17 de abril de 2016

Não trocaremos governo do PT por governo PMDB

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Vamos trocar nada por coisa alguma. O PT não nos governa mais, há anos; Dilma bem que gostaria de governar e, a seu modo atabalhoado, pode-se dizer que tentou. Sua situação se tornou insustentável, sua governância se dissolveu (em crimes - mas isso é outra história dentro da mesma história), sua governabilidade se extinguiu. Com o fim do governo Dilma, o PT que nunca foi Dilma, nem mesmo foi um partido - pois se limitou a erigir um feudo sindical para Lula, o PT virou pó e hoje é soprado com força para as dunas o opróbrio.

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Pois não existe governo do PT a ser trocado, então não há troca a se fazer. Também não vamos trocar o governo de Dilma pelo governo de Temer, pois ficou provado que Dilma não governava: ela estava apenas encarregada de manter quente a cadeira presidencial para Lula, enquanto ele se refestelava em sítios suburbanos e triplex de novo rico - mas sempre mantendo o domínio sobre o Estado, não como eminência parda, mas como poderoso chefão, luz da qual provinha a sombra de quem o sucedeu.
Dilma esconde a boca para segredar a Temer.
Não de trata de trocar o governo de uma pelo governo do outro.

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Nem sequer haverá troca entre uns que foram eleitos por outros que não foram eleitos; metade da chapa eleita se vai, é posta a correr, metade fica, cumprindo sua função constitucional, para a qual foi sufragada com todos e cada um dos votos, com o voto de Lula a cada mais modesto eleitor dentre os que foram ludibriados ou corrompidos para teclar o 13 naquele domingo fatídico. Sim, sim: Lula e Dilma também votaram em Temer; votaram nele exatamente para a função e na previsão, então hipotética, da necessidade de substituição, como agora ocorre. Como de costume, Lula e Dilma escondem que o tenham feito, não admitem hoje que votarem em Temer - e não é pelo habito contumaz de negar seus atos que o fazem: é pela conveniência de esquecer o que não interessa, o que também os dois têm como costume arraigado.

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Não vamos mesmo, pois o que virá depois que a vassoura do impeachment varrer o PT do controle do Estado, virá um governo apartidário - o PMDB é mesmo um tanto apartidário, tem agido como aglutinador de interesses há décadas; o próximo governo será fraco, composto por políticos de muitas vertentes, por uma tentativa meio atabalhoada de alinhavar um fato roto e pós-moda. O bordão será fazer um governo de coalizão - pois quem governa é dado sempre a lugares-comuns - mas também não teremos coalizão nenhuma, pois os párias que agora controlam o governo permanecerão de atalaia, à sorrelfa, prontos a minar a gestão que advirá com aquilo que sempre foi sua prática antes de controlarem o executivo: quanto pior, melhor.

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Pois a grande verdade é que não haverá governo algum - o que serve até de argumento para os niilistas e anarquistas: só haverá um grupo que - se for esperto, como desejamos que seja - conduzirá a máquina pública até o próximo processo eleitoral, para o qual é necessária a maturação dos dois anos que nos separam dele. Não se pode pensar em antecipar eleições gerais - até por não haver pressuposto constitucional para tanto. Claro que se pode mudar a Constituição, mas o que se quer é continuar adaptando a Carta Magna aos episódios - ou deixá-la sedimentar para que tenha mesmo a rigidez e higidez que esperamos dela?

Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Não vamos trocar de governo: vamos trocar uma quadrilha cleptocrática por um arremedo transitório. O substituto de Dilma é o Temer, poderia ser o Cunha (em tese), poderia ser o Pelé, o Tiririca ou poderia ser eu. Não importa o nome de quem assine os despachos, de quem durma no Alvorada. Importa o papel que essa pessoa, hoje o Temer, venha a desempenhar de transitoriedade, de episódico, de gerência taciturna... sim, é um bom termo, afinal, o que estamos fazendo mesmo não é a troca de um governo do PT por outro do PMDB: estamos trocando a gerência taciturna de dona Dilma - em nome do Lula e de sua quadrilha - pela gerência taciturna do senhor Temer, na esperança de que ele venha a exercê-la nos interesses coletivos; pelo menos, que o faça minimamente nesse sentido, para dignificar e coroar sua vida pública com algo que possa preservar seu nome com alguma dignidade. Nós precisamos disso.

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