20 de abril de 2026

Psicologia e romance histórico

 A psicologia em Belisário: o último dos romanos


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A psicologia dos personagens em Belisário: o último dos romanos não é adorno; é o próprio motor secreto do romance. A narrativa se organiza menos em torno de grandes reviravoltas externas e mais em torno de deslocamentos internos, de consciência, de desejo, de culpa, de medo. O que torna o livro tão denso é justamente o fato de que cada personagem importante é construído como um nó de forças psíquicas e sociais, nunca como tipo fixo. A interioridade aqui não é psicologismo barato; é campo de tensão em que se cruzam história, poder e inconsciente.

Belisário, por exemplo, é figura que se presta facilmente à leitura heroica, mas o romance recusa esse caminho fácil. Psicologicamente, ele é construído como sujeito da medida, da contenção, da prudência. Em termos weberianos, ele encarna a ética da responsabilidade, não da convicção: não age para afirmar o eu grandioso, mas para responder às exigências concretas da situação. Essa postura, porém, não é frieza; é forma de elaboração. À luz da psicanálise contemporânea, poderíamos dizer que Belisário é alguém que conseguiu, em grande parte, transformar pulsões de destruição e desejo de glória em algo como sublimação: a energia que poderia se manifestar como vaidade ou crueldade aparece como cálculo, cuidado, atenção ao outro. Ele não é santo, o romance não o idealiza, mas é alguém que parece ter feito o trabalho interno de domesticação da hybris. Isso o coloca em contraste radical com o ambiente da corte, onde o narcisismo, no sentido de Christopher Lasch,[1] é quase norma estrutural: o mundo em que o reconhecimento vale mais que a substância, e em que a imagem importa mais que o gesto.

Procópio, por sua vez, é o personagem em que a psicologia se torna mais visível, porque é ele quem narra e, ao narrar, se expõe. Ele é sujeito dividido, atravessado por conflitos que lembram, em muitos aspectos, a estrutura neurótica descrita por Freud[2] e relida por Lacan:[3] há o eu que deseja ser racional, objetivo, “historiador”, e há outro eu que ama, inveja, teme, admira, ressente. O romance explora essa divisão sem jamais reduzi-la a diagnóstico. Procópio é, ao mesmo tempo, o intelectual que acredita na força da forma, na frase bem construída, na narrativa ordenada, e o homem que percebe que essa forma foi usada para trair, omitir, distorcer. A culpa que o atravessa não é apenas moral; é também epistemológica: ele se pergunta o que fez com aquilo que viu, como transformou experiência em texto, e que tipo de violência simbólica cometeu ao fazê-lo. Aqui, a teoria sociológica de Bourdieu[4] ajuda a iluminar o quadro: Procópio é agente situado em campo específico, o campo intelectual ligado ao poder imperial, e sua subjetividade é moldada por essa posição ambígua, dependente do favor, mas desejoso de autonomia. O romance mostra como essa posição produz a psicologia da hesitação, da autocensura, da duplicidade, que não é simples fraqueza individual, mas efeito de estrutura.

A relação entre Procópio e Belisário é, talvez, o ponto mais delicado psicologicamente. Ela não é nomeada como amor, mas tudo na construção narrativa aponta para investimento afetivo intenso, que a psicanálise poderia descrever como transferência, idealização e, em certa medida, identificação. Procópio projeta em Belisário a figura de integridade que ele próprio não consegue encarnar; ao mesmo tempo, sente-se responsável por como o mundo verá esse homem. Há algo de melancólico, no sentido de Freud[5] e de Judith Butler,[6] nessa relação: o objeto amado não pode ser plenamente possuído nem plenamente dito, e essa impossibilidade retorna como trabalho interminável de escrita. O narrador escreve para reparar, para fazer justiça, para se reconciliar consigo mesmo, mas sabe que nenhuma narrativa será suficiente. Esse excesso de investimento afetivo, que o romance procura tratar com extrema sobriedade, reorganiza toda a psicologia do narrador: ele não é apenas alguém que conta a história de um general; é alguém que tenta, ao contar, salvar algo de si.

