16 de outubro de 2010

Bíblia, casamento e Estado



Um dos primeiros argumentos que vêm à tona quando se discute essa ou aquela forma de casamento é o que diz a bíblia.
A bíblia não diz nada. Bíblia é livro e livros não dizem, eles trazem as coisas escritas (não sei se você já viu algum, mas é assim que eles são). E coisas escritas cada um lê como quer. Quando o livro é grosso, confuso, compilado politicamente, nele se encontra justificativa para qualquer coisa. Por coisas escritas na bíblia muita gente foi pra fogueira, muitos foram seviciados, muita grana foi roubada dos pobres.
Então não me diga que há isso ou que há aquilo na bíblia, pois aquela mixórdia de textos se presta e sempre se prestou a todo tipo de interesse.
Sim, sim, minha gente - religiões definem e interferem nas relações afetivas das pessoas, controlando-as. Então vamos dar azo à liberdade religiosa e permitir os casamentos poligâmicos aos mórmons e islamitas brasileiros, vamos reconhecer o direito (cristão) de "prima note" aos coronéis nordestinos (não sei se Sarney vai dar conta, mas gostaria) e vamos entregar crianças a orgias de algumas ínfimas seitas indianas que não sei se há por aqui... Pois se religião serve para coibir essa ou aquela prática, também há de servir para liberar alguma.
 Ora, argumento religioso para assunto de Estado é coisa de outrora - superada aqui.
Quem quiser se juntar, dessa ou daquela forma, sendo adultos e mutuamente consentido, não é da competência de outrem. Chamar isso ou aquilo de casamento, não é uma questão legal - é puramente semântica e os pares (ou trincas) que vivem maritalmente se dizem casados independentemente de contrato explicito ou reconhecimento religioso - portanto são casados de fato, tacitamente. Lei usa palavras para designar situações; ao chamar isso de casamento, e não aquilo, só expressa a limitação que lhe é inerente quanto à universalidade das situações de fato que deveria prever em abstrato.
Veja só como as coisas, não só as que estão escritas, mas mesmo sendo vistas, podem ser diferentes: a cena à direita aqui é a de um homem servindo vinho a seu companheiro (namorado, marido, parceiro) ou seria Jesus resolvendo o problema do noivo de Canã? - Não é nenhuma das duas coisas, é só uma imagem e representação que pode servir a qualquer propósito.  A cena não é um fato, a história o intérprete conta segundo seu interesse ou segundo a leitura que a bandeira do arco-íris mais acima tiver lhe inspirado, mesmo que até aqui nenhuma referência tenha sido feita a ela.
Se uma imagem pode dar margem a visões tão distintas, imaginem os textos - seja lei do Estado ou bíblia de quem quer que ela seja.

Leia aqui mesmo: Azellite, a pop estar! - Orientação sexual, opção ou condição? - O banquete de dona Onça

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