24 de abril de 2026

Romance histórico: Belisário: o último dos romanos

  Análise temática: o último dos romanos


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1    Linguagem, representação e o limite do narrável

Um dos eixos mais sofisticados do romance é a reflexão sobre a insuficiência da linguagem diante da experiência histórica e humana. A afirmação de que certos homens “não cabem na proporção das frases” ecoa diretamente debates contemporâneos sobre representação, especialmente aqueles inaugurados por Paul Ricoeur[1] e Hayden White,[2] para quem a narrativa histórica é sempre operação de configuração, nunca espelho plano e transparente do real. Procópio, como narrador, encarna essa crise: formado na retórica clássica, ele percebe que a gramática herdada, com sua crença na ordem, na proporção e na causalidade, não é capaz de abarcar a complexidade ética e afetiva de Belisário. A guerra, por sua vez, introduz sua sintaxe própria, marcada pela urgência, pela redução e pela clareza brutal, o que aproxima o romance de reflexões de Elaine Scarry[3] sobre como o sofrimento e a violência desestabilizam a linguagem. A narrativa, assim, torna-se o espaço no qual se encena a tensão entre o desejo de dizer e a impossibilidade de dizer plenamente, aproximando-se da noção derridiana de que toda escrita é, simultaneamente, revelação e falha, presença e ausência.

2    Poder, império e a política da memória

O romance articula crítica sofisticada ao funcionamento do poder imperial, mostrando como o Império Romano do Oriente opera não apenas como estrutura militar e administrativa, mas como máquina de produção de narrativas. Aqui, a obra dialoga com Michel Foucault,[4] sobretudo com a ideia de que o poder não se limita a reprimir, mas produz discursos, regimes de verdade e formas de visibilidade. Justiniano aparece como figura paradigmática desse poder que administra não apenas corpos e territórios, mas também versões, reputações e arquivos. Procópio, como historiador, é simultaneamente agente e vítima desse sistema: ele participa da construção da memória oficial, mas também percebe, tardiamente, o quanto essa memória é seletiva, interessada e, muitas vezes, injusta. A narrativa pode ser lida como tentativa de reparação, uma espécie de “justiça tardia”, no sentido benjaminiano, em que o narrador tenta resgatar do esquecimento aquilo que o arquivo imperial deixou de fora. A obra, assim, não apenas representa o poder, mas o analisa criticamente, mostrando como a história é sempre campo de disputa e como o passado é continuamente reescrito para servir às necessidades do presente.

3    Belisário: ética, enigma e silêncio

Belisário é construído como figura ética cuja grandeza não se manifesta em gestos grandiosos, mas na economia, na prudência e na recusa do excesso. Essa contenção aproxima o personagem daquilo que Giorgio Agamben[5] chama de “gesto”, uma ação que não se reduz à eficácia instrumental, mas que revela como forma de vida. Belisário age com precisão, mas também com determinada lucidez melancólica diante da instabilidade da fortuna, o que o aproxima da tradição estoica reinterpretada por Pierre Hadot.[6] O silêncio do general, longe de ser vazio, funciona como forma de presença e resistência: ele se opõe à verborragia da corte, à retórica ornamental dos oradores e à proliferação de discursos que tentam capturá-lo. Esse silêncio é também enigma, e o romance se recusa a resolvê-lo, aproximando-se da ética da alteridade de Emmanuel Levinas:[7] Belisário é o Outro que não pode ser reduzido ao Mesmo, que resiste à totalização narrativa. A grandeza do general, assim, não é apenas militar; é ontológica. Ele encarna a forma de integridade que desafia tanto o poder quanto a linguagem.