Justiniano, embora apareça menos por dentro, é construído como figura psíquica e política ao mesmo tempo. Ele encarna o que a teoria política contemporânea, de Schmitt[7] a Agamben,[8] chamaria de soberania: o poder de decidir sobre o estado de exceção, de suspender regras, de fazer e desfazer destinos. Psicologicamente, isso se traduz em subjetividade marcada pela distância, pela frieza calculista, pela incapacidade de reconhecer plenamente a alteridade dos outros. Se Belisário é o homem da medida, Justiniano é o homem da abstração: pensa em termos de império, de projeto, de glória, e essa escala o afasta das vidas concretas que mobiliza. A sociologia de Elias sobre a sociedade de corte ajuda a entender esse tipo de personalidade: o soberano é, ao mesmo tempo, centro de tudo e isolado de todos, cercado por intrigas, bajulações e medos. O romance sugere que essa posição produz uma psicologia específica, em que a confiança é rara, a paranoia é estrutural e o outro é sempre, em alguma medida, instrumento.

A corte, como coletivo, é quase personagem psicológico em si. Ela funciona como laboratório de afetos sociais: inveja, ressentimento, medo, desejo de ascensão, prazer na queda alheia. A teoria de Norbert Elias[9] sobre o processo civilizador e a sociologia de Goffman[10] sobre a apresentação de si em contextos formais são chaves úteis aqui. O romance mostra como os indivíduos, nesse ambiente, aprendem a modular gestos, palavras, silêncios, de modo a sobreviver no espaço em que tudo é observado e tudo pode ser usado contra alguém. Essa pressão constante produz subjetividades defensivas, calculistas, muitas vezes cínicas. Em contraste, a psicologia de Belisário aparece quase como anomalia: ele não joga o jogo com a mesma intensidade, e é justamente isso que o torna, ao mesmo tempo, admirado e perigoso aos olhos dos outros.

Há também nítida dimensão coletiva da psicologia que o romance explora com sutileza: a da cidade, do povo, dos soldados. A forma como Constantinopla reage ao perigo, ao rumor, à glória e ao esquecimento revela algo como um inconsciente social, no sentido de Cornelius Castoriadis:[11] um conjunto de significações imaginárias que organizam o modo pelo qual a a comunidade percebe a si mesma e ao seu tempo. O medo das invasões, a confiança quase mágica nas muralhas, a rapidez com que o pânico se dissipa quando o perigo recua, tudo isso compõe a psicologia coletiva que não é mero pano de fundo, mas parte da textura do mundo em que os personagens se movem. Belisário e Procópio não são apenas indivíduos; são sujeitos atravessados por esse imaginário social, ora confirmando-o, ora resistindo a ele.

Outro aspecto particularmente interessante é a maneira como o romance trabalha a relação entre interioridade e forma social. A psicanálise, especialmente em autores como Winnicott[12] e Bollas,[13] insiste na ideia de que o eu se constitui em relação a ambientes, familiares, institucionais, culturais. Aqui, o ambiente é o Império em transformação, a corte, o exército, a cidade. A psicologia dos personagens não pode ser separada dessas estruturas. Belisário é quem é também porque se formou naquele mundo em que a guerra é constante, em que a lealdade é ambígua, em que a glória é instável. Procópio é quem é porque aprendeu a escrever no sistema que recompensa a obediência e pune a franqueza. O romance, ao mostrar essas trajetórias, sugere algo próximo da sociologia de C. Wright Mills:[14] a ideia de que biografia e história se cruzam, e que compreender um indivíduo exige compreender o contexto histórico que o molda.

Por fim, a psicologia dos personagens em Belisário: o último dos romanos é inseparável de alguma ética. Não se trata apenas de entender “como eles são por dentro”, mas de perguntar o que fazem com aquilo que são. Belisário, com sua prudência e sua recusa do exibicionismo, encarna a forma de caráter que lembra as virtudes clássicas reinterpretadas por Alasdair MacIntyre:[15] constância, coragem, justiça, temperança, mas sempre sob o signo da consciência dos limites. Procópio, com sua culpa e seu esforço de reparação, encarna a ética da responsabilidade tardia: ele não pode desfazer o que escreveu, mas pode tentar escrever de outro modo. Justiniano e a corte, com sua psicologia do poder, encarnam o risco permanente de reduzir o outro a função. O romance, ao explorar essas psicologias, não oferece diagnósticos fechados; oferece, antes, um campo de reflexão em que o leitor é convidado a reconhecer, nesses homens de outro tempo, estruturas psíquicas e sociais que continuam, de formas diferentes, a nos atravessar.



