Ler Belisário: o último dos romanos ao lado das
obras de Procópio de Cesareia, Guerras, Edifícios[1]
e a História Secreta, é entrar no jogo de espelhos em que o romance não
apenas se inspira nas fontes históricas, mas as interroga, as prolonga e, em
certo sentido, as corrige. O livro não é mera ilustração ficcional de Procópio;
é sofisticada leitura crítica dramatizada, que transforma o historiador em
personagem e sua escrita em problema. A operação lembra aquilo que Paul Ricoeur[2]
chama de “segunda mimese”: o romance toma a narrativa histórica como mundo já
configurado e a reinscreve em novo horizonte de sentido, revelando tensões que,
nas obras originais, permanecem latentes ou apenas parcialmente formuladas.
Nas Guerras, Procópio constrói a narrativa que,
embora rica em detalhes e por vezes crítica, ainda se ancora na forma clássica
da historiografia: encadeamento causal, ênfase em campanhas, decisões
estratégicas, discursos atribuídos a generais e imperadores. Belisário aparece
ali como comandante brilhante, peça central do esforço militar de Justiniano,
mas a voz do historiador mantém certa distância, em postura de observador que
pretende ser, se não neutro, ao menos equilibrado. O romance, ao assumir a
primeira pessoa de Procópio, desloca essa distância: o narrador já não é o
cronista que organiza o material de fora, mas alguém que revisita o que
escreveu e percebe o que ficou de fora. A figura de Belisário, que nas Guerras
é sobretudo militar, torna-se, no romance, problema ético e afetivo. A
diferença é decisiva: enquanto a obra histórica se inscreve no regime de
verdade do Império, o romance encena a crise desse regime, aproximando-se de
reflexões de Hayden White[3]
sobre o caráter retórico e configurador da narrativa histórica.
A História Secreta de Procópio é, por sua vez, seu
texto de ruptura: nela, o historiador abandona o tom relativamente contido das Guerras
e entrega um libelo feroz contra Justiniano, Teodora e parte da elite imperial.
A crítica é devastadora, mas também marcada por ressentimento, exagero e, em
muitos momentos, pela retórica do escândalo que dificulta a separação entre
denúncia e deformação. O romance parece consciente dessa ambivalência. Ao
transformar Procópio em narrador que olha retrospectivamente para sua própria
produção, o livro sugere que nem a voz “oficial” das Guerras nem a voz
“desmascaradora” da História Secreta esgotam a verdade do período. Entre
o panegírico moderado e o libelo furioso, o romance instala a terceira voz: a
de alguém que reconhece a implicação de sua escrita nos jogos de poder e tenta,
tardiamente, encontrar sua forma de justiça narrativa. Essa posição ecoa, de
certo modo, a crítica de Jürgen Habermas[4]
à ideia de neutralidade absoluta e sua defesa da racionalidade autocrítica,
consciente de seus próprios condicionamentos.
A sociologia do poder que emerge do romance é mais fina
que aquela que se pode extrair diretamente das obras de Procópio. Nas fontes
históricas, vemos a corte, o imperador, os generais, os funcionários; no
romance, vemos também as microestruturas de reconhecimento, inveja, lealdade e
suspeita que atravessam esses espaços. A relação entre Justiniano e Belisário,
por exemplo, que nas Guerras aparece sobretudo como relação funcional
entre soberano e comandante, ganha no romance densidade que dialoga com a teoria
política contemporânea, especialmente com autores como Pierre Bourdieu[5]
e Quentin Skinner.[6] O
poder não é apenas comando vertical; é também capital simbólico, disputa por
prestígio, luta por controle da narrativa. O romance mostra como a reputação de
Belisário é construída, corroída, instrumentalizada, e como Procópio participa
dessa economia simbólica, ora reforçando, ora tentando reparar imagens. A
corte, nesse sentido, é apresentada como campo no sentido bourdieusiano: espaço
estruturado por relações de força, em que os agentes disputam posições por meio
de recursos materiais e discursivos.
Do ponto de vista da teoria da história, o romance
funciona quase como comentário encarnado às obras de Procópio. Ele dramatiza
aquilo que, em autores como Ricoeur[7]
e Koselleck,[8]
aparece como reflexão conceitual: a distância entre experiência vivida e
narrativa, a defasagem entre o tempo do acontecimento e o tempo da rememoração,
a tensão entre memória e arquivo. Procópio, o personagem do romance, é alguém
que viveu as campanhas, escreveu sobre elas e agora relê o que escreveu à luz do
tempo posterior. Essa tripla temporalidade permite ao livro explorar algo que
as obras históricas apenas deixam entrever: o fato de que toda narrativa é
datada, situada, atravessada por expectativas e medos de seu próprio presente.
A ideia de que o Império, ao mesmo tempo em que se expande, já carrega em si
sinais de esgotamento, é trabalhada no romance com consciência que se aproxima
das análises de Koselleck sobre tempos de crise, em que o horizonte de expectativa
se dissocia da experiência acumulada.
