
Fiz um soneto outro dia, inspirado por conversa com ilustre colega que teve feliz oportunidade de passar as consoadas em Portugal - e ela ainda estava por lá na oportunidade.
Levado pelo fato (ex-facto) de o som das palavras ditas à moda portuguesa estar ressoando em minha imaginação enquanto compunha, usei a grafia de lá - mais perto daquela fonética. Depois me dei conta de que, mudada a ortografia, por lei, meu soneto caduca. Veja por si:
Caixa de saüdade
Não cuides dos objectos,
Que te esperam as cousas;
Os troços onde pousas
Têm os mesmos afectos.
Não mudam os aspectos
Se dos factos não ousas
Fugir de tuas chousas
E dos teus trens dilectos.
Querer é nossa falha,
Ter é uma quimera,
Cada posse é acuera.
Saüdade da tralha
É mal que se supera:
O que é, logo já era.Belo Horizonte, 2 de janeiro de 2009.Agora, veja o mesmo na nova ortografia - como perde o sentido na amputação ortográfica:Não cuides dos objetos,
Que te esperam as cousas;
Os troços onde pousas
Têm os mesmos afetos.
Não mudam os aspetos
Se dos factos não ousas
Fugir de tuas chousas
E dos teus trens diletos.
Querer é nossa falha,
Ter é uma quimera,
Cada posse é acuera.
Saudade da tralha
É mal que se supera:
O que é, logo já era.Aspetos - essa palavra arde nos ouvidos... - socorro: destruíram meu soneto! Felizmente ainda tenho heróis a que recorrer: eles não estão desbundados, não perderam os respectivos acentos. Mas teremos que nos acostumar a viajar de avião de pé? Não tem mais acento em voo nenhum! Só mais um detalhe técnico para esclarecer: quase sempre saudade já vinha sem trema, mas os poetas tínhamos a licença de colocar os dois pinguinhos para requerer o ditongo, quando a métrica solicitava: caçaram-nos a licença poética, não podemos mais poetar sem cometar desobediência civil.
Retribuindo a visita e o seu gentil comentário.
ResponderExcluirGostei do soneto. Gostei também do "viajar de avião de pé". Os dois somados renderão novas visitas por aqui.
Aliás, sejamos desobedientes sempre que preciso.
Saudações