4    Procópio: narrador dividido e sujeito em crise

Procópio é talvez o personagem mais complexo do romance, justamente porque é aquele que mais se transforma. Ele é historiador, testemunha e, ao revisitar o passado, torna-se também crítico de si mesmo. Essa tripla posição o coloca em constante crise que pode ser lida à luz da psicanálise contemporânea, especialmente de autores como Christopher Bollas[8] e André Green,[9] que exploram a relação entre memória, narração e subjetividade. Procópio percebe que sua escrita anterior, aquela que compôs sob a égide do poder, não foi apenas incompleta, mas também cúmplice de silenciamentos e distorções. A narrativa atual, portanto, funciona como processo de elaboração, no sentido freudiano de Durcharbeitung:[10] ele tenta trabalhar o passado, reconfigurá-lo, dar-lhe nova forma. Mas essa elaboração nunca é completa; ela é marcada por lacunas, hesitações, retornos. O narrador é um sujeito dividido entre o historiador que deseja objetividade e o homem que é atravessado por afetos, admiração, culpa, amor, ressentimento. Essa divisão não é resolvida; ela é constitutiva da narrativa e dá ao romance sua densidade ética.

5    Amor, admiração e o não-dito

A relação entre Procópio e Belisário é um dos núcleos mais sofisticados da obra, sua força reside justamente no fato de que ela nunca é nomeada diretamente. O romance trabalha com o não-dito, com o subentendido, com aquilo que se insinua nas escolhas de foco, nas insistências, nos silêncios. Aqui, a psicanálise oferece ferramentas importantes: o vínculo entre os dois pode ser lido à luz do conceito de transferência, não no sentido clínico, mas como estrutura afetiva em que o sujeito investe no outro aquilo que não pode simbolizar plenamente. Procópio vê em Belisário a figura de integridade e medida que ele próprio não consegue alcançar, e essa admiração se mistura à forma de eros que não encontra linguagem adequada no mundo romano tardio. O romance, assim, trabalha com aquela afetividade que lembra a leitura que Eve Sedgwick[11] faz das relações homossociais: não se trata de romance explícito, mas de um campo de intensidades que organiza a narrativa e dá profundidade emocional à história. Esse amor silencioso é também chave interpretativa: ele explica a insistência de Procópio em fazer justiça à memória de Belisário e ilumina a tensão entre suas obras anteriores e a narrativa atual.

6    Tempo histórico, decadência e transformação

O romance se passa em período de transição profunda, no qual o Império ainda se imagina capaz de restaurar sua antiga extensão, mas já carrega sinais evidentes de esgotamento. Essa tensão entre restauração e decadência pode ser lida à luz de Reinhart Koselleck,[12] especialmente quanto a sua ideia de que certos períodos históricos são marcados por aceleração temporal e por descompasso entre experiência e expectativa. O mundo de Belisário é aquele em que a energia de expansão convive com a consciência crescente de limites; em que vitórias impressionantes coexistem com fragilidades estruturais. A passagem da ofensiva para a defesa, tema recorrente no romance, não é apenas militar, mas simbólica: ela marca a transição de um imaginário imperial para outro, mais modesto, mais tenso, mais melancólico. Essa melancolia não é sentimentalismo; é lucidez histórica, próxima daquilo que Walter Benjamin[13] descreve como “experiência do declínio”, em que o passado pesa mais que o futuro e a tarefa ética é salvar fragmentos de sentido antes que se percam.

7    Ética da responsabilidade e da medida

Por fim, o romance articula determinada ética que não é heroica, mas prudencial. Belisário encarna a virtude da phronesis aristotélica, a capacidade de agir com discernimento em situações de incerteza, reinterpretada à luz de debates contemporâneos sobre responsabilidade, como os de Paul Ricoeu[14]r e Judith Butler.[15] Ele não busca glória; busca adequação, proporção, medida. Procópio, por sua vez, encarna a responsabilidade daquele que narra: ele sabe que a história é moldada por quem escreve, e que escrever é sempre escolher. A narrativa, assim, é também reflexão sobre o dever ético de quem testemunha: não basta ver; é preciso fazer justiça ao que se viu. Essa ética da responsabilidade narrativa é uma das contribuições mais profundas do romance, pois sugere que a memória não é apenas registro, mas compromisso.



