25 de julho de 2013

Enfiem a cabeça no buraco e comemorem

Não entendo, não entendo. Não adianta: nunca entenderei. Metade de minha cidade, metade de meu estado em júbilo. Por que cargas d'água?
O resultado futebolístico de ontem vai colocar mais comida na mesa de alguém?
Alguém vai ter remissão de suas dívidas por causa daqueles goles? (Sim, em português, o plural de gol é goles.)
Alguma aposentadoria vai ser majorada por causa dos foguetes? Ou os foguetes são por causa de uma redução nos impostos?
Enfiem a cabeça no buraco e comemorem a vidinha
pífia que vai continuar sendo degradada.
Ahhh, a Libertadores... Aumentaram as liberdade civis, as liberdades de ir e vir, as liberdades de manifestação, as liberdades de por e despor governantes?
Nós ganhamos o campeonato! Nós quem, cara pálida? Você chutou alguma bola? Eu não. Seu grito ou sua buzina produzem algum efeito em campo ou em sua vidinha de merda? Algum jogador vai te convidar para a festa na casa dele? Alguns deles vão partilhar os contratos que advierem do resultado de ontem com o povo? Nós, quem? Nós, que desejamos montes de coisas, estamos mais perto das coisas que desejamos em virtude, causa ou efeito de algum resultado de futebol? Que nós é esse, que a imprensa inventa, dissemina, propaga e apregoa... e que o povo engole sem mastigar? Nós uma ova: o Atlético venceu (meio que na subjetividade de regras fluidas e imponderáveis, mas venceu). Que diabos faz as pessoas entenderem que participam do evento, quando sua ação em relação ao resultado nem sequer é vento?
Ah, o futebol serviu para esvaziar um pouco as demandas, então as pessoas ficaram assim tão alegres foi por terem tido suas atenções desviadas das vicissitudes do cotidiano, das empulhações dos políticos, da insegurança com o futuro, das dívidas impagáveis, do esbulho fiscal, das coações policiais, das humilhações nos postos de saúde? Que alegria besta.
Não entendo por que as pessoas comemorem como se fosse uma alegria pessoal a vitória alheia. Vitória alheia por ser de outrem, alheia por produzir alheamento, alheia por não agregar nenhum bem, nenhum benefício, nenhuma bonança.
Hoje como ontem, amanhã como hoje, estaremos premidos pelas dívidas públicas exacerbadas, pela ingerência nas questões do Estado, pelo ensino público e privado degradados, pela mercantilização dos serviços de saúde e por sua utilização para fins políticos eleitorais. Hoje como ontem, amanhã como hoje estaremos vendo diminuir nossa liberdade de expressão, de manifestação, de questionamento. Estaremos vendo crescer o autoritarismo, a veia policialesca dos que nos governam, o patrulhamento institucional, o sectarismo político, o patriarcalismo ancestral e ainda tão presente.
Aleluia! O papa está entre nós (e é argentino e sorridente!) e o Atlético ganhou. Aleluia: o povo vai continuar tão fodido ontem como anteontem, hoje como ontem e de amanhã em diante, enquanto não se der conta do pífio apanágio dos esportes e das religiões. Enquanto as pessoas não se derem conta de que só colocando a mão na massa e fazendo o que querem e exigindo o que têm direito construirão vitórias reais, palpáveis e dignas, verdadeiramente, de fogos e buzinaços.
Enquanto isso, gritem galo e finjam para si mesmos que a vida melhorou.

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