21 de novembro de 2008

Retórica da ação nas poéticas visuais - Prolepse

Cesar Ripa
Outono

  • Prolepse é a figura de retórica que consiste na previsão de objeções, refutando-as a priori; antecipação de um argumento ou réplica em relação a uma esperada objeção. HOUAISS.
Não cabe discutir a psicologia do eu poético-visual, nem cabe buscar na obra confessionalidade autoral, tampouco se podem denegar ambas as coisas. Se não se pretende em nossos dias o mais perfeito afastamento pessoal do objeto da ciência, escusado dizer é que não se pretenda tal façanha em produto cuja função seja estética.
Nas poesias visuais, os planos das superfícies dos signos conectam-se aos planos das superfícies dos suportes. As interfaces são criadas entre suportes e signos em combinações diferentes e eles suplementam-se ou friccionam-se, a ponto de fazerem da imagem design ubíquo que permeie outras e diversas manifestações estéticas e exercícios linguageiros.
A busca não é por uma doutrina, caracterização ou mesmo investigação teórico-bibliográfica no campo da arte, mas da produção nesse campo; todavia a doutrina está latente no invento e vice-versa. A poesia visual é a entrega à prática polissêmica transdisciplinar, subsunção a meta-referências retóricas sublimando-as na autofagia do modelo que foge à frieza da categorização aristotélica podendo inclusive aderir-lhe à estrutura. Aceitando-lhe os fundamentos, mas negando-lhe as conseqüências.
A reapropriação da retórica figura como ressonância de causalidade acrônica, espécie de isomorfia não-contígua, decorrente da idéia de recaimento (retombée) . Para explicitar essa idéia, o caminho adotado pode ser o cotejo entre os campos da arte e da ciência, à luz das relações entre esses dois campos e a opção pela investigação no campo da estética negando implicitamente a dicotomia ortodoxa dos campos . Em segundo passo, elementos daquela arte e daquela ciência são examinados empiricamente sob o prisma da mesma episteme, quando “a seqüência de recaimentos assegura a primazia da artificialização como via possível para encararmos a rede de textos que se entrecruzam, gerando uma mestiçagem fértil e salutar de saberes e estéticas irmanados” .
A isomorfia consiste em encarar na poesia visual a prática retórica operacional para teatralizar, no âmbito do discurso artístico, a incorporação, pela expressão plástica, de linguagens artísticas e reflexivas afins. Ao aquiescer à expansão desse intercâmbio estético e discursivo, são engendrados simulacros que evocam recursos técnicos a que já se aludiu como neobarrocos , mas prefira-se o cioso distanciamento de enquadramentos que tendem a se tornar restritivos, quando não minimizantes, afinal, não existem mais modelos a copiar nessa episteme visual que tem sede na ruptura.
O jogo especular transdisciplinar das poesias visuais deixa ao espectador o trânsito pelos espaços interespeculares, não sem lhe esconder alguns pontos de vista, mas sem querer limitar-lhe a vista a um ponto. E nesse jogo de palavras, como no jogo de espelhos, há caminhos para se perder, mas os há para se achar ou para achar o outro. “A consciência desse espaço vacante, onde repousava a solidez dos pilares conceituais a sustentar verdades irrefutáveis erigidas pela ratio, franqueia a proliferação retórica, a metástase irreprimível do discurso, a contrapelo da linguagem econômica e funcional, refratária ao desperdício.”
Essa linguagem econômica e funcional, tão característica da manifestação artística dos dias de hoje, é a expressão da poesia visual. É a linguagem que, criando espaços vacantes entre os espelhos e prismas da significância pretendida, estabelece os limites e a forma a serem ocupados pela interpretação.
O produto repleto de retórica e de poéticas do tempo e do espaço contemporâneo que pode parecer paradoxal, mas passado e presente coexistem. As poéticas visuais reinscrevem continuamente em seus diferentes suportes a multiplicidade apontada pelos concretismos, tão farta de signos visuais que se atualizam a cada processo, mas podem reinscrever com os signos da retórica, tal se está postulando.
Cada processo de atualização dos signos e suportes abre possibilidades visuais, mas também, auditivas, tácteis. Sobretudo são propostas discursivas. Cabe sobrepor à metáfora do labirinto especular o desfiladeiro de ecos, não transpondo a construção imagética do raciocínio para a sonora, mas transliterando os tropos literários e musicais para a expressão plástica e, aí sim, amplificar pela matéria que ocupa o espaço de ressonância a experiência sensorial-estética. Essa é a tentativa.
Resta que não caberá ao autor, nem ao crítico, interpretar ou explicar o objeto de arte quanto ao que reside no óbvio ou o transcende, pois tal seria o mesmo que destruir a obra. Fiquem os textos em aberto, mantidos os espaços lúdicos para o autor e os intérpretes na eterna dialética reinterpretativa.

Referências

BLUTEAU, Rafael. Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, etc. autorizado com exemplos dos melhores escriptores portuguezes e latinos, e oferecido a el-rey de Portugal D. João V., 8 tomos. Coimbra, 1712 a 1721.
CASA NOVA, Vera & BAHIA, José Aloise. O que se passa aí? Acesso a em 2 de julo de 2007.
FAZENDA, Carla Maria Arantes. O sentido da cor: uma investigação interdisciplinar. São Paulo: FAU/USP (Tese), 2001.
HANSEN, João Adolfo. A máquina do mundo. Acesso a em 2 de julho de 2006.
HANSEN, João Adolfo. Barroco, neobarroco e outras ruínas. Teresa. Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 2, 2001.
HERKENHOFF, Paulo. Monocromos, a autonomia da cor e o mundo sem centro. In: Ferreira, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Jneiro, FUNARTE, 2006; p.365-80.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Editora Objetiva, 2001.
MONGELLI, Lênia Márcia. A indisciplinada retórica de Platão. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
MUHANA, Adma. Discurso sobre o poema heróico. Comentário. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
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REBOUL, O. Introdução à Retórica. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2000.
TREFZGER, Fabíola Simão Padilha. Neobarroco – a apoteose do artifício. Acesso a em 1 de julho de 2007.
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