Geralmente andam juntas, mas entendo que fé e confiança sejam conceitos bem distintos. Essa afirmativa pode ser incômoda, certamente é provocativa. Mas quero que me entendam desde já como respeitador das fés alheias e confiante na boa-fé das pessoas.Meu conceito de fé é que ela seja a crença irracional naquilo que é improvável; irracional no sentido de que não pode ser racionalizada, não pode ser demonstrada, estando acima da capacidade dedutiva e além da constatação empírica; improvável nos sentidos de que não é passível de prova e de que a hipótese fática seja remota. Fé é uma crença exprimível, partilhável, apesar de amplamente subjetiva, mas abstrata e complexa em sua gênese. Tem origens sociais, psicológicas e culturais.
Compreendo a confiança como a crença baseada no juízo de probabilidades e na experiência. A confiança pode ser demonstrada, os fatores que a constituem são relacionáveis e constituídos de eventos empíricos. Quando existe razoável parcela de probabilidade de que aqueles eventos se repitam, ou se reproduzam assemelhadamente, e de que as mesmas relações se processem, dizemos que temos confiança. Confiança é então a crença demonstrável, exprimível, complexa sim, mas seus graus de abstração e subjetividade são muito menores. Não tem relevantes fatores psicológicos intervenientes, tem menores influências sociais ou culturais que a fé.
Não tratarei de religião – que é seara alheia, mas de política – que é onde minha ignorância é um pouco menor. Recomendo a todos pensar se têm votado com fé ou com confiança em seus candidatos.

Quem vota com fé, escolhe por adesão: pratica o mesmo voto que seu grupo familiar, de seu segmento profissional, de sua turma ou de sua religião. Votar com fé é se deixar levar por fatores sociais e psicológicos que podem ser simpáticos, mas nem sempre resultarão em eleger bons candidatos. O voto desse tipo é conhecido por voto de cabresto, voto de rebanho, e o eleitor que age assim é o gado eleitoral que segue a madrinha da tropa. O eleitor que se deixa seduzir pela fé eleitoral é convencido por promessas fáceis de cumprimento difícil, senão impossível. Essa fé não é baseada na experiência, não tem base na análise do currículo do candidato ou seu partido, portanto não tem base empírica. A fé eleitoral é uma paixão que nem sempre pode ser explicada, como as paixões todas. E como as demais paixões, o voto de fé tende a resultar em tragédia política. Quase todos nos lembramos bem de um país que elegeu com grande fé um caçador de marajás e que se viu obrigado a afastá-lo em meio ao mandato. Quase todos nós temos experiências próprias ou vimos políticos serem eleitos pela fé e frustrarem o eleitor. Exemplo típico de voto por fé é eleger alguém por ser filho ou neto de outro político, como se as relações familiares determinassem necessariamente o caráter ou a competência de alguém.
Votem com confiança. Votar com confiança significa raciocinar sobre os candidatos e partidos segundo suas propostas: elas são viáveis? Dá para fazer o que está sendo prometido? Como? Votar com confiança é não se deixar levar pelas opiniões do grupo, não se deixar seduzir por simpatias indefiníveis. Votar com confiança é analisar os dados disponíveis sobre a vida do candidato (descartar os boatos), sobre as propostas de seu partido. Os motivos de uma escolha baseada na confiança são demonstráveis, você pode explicar a quem desejar. Exemplo de voto por confiança é escolher o candidato indicado por um partido ou grupo cujas idéias e ações têm comprovadamente correspondido a seus anseios.
Tenham olhos sobre os políticos que estão agora no exercício de seus mandatos. Eles foram eleitos com fé ou com confiança? Fé e confiança podem ser traídos, apenas quero destacar que é muito mais fácil trair e enganar a fé que a confiança. Pensem sobre essas idéias antes de decidirem os votos futuros. O eleitor é o juiz de fato na escolha eleitoral livre.
A eleição é verdadeiramente livre quando a escolha é feita em candidatos de sua confiança, escolhidos por critérios claros. O juízo baseado em fatos é que gera a confiança, acreditar que existe possibilidade maior de resultados melhores.Há muito mais coisas envolvidas, mas em poucas linhas ficam levantadas essas idéias em que confio. Para completar, por mais antagônicos que sejam os conceitos de fé e confiança, eles não se excluem. É possível ter fé e confiança na mesma idéia ou pessoa, o importante é que se saiba o limite de cada uma dessas crenças. Principalmente na hora do voto.
Articulando
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