Análise temática: o último dos romanos
1 Linguagem,
representação e o limite do narrável
Um dos eixos mais sofisticados do romance é a reflexão
sobre a insuficiência da linguagem diante da experiência histórica e humana. A
afirmação de que certos homens “não cabem na proporção das frases” ecoa
diretamente debates contemporâneos sobre representação, especialmente aqueles
inaugurados por Paul Ricoeur[1]
e Hayden White,[2]
para quem a narrativa histórica é sempre operação de configuração, nunca
espelho plano e transparente do real. Procópio, como narrador, encarna essa
crise: formado na retórica clássica, ele percebe que a gramática herdada, com
sua crença na ordem, na proporção e na causalidade, não é capaz de abarcar a
complexidade ética e afetiva de Belisário. A guerra, por sua vez, introduz sua
sintaxe própria, marcada pela urgência, pela redução e pela clareza brutal, o
que aproxima o romance de reflexões de Elaine Scarry[3]
sobre como o sofrimento e a violência desestabilizam a linguagem. A narrativa,
assim, torna-se o espaço no qual se encena a tensão entre o desejo de dizer e a
impossibilidade de dizer plenamente, aproximando-se da noção derridiana de que
toda escrita é, simultaneamente, revelação e falha, presença e ausência.
2 Poder,
império e a política da memória
O romance articula crítica sofisticada ao funcionamento do
poder imperial, mostrando como o Império Romano do Oriente opera não apenas
como estrutura militar e administrativa, mas como máquina de produção de
narrativas. Aqui, a obra dialoga com Michel Foucault,[4]
sobretudo com a ideia de que o poder não se limita a reprimir, mas produz
discursos, regimes de verdade e formas de visibilidade. Justiniano aparece como
figura paradigmática desse poder que administra não apenas corpos e
territórios, mas também versões, reputações e arquivos. Procópio, como
historiador, é simultaneamente agente e vítima desse sistema: ele participa da
construção da memória oficial, mas também percebe, tardiamente, o quanto essa
memória é seletiva, interessada e, muitas vezes, injusta. A narrativa pode ser
lida como tentativa de reparação, uma espécie de “justiça tardia”, no sentido
benjaminiano, em que o narrador tenta resgatar do esquecimento aquilo que o
arquivo imperial deixou de fora. A obra, assim, não apenas representa o poder,
mas o analisa criticamente, mostrando como a história é sempre campo de disputa
e como o passado é continuamente reescrito para servir às necessidades do
presente.
3 Belisário:
ética, enigma e silêncio
Belisário é construído como figura ética cuja grandeza não
se manifesta em gestos grandiosos, mas na economia, na prudência e na recusa do
excesso. Essa contenção aproxima o personagem daquilo que Giorgio Agamben[5]
chama de “gesto”, uma ação que não se reduz à eficácia instrumental, mas que
revela como forma de vida. Belisário age com precisão, mas também com determinada
lucidez melancólica diante da instabilidade da fortuna, o que o aproxima da
tradição estoica reinterpretada por Pierre Hadot.[6]
O silêncio do general, longe de ser vazio, funciona como forma de presença e
resistência: ele se opõe à verborragia da corte, à retórica ornamental dos
oradores e à proliferação de discursos que tentam capturá-lo. Esse silêncio é
também enigma, e o romance se recusa a resolvê-lo, aproximando-se da ética da
alteridade de Emmanuel Levinas:[7]
Belisário é o Outro que não pode ser reduzido ao Mesmo, que resiste à
totalização narrativa. A grandeza do general, assim, não é apenas militar; é
ontológica. Ele encarna a forma de integridade que desafia tanto o poder quanto
a linguagem.
