17 de agosto de 2010

Memória e imagem

Foto: MUSEU DA IMAGEM E MEMÓRIA DE CONGONHAS
 
Memórias nos acorrem livremente, sem que para isso seja necessário maior esforço ou concentração.
Há imagens que acodem à mente facilmente e em sequência ordenada à medida que são chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamente quando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. (Agostinho de Hipona, 1999)
Quando faz o exercício intelectual de abstrair a existência do conhecimento teórico e filosófico, sobra para Henri (Bergson, 1999) a presença da imagem. Imagem como elemento da percepção sensorial do exterior, da existência alterna, exterioridade e alteridade ao Ego – ultrapassando aqui aquele autor. Dentre os registros sensoriais, há claro privilégio para o imagético. E o conhecimento pela imagem, que em Bergson era possível para o mundo exterior, inclusive para o exterior do próprio sujeito que, mesmo se conhecendo interiormente, sobre esse ângulo não o fazia por imagem, alcança agora os limites do interior do corpo alheio ou próprio, pois os registros imagéticos rudimentares da radiografia estão há muito superados pela tomografia computadorizada, capaz de registros materiais do interior dos indivíduos como não o eram à época do autor. E os registros sensoriais que permitiam aos indivíduos a existência em conflito com o mundo exterior adverso, permitem-lhe agora combater os males internos de natureza física.
Tudo se passa como se, nesse conjunto de imagens que chamo universo, nada se pudesse produzir de realmente novo a não ser por intermédio de certas imagens particlares, cujo modelo me é fornecido por meu corpo. (Bergson, 1999, p. 12)
E pelas semelhanças e contrastes entre as imagens se constrói o conhecimento. E as redes neurais, preconizadas pela neuroanatomia do XIX, agora são mapeadas à exaustão pelos escâneres magnéticos, tomógrafos ou microscópios eletrônicos, cada um sob um prisma, reproduzindo em imagens a estrutura geradora da emoção e da lembrança, registrando-lhe até mesmo a atividade, sem contudo decifrar-lhe a completa motivação ou natureza transcendente ao registro imagético. E a representação das imagens em nosso cérebro é de tal natureza significativa que pode ser presumida pela grande parcela daquele órgão reservada a seu processamento, assim como pela dimensão do nervo ótico, condutor dos dados visuais.
O cérebro é parte do mundo material, que nele é representado principalmente por imagens. O cérebro não condiciona as imagens, mas as interpreta. O cérebro interpreta as relações entre as imagens do corpo e as exteriores como movimento. Compreendendo o corpo como matéria ou imagem, Bergson infere que se o corpo é capaz de agir sobre os outros corpos, sofre deles igualmente influência, em qualquer das duas naturezas.
Essa influência é recíproca e sua manifestação de maior interesse aqui é a memória.
Se, por acaso, alguma coisa, como qualquer corpo visível, desaparece da vista, não da memória, conserva-se interiormente a sua imagem e, procura-se, até que seja restituída à vista. Logo que for encontrada, é reconhecida pela imagem que está dentro de nós. Não dizemos que encontramos o que estava perdido, se não o reconhece-mos, nem o podemos reconhecer, se não nos lembrarmos: mas aquilo que, de fato, estava perdido para os olhos, conserva-se na memória. (Agostinho de Hipona, 1999).

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