Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Vamos trocar nada por coisa alguma. O PT não nos governa mais, há anos; Dilma bem que gostaria de governar e, a seu modo atabalhoado, pode-se dizer que tentou. Sua situação se tornou insustentável, sua governância se dissolveu (em crimes - mas isso é outra história dentro da mesma história), sua governabilidade se extinguiu. Com o fim do governo Dilma, o PT que nunca foi Dilma, nem mesmo foi um partido - pois se limitou a erigir um feudo sindical para Lula, o PT virou pó e hoje é soprado com força para as dunas o opróbrio.
Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Pois não existe governo do PT a ser trocado, então não há troca a se fazer. Também não vamos trocar o governo de Dilma pelo governo de Temer, pois ficou provado que Dilma não governava: ela estava apenas encarregada de manter quente a cadeira presidencial para Lula, enquanto ele se refestelava em sítios suburbanos e triplex de novo rico - mas sempre mantendo o domínio sobre o Estado, não como eminência parda, mas como poderoso chefão, luz da qual provinha a sombra de quem o sucedeu.
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| Não de trata de trocar o governo de uma pelo governo do outro. |
Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Nem sequer haverá troca entre uns que foram eleitos por outros que não foram eleitos; metade da chapa eleita se vai, é posta a correr, metade fica, cumprindo sua função constitucional, para a qual foi sufragada com todos e cada um dos votos, com o voto de Lula a cada mais modesto eleitor dentre os que foram ludibriados ou corrompidos para teclar o 13 naquele domingo fatídico. Sim, sim: Lula e Dilma também votaram em Temer; votaram nele exatamente para a função e na previsão, então hipotética, da necessidade de substituição, como agora ocorre. Como de costume, Lula e Dilma escondem que o tenham feito, não admitem hoje que votarem em Temer - e não é pelo habito contumaz de negar seus atos que o fazem: é pela conveniência de esquecer o que não interessa, o que também os dois têm como costume arraigado.
Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Não vamos mesmo, pois o que virá depois que a vassoura do impeachment varrer o PT do controle do Estado, virá um governo apartidário - o PMDB é mesmo um tanto apartidário, tem agido como aglutinador de interesses há décadas; o próximo governo será fraco, composto por políticos de muitas vertentes, por uma tentativa meio atabalhoada de alinhavar um fato roto e pós-moda. O bordão será fazer um governo de coalizão - pois quem governa é dado sempre a lugares-comuns - mas também não teremos coalizão nenhuma, pois os párias que agora controlam o governo permanecerão de atalaia, à sorrelfa, prontos a minar a gestão que advirá com aquilo que sempre foi sua prática antes de controlarem o executivo: quanto pior, melhor.
Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Pois a grande verdade é que não haverá governo algum - o que serve até de argumento para os niilistas e anarquistas: só haverá um grupo que - se for esperto, como desejamos que seja - conduzirá a máquina pública até o próximo processo eleitoral, para o qual é necessária a maturação dos dois anos que nos separam dele. Não se pode pensar em antecipar eleições gerais - até por não haver pressuposto constitucional para tanto. Claro que se pode mudar a Constituição, mas o que se quer é continuar adaptando a Carta Magna aos episódios - ou deixá-la sedimentar para que tenha mesmo a rigidez e higidez que esperamos dela?
Não vamos trocar um governo do PT por outro do PMBD. Não vamos trocar de governo: vamos trocar uma quadrilha cleptocrática por um arremedo transitório. O substituto de Dilma é o Temer, poderia ser o Cunha (em tese), poderia ser o Pelé, o Tiririca ou poderia ser eu. Não importa o nome de quem assine os despachos, de quem durma no Alvorada. Importa o papel que essa pessoa, hoje o Temer, venha a desempenhar de transitoriedade, de episódico, de gerência taciturna... sim, é um bom termo, afinal, o que estamos fazendo mesmo não é a troca de um governo do PT por outro do PMDB: estamos trocando a gerência taciturna de dona Dilma - em nome do Lula e de sua quadrilha - pela gerência taciturna do senhor Temer, na esperança de que ele venha a exercê-la nos interesses coletivos; pelo menos, que o faça minimamente nesse sentido, para dignificar e coroar sua vida pública com algo que possa preservar seu nome com alguma dignidade. Nós precisamos disso.

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