4 Procópio:
narrador dividido e sujeito em crise
Procópio é talvez o personagem mais complexo do romance,
justamente porque é aquele que mais se transforma. Ele é historiador,
testemunha e, ao revisitar o passado, torna-se também crítico de si mesmo. Essa
tripla posição o coloca em constante crise que pode ser lida à luz da
psicanálise contemporânea, especialmente de autores como Christopher Bollas[8]
e André Green,[9]
que exploram a relação entre memória, narração e subjetividade. Procópio
percebe que sua escrita anterior, aquela que compôs sob a égide do poder, não
foi apenas incompleta, mas também cúmplice de silenciamentos e distorções. A
narrativa atual, portanto, funciona como processo de elaboração, no sentido
freudiano de Durcharbeitung:[10]
ele tenta trabalhar o passado, reconfigurá-lo, dar-lhe nova forma. Mas essa
elaboração nunca é completa; ela é marcada por lacunas, hesitações, retornos. O
narrador é um sujeito dividido entre o historiador que deseja objetividade e o
homem que é atravessado por afetos, admiração, culpa, amor, ressentimento. Essa
divisão não é resolvida; ela é constitutiva da narrativa e dá ao romance sua
densidade ética.
5 Amor,
admiração e o não-dito
A relação entre Procópio e Belisário é um dos núcleos mais
sofisticados da obra, sua força reside justamente no fato de que ela nunca é
nomeada diretamente. O romance trabalha com o não-dito, com o subentendido, com
aquilo que se insinua nas escolhas de foco, nas insistências, nos silêncios.
Aqui, a psicanálise oferece ferramentas importantes: o vínculo entre os dois
pode ser lido à luz do conceito de transferência, não no sentido
clínico, mas como estrutura afetiva em que o sujeito investe no outro aquilo que
não pode simbolizar plenamente. Procópio vê em Belisário a figura de
integridade e medida que ele próprio não consegue alcançar, e essa admiração se
mistura à forma de eros que não encontra linguagem adequada no mundo romano
tardio. O romance, assim, trabalha com aquela afetividade que lembra a leitura
que Eve Sedgwick[11]
faz das relações homossociais: não se trata de romance explícito, mas de um
campo de intensidades que organiza a narrativa e dá profundidade emocional à
história. Esse amor silencioso é também chave interpretativa: ele explica a
insistência de Procópio em fazer justiça à memória de Belisário e ilumina a
tensão entre suas obras anteriores e a narrativa atual.
6 Tempo
histórico, decadência e transformação
O romance se passa em período de transição profunda, no
qual o Império ainda se imagina capaz de restaurar sua antiga extensão, mas já
carrega sinais evidentes de esgotamento. Essa tensão entre restauração e
decadência pode ser lida à luz de Reinhart Koselleck,[12]
especialmente quanto a sua ideia de que certos períodos históricos são marcados
por aceleração temporal e por descompasso entre experiência e expectativa. O
mundo de Belisário é aquele em que a energia de expansão convive com a
consciência crescente de limites; em que vitórias impressionantes coexistem com
fragilidades estruturais. A passagem da ofensiva para a defesa, tema recorrente
no romance, não é apenas militar, mas simbólica: ela marca a transição de um
imaginário imperial para outro, mais modesto, mais tenso, mais melancólico.
Essa melancolia não é sentimentalismo; é lucidez histórica, próxima daquilo que
Walter Benjamin[13]
descreve como “experiência do declínio”, em que o passado pesa mais que o
futuro e a tarefa ética é salvar fragmentos de sentido antes que se percam.
7 Ética
da responsabilidade e da medida
Por fim, o romance articula determinada ética que não é
heroica, mas prudencial. Belisário encarna a virtude da phronesis
aristotélica, a capacidade de agir com discernimento em situações de incerteza,
reinterpretada à luz de debates contemporâneos sobre responsabilidade, como os
de Paul Ricoeu[14]r
e Judith Butler.[15]
Ele não busca glória; busca adequação, proporção, medida. Procópio, por sua
vez, encarna a responsabilidade daquele que narra: ele sabe que a história é
moldada por quem escreve, e que escrever é sempre escolher. A narrativa, assim,
é também reflexão sobre o dever ético de quem testemunha: não basta ver; é
preciso fazer justiça ao que se viu. Essa ética da responsabilidade narrativa é
uma das contribuições mais profundas do romance, pois sugere que a memória não
é apenas registro, mas compromisso.