[1] Lasch, C. (1979). The culture of narcissism: American life in an age of diminishing expectations. New York: W. W. Norton. Lasch diagnostica a formação de um sujeito defensivo, fragilizado e voltado para a autopreservação, um “eu mínimo” que emerge da crise das instituições sociais e da erosão da vida pública. É exatamente esse diagnóstico que foi aplicado para pensar a subjetividade tardo‑antiga e suas ressonâncias contemporâneas.

[2] Freud, S. (1914). Zur Einführung des Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 6, 1-24. Freud formula a teoria do narcisismo, introduz o “ideal do eu” e descreve a vulnerabilidade constitutiva do sujeito, empregados aqui para pensar a subjetividade tardoantiga.

[3] Lacan, J. (1949). Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je. Revue française de psychanalyse, 13(4), 449-455. Lacan apresenta pela primeira vez, de forma pública e sistemática, a teoria do estádio do espelho, fundamental para a análise do eu como construção imaginária e precária.

[4] Bourdieu, P. (1972). Esquisse d’une théorie de la pratique, précédé de trois études d’ethnologie kabyle. Genève: Librairie Droz. Bourdieu formula a noção de habitus como sistema de disposições incorporadas, estruturadas e estruturantes, a que se recorre para pensar a subjetividade tardo‑antiga como produto de práticas, posições e esquemas internalizados.

[5] Freud, S. (1914). Zur Einführung des Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 6, 1-24. Freud introduz descreve a vulnerabilidade do eu e formula o conceito de “ideal do eu”.

[6] Butler, J. (1997). The psychic life of power: Theories in subjection. Stanford, CA: Stanford University Press. Butler articula a teoria do assujeitamento, mostrando como o sujeito é constituído por normas que, ao mesmo tempo, o formam e o subordinam; empregamos para pensar a vulnerabilidade subjetiva.

[7] Schmitt, C. (1922). Politische Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveränität. München: Duncker & Humblot. Schmitt formula a tese fundamental: o soberano é quem decide sobre o estado de exceção. Essa noção é aplicada para pensar a exposição do sujeito à decisão soberana e à suspensão das garantias normativas.

[8] Agamben, G. (1995). Homo sacer: Il potere sovrano e la nuda vita. Torino: Giulio Einaudi Editore. Agamben desenvolve a noção de vida nua e reconstrói a teoria da soberania a partir de Schmitt, Benjamin e Arendt.

[9] Elias, N. (1939). Über den Prozeß der Zivilisation: Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen (2 vols.). Basel: Haus zum Falken. Elias analisa a formação histórica do autocontrole, a interiorização das normas sociais e a constituição de estruturas psíquicas duráveis, aplicados aqui para pensar a subjetividade tardo‑antiga e suas ressonâncias contemporâneas.

[10] Goffman, E. (1956). The presentation of self in everyday life. Edinburgh: University of Edinburgh, Social Sciences Research Centre. Goffman apresenta sua teoria dramatúrgica da vida social, descrevendo o eu como uma construção performativa e vulnerável, dependente do reconhecimento alheio.

[11] Castoriadis, C. (1975). L’institution imaginaire de la société. Paris: Éditions du Seuil. Castoriadis desenvolve a noção de imaginação radical e de significações imaginárias sociais, fundamentais para compreender como subjetividades são produzidas historicamente.

[12] Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment: Studies in the theory of emotional development. London: Hogarth Press. Winnicott apresenta sua teoria do ambiente facilitador, do self verdadeiro/falso e da dependência, aplicados para pensar a vulnerabilidade subjetiva.

[13] Bollas, C. (1987). The shadow of the object: Psychoanalysis of the unthought known. London: Free Association Books. Bollas desenvolve a noção de “o nãopensado sabido” e do “objeto transformacional”, fundamentais para compreender a constituição do self e sua vulnerabilidade.

[14] Mills, C. W. (1959). The sociological imagination. New York: Oxford University Press. Mills formula a ideia de que a experiência pessoal é inseparável das estruturas sociais e históricas. Ele critica a privatização da vida, a perda de agência e a formação de sujeitos isolados; o que é valido pensar a subjetividade tardo‑antiga e suas ressonâncias contemporâneas.

[15] MacIntyre, A. (1981). After virtue: A study in moral theory. Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press. MacIntyre argumenta que a modernidade produziu um sujeito moral fragmentado, privado de narrativas e tradições que deem unidade à vida. Ele propõe que o self só pode ser compreendido como narrativa em construção, situada em práticas e tradições.

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