5 de dezembro de 2010

Educação versus instrução

(Creio que esta imagem seja original daqui, tendo depois sido adaptada para português.)
Este texto, no qual coloco algumas ideias que estão sendo alinhavadas, é parte de uma discussão latente, mas também candente, cuja postulação central é a de que a educação é função da família e deve ser prerrogativa da esfera de vida privada, ao passo que a instrução pode ser praticada na vida pública do indivíduo, por instituições públicas ou privadas – sem privilégios.
A discussão tem se processado, como muitas outras, pela internet e em bem poucos fóruns, pois os pontos que ela ataca ainda são considerados pacíficos pela maioria, a despeito de considerações que tenho por bastante óbvias.
Encontrei alento, há poucos dias, para retomar o debate, por ensejo do encontro nas palavras de Regina Cascão eco perfeito ao cerne de minha tese:
“A missão do professor foi sendo deturpada com o tempo. A repartição que cuidava era a de Instrução – e então o professor era o instrutor, aquele que instruía, que dava conhecimento. Depois, as Secretarias e Ministérios passaram a ser de Educação – e aí, os professores chamados de Educadores, os pais passaram a transferir a tarefa de educar seus pimpolhos à escola. Resultado: aviltada, a categoria não instrui mais, porque ela mesma não foi instruída, e não tem como substituir a família, os pais, na educação. E temos o que temos hoje, que nem quero falar porque me dá enjoo e ânsia de vômito.”(1)
Concordo com Regina Cascão em gênero, número e grau. Tenho dito e repetido isso há mais de uma década, inclusive em meia dúzia de cursos de pedagogia em que lecionei! Estou em festa por encontrar que pense exatamente como eu no caso. (2)
Instrução – mesmo a mais técnica, pode passar (e quando é boa passa) pelos crivos do humanismo, mas a distinção que está feita aqui é entre as funções da esfera privada restritas ao lar – espaço reservado à educação – e a esfera pública e política – na qual o indivíduo é instruído. Os pedagogos têm muitos “nomes de santos” a invocar para justificar suas posturas, Darcy Ribeiro, por exemplo, renomadíssimo, é um dos pais das trapalhadas que estão por aí... Ele e todos os mais pedagogos que se imiscuíram no ensino, degenerando-o e levando-o à falência absoluta.
A "visão contemporânea" de educação (seja lá o que for isso) fracassou de fio a pavio. Não há argumento pedagógico que justifique a manutenção das maluquices enfiadas no ensino, deturpando-o e apelidando-o de educação, frente à total falência do sistema. Nada se salva no que os pedagogos enfiaram em nosso sistema de ensino nos últimos 40 anos. Pra concertar a trapalhada precisaremos de meio século – se começarem a agir, – do que não há nenhum indício.
Quando o Estado se apropria da educação está usurpando a função parental, para – em seguida – propor diretivas. A maior parte dos problemas brasileiros decorre da promiscuidade entre as esferas pública e privada. Desde quando um funcionário do governo toma para si o que é publico, ou quando ainda um pedagogo gramiciano (ou de qualquer outra seita) tenta tomar parte do processo familiar para a instituição como forma de cooptação política.
Vou continuar a postular no mesmo sentido assistematicamente aqui. Não com qualquer pedagogo que se desqualifique como interlocutor e tente ostentar docere argumento ab auctoritas et in casu ex hypotesis vanum argumentandum – pra rebolar um "latim de cozinha" que doura a pílula sem torná-la amarga e deixando-a tão placebo quanto sempre.
No Direito Romano (pedindo licença pra dar um pitaco jurídico de historiador) auctoritas se opunha potestas et imperium e, para que não me suponham tão historiador quanto jurista e professor (três das coisas para as quais, há que o diga, não tenho perfil) passo daqui à psiquiatria, imisquindo-me em outro métier: quem evoca autoridade deve ter demandas obscuras pela paternidade – encontrando nessas demandas o suprimento das transferências feitas ao Estado. Simplificando, psiquiatricamente, isso redunda na "síndrome de falsas lembranças" em que a autoridade se converte em corrupção, alienação, manipulação. Mas para que não me acusem de exercer mais alguns ofícios sem a devida qualificação ou pendor, volto a Sêneca – em detrimento de Freud: postulando melhor separação entre público e privado. Fique a autoridade com a família, que educa, o poder e o império com o Estado.
Todo mundo que viveu o magistério tem muitas histórias a contar. De historinha em historinha, num dia de desaviso saí da Universidade do Espírito Santo pra ir lecionar na Universidade do Tocantins. Aquela coisa de estado recém-criado me instigou e deu vontade de fazer coisas, contribuir – como eu era bobo!
Lá vi coisas que até os deuses duvidam: no último ano do curso de história eu tinha na mesma sala três alunos que NUNCA haviam lido um livro sequer. Sondei bem, nem ao menos um livrinho de bolso, NADA. Havia dois ainda, dois que eram incapazes de redigir um parágrafo simples em que houvesse nexo textual. Não texto, assintaxe.
Pois bem, coincidentemente, os cinco já lecionavam! Todos estavam encarregados de turmas de primeiro e segundo graus pelas escolas das adjacências... Analfabetos funcionais. Lecionavam história, português, matemática... e não redigiam nada, ou não liam. O salário claro que não chegava aos R$1024,67 da lei de hoje.
Andei por todo tipo de escola, mas sei que os professores que ganham de mal a pior raramente valem o que ganham. O círculo viciado faz do magistério a periferia do mercado de trabalho, o restolho da sobra dos excluídos de todas as demais profissões leciona. Ganha-se melhor em qualquer ofício – até como pedreiro – sendo bom. Já no ensino, basta cumprir a tabela que no fim de cada mês vem a merreca. E tem mais: o magistério é o único ofício em que, se não tem tu, vai tu, a saber, se não há o licenciado, vai o estudante, se não o que houver; importante é que haja um palhaço entre a turba e a lousa. E importa também que a corriola toda seja promovida ao fim de cada ano, para não se macularem as estatísticas, o que denigriria o pedagogo de plantão.
De mais a mais, a vítima do pó de giz está sempre refém de pedagogos cobrando resultados inalcançáveis, alunos que não querem nada com aquele conteúdo, sem educação e violentos, e sendo sugado do que não tem de vida e saber. E nada disso vai mudar. Ninguém está tentando mudar nada disso. Não há nada sério sendo feito, sendo pensado.
Despir as emoções, nessa querela, é desprezar a história. Cansados estamos todos de ver os resultados materiais das teorias pedagógicas, mas como se pode intuir: as opiniões manifestadas não foram construídas neste debate. São fruto de alguma maturação de ideias que não reputo absolutas, mas não declino a opinião – assim como nenhum de nós renuncia aos fatos da experiência de vida ou observações pessoais. Há diferentes pontos de vista sobre cada coisa, cada processo, mas temos que nos manter distanciados do relativismo absoluto, pois realmente há coisas basilares das quais não abriremos mão. Sabe, ter princípios? É ter educação, daquela boa – que só pai e mãe dão.
Claro que este amálgama de ideias está mal amarrado, mas é só um post – aqui não cabem mesmo as teses nem os atributos delas. Há muito que dizer... Mas os resultados, novamente, estão à vista: o Brasil vai de mal a pior e não há nenhuma luz ao fim desse túnel. Nenhuma luz.
[1] Cascão, R. In Beraldo, L. “Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor.” FaceBook, publicado a 2 de dezembro de 2010.
[1] A maior parte das colocações é de Athayde, in Beraldo, ibidem.

