
Prefácio ao livro Sonetos para Ser entendido
de Públio Athayde
diversos sonetos da obra
estão publicados em
Som de Sonetos
Públio Athayde estréia na poesia de uma forma pouco comum. É o próprio título que talvez forneça a principal chave de leitura dos textos: algo como uma ascese para se chegar ao entendimento e ser um entendido em paz neste mundo. O leitor, além disso, deve se manter atento, tal como o poeta nos adverte o poema “De atalaia”: “Porque coisa escondida existe / Até no mais óbvio do chiste.”
Como qualquer comentário, este também opera um corte que se quer radical, pois supõe assim resgatar precisamente o nervo mais teso, se aproximar de onde bombeia mais sangue. Como sabemos, o cômico, a ironia, o grotesco, o escatológico, o blasfemo, o chulo são territórios considerados menos nobres na literatura, ainda sob o império do apolíneo. São raros, portanto, os autores que levam a sério a pesquisa desses territórios e sabemos de sua luta para terem as respectivas obras reconhecidas.
Públio pode pertencer a este heterodoxo grupo, a depender dos passos que ainda vai dar. Neste livro que ora se publica, o que de positivo ele pode nos oferecer é essa visão sardônica e básica da ausência, da solidão e da insignificância, que um poema como “Carência” deixa claro com todas as letras: “o homem comum é só um filho da puta”. Quem dera fôssemos filhos de Deus! Nesta cartografia aqui e ali sarcástica sobre o solitário ser, citaria ainda dois belos versos do poema “Gelado de frio”, pela simplicidade estonteante com que ele consegue operar com pequenas “bobagens”, diriam alguns: “Faço uma retirada a esmo (...) Concentro-me em meu umbigo”.
Mas há ainda algo mais importante. O modo tão puro e descarado, e isto não é um paradoxo, com que aborda o amor e o sexo homossexual, atingindo em certos momentos resoluções bem satisfatórias. É o caso de “Esgrima”, para mim o melhor poema do livro, misto de epifania e apologia, que nos faz lembrar a boa poesia erótica, mas também um autor tão singular quanto Glauco Matoso, a quem possivelmente este poema agradaria. Assim também se demarca uma diferença, já que a maior parte poesia erótica homossexual no Brasil das últimas décadas é normalmente reticente, vaga, implícita.
Notável ainda que este mapa mínimo de vivências afetivas é descaradamente moderno, sem culpas, livre, como em “Cantos de amores de mil amados”, onde podemos ler “Eu sem ti e sem mais tantos”... Nesta série, o melhor soneto fica sendo “Tipo ideal”, com a frase de encerramento: “ Serei teu, menino.” E não recua diante de sentimentos menos “Nobres”, como em “Não sei que soneto”: “Não te prendo, só de corrente.”
Como não poderia faltar, Públio é desses leitores que pode transformar todo luxo em “lixo”, esmerando-se na arte da colagem, do pastiche, da citação descabida, do deslocamento imprevisto. A sessão dos “Sonetos transformados” é onde isto se nota de forma mais evidente. Deles, destaco os grotescos versos finais de “Soneto”, feito a partir de um soneto de Gregório de Matos, e “Círculo viciado”, escrito a partir de “Círculo vicioso” de Machado de Assis. Contudo, o poema mais hilário de todo o livro para mim continua sendo “Sem o mar”, “descontruído” a partir de “Mar”, de Augusto Frederico Schmidt, onde atingimos os píncaros do nonsense e da insinuação, que é tudo, menos vaga. Aí é que vemos o que uma boa foice pode fazer. Interessante notar que, aqui, mais que em outras sessões, a forma do soneto explicita-se em todo o seu desgaste, que é também de onde se pode retirar a força do deboche.
Encerro por onde comecei, pela coisa escondida no mais óbvio do chiste. Encerro no poema “Pátria”, da sessão “Sonetos infantis”, que foi escrito quando Públio era ainda um menino e acreditava em tantas coisas importantes. É porque no centro do riso mora uma pungência insofismável.
Ronald Polito, poeta, tradutor, ensaísta e historiador, nasceu em Juiz de Fora (M.G.), em 5 de abril de 1961.É autor dos seguintes livros de poesia: Solo (R.J.: Sette Letras, 1996), Vaga (Mariana: Edição do autor, 1997), Objeto (Mariana: edição do autor, 1997), Intervalos (R.J.: Sette Letras, 1998), De passagem (São Paulo: Nankin, 2001) e Pelo corpo (Santo André: Alpharrabio, 2002), este último em parceria com o poeta Donizete Galvão. Há ainda a publicação de uma série de cartões publicados com o título Versos postais, trabalho editado pelo autor em 1993, no qual conjugam-se elementos plásticos e literários dentro de uma dimensão conceitual.
Como tradutor, fez versões do francês, inglês, catalão e espanhol, publicando os livros: Poemas, do poeta francês Pierre Reverdy (traduzido junto com o poeta Julio Castañon Guimarães), Poemas civis, do poeta catalão Joan Brossa (traduzido com o poeta Sérgio Alcides), XXI Poemas, da poetisa norte-americana Sylvia Plath (traduzido com Deisa Chamaum).

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