14 de novembro de 2008

Causa Perdida


Tenho por certo que o objetivo da ciência é estabelecer as relações entre as diferentes variáveis que ocorrem dentro dos mais distintos campos do conhecimento. Estas relações são de diferentes tipos, um deles, todavia, é de forma muito especial privilegiado. Estou me referindo àquele tipo de relação entre variáveis que conhecemos como causa. É sobre a relação causal que estou me propondo a refletir, definindo-lhe a natureza, a amplitude, conhecendo algumas de suas variantes e de seus descaminhos.
Eis que estou em busca de causa. Eis por que chamei este texto Causa Perdida.
Em épocas diferentes, variou o conceito de causa; também na mesma época, houve mais de um conceito definidor da relação causal. Muitos conceitos encontrados são inteiramente incompatíveis, outros constituem apenas matizes do mesmo feixe.
Partindo das relações que pode haver entre diferentes variáveis, pretendo estabelecer quais das combinações determinam em cada conceito de causa a causalidade propriamente.
Estarei considerando a seguintes fatores em cada relação de variáveis: 1. A reversibilidade, se a relação é do tipo que pode ser completamente anulada, voltando a situação a ser perfeitamente como era antes ter havido interveniência dos fatores. 2. A determinância, em que medida a conjunção de fatores gera compulsoriamente a outra relaçãoão de características distintas da inicial. 3. A seqüência, pelo que se estabelece se os fatores se alternam temporalmente, em que sentido o fazem, ou se coexistem. 4. A suficiência, que é a circunstância que estabelece se um ou mais fatores se bastam ou não, em conjunção, para que se processe o fenômeno. 5. E a necessidade, que é o critério que estabelece se algum ou alguns fatores têm que existir para que determinado fenômeno ocorra de tal ou tal forma.
Outros fatores podem ser estabelecidos para se qualificar as diversas relações entre variáveis das mais diversas naturezas. Todavia estes me bastam, quanto mais por que em havendo outros, mais se me consolida a tese que procuro estabelecer, já que esta se alicerça mais solidamente no pilar da multiplicidade, isto é, quanto maior o número de combinações assumíveis entre os fatores caracterizadores das relações, mais completa sua caracterização, e conseqüentemente mais amplo o universo de questionamento.
Em uma observação, podendo verificadas todas estas cinco variedades – as adotadas – de relações entre as variáveis, as relações assumirão as seguintes e diferentes alternativas:

Quadro 1 – Tipos de Relações Entre Variáveis
O senso comum tem um conceito de causa. Como, aliás, o tem tudo. Verificaremos que este conceito não se adequa, de maneira alguma, à necessidade cientifica de se estabelecer causalidade, pois tão positivo é seu conceito que não pode ser constatado in extremis por qualquer metodologia.
Trata-se da relação entre fatores, esta causa, pautada pela irreversibilidade, fixada de forma determinista, seguindo cronologicamente a seqüência direta como única alternativa, suficiente em si e necessária para seus efeitos. Acresce-se que todas estas características estão neste conceito de causa claramente definidas, com seus limites claramente estabelecidos. É um conceito positivo e de difícil alcance efetivo.
Para comparar, aqui está a composição deste conceito de causa segundo compreendo-a no conceito estabelecido pelo senso comum:

Quadro 2 – A relação Causal Entre Variáveis Senso Comum Causa
Para a observação que leva ao conhecimento científico, se assumirmos tal conceito de causa, haveria enorme número de problemas, pois para determinarmos qualquer causalidade dependeríamos de eliminar a indefinição em todos os cinco fatores que estão sendo considerados, para o que seria necessário controle extremamente mais rigoroso e complexo.
Para a Ciência Social, ou para a História, a causa resultaria impossível em tal circunstância, pois nunca se pode, por exemplo, suprimir a variável histórica para se verificar sua necessidade em relação a algum efeito. Da mesma forma, não se podem suprimir fatos tidos como acessórios para determinar a suficiência de algum outro. Um fato social qualquer pode, entretanto, ocorrer novamente, como reversão, se alguns fatores determinantes formem suprimidos ou alterados.
Esses conceitos de causa, como quase todos os conceitos comuns da sociedade ocidental, têm suas origens no pensamento grego.
Tratemos de alguns exemplos de conceito de causalidade científica, a relação causal entre variáveis como objeto de verificação metódica, relação epistemologicamente definida e delimitada.
A explicação causal cientifica, ligada segundo esta primeira acepção à lei da causalidade, parte do principio segundo o qual os fenômenos naturais estão submetidos a leis, segundo as quais os processos são invariáveis, e, quando for possível a identificação da lei, será igualmente possível a predicabilidade perfeita. Até aqui não há praticamente dissociação entre este conceito de causa e o conceito de senso comum.
Elster estabelece distinção entre relação causal e explicação causal, segundo a qual a relação causal se dá entre eventos e a explicação causal é feita sobre um fato. Explica-se um fato, relacionam-se eventos. Resume-se então a explicação ao estabelecimento da causa? Ou a causa se perde na explicação?


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