Quase todos nós apreciamos a internet. Surgida há coisa de duas décadas, ou bem menos que isso para a maioria das pessoas, a internet é a síntese de nossos sonhos de informação barata, comunicação imediata. É também a realização que mais se aproxima da realização delírios dos enciclopedistas do Renascimento.
Acostumamo-nos aos e-mails, chats, programas de mensagens de todos os tipos. Reencontramos amigos perdidos nas névoas do passado, fazemos novas relações, transferimos dinheiro, fazemos compras, programamos viagens: tudo pelo teclado e pela telinha, nessa invenção que é uma série de cruzamentos pouco imagináveis há meio século. O telefone casou com a máquina de escrever e nasceu o telex; a televisão casou com o arquivo e nasceu o computador; o telex casou com o computador e nasceu a internet. Essa é a genealogia da ferramenta que nos escravizou no lar, na escola, no trabalho. Ninguém vive no século XXI sem internet.
De todos os benefícios e prazeres da internet, todas as possibilidades, faculdades e alegrias ligadas a esse fantástico artifício tecnológico que herdamos da tecnologia militar da Guerra Fria, nada, absolutamente nada, nos causa maior alegria que as ações que se expressam pelos verbos deletar, excluir e bloquear.
Deletar é um prazer que vem do tempo dos computadores desplugados; o verbo sofreu discriminação xenofóbica pelos que esqueciam sua nobilíssima origem latina, malgrado a passagem demérita pelas línguas bárbaras antes de aportar em terras lusófonas. Mas delatar, mesmo antes de chegarmos à internet, já era ótimo: significa eliminar arquivos sem produzir resíduo. Ainda melhor que, ao deletar, o lixo virtual ficava num depósito por algum tempo, sem incomodar ninguém, prontinho a ser reabilitado em caso de arrependimento.
Mas deletar assumiu sentidos de onipotência quando conjugado em coro com excluir e bloquear, a trindade de nossa onipresença no universo virtual. Foi com o advento da internet que pudemos passar a deletar pessoas, excluir desafetos e bloquear os chatos. Não é um mundo ideal, melhor que a República platônica ou Utopia de Morus? Sentimo-nos senhores de nossas relações, poderosos, quase divinos em nossa presença virtual pelos poderes que nos conferem esses verbos. Ninguém nos incomoda além de nossa paciência, ninguém invade nossos espaços ou nos impõe sua existência se fazemos os sinais mágicos que programam nossas páginas para nos livrarem de alguém deletando a pessoa, excluindo-a ou bloqueando-a. É mais eficiente que qualquer exorcismo.
Na verdade, somos mais poderosos deletando, excluindo e bloqueando que a própria divindade: nas maiores ofensas decaiu Lúcifer aos infernos e perderam Adão e Eva o paraíso. Na morte, o pecador se dana e o justo se salva. Mas para quem é deletado não há lugar, para o excluído resta o limbo e ao bloqueado nem sobra cair em si. Ser deletado é pior que a morte, ser excluído é pior que a condenação eterna e ser bloqueado é mais penoso que a morte-viva de um zumbi.
Imaginem o mundo em que podemos excluir os cobradores, bloquear a sogra e os cunhados, deletar qualquer concorrente, desafeto, ou quem quer que cometa a desfaçatez de ter uma opinião contrária! Assim é a internet. Alguém nos mandou uma mensagem idiota? Bloqueado. Repetiu a mesma piada sem graça? Excluído. Teve uma opinião que não soubemos refutar? Deletado.
O mundo ficou melhor por podermos deletar, excluir e bloquear. Nós nos sentimos mais ativos, pois impedimos a ação que quem nos contraria. Nós nos sentimos mais bem relacionados, pois a existência alheia passou a ser condicionada por nossa vontade. Nós nos sentimos mais inteligentes, pois podemos ignorar totalmente o argumento alheio. Com tudo isso, nós nos tornamos mais focados em nós mesmo, cada um de nós se torna o centro de seu próprio mundo virtual, senhor de nossas possibilidades e eclipsando nossas limitações. O outro deixa de ser, de ter alteridade, passa a ser aquilo que consentimos que ele seja. E nos regozijamos.
Não é essa a grande alegria da internet? Pois bem, em tempos de Lula e reinado das metáforas, quero sugerir a todos, no dia da eleição que se aproxima, que se lembrem dos prazeres que temos em deletar, excluir e bloquear na internet. E que se lembrem de que apertando os botões da urna eletrônica também somos senhores de bloquear corruptos, deletar incompetentes, excluir indesejáveis.
Enfim, se não gostou do que digo, delete-me, bloqueie-me e exclua-me. O prazer será recíproco.
