19 de abril de 2026

Belisário: o último dos romanos. Análises complementares

RESENHA – BELISÁRIO: O ÚLTIMO DOS ROMANOS


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Belisário: o último dos romanos é um romance histórico de alta densidade intelectual que se inscreve em linhagem rara: a da ficção que toma a Antiguidade Tardia não como cenário exótico, mas como laboratório filosófico para pensar linguagem, poder, memória e fracasso. A escolha de Belisário como figura central não é casual nem apenas erudita: ele encarna, ao mesmo tempo, o auge e o esgotamento de um projeto imperial, a tensão entre glória militar e vulnerabilidade política, a grandeza silenciosa que não cabe nas fórmulas da historiografia oficial.

O livro se constrói como narrativa em primeira pessoa, atribuída a Procópio de Cesareia, o grande historiador de Justiniano. Mas o Procópio do romance não é apenas o autor das Guerras[1] e da História Secreta:[2] é um sujeito em crise, um intelectual que descobre, tardiamente, que a neutralidade é uma ficção apenas confortável e que a escrita da história é sempre ato de escolha, de recorte, de traição. A obra, assim, não se limita a “contar” a vida de Belisário; ela dramatiza o próprio ato de narrar, transformando a biografia em problema epistemológico e moral.

1.1    Narrador, ponto de vista e crise da historiografia

Do ponto de vista acadêmico, talvez o aspecto mais interessante do romance seja a maneira como ele reinterpreta Procópio. Em vez de apresentá-lo como cronista seguro de seu método, encontramos o narrador que revisita o passado com desconforto, consciente de que sua obra principal não deu conta da experiência vivida. A frase que sintetiza essa tensão é emblemática: certos homens “não cabem na proporção das frases”. A partir daí, o romance se organiza como tentativa de aproximação do objeto que resiste à captura.

Essa escolha tem implicações teóricas claras:

  • Desestabilização da autoridade historiográfica: Procópio não é mais a voz neutra do registro, mas sujeito situado, afetado, parcial.
  • Autocrítica da narrativa histórica: o livro sugere que toda história é, em alguma medida, montagem, e que o que chamamos de “fato” é inseparável da forma que o organiza.
  • Tensão entre memória e arquivo: o texto explora a diferença entre aquilo que se vive, aquilo que se lembra e aquilo que se registra.

O romance, assim, dialoga com debates contemporâneos sobre historiografia, memória e representação, mas o faz sem jargão, incorporando essas questões à própria estrutura narrativa.

1.2    Belisário como figura ética e enigma narrativo

Belisário aparece menos como herói épico e mais como enigma ético. O romance evita tanto a hagiografia quanto a desconstrução cínica. Em vez disso, constrói o personagem cuja grandeza se manifesta na combinação de prudência, coragem, economia de gestos e uma espécie de lucidez melancólica diante da fortuna.

Do ponto de vista formal, isso é decisivo: Belisário é menos descrito que observado. Ele é visto em ação, em silêncio, em decisões táticas, em pequenas escolhas que revelam caráter mais do que discursos inflamados. O narrador, fascinado, percebe que o general não se deixa reduzir a categorias fáceis: nem puro instrumento do imperador, nem rebelde, nem mártir, nem santo. É homem que age dentro do sistema que o usa e o teme, e que, ainda assim, mantém a coerência interna que o torna, aos olhos de Procópio, quase intraduzível.

Essa intraduzibilidade é o motor do livro: o romance não promete “explicar” Belisário, mas acompanhar o esforço de alguém que tenta compreendê-lo e falha parcialmente. É nesse fracasso que reside a força literária da obra.

1.3    Linguagem, guerra e forma: poéticas da precisão

Um dos méritos mais evidentes do romance é a maneira como ele articula forma e conteúdo. A prosa é de grande precisão, com vocabulário escolhido, cadência controlada, frases longas, porém nunca gratuitas. Há clara consciência de ritmo: momentos de reflexão mais densa alternam-se com descrições de movimentos militares, debates de corte, cenas íntimas de observação silenciosa.

A guerra, em particular, é tratada de modo original. Em vez de batalhas espetaculares, o texto privilegia:

  • Estratégia e geometria: a guerra como cálculo, disposição de forças, uso do terreno.
  • Desorganização da linguagem: a percepção de que a experiência do combate excede as categorias retóricas clássicas.
  • Redução e clareza: em contraste com a retórica ornamental, a guerra exige frases curtas, ordens simples, decisões rápidas.

Essa tensão entre a linguagem elaborada do narrador e a linguagem funcional da guerra produz um efeito crítico: o romance mostra como a experiência militar obriga a repensar a própria forma de dizer o mundo. A escrita de Procópio, ao revisitar as campanhas, é atravessada por essa consciência de inadequação.

1.4    Poder, corte e a política da memória

Outro eixo central da obra é a relação entre Belisário, Justiniano, a corte e os mecanismos de poder. O romance não se limita a reconstituir intrigas; ele investiga como reputações são construídas, destruídas, arquivadas. A corte aparece como espaço em que:

  • a verdade é negociada,
  • a memória é instrumento político,
  • a história oficial é sempre uma versão entre outras possíveis.

Procópio, como homem de letras ligado ao poder, é colocado em posição ambígua: ele é, ao mesmo tempo, beneficiário e vítima desse sistema. O romance explora essa ambiguidade com sutileza, sem transformar o narrador em cúmplice ou em consciência pura. Ele é alguém que, olhando para trás, percebe o quanto sua escrita esteve implicada em jogos de poder que talvez não tenha compreendido inteiramente à época.