[1] Ricoeur, P. (1983). Temps et
récit I: L’intrigue et le récit historique. Paris: Éditions
du Seuil. Ricoeur formula a noção de mise en intrigue e discute a
narrativa histórica como operação configuradora.
[2] White, H. (1973). Metahistory:
The historical imagination in nineteenth-century Europe. Baltimore,
MD: Johns Hopkins University Press. White formula sua tese sobre os “modos de
emploteamento”, tropos retóricos e estruturas narrativas da historiografia.
[3] Scarry, E. (1985). The body
in pain: The making and unmaking of the world. New York: Oxford
University Press. Obra fundamental para pensar como a dor e a violência rompem
a capacidade representacional da linguagem.
[4] Foucault, M. (1975). Surveiller et punir
: Naissance de la prison. Paris: Gallimard. Embora várias obras
tratem do tema, esta é a mais adequada ao contexto do capítulo, que discute
poder como produção de discursos e visibilidades.
[5] Agamben, G. (1992). La comunità che
viene. Torino: Giulio Einaudi Editore. O autor usa a noção de
“gesto” e de forma-de-vida, conceitos centrais nesta obra.
[6] Hadot, P. (1995). Qu’est-ce que la
philosophie antique ? Paris: Gallimard. Obra mais adequada para o
uso feito no capítulo: a leitura de Belisário como figura estoica e ética
prática.
[7] Levinas, E. (1961). Totalité et Infini
: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff. Referência
fundamental para a ideia de alteridade irredutível, aplicada à leitura do
silêncio e do enigma de Belisário.
[8] Bollas, C. (1987). The shadow
of the object: Psychoanalysis of the unthought known. London:
Free Association Books. Obra fundamental para a noção de “objeto
transformacional”, central para a leitura psicanalítica da subjetividade de
Procópio.
[9] Green, A. (1973). Le discours vivant
: La conception psychanalytique de l’affect. Paris: Presses
Universitaires de France. Articula a relação entre afeto, linguagem e falha de
simbolização, exatamente o que o se mobiliza aqui.
[10] Freud, S. (1914). Zur Einführung
des Narzißmus. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, 6, 1-24. Aqui está a primeira formulação explícita
do conceito de Durcharbeitung, que Freud desenvolve ao discutir
resistência, transferência e o trabalho analítico necessário para que o
paciente possa integrar conteúdos recalcados. Embora o termo apareça de modo
mais desenvolvido em textos posteriores (como Erinnern, Wiederholen und
Durcharbeiten, 1914/1915), a edição princeps desse ensaio foi publicada
apenas em 1914 como parte do Jahrbuch.
[11] Sedgwick, E. K. (1985). Between
men: English literature and male homosocial desire. New York:
Columbia University Press. Sedgwick formula o conceito de male homosocial
desire, absolutamente central para a leitura da relação Procópio-Belisário
como campo de intensidades afetivas que não se deixam reduzir a categorias
modernas de sexualidade, mas que estruturam a narrativa e o olhar do
historiador.
[12] Koselleck, R. (1979). Vergangene
Zukunft: Zur Semantik geschichtlicher Zeiten. Frankfurt am Main:
Suhrkamp. Obra seminal para a noção de “horizonte de expectativa” e “espaço de
experiência”, conceitos diretamente aplicados ao contexto do Império em
transição.
[13] Benjamin, W. (1940). Über den Begriff
der Geschichte. In Benjamin, W. (1955). Illuminationen (pp.
251–261). Frankfurt am Main: Suhrkamp. É o texto que fundamenta a ideia
de história como ruína e interrupção.
[14] Ricoeur, P. (2000). La mémoire,
l’histoire, l’oubli. Paris: Éditions du Seuil. Complementa Temps
et récit ao tratar da ética da memória, da justiça narrativa e da tensão
entre lembrança e esquecimento,
[15] Butler, J. (2005). Giving an
account of oneself. New York: Fordham University Press. Obra central
para a noção de responsabilidade ética diante do outro e da narrativa,
exatamente o ponto mobilizado no capítulo.



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