2 de junho de 2011

Pobrema, poblema, probema e outros problemas.



Muitas pessoas se equivocam no uso dessas palavras, pela semelhança que existe entre elas e mesmo pela raiz comum de algumas delas. É natural que haja este tipo de confusão em um país pobre no qual a população não dá valor ao conhecimento, ao aprendizado e à cultura ancestral.
Não é nosso intuito aqui uma profunda análise sociolinguística, até porque esse tipo de abordagem caiu em descrédito recentemente, pelas posturas do MEC em relação a um livro didático bem em voga, mas que prefiro não declinar. Sociolinguística passou a ser eufemismo para demagogia governamental e política arrebanhadora de eleitorado.
Passando aos fatos, e deixando de lado ainda as questões filológicas (ainda se pode falar em filos ou já está no índex do politicamente incorreto?) – para ser bem prático e apresentar as diferenças ortográficas ortoépicas e semânticas dos vocábulos.
  • Pobrema (pronuncia-se póbrêma) – é um tipo de dificuldade inerente a pessoas pobres (pobre + ema), provavelmente por nunca terem podido comer carne de emas. Por extensão de sujeitos, passou a designar qualquer questão social, disfunção orgânica ou controvérsia relativa às camadas menos favorecidas da sociedade: diarreia é pobrema, greve é pobrema, MST é pobrema. Por extensão de objeto, designa tudo aquilo que atinge os segmentos abaixo da linha de pobreza absoluta: fome é pobrema, analfabetismo é pobrema, falta de saneamento básico é pobrema e assim por diante. Por esvaziamento semântico (e de estômago) passou a designar aquelas historinhas com continhas que as professoras passam na escola: “Joãozinho tinha três maçãs, comeu duas...” – claro que todo mundo sabe que Joãozinho nunca teve maçãs nem comeu nenhuma, ele é pobre, por isso a historinha é um pobrema. Finalmente, por alteridade subjetiva, pobrema passa a ser aquela questão relativa ao outro, que não nos diz respeito: é pobrema seu (quem mandou ser pobre?).
  • Poblema (pronuncia-se pôblêma) – são as dificuldades inerentes a pessoas com ética, moral e participação social ativa (pob – de poblacion/ povo, em basco arcaico + lema – sentença que rege um ideal). Por extensão subjetiva, designa as questões inerentes à coluna social e disfunções intrassociais: poblema de condomínio, poblema de taxa de câmbio, poblema de o Word ficar corrigindo-me – trocando poblema por problema toda vez que eu escrevo. Por extensão de objeto, refere-se ao que atinge das camadas emergentes ao topo da pirâmide socioeconômica: poblema de congestionamento, poblema com o Imposto de Renda, poblema pra arrumar babá. Quando sofre esvaziamento, o termo passa a ter significância reflexiva, inerente ao sujeito social ativo: isso é poblema do Governo, nós vamos resolver esse poblema, o FMI resolve o poblema dos banqueiros – e assim por diante.
  • Probema (pronuncia-se como convier) – já são dificuldades mais específicas, no campo da disfonia, que requerem a intervenção de psicolinguistas e fonoaudiólogos na primeira infância para correção, ou viram caso de polícia depois. Etimologicamente probema vem de (prob(a) – prova + ema – que esconde a cabeça no buraco quando tem dificuldades). Exemplos contemporâneos muito claros são os senhores Lula e Palocci – ambos têm dificuldades de articulação, ainda que de naturezas diversas, que poderiam ser minoradas com as adequadas intervenções, mesmo com as diferentes etiologias: Lula tem probema por ter tido pobrema na infância (não tem mais, mas os probema – palavra inflexível – persistem); Palocci tem probema sem ter tido muitos poblemas (essa palavra é excessivamente flexível) na infância, e os probema do tipo que ele tem se agravam se ele tem, por exemplo, poblema na justiça.
Espero que tenha ficado claro; se você não entendeu é p....... seu! (Complete a linha pontilhada.)
Por terem me inspirado, dedico esta artigo a Regina Athayde e Bolívar Lamounier.

Leia também outras postagens no blog da Keimelion: Publique sua tese - Redação técnica e científica - Descrição de normas e procedimentos - Conjunção, uso e abuso

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Diga o que disser, eu publico se me aprouver.