Havia um restaurante aqui em Belo Horizonte que ficava às moscas, o chefe proprietário chamava-se Mario Bedendis, do Vêneto. Sei-lhe até o nome, o que em mim é completa raridade. A casa ficava mesmo às moscas (não havia uma mosca sequer, era limpíssimo - e elas não seriam bem-vindas)... O chefe estava no ramo há décadas, havia começado na Itália, teve casa na Austrália e veio parar aqui. O cara era o melhor anfitrião que jamais vi; íamos ao estabelecimento dele, minhas tias e eu, umas duas vezes por mês - variávamos muito os destinos àquela época. Éramos recebidos como se da realeza fôssemos! Havia bons garçons, bem treinados. Aos domingos, uma cantora muito simpática e bem acompanhada desfiava o repertório do bel canto para nós e mais uma ou duas mesas, no máximo. Eu nem me dava ao trabalho de abrira carta, discutia com o chefe o que comeria (claro que ele oferecia o que interessava e eu pedia o que me inspirasse); da mesma forma, bons vinhos eram sugeridos para o que tivéssemos pedido.
Eu me sentia muitíssimo bem naquela casa. Sempre havia um regalo extra: mandava-me um licor com o café, ou presenteava-me um charuto à saída... Eu me sentia um lorde (hoje me pergunto se sinto lordose!). O estabelecimento era muitíssimo bem situada e bem decorada. Pois bem, era um paraíso - e nem era caríssimo, longe disso. O povo daqui nunca entendeu a casa, durante uns dois ou três anos foi daquele jeito: nós e mais uma, nós e mais duas mesas para almoço; calhou que nunca fui lá à noite, não sei como era. Como era um restaurante apenso a hotel, funcionava diariamente, das 7h às 0h! Por fim, arribou-se daqui o Chefe Bedendis, deixando derrubada a tese que a casa boa lota. Escrevendo esse comentário, fui procurar pelo chefe e por sua casa, se estaria em outra parte do mundo - na internet só encontre sites desatualizados falando (bem) da antiga casa. Lota é casa da moda (deus me livre). Casa da moda até pode ter comida boa, mas não é comum. Mas zoeira faz qualquer vinho acre. Qualquer coisa mais que burburinho já pré-indispõe o quimo. Não, não. Restaurante bom é aquele que tem termômetro para servir a comida bem quente e decibelímetro (ou desconfiômetro) para as vozes da clientela. Amém.
Sei de mais dois ou três exemplos do naipe, que derrubam aquela tese segundo a qual restaurante bom fica cheio. Detesto muvucas, filas e espera. Prefiro ir quando os muitos não vão. Prefiro estar onde eles não estejam. Amém, para todo o sempre, amém.
![]() |
| O Bedendi´s Ristorante era Instalado no prédio do Hotel Royal Savassi. Ainda achei este prato, de lá, para ilustrar o texto. É mais simples do que o que eu costumava encontrar por ali. |
Sei de mais dois ou três exemplos do naipe, que derrubam aquela tese segundo a qual restaurante bom fica cheio. Detesto muvucas, filas e espera. Prefiro ir quando os muitos não vão. Prefiro estar onde eles não estejam. Amém, para todo o sempre, amém.