[1] Ricoeur, P. (1983). Temps et récit I: L’intrigue et le récit historique. Paris: Éditions du Seuil. Ricoeur formula a noção de mise en intrigue e discute a narrativa histórica como operação configuradora.

[2] White, H. (1973). Metahistory: The historical imagination in nineteenth-century Europe. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press. White formula sua tese sobre os “modos de emploteamento”, tropos retóricos e estruturas narrativas da historiografia.

[3] Scarry, E. (1985). The body in pain: The making and unmaking of the world. New York: Oxford University Press. Obra fundamental para pensar como a dor e a violência rompem a capacidade representacional da linguagem.

[4] Foucault, M. (1975). Surveiller et punir : Naissance de la prison. Paris: Gallimard. Embora várias obras tratem do tema, esta é a mais adequada ao contexto do capítulo, que discute poder como produção de discursos e visibilidades.

[5] Agamben, G. (1992). La comunità che viene. Torino: Giulio Einaudi Editore. O autor usa a noção de “gesto” e de forma-de-vida, conceitos centrais nesta obra.

[6] Hadot, P. (1995). Qu’est-ce que la philosophie antique ? Paris: Gallimard. Obra mais adequada para o uso feito no capítulo: a leitura de Belisário como figura estoica e ética prática.

[7] Levinas, E. (1961). Totalité et Infini : Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff. Referência fundamental para a ideia de alteridade irredutível, aplicada à leitura do silêncio e do enigma de Belisário.

[8] Bollas, C. (1987). The shadow of the object: Psychoanalysis of the unthought known. London: Free Association Books. Obra fundamental para a noção de “objeto transformacional”, central para a leitura psicanalítica da subjetividade de Procópio.

[9] Green, A. (1973). Le discours vivant : La conception psychanalytique de l’affect. Paris: Presses Universitaires de France. Articula a relação entre afeto, linguagem e falha de simbolização, exatamente o que o se mobiliza aqui.

[10] Freud, S. (1914). Zur Einführung des Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 6, 1-24. Aqui está a primeira formulação explícita do conceito de Durcharbeitung, que Freud desenvolve ao discutir resistência, transferência e o trabalho analítico necessário para que o paciente possa integrar conteúdos recalcados. Embora o termo apareça de modo mais desenvolvido em textos posteriores (como Erinnern, Wiederholen und Durcharbeiten, 1914/1915), a edição princeps desse ensaio foi publicada apenas em 1914 como parte do Jahrbuch.

[11] Sedgwick, E. K. (1985). Between men: English literature and male homosocial desire. New York: Columbia University Press. Sedgwick formula o conceito de male homosocial desire, absolutamente central para a leitura da relação Procópio-Belisário como campo de intensidades afetivas que não se deixam reduzir a categorias modernas de sexualidade, mas que estruturam a narrativa e o olhar do historiador.

[12] Koselleck, R. (1979). Vergangene Zukunft: Zur Semantik geschichtlicher Zeiten. Frankfurt am Main: Suhrkamp. Obra seminal para a noção de “horizonte de expectativa” e “espaço de experiência”, conceitos diretamente aplicados ao contexto do Império em transição.

[13] Benjamin, W. (1940). Über den Begriff der Geschichte. In Benjamin, W. (1955). Illuminationen (pp. 251–261). Frankfurt am Main: Suhrkamp. É o texto que fundamenta a ideia de história como ruína e interrupção.

[14] Ricoeur, P. (2000). La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Éditions du Seuil. Complementa Temps et récit ao tratar da ética da memória, da justiça narrativa e da tensão entre lembrança e esquecimento,

[15] Butler, J. (2005). Giving an account of oneself. New York: Fordham University Press. Obra central para a noção de responsabilidade ética diante do outro e da narrativa, exatamente o ponto mobilizado no capítulo.

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