Há também deslocamento importante na forma pela qual o
romance trata a figura do historiador. Nas obras de Procópio, o autor se
apresenta como alguém que viu, ouviu, investigou e, a partir disso, compôs um
relato digno de confiança. No romance, essa posição é problematizada à luz da
sociologia do conhecimento histórico: Procópio é mostrado como alguém inserido
em redes de dependência, patronagem, medo e desejo de reconhecimento. Ele não é
apenas o sujeito que narra; é também objeto de forças sociais e políticas que
moldam o que ele pode ou não dizer. Essa perspectiva dialoga com Norbert Elias[9]
e sua análise das sociedades de corte, bem como com a crítica de Michel
Foucault[10]
aos regimes de verdade: o que se pode enunciar depende de posições,
instituições, riscos. O romance, ao expor a vulnerabilidade de Procópio, torna
visível a dimensão política da historiografia que, nas obras originais,
permanece em segundo plano.
Comparar o romance com a História Secreta permite
ainda uma reflexão sobre o estatuto da denúncia. Procópio, no texto histórico,
parece acreditar que, ao revelar os “bastidores” do poder, está finalmente
dizendo a verdade que a obra oficial não pôde conter. O romance, porém, sugere
que a verdade não se esgota na inversão do sinal: não basta trocar elogio por
acusação. A crítica radical pode ser tão prisioneira de afetos e interesses
quanto o panegírico. Nesse ponto, a obra dialoga com a teoria crítica contemporânea,
especialmente com Wendy Brown[11]
e sua análise das formas de ressentimento político: a denúncia, quando não se
interroga, corre o risco de reproduzir, em outro registro, as mesmas estruturas
que pretende desmontar. O Procópio do romance é mais interessante justamente
porque é menos seguro de si: ele sabe que falhou, mas não tem certeza de como
reparar; sabe que foi injusto, mas não dispõe da posição exterior pura a partir
da qual julgar.
Do lado da teoria política, o romance oferece leitura
sofisticada da relação entre comando militar e soberania. Nas Guerras,
Belisário é o general que executa a vontade do imperador; nas entrelinhas,
percebe-se a tensão entre a necessidade que Justiniano tem dele e o medo de seu
prestígio. O romance torna essa tensão explícita, mas sem reduzi-la a
psicologia individual: trata-se de estrutura recorrente em regimes
centralizados, em que o príncipe depende de agentes excepcionais e, ao mesmo
tempo, precisa neutralizar o potencial de autonomia que eles carregam. Essa
dinâmica foi analisada por autores como Carl Schmitt,[12]
ao pensar a figura do “comissário” e do “ditador comissarial”, e por mais
recentemente por Giorgio Agamben,[13]
ao discutir o estado de exceção. Belisário, no romance, é uma espécie de homem
de exceção que o Império convoca quando precisa e descarta quando teme.
Procópio, ao narrar isso, revela não apenas o caso individual, mas a lógica de
governo.
Por fim, há um aspecto comparativo que toca diretamente a
questão da forma. As obras de Procópio pertencem ao gênero historiográfico
antigo, com suas convenções, seus modelos, sua retórica. O romance, ao se
apropriar dessa voz e deslocá-la, mostra o quanto a forma condiciona o
conteúdo. A escolha da primeira pessoa, o foco na interioridade, a atenção aos
silêncios e às hesitações produzem um tipo de verdade diferente daquela que a
historiografia antiga podia almejar. Não se trata de dizer que o romance é “mais
verdadeiro” que Procópio, mas de reconhecer que ele trabalha com outra dimensão
da verdade: não apenas a factual, mas a existencial, no sentido que Hannah
Arendt[14]
dá à experiência de compreender um mundo em comum. Ao colocar Procópio em cena
como sujeito dividido, o livro convida o leitor a reler as obras históricas com
desconfiança produtiva: não para descartá-las, mas para enxergar nelas o que
antes passava despercebido, os silêncios, as escolhas, as exclusões.
Lido assim, Belisário: o último dos romanos não é
apenas um romance ambientado no século VI; é uma intervenção contemporânea no
debate sobre história, poder e memória. Ele conversa com Procópio, mas também
com a teoria da história, com a sociologia do poder e com a teoria política,
sem jamais perder de vista que tudo isso se encarna em vidas concretas, em
decisões tomadas sob pressão, em afetos que não cabem nos arquivos. Para quem
conhece as obras de Procópio, o romance funciona como comentário crítico e ampliação;
para quem não conhece, ele pode ser a porta de entrada para o mundo em que a
história não é apenas o que aconteceu, mas o que se escolhe lembrar e como se
escolhe dizer.
[1]
Procopius. (1940). De Aedificiis (H. B. Dewing, Ed. & Trans.). Cambridge, MA: Harvard
University Press. O texto grego é estabelecido com rigor filológico e
permanece o padrão internacional para estudos bizantinos e da Antiguidade
Tardia.