Essa dimensão torna o livro particularmente interessante para leituras que articulem literatura, teoria política e estudos da memória: o texto funciona como ficção histórica, mas também como reflexão sobre o modo pelo qual os impérios se narram reflexivamente.

1.5    Amor, admiração e o não-dito

Um dos aspectos mais sofisticados do romance é a maneira como ele trabalha a relação afetiva entre Procópio e Belisário. Não se trata de romance no sentido convencional, nem de confissão explícita. O que se constrói é um vínculo que mistura:

  • admiração intelectual,
  • fascínio moral,
  • identificação e distância,
  • e alguma forma de eros que não encontra linguagem adequada.

O narrador, em vários momentos, parece escrever para se aproximar de Belisário, para justificar escolhas, para reparar omissões. Há certa dimensão de culpa e de desejo de justiça tardia que atravessa o texto. Essa camada afetiva não é exibida de forma melodramática; ela se insinua nas escolhas de foco, nas insistências, nas retomadas, na dificuldade de encerrar a narrativa.

Para o leitor, isso produz efeito instigante: a biografia militar e política é atravessada pela história de admiração e amor silencioso, que nunca se resolve em declaração, mas que dá profundidade emocional à narrativa.

1.6    Estrutura, tempo e maturidade narrativa

Do ponto de vista estrutural, o romance trabalha com tempo duplo: o tempo dos acontecimentos (campanhas, decisões, deslocamentos) e o tempo da rememoração. O Procópio que narra é o homem que olha para trás, consciente de que o mundo que descreve já se transformou. Essa distância temporal permite:

  • comentários metanarrativos sobre o próprio ato de escrever,
  • reavaliações de juízos anteriores,
  • e certa melancolia histórica: a percepção de que o Império, mesmo quando vitorioso, já carrega em si sinais de esgotamento.

Essa melancolia não é sentimentalismo; é lucidez. O livro evita tanto a nostalgia quanto o cinismo. Em vez disso, oferece visão madura daquele período em que a energia de expansão convive com a consciência de limites, e em que homens como Belisário são chamados ora para conquistar, ora para simplesmente retardar o inevitável.

1.7    Inserção na tradição do romance histórico

Acadêmicamente, Belisário: o último dos romanos dialoga com tradição que inclui:

  • os romances de voz imperial introspectiva, como Memórias de Adriano,[3]
  • as recriações eruditas da Antiguidade Tardia,
  • e as narrativas que problematizam a própria possibilidade de representar o passado.

Mas o livro não é mero pastiche nem exercício de estilo. Ele se distingue por:

  • rigor histórico sem exibicionismo: a erudição está a serviço da narrativa, não o contrário;
  • profundidade psicológica sem psicologismo fácil: os personagens são complexos, mas nunca anacrônicos;
  • reflexão teórica incorporada à forma: questões sobre linguagem, poder e memória emergem da própria voz de Procópio, não de discursos externos.

Isso faz da obra objeto fértil para leituras em cursos de literatura, história antiga, teoria da narrativa e estudos de memória, ao mesmo tempo em que permanece plenamente legível para o público não especializado.

1.8    Por que ler Belisário: o último dos romanos hoje

Sem revelar desfechos específicos nem momentos-chave da trama, é possível dizer que o romance oferece ao leitor contemporâneo:

  • um retrato complexo de um homem que exerce poder sem jamais se confundir com ele;
  • uma reflexão sobre o que significa ser testemunha de seu tempo e, depois, narrador desse mesmo tempo;
  • uma meditação sobre a insuficiência da linguagem diante de certas vidas e certos acontecimentos;
  • e um convite a desconfiar das versões únicas da história, sem cair na indiferença relativista.

O livro que exige atenção, mas recompensa com uma experiência de leitura rara: a sensação de acompanhar, ao mesmo tempo, a vida do grande general e a lenta tomada de consciência do historiador que descobre que escrever é sempre escolher, e que toda escolha deixa restos, silêncios, zonas de sombra.

Se você se interessa por romances históricos que não tratam o passado como cenário, mas como problema; por narradores que não se escondem atrás da ilusão de objetividade; por personagens cuja grandeza é mais ética que espetacular, Belisário: o último dos romanos é leitura que não só vale a pena, como tende a permanecer ecoando depois da última página.



[1] Procopius. (1914-1940). De Bellis (T. E. Pease & H. B. Dewing, Eds. & Trans.). Cambridge, MA: Harvard University Press. Embora publicada ao longo da primeira metade do século XX, essa continua sendo a edição crítica padrão, amplamente utilizada em estudos acadêmicos. O texto grego é estabelecido com rigor filológico e permanece a edição de referência.

[2] Procopius. (1935). Historia Arcana (H. B. Dewing, Ed. & Trans.). Cambridge, MA: Harvard University Press. Essa edição é considerada a mais estável e amplamente citada em pesquisas sobre a História Secreta. O texto grego é estabelecido com base nos manuscritos mais confiáveis.

[3] Yourcenar, M. (1951). Mémoires d’Hadrien. Paris: Plon. A edição princeps de 1951, publicada pela Éditions Plon, é a forma canônica da obra e a base de todas as edições críticas posteriores.

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