Acostumamo-nos aos e-mails, chats, programas de mensagens de todos os tipos. Reencontramos amigos perdidos nas névoas do passado, fazemos novas relações, transferimos dinheiro, fazemos compras, programamos viagens: tudo pelo teclado e pela telinha, nessa invenção que é uma série de cruzamentos pouco imagináveis há meio século. O telefone casou com a máquina de escrever e nasceu o telex; a televisão casou com o arquivo e nasceu o computador; o telex casou com o computador e nasceu a internet. Essa é a genealogia da ferramenta que nos escravizou no lar, na escola, no trabalho. Ninguém vive no século XXI sem internet.
De todos os benefícios e prazeres da internet, todas as possibilidades, faculdades e alegrias ligadas a esse fantástico artifício tecnológico que herdamos da tecnologia militar da Guerra Fria, nada, absolutamente nada, nos causa maior alegria que as ações que se expressam pelos verbos deletar, excluir e bloquear.
Deletar é um prazer que vem do tempo dos computadores desplugados; o verbo sofreu discriminação xenofóbica pelos que esqueciam sua nobilíssima origem latina, malgrado a passagem demérita pelas línguas bárbaras antes de aportar em terras lusófonas. Mas delatar, mesmo antes de chegarmos à internet, já era ótimo: significa eliminar arquivos sem produzir resíduo. Ainda melhor que, ao deletar, o lixo virtual ficava num depósito por algum tempo, sem incomodar ninguém, prontinho a ser reabilitado em caso de arrependimento.
Mas deletar assumiu sentidos de onipotência quando conjugado em coro com excluir e bloquear, a trindade de nossa onipresença no universo virtual. Foi com o advento da internet que pudemos passar a deletar pessoas, excluir desafetos e bloquear os chatos. Não é um mundo ideal, melhor que a República platônica ou Utopia de Morus? Sentimo-nos senhores de nossas relações, poderosos, quase divinos em nossa presença virtual pelos poderes que nos conferem esses verbos. Ninguém nos incomoda além de nossa paciência, ninguém invade nossos espaços ou nos impõe sua existência se fazemos os sinais mágicos que programam nossas páginas para nos livrarem de alguém deletando a pessoa, excluindo-a ou bloqueando-a. É mais eficiente que qualquer exorcismo.
Na verdade, somos mais poderosos deletando, excluindo e bloqueando que a própria divindade: nas maiores ofensas decaiu Lúcifer aos infernos e perderam Adão e Eva o paraíso. Na morte, o pecador se dana e o justo se salva. Mas para quem é deletado não há lugar, para o excluído resta o limbo e ao bloqueado nem sobra cair em si. Ser deletado é pior que a morte, ser excluído é pior que a condenação eterna e ser bloqueado é mais penoso que a morte-viva de um zumbi.
Imaginem o mundo em que podemos excluir os cobradores, bloquear a sogra e os cunhados, deletar qualquer concorrente, desafeto, ou quem quer que cometa a desfaçatez de ter uma opinião contrária! Assim é a internet. Alguém nos mandou uma mensagem idiota? Bloqueado. Repetiu a mesma piada sem graça? Excluído. Teve uma opinião que não soubemos refutar? Deletado.
O mundo ficou melhor por podermos deletar, excluir e bloquear. Nós nos sentimos mais ativos, pois impedimos a ação que quem nos contraria. Nós nos sentimos mais bem relacionados, pois a existência alheia passou a ser condicionada por nossa vontade. Nós nos sentimos mais inteligentes, pois podemos ignorar totalmente o argumento alheio. Com tudo isso, nós nos tornamos mais focados em nós mesmo, cada um de nós se torna o centro de seu próprio mundo virtual, senhor de nossas possibilidades e eclipsando nossas limitações. O outro deixa de ser, de ter alteridade, passa a ser aquilo que consentimos que ele seja. E nos regozijamos.
Não é essa a grande alegria da internet? Pois bem, em tempos de Lula e reinado das metáforas, quero sugerir a todos, no dia da eleição que se aproxima, que se lembrem dos prazeres que temos em deletar, excluir e bloquear na internet. E que se lembrem de que apertando os botões da urna eletrônica também somos senhores de bloquear corruptos, deletar incompetentes, excluir indesejáveis.
Enfim, se não gostou do que digo, delete-me, bloqueie-me e exclua-me. O prazer será recíproco.
Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

No resumo de tudo... caro amigo, estou contigo e nao me abro. se nao fosse a internet, quando poderíamos ... ler suas sabias palavras, quando todos desfrutariam ...das artes, das idéias, das palavras e da vida : dos amigos "vivos e virtuais" ,dos amores "reais e imaginários" , da paixões eletrônicas, do voyerismo virtual... hoje eu quero realmente dividir meu mundo... mesmo com estranhos...mais que eles comentem... se nao, vou ter um prazer do "deletar" ou do "excluir".
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