé de trois études d’ethnologie kabyle. Genève:
Librairie Droz. Bourdieu formula a noção de habitus como sistema de
disposições incorporadas, estruturadas e estruturantes, a que se recorre para
pensar a subjetividade tardo‑antiga como produto de práticas, posições e
esquemas internalizados.
[5] Freud, S. (1914). Zur Einführung des
Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, 6, 1-24. Freud introduz descreve a vulnerabilidade do
eu e formula o conceito de “ideal do eu”.
[6] Butler, J. (1997). The psychic
life of power: Theories in subjection. Stanford, CA: Stanford
University Press. Butler articula a teoria do assujeitamento, mostrando como o
sujeito é constituído por normas que, ao mesmo tempo, o formam e o subordinam; empregamos
para pensar a vulnerabilidade subjetiva.
[7] Schmitt, C. (1922). Politische
Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveränität. München:
Duncker & Humblot. Schmitt formula a tese fundamental: o soberano é quem
decide sobre o estado de exceção. Essa noção é aplicada para pensar a exposição
do sujeito à decisão soberana e à suspensão das garantias normativas.
[8] Agamben, G. (1995). Homo sacer: Il
potere sovrano e la nuda vita. Torino: Giulio Einaudi Editore. Agamben
desenvolve a noção de vida nua e reconstrói a teoria da soberania a partir de
Schmitt, Benjamin e Arendt.
[9] Elias, N. (1939). Über den Prozeß der
Zivilisation: Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen (2
vols.). Basel: Haus zum Falken. Elias analisa a formação histórica do
autocontrole, a interiorização das normas sociais e a constituição de
estruturas psíquicas duráveis, aplicados aqui para pensar a subjetividade tardo‑antiga
e suas ressonâncias contemporâneas.
[10] Goffman, E. (1956). The
presentation of self in everyday life. Edinburgh: University
of Edinburgh, Social Sciences Research Centre. Goffman apresenta sua teoria
dramatúrgica da vida social, descrevendo o eu como uma construção performativa
e vulnerável, dependente do reconhecimento alheio.
[11] Castoriadis, C. (1975). L’institution
imaginaire de la société. Paris: Éditions du Seuil. Castoriadis
desenvolve a noção de imaginação radical e de significações imaginárias
sociais, fundamentais para compreender como subjetividades são produzidas
historicamente.
[12] Winnicott, D. W. (1965). The
maturational processes and the facilitating environment: Studies in the theory
of emotional development. London: Hogarth Press. Winnicott apresenta
sua teoria do ambiente facilitador, do self verdadeiro/falso e da dependência,
aplicados para pensar a vulnerabilidade subjetiva.
[13] Bollas, C. (1987). The
shadow of the object: Psychoanalysis of the unthought known. London:
Free Association Books. Bollas desenvolve a noção de “o não‑pensado
sabido” e do “objeto transformacional”, fundamentais para compreender a
constituição do self e sua
vulnerabilidade.
[14] Mills, C. W. (1959). The
sociological imagination. New York: Oxford University Press. Mills
formula a ideia de que a experiência pessoal é inseparável das estruturas
sociais e históricas. Ele critica a privatização da vida, a perda de agência e
a formação de sujeitos isolados; o que é valido pensar a subjetividade tardo‑antiga
e suas ressonâncias contemporâneas.
[15] MacIntyre, A. (1981). After
virtue: A study in moral theory. Notre Dame, IN: University of Notre Dame
Press. MacIntyre argumenta que a modernidade produziu um sujeito moral
fragmentado, privado de narrativas e tradições que deem unidade à vida. Ele
propõe que o self só pode ser compreendido como narrativa em construção,
situada em práticas e tradições.



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