Resolvi ser pentassexual. Assim por opção. Para evitar o tédio e a mesmice. Dizem que ninguém é hétero ou homossexual por opção, são condicionantes sociais ou biológicas, ou ambas, que não puderam ainda ser estabelecidas com exatidão, mas que determinam o comportamento afetivo e sexual dos mamíferos. Sim, dos mamíferos, pois essas variantes da sexualidade não são privilégio humano não – isso é facilmente constatável por qualquer pessoa afeita ao trato com animais. Até onde tenho lido, nunca vi referências a origens de outras manifestações de sexualidade além da hétero e homo orientadas. Então fica sendo por minha opção mesmo que me torno pentassexual, salvo melhores considerações.
Tomei essa decisão há algum tempo, mas ainda não a implementei. Estou escolhendo as quatro formas de sexualidade que pretendo praticar e que ainda não estão incorporadas a minha vida. Para não haver dúvida, pentassexualidade é a expressão físico-afetiva por parceiros de cinco naturezas distintas. Sendo didático: heterossexualidade é a manifestação orientada por parceiros do sexo oposto pelo vértice, homossexualidade é a manifestação que busca parceiros do sexo adjacente, bissexualidade é aquela desorientação que se perde em triângulos escalenos. Essas são as mais comuns. Há ainda os que se dizem pansexuais, mas seria muito para mim: definitivamente eu prefiro me abster de qualquer envolvimento sexual com alimárias, e não tenho nenhum tesão por árvores mortas, cupinzeiros com buracos de tatu, pontes e nem mesmo pela Estátua da Liberdade ou Vênus de Milo, por mais antropomórficas que sejam. A dificuldade tem sido então escolher os dois pares ou quatro parceiros ímpares que ainda me faltam para interar cinco, penta. Uma preferência eu já tenho, mas qual seja é assunto exclusivamente meu e de quem estiver comigo.
Os profissionais de saúde de plantão que se abstenham, minha prática não poderá ser enquadrada como “Disfunção sexual não causada por transtorno ou doença orgânica” (CID10-F52), tampouco caberá o rótulo de “Apetite sexual excessivo” (CID10-F52-7) e muito menos na vala comum da “Outra disfunção sexual...” (CID10-F52-8). Também não caberá a pecha de “Transtorno da identidade sexual” (CID10-F64) e nenhuma de suas variantes decimais. Pulem tudo o mais que houver na CID10, F65, F66, Q95-3, Q95-8 (Isso tudo é papo técnico, o leitor humano comum nem precisa procurar saber o que é, basta entender: doença? Estou fora.) O Código Internacional de Doenças não relaciona o “Transtorno da pentassexualidade” porque ele não existe. Inventei a pentassexualida para mim e ela não é nenhum transtorno. Bem se sabe que o tal código tinha números até pouco tempo até para quem gostava de parceiros do mesmo sexo, mas, como a maioria dos profissionais de saúde não queria estar enquadrada, tiraram. Espero que não se dêem ao trabalho que arrumar um número para a pentassexualidade, pelo menos enquanto eu for o único adepto da coisa. Se outros aderirem, passaremos a ser uma minoria – e teremos ampla proteção social, nessa qualidade. Por ora sou só eu, não se ocupem de mim.
Minha opção é mero exercício do livre-arbítrio. Estejam certos de que os parceiros humanos que porventura eu escolher serão adultos e capazes para mútuo consentimento. Os animais não serão submetidos a dor nem a práticas que os coloquem em risco ou firam seus direitos legais. Toda minha atividade pentassexual será praticada no recesso do lar ou onde esteja garantida a privacidade necessária. Só não estou seguro sobre a necessidade de consentimento ou proteção legal quanto a seres de outras naturezas; por exemplo: se eu for transar com uma montanha, será necessário relatório de impacto ambiental? Se eu escolher uma relação estável com um Ipê-Roxo (tenho forte atração por eles) será necessário o acompanhamento do Ibama? E se eu me sentir atraído por Três Marias (o lago!) será necessária interveniência da Marinha ou do Ministério das Minas e Energia? Essas são questões legais importantes para a minha escolha de parceiros; afinal, nada é mais brochante que excesso de burocracia.
Uma última dúvida: será que eu devo patentear a pentassexualidade, antes que a notícia se espalhe e um Bilgaytes da vida a registre, ganhe milhões, e até eu tenha que paga para ser o que eu inventei ser?
Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.
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