[2] Ricoeur, P. (1983). Temps et récit I:
L’intrigue et le récit historique. Paris: Éditions du Seuil. Este
volume é o núcleo teórico da noção de mimese (I, II e III), da configuração
narrativa e da articulação entre tempo vivido e tempo narrado, exatamente os
conceitos mobilizados aqui.
[3] White, H. (1973). Metahistory:
The historical imagination in nineteenth-century Europe. Baltimore,
MD: Johns Hopkins University Press. White formula sua teoria dos “modos de
emploteamento”, dos tropos retóricos e das estruturas narrativas que moldam a
historiografia utilizada para analisar a escrita de Procópio e sua
reinterpretação no romance.
[4] Habermas, J. (1968). Erkenntnis
und Interesse. Frankfurt am Main: Suhrkamp. Habermas formula
a tese de que todo conhecimento é orientado por interesses constitutivos,
técnico, prático e emancipatório, desmontando a pretensão de neutralidade
absoluta. É exatamente essa crítica que se mobiliza ao discutir a posição de
Procópio e a impossibilidade de uma historiografia “pura”.
[5] Bourdieu, P. (1972). Esquisse d’une
théorie de la pratique, précédé de trois études d’ethnologie kabyle. Genève:
Librairie Droz. Bourdieu formula nesta obra, pela primeira vez, os conceitos
fundamentais de habitus, campo, capital e estratégias
práticas, exatamente os instrumentos conceituais usados aqui para analisar
a corte imperial como espaço de disputas simbólicas e posicionamentos
estratégicos.
[6] Skinner, Q. (1969). Meaning and
understanding in the history of ideas. History and Theory, 8(1),
3-53. Esse é o texto fundador do método skinneriano: a tese de que textos
políticos devem ser entendidos como atos de fala situados, produzidos
para intervir em debates específicos. É exatamente essa perspectiva que o
capítulo mobiliza ao analisar a escrita de Procópio como ação política, não
como registro neutro.
[7] Ricoeur, P. (2000). La mémoire,
l’histoire, l’oubli. Paris: Éditions du Seuil. Discute o estatuto do
arquivo, a responsabilidade do historiador e a ética da narrativa, os temas
mobilizados ao analisar Procópio como narrador implicado.
[8] Koselleck, R. (1979). Vergangene
Zukunft: Zur Semantik geschichtlicher Zeiten. Frankfurt am
Main: Suhrkamp. Koselleck desenvolve sua teoria da temporalidade histórica,
essencial para compreender a leitura do Império Justiniano como mundo em
transição.
[9] Elias, N. (1969). Die höfische
Gesellschaft: Untersuchungen zur Soziologie des Königtums und der höfischen
Aristokratie. Neuwied am Rhein: Luchterhand. Elias analisa a corte
como estrutura social específica, marcada por interdependências, jogos de
poder, disputas simbólicas e mecanismos de autocontrole, exatamente o que se mobiliza
para compreender a corte de Justiniano como “campo” de forças e estratégias.
[10] Foucault, M. (1975). Surveiller et punir
: Naissance de la prison. Paris: Gallimard. Foucault formula sua
análise do poder disciplinar, dos dispositivos de vigilância e da produção de
corpos dóceis, conceitos fundamentais para compreender a corte de Justiniano
como espaço de controle, visibilidade e disputa política.
[11] Brown, W. (1995). States
of injury: Power and freedom in late modernity. Princeton,
NJ: Princeton University Press. Brown analisa como discursos políticos produzem
sujeitos feridos, vulneráveis e governáveis, e como certas formas de poder se
legitimam por meio da gestão dessas feridas, exatamente o que se utiliza ao
discutir a posição de Procópio e a dinâmica de poder na corte de Justiniano.
[12] Schmitt, C. (1922). Politische
Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveränität. München: Duncker
& Humblot. Schmitt formula a célebre tese: Souverän ist, wer über den
Ausnahmezustand entscheidet. Uso exatamente essa noção para pensar o
poder imperial e a lógica da decisão na corte de Justiniano.
[13] Agamben, G. (1995). Homo sacer:
Il potere sovrano e la nuda vita. Torino: Giulio Einaudi
Editore. Agamben desenvolve a noção de vida nua e reconstrói a teoria da
soberania a partir de Schmitt, Benjamin e Arendt, que se aplica para pensar a
vulnerabilidade e a exposição dos sujeitos no Império de Justiniano.
[14] Arendt, H. (1958). The
human condition. Chicago, IL: University of Chicago Press. Arendt
desenvolve sua teoria da ação, da pluralidade e do espaço público, além de
discutir como a narrativa é essencial para conferir sentido às ações humanas,
aplicadas para pensar a escrita de Procópio e a dinâmica política da corte de
Justiniano.



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