O entorno de Ouro Preto ainda está repleto de vestígios da atividade mineradora dos séculos XVIII e XIX. São muitos quilômetros de canais, centenas ou milhares de bocas de minas, ruínas de residências, muros e sítios cuja natureza ou função permanece indeterminada.
O Curral de Pedras faz parte desse conjunto, situando-se nos limite entre a zona urbana e a rural, destaca-se por sua dimensão e pela hipótese de que não teria sido originalmente um curral, mas uma fortificação. Trata-se de um quadrilátero de cerca de 200m de perímetro, edificado com muros de pedra cuja denominação deve ser, segundo meu pensamento, ligada ao uso tardio.
As paredes de pedra tinham mais de 2m de altura, com cerca de 1m de largura na base. Havia edificações internas e uma série de obras hidráulicas complementares.
A edificação tem sido agredida nas últimas décadas, numa intervenção predatória e rápida; suas paredes têm sido destruídas. Não se tem notícia de referências historiográficas ou documentais sobre o sítio.
Meu objetivo aqui será apenas apresentar algumas questões indicativas do estado de abandono de todos os sítios da arqueologia da mineração no entorno de Ouro Preto, apresentando, como exemplo, o Curral de Pedras, edificação que sempre me impressionou, desde a infância, e que já foi demolida em mais de 70% desde que eu a conheci.
Todo o conjunto das ruínas mineratórias está relegado pelas autoridades, desprezado pelos historiadores e ignorado pela população. Não havendo interesse comercial na exploração dos sítios arqueológicos (turismo), não há que se falar neles, que se investir neles, que os estudar...
O estado da ruína é de completa depredação, desmonte. Acredito que motivados pela busca de algum tesouro sonhado, ao longo dos últimos anos, pessoas desavisadas e inescrupulosas têm sistematicamente demolido o que resta da edificação. Pelo isolamento em que se situa a ruína, nenhuma outra hipótese parece justificar a constante agressão ao edifício.
Este é, de resto, o estado geral de todo o sítio arqueológico do entorno de Ouro Preto. Nunca foi dada atenção científica a ele, assim como sempre foi desprezado como atrativo turístico ou como área de preservação.
Os canais estão todos assoreados, as “caixas-d’água” soterradas ou desmoronadas, as minhas desmoronadas, os suspiros – estes sempre evitados.
Não há levantamento, não há mapeamento, não há estudo documental. É como se a atividade mineradora não tivesse existido ao alcance dos olhos, como se o ouro brotasse na Casa dos Contos por geração espontânea e fosse convertido em templos, escultura, talha, poesia e inconfidências sem que tivesse sido arrancado ao solo às vistas de qualquer cidadão.
Essa história toda está contada no livro:

Autor: Públio Athayde
Meu nome é André Castanheira Maia, sou historiador de Ouro Preto. Durante o ano de 2009 realizei inúmeras caminhadas pela Serra de Ouro Preto e Mariana e "redescobri" diversos vestígios da mineração. Concordo plenamente com o artigo. Acredito que um estudo sério e multidisciplinar seja nescessário pois, não basta criar e arquitetar um parque arqueológico senão há pesquisas arqueológicas que orientem tal implantação.
ResponderExcluirEspero que as autoridades e cientistas competentes cumpram o seu papel.
Parabéns pelo artigo.
Ouro Preto, 22 de novembro de 2009