No blog da Keimelion: Revisando seus textos - Revisão de textos em contexto - Emprego do verbo haver - Locuções com e sem crase

2 comentários:

  1. É Amigo aconteceu durante esse tempo todo uma verdadeira inversão de valores,
    ai depois os pais querem colocar culpa no governo,
    parabéns pela otima materia postada,
    abçs Marivan

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  2. Idéias sem a iniciativa de suas aplicações são perda de tempo. Criticas com palavras, idem. Males tipicamente do caráter brasileiro. Vamos tentar fazer algo real? Comecemos uma lista na Internet. O objetivo é descobrir e reunir pessoas que realmente querem resolver êste problema.Vamos juntos debater e desenhar um tipo de estabelecimento ideal escolar. Minha sugestão é um terreno de 10 hectares onde a escola ensina agricultura, extração de minérios, manufaturação industrial, laboratórios de biologia e quimica.Isto seria o segundo grau. Em paralelo vamos abrir uma lista de doações em potencial. Vamos construir essa escola por meio de capital acionario aberto. Na lista cada um informa quantas ações iria comprar, a 10,00 cada uma. Se um dia constatar-mos que há dinheiro suficiente, pode aqui ser começo da maior revolução feita no Brasil. Não vai dar certo? Julgou antes de tentar? Próprio do carater brasileiro.Eu estou aqui esperando algum voluntario para abrir o movimento na Internet e já tenho resolvido quantas ações vou me propor a adquirir.Contigo a palavra...

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