24 de dezembro de 2012

Os três reis magros

Os três reis magros saíram em viagem rumo a Belém do Pará. Uma estrela os guiava. Era uma enorme estrela vermelha que já desviara do caminho muita gente, mas mesmo assim eles se mantinham naquele sem-rumo. Não se sabem os nomes deles, até mesmo o número de três foi construído – afinal é uma boa quantidade para um conto. Talvez se chamassem, Bempior, Maispior e Baitazar; talvez seus nomes fossem Joãopulo, Zédiceu e Ingenuino... Não! Esses são personagens de outra peta; fiquemos com os nomes anteriores.
Bempior, Maispior e Baitazar
De qualquer modo, para empreender a viagem, fossem quantos fossem, necessitavam de recursos – para seus propósitos e para custear o translado. Viram-se então na necessidade de surrupiar algumas coisas de valor. Apropriaram-se então de algum ouro, todo o incenso e a maioria da mirra que puderam.
O ouro eles conseguiram desviando umas tantas verbas publicitárias e seria o suficiente para custear outras tantas campanhas vindouras, aqueles e outros transcursos. O incenso eles usariam para louvar seu mestre, uma divindade enedáctila, apostrofada com cognome de certo cefalópode. Já a mirra eles pegaram só por ouvir dizer que valia muito, mas não sabiam exatamente qual a utilidade dela, então esconderam-na nas cuecas e deixaram lá. É claro que, com isso, seus dotes mirraram!
Ao longo do percurso, mesmo sem perceberem que aquela estrela era um ícone de autoritarismo, meteoro que se aproxima da Terra a cada meio século, empreenderam muita pregação, uma ou outra inauguração e mesmo uns tantos showmícios. Venderam casas para a vida no lado ímpar da Avenida Atlântica, em Copacabana, prometeram ferrovias ligando o Nordeste eleitor ao Sul-Maravilha e trens de bala jujuba entre as maiores capitais do país. Juraram que construiriam um espaçoporto em cada cidade com nome de santo e que fariam a transposição de toda água benta possível para operarem muitos milagres em nome da deidade pelágica teutoide.
Toda essa epifania mitificada encontrou ampla adesão por um povo que jura gostar de república, mas adora o Rei do Futebol, o Rei Roberto, o Rei do Pop, e faz reisados para cada bobo sem corte que se arvora salvador da Pátria. Pelo caminho, à medida que despendiam recursos, os magérrimos e famérrimos reis se viam na contingência de explodir um ou outro caixa eletrônico com que deparassem, mantendo assim os níveis da reserva estabilizados, sem ampliar o spread das dívidas que iam contraindo: papagaios que volitariam por dez ou quinze anos antes de pousarem em algum paul já sob outra gestão.
Ainda que estivessem bem providos no necessário e se reabastecessem quando a condição sobrevinha, telegrafavam... Não, agora mandavam e-mail. Bem eles solicitavam à gerenta do Erário mais e mais fundos. E vinham fundos mútuos, fundos a fundo perdido, fundos de caixa, e mais e mais fundos para fundarem outras células de adoração ao Dorytheutis brasiliensis ou para refundarem alguma que minguasse. Os tais fundos também serviam para subvencionar os melhores votos de fim de ano de outras seitas, sempre que se fizesse necessário.
E enquanto a caravana dos reis magros passava, cães magérrimos ladravam – e os reis mercantes faziam ouvidos moucos, pressurosos de seus deveres precípuos de rumarem à estrela rubra em sua órbita de ilusões perdidas.

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