RESENHA – BELISÁRIO: O ÚLTIMO DOS ROMANOS
Belisário: o último dos romanos é um romance
histórico de alta densidade intelectual que se inscreve em linhagem rara: a da
ficção que toma a Antiguidade Tardia não como cenário exótico, mas como
laboratório filosófico para pensar linguagem, poder, memória e fracasso. A
escolha de Belisário como figura central não é casual nem apenas erudita: ele
encarna, ao mesmo tempo, o auge e o esgotamento de um projeto imperial, a
tensão entre glória militar e vulnerabilidade política, a grandeza silenciosa
que não cabe nas fórmulas da historiografia oficial.
O livro se constrói como narrativa em primeira pessoa,
atribuída a Procópio de Cesareia, o grande historiador de Justiniano. Mas o
Procópio do romance não é apenas o autor das Guerras[1]
e da História Secreta:[2]
é um sujeito em crise, um intelectual que descobre, tardiamente, que a
neutralidade é uma ficção apenas confortável e que a escrita da história é
sempre ato de escolha, de recorte, de traição. A obra, assim, não se limita a
“contar” a vida de Belisário; ela dramatiza o próprio ato de narrar,
transformando a biografia em problema epistemológico e moral.
1.1 Narrador,
ponto de vista e crise da historiografia
Do ponto de vista acadêmico, talvez o aspecto mais
interessante do romance seja a maneira como ele reinterpreta Procópio. Em vez
de apresentá-lo como cronista seguro de seu método, encontramos o narrador que
revisita o passado com desconforto, consciente de que sua obra principal não
deu conta da experiência vivida. A frase que sintetiza essa tensão é
emblemática: certos homens “não cabem na proporção das frases”. A partir daí, o
romance se organiza como tentativa de aproximação do objeto que resiste à captura.
Essa escolha tem implicações teóricas claras:
- Desestabilização
da autoridade historiográfica:
Procópio não é mais a voz neutra do registro, mas sujeito situado,
afetado, parcial.
- Autocrítica
da narrativa histórica:
o livro sugere que toda história é, em alguma medida, montagem, e que o
que chamamos de “fato” é inseparável da forma que o organiza.
- Tensão
entre memória e arquivo:
o texto explora a diferença entre aquilo que se vive, aquilo que se lembra
e aquilo que se registra.
O romance, assim, dialoga com debates contemporâneos sobre
historiografia, memória e representação, mas o faz sem jargão, incorporando
essas questões à própria estrutura narrativa.
1.2 Belisário
como figura ética e enigma narrativo
Belisário aparece menos como herói épico e mais como
enigma ético. O romance evita tanto a hagiografia quanto a desconstrução
cínica. Em vez disso, constrói o personagem cuja grandeza se manifesta na
combinação de prudência, coragem, economia de gestos e uma espécie de lucidez
melancólica diante da fortuna.
Do ponto de vista formal, isso é decisivo: Belisário é
menos descrito que observado. Ele é visto em ação, em silêncio, em decisões
táticas, em pequenas escolhas que revelam caráter mais do que discursos
inflamados. O narrador, fascinado, percebe que o general não se deixa reduzir a
categorias fáceis: nem puro instrumento do imperador, nem rebelde, nem mártir,
nem santo. É homem que age dentro do sistema que o usa e o teme, e que, ainda
assim, mantém a coerência interna que o torna, aos olhos de Procópio, quase
intraduzível.
Essa intraduzibilidade é o motor do livro: o romance não
promete “explicar” Belisário, mas acompanhar o esforço de alguém que tenta
compreendê-lo e falha parcialmente. É nesse fracasso que reside a força
literária da obra.
1.3 Linguagem,
guerra e forma: poéticas da precisão
Um dos méritos mais evidentes do romance é a maneira como
ele articula forma e conteúdo. A prosa é de grande precisão, com vocabulário
escolhido, cadência controlada, frases longas, porém nunca gratuitas. Há clara
consciência de ritmo: momentos de reflexão mais densa alternam-se com
descrições de movimentos militares, debates de corte, cenas íntimas de
observação silenciosa.
A guerra, em particular, é tratada de modo original. Em
vez de batalhas espetaculares, o texto privilegia:
- Estratégia
e geometria: a
guerra como cálculo, disposição de forças, uso do terreno.
- Desorganização
da linguagem: a
percepção de que a experiência do combate excede as categorias retóricas
clássicas.
- Redução
e clareza: em
contraste com a retórica ornamental, a guerra exige frases curtas, ordens
simples, decisões rápidas.
Essa tensão entre a linguagem elaborada do narrador e a
linguagem funcional da guerra produz um efeito crítico: o romance mostra como a
experiência militar obriga a repensar a própria forma de dizer o mundo. A
escrita de Procópio, ao revisitar as campanhas, é atravessada por essa
consciência de inadequação.
1.4 Poder,
corte e a política da memória
Outro eixo central da obra é a relação entre Belisário,
Justiniano, a corte e os mecanismos de poder. O romance não se limita a
reconstituir intrigas; ele investiga como reputações são construídas,
destruídas, arquivadas. A corte aparece como espaço em que:
- a
verdade é negociada,
- a
memória é instrumento político,
- a
história oficial é sempre uma versão entre outras possíveis.
Procópio, como homem de letras ligado ao poder, é colocado
em posição ambígua: ele é, ao mesmo tempo, beneficiário e vítima desse sistema.
