Já reparou nessa moda que vem agora na maioria dos anúncios? Perto de cada imagem está escrito: “foto ilustrativa”. A pergunta que fica é se alguém conhece alguma foto que não seja ilustrativa..A idéia dos anunciantes, o que o anunciante quer, na verdade, é se livrar de reclamações fundadas nos direitos do consumidor. Deve haver por aí algum “Manual de Defesa Contra o Consumidor (anotação: verificar se existe – se não existir, avaliar a possibilidade de escrever um). Há de ser um livrinho de muita utilidade para quem negocia, para se livrar
do consumidor neurótico, que interpreta como instrumento maniqueísta a legislação que foi feita visando garantir as relações de consumo, o consumidor é o bem – contra todos os males e perversidades do mercado. Alguns consumidores se põem na pele de verdadeiros paladinos da praça, perseguindo as o missões e equívocos dos comerciantes como xiitas à caça de pecadores. Visam com isso lucros inesperados – nem sempre muito éticos. Foto meramente ilustrativa quer dizer: o anúncio fica mais bonito assim; ou: se você for
craque, pode fazer um parecido; também: esse é um dos tipos que tenho, mas quando você chegar, já pode ter acabado. Será que foi vetado no Código do Consumidor algum artigo que dizia que as partes têm que ter bom senso? Desde a constituição cartesiana se sabe que o bom senso é muito bem dividido entre as pessoas e a legislação
de consumo recebeu esse princípio subordinando-o à ótica da boa-fé: se você entender que algum anúncio foi redigido dentando ludibriar alguém, afaste-se do anunciante; se você lê todas as ofertas procurando nas letras miúdas os equívocos e lacunas de que possa se aproveitar, quem está agindo de má-fé é você. Já assimilamos muito bem em nossa sociedade os tais direitos do consumidor, aprendemos que não somos vítimas frente ao comércio e que, na relação entre o mais fraco e o mais forte, a justiça tenta favorecer os primeiros. Agora falta um código de educação do consumidor. Um instrumento que ensine à coletividade que os princípios que regem a relação de consumo são de mão-dupla, que muitos dispositivos da lei de consumo invertem a relação de força, transformando os ofertantes em vítimas potenciais. Vamos entender que, se nos distanciarmos em bloco de quem apresente indícios de prática desonesta, a atividade em questão minguará até perecer, se o responsável não mudar a tempo de atitude. Enquanto os consumidores estivermos agindo como vítimas do consumo ou paladinos das relações mercantis, os anúncios, embalagens e contrato precisarão de frases tão tolas quanto óbvias quanto “foto ilustrativa”.
Em tempo: este artigo é meramente opinativo, não constitui jurisprudência nem pode ser base para argüir o autor.Todas as fotos publicadas são meramente ilustrativas e não têm nada a ver com este texto que poderia perfeitamente ser publicado sem nenhuma foto.Dois p.s. Primeiro a referência ao blog Coma com os Olhos, um evangelho sobre fotos ilustrativas. Depois a missiva de um leitor que se incomodou com o que eu escrevi aqui, publico na íntegra.
Agora um p.p.s.: O diagrama esquemático e a foto ilustrativa é um excelente artigo que trata desse assunto com esquema bem diaframa e boas ilustrações devidamente fotografadas.
Articulando
Coletânea de artigos de Públio Athayde. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem maisprofundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos. Clique nos links o no livro para adquirir.

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