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Primavera
- “Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.” ALMEIDA (sXVI) apud MUHANA, 2006.
Em certo sentido, e em linguagem atual, serão apontadas aqui algumas idéias – com plena consciência de seu caráter provisório – e indicativos de continuidade da investigação em curso. O que não é, mas pode vir a ser.
A investigação estética, investigação pela produção e para a produção, assim como a investigação pelo conhecimento, têm a característica de que, concluída a etapa, ela já pode ser reiniciada, pois se não tiver sido trilhado o caminho do conhecimento do que fazer, certamente já se terá progredido em alguns passos na direção contrária do que não se fazer.
Posto que, poeticamente, o artifício resulte de maquinações do engenho e do instrumento, significando a ficção produzida com arte e indústria visando fim determinado, as invenções, fricções e experimentalismos – esta a novidade – serão os fios a moverem essa máquina do poema visual, na contemporaneidade, exercitando-se a poética cujo impacto estético decorra da forma utilizada, da configuração das imagens no espaço do suporte que a suplemente .
A questão que se coloca não é se o belo , de alguma forma, é alcançado, mas antes se – por se prender ou se desprender tão fortemente quanto desejado de elementos ligados ao belo residente na grandeza, na unidade, na proporção e na ordem preconizadas pela retórica – terá havido aproximação desse desiderato, ainda que não haja enteléquia.
A questão seguinte é se as qualidades dinâmicas do produto: tensão, energia, força, vibração, atração, inerentes à sensibilidade contemporânea, foram conjugadas no construto em harmonia ou contraponto às noções de balanceamento (proporção e ordem), composição (unidade), espaço (grandeza) do mesmo modo, poeticamente.
Na fugacidade da poesia visual, apesar do esquema flagrantemente aristotélico da retórica e seus desdobramentos, pela ambigüidade e polissemia dos instrumentos verbais e não-verbais das obras que foram objeto direto da mimese , dos quais foram extraídos os topoi, o referencial resta mais alicerçado no pensamento platônico.
- Mimese em retórica: figura em que o orador, usando discurso direto, imita outrem, na voz, no estilo ou nos gestos; literatura: recriação, na obra literária, da realidade, a partir dos preceitos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das Idéias [É em ARISTÓTELES, na Poética (XXI-128), que se encontra a primeira teorização acerca desse procedimento da arte; no entanto, para este filósofo, a mimese seria a imitação da vida interior dos homens, suas paixões, seu caráter, seu comportamento (idem, II e III)]; literatura: a partir do Classicismo (s. XV), princípio que orientou os artistas quinhentistas e seiscentistas que acreditavam ter a arte greco-latina qualidades superiores, devendo por isso ser imitada. HOUAISS.
A obra de arte é exercício estético pautado pela forma, território por excelência da retórica. Mas como discurso pretensamente convincente, em delícia de atração e repulsa, é autoconvincente – ou procura sê-lo. Assim, nos meandros nas metáforas e metonímias, no abscôndito das polissemias e da complexa trama intersemiológica poderá ser encontrada a autopoiesis.
No discurso da forma, de referências tópicas constantes, na transdisciplinaridade entre lugares-comuns, ressurge ou fulgura a autoria personalíssima, expressão inexoravelmente constituída de mimeses consciente ou inconscientemente hauridas. A essência do ser se sobrepondo, contrapondo ou – mais que tudo – se expondo em discurso poético que, como representação, trata da projeção da experiência e expectativa vivenciais pelas lentes dos lugares-comuns emulados.
Leia a série toda:
Retórica da ação nas poéticas visuais - Arte - Poética - Prolepse
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