O romance explora essa ambiguidade com sutileza, sem transformar o narrador em
cúmplice ou em consciência pura. Ele é alguém que, olhando para trás, percebe o
quanto sua escrita esteve implicada em jogos de poder que talvez não tenha
compreendido inteiramente à época.
Essa dimensão torna o livro particularmente interessante
para leituras que articulem literatura, teoria política e estudos da memória: o
texto funciona como ficção histórica, mas também como reflexão sobre o modo pelo
qual os impérios se narram reflexivamente.
1.5 Amor,
admiração e o não-dito
Um dos aspectos mais sofisticados do romance é a maneira
como ele trabalha a relação afetiva entre Procópio e Belisário. Não se trata de
romance no sentido convencional, nem de confissão explícita. O que se constrói
é um vínculo que mistura:
- admiração
intelectual,
- fascínio
moral,
- identificação
e distância,
- e alguma
forma de eros que não encontra linguagem adequada.
O narrador, em vários momentos, parece escrever para se
aproximar de Belisário, para justificar escolhas, para reparar omissões. Há certa
dimensão de culpa e de desejo de justiça tardia que atravessa o texto. Essa
camada afetiva não é exibida de forma melodramática; ela se insinua nas
escolhas de foco, nas insistências, nas retomadas, na dificuldade de encerrar a
narrativa.
Para o leitor, isso produz efeito instigante: a biografia
militar e política é atravessada pela história de admiração e amor silencioso,
que nunca se resolve em declaração, mas que dá profundidade emocional à
narrativa.
1.6 Estrutura,
tempo e maturidade narrativa
Do ponto de vista estrutural, o romance trabalha com tempo
duplo: o tempo dos acontecimentos (campanhas, decisões, deslocamentos) e o
tempo da rememoração. O Procópio que narra é o homem que olha para trás,
consciente de que o mundo que descreve já se transformou. Essa distância
temporal permite:
- comentários
metanarrativos sobre o próprio ato de escrever,
- reavaliações
de juízos anteriores,
- e certa
melancolia histórica: a percepção de que o Império, mesmo quando
vitorioso, já carrega em si sinais de esgotamento.
Essa melancolia não é sentimentalismo; é lucidez. O livro
evita tanto a nostalgia quanto o cinismo. Em vez disso, oferece visão madura daquele
período em que a energia de expansão convive com a consciência de limites, e em
que homens como Belisário são chamados ora para conquistar, ora para
simplesmente retardar o inevitável.
1.7 Inserção
na tradição do romance histórico
Acadêmicamente, Belisário: o último dos romanos
dialoga com tradição que inclui:
- os
romances de voz imperial introspectiva, como Memórias de Adriano,[3]
- as
recriações eruditas da Antiguidade Tardia,
- e as
narrativas que problematizam a própria possibilidade de representar o
passado.
Mas o livro não é mero pastiche nem exercício de estilo.
Ele se distingue por:
- rigor
histórico sem exibicionismo:
a erudição está a serviço da narrativa, não o contrário;
- profundidade
psicológica sem psicologismo fácil: os personagens são complexos, mas nunca anacrônicos;
- reflexão
teórica incorporada à forma:
questões sobre linguagem, poder e memória emergem da própria voz de
Procópio, não de discursos externos.
Isso faz da obra objeto fértil para leituras em cursos de
literatura, história antiga, teoria da narrativa e estudos de memória, ao mesmo
tempo em que permanece plenamente legível para o público não especializado.
1.8 Por
que ler Belisário: o último dos romanos hoje
Sem revelar desfechos específicos nem momentos-chave da
trama, é possível dizer que o romance oferece ao leitor contemporâneo:
- um
retrato complexo de um homem que exerce poder sem jamais se confundir com
ele;
- uma
reflexão sobre o que significa ser testemunha de seu tempo e, depois,
narrador desse mesmo tempo;
- uma
meditação sobre a insuficiência da linguagem diante de certas vidas e
certos acontecimentos;
- e um
convite a desconfiar das versões únicas da história, sem cair na
indiferença relativista.
O livro que exige atenção, mas recompensa com uma
experiência de leitura rara: a sensação de acompanhar, ao mesmo tempo, a vida do
grande general e a lenta tomada de consciência do historiador que descobre que
escrever é sempre escolher, e que toda escolha deixa restos, silêncios, zonas
de sombra.
Se você se interessa por romances históricos que não
tratam o passado como cenário, mas como problema; por narradores que não se
escondem atrás da ilusão de objetividade; por personagens cuja grandeza é mais
ética que espetacular, Belisário: o último dos romanos é leitura que não
só vale a pena, como tende a permanecer ecoando depois da última página.
[1] Procopius. (1914-1940). De
Bellis (T. E. Pease & H. B. Dewing, Eds. & Trans.). Cambridge, MA:
Harvard University Press. Embora publicada ao longo da primeira
metade do século XX, essa continua sendo a edição crítica padrão, amplamente
utilizada em estudos acadêmicos. O texto grego é estabelecido com rigor
filológico e permanece a edição de referência.
[2] Procopius. (1935). Historia Arcana
(H. B. Dewing, Ed. & Trans.). Cambridge, MA: Harvard University Press. Essa
edição é considerada a mais estável e amplamente citada em pesquisas sobre a
História Secreta. O texto grego é estabelecido com base nos manuscritos mais
confiáveis.
[3] Yourcenar, M. (1951). Mémoires
d’Hadrien. Paris: Plon. A edição princeps de 1951, publicada pela
Éditions Plon, é a forma canônica da obra e a base de todas as edições críticas
posteriores.



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