12 de março de 2016

Maniqueísmo democrático

Acho inconcebíveis as importações de conceitos extemporâneos para as análises atuais: liberal-conservador, esquerda-direita, comunista-capitalista, machista-feminista, revolucionário-reacionário, são paradigmas de outros tempos. Claro que há - e sempre haverá pontos de contato, mas as simplificações tendem a transpor todas as características para uma dicotomia maniqueísta cuja exponenciação levaria tudo e todos a se posicionarem entre bem (ἀρετή) e mal (κακός) ,como se vivêssemos há 25 séculos.
Maniqueísmo é simplificação empobrecedora de qualquer análise.
As opções entre o bem e o mal costumam ser
simplificações maniqueístas.
Nem mesmo as múltiplas tonalidades do cinza, tão em voga, permitiram às pessoas assumir completamente que - além de todas as infinitas e contínuas variações entre o branco e o preto - existe todo o arco-íris, irradiando ou refletindo as mais diversas emanações cromáticas. E entre o bem e o mal, a despeito de existirem posições bem estabelecidas de certo e errado, há tantas variações que deglutem as dicotomias analíticas com uma voracidade tão grande que não se concebe que não seja percebida por um observador mais ou menos arguto.
O mais engraçado é que, nesse quiproquó de valores, as pessoas assumem a democracia como absoluta. Logo ela, que varia mais que todos os conceitos extemporâneos. O caso é que os conceitos de outrora estão estabelecidos e sedimentados - por pertencerem a sociedades de outrora - não mutando mais de acordo com transformações sociais que não ocorrem, pois o já havido é estático! Mas a democracia, para essa há tantos conceitos quanto seres pensantes: cada um tem dela a ideia que deseja, e a pinta com as cores advindas de sua inspiração, vinda da ideologia que vier! Todos amam uniformemente a democracia, amando-a como amam o próprio ego - pois a democracia que todos desejam é aquela situada unica e exclusivamente dentro de si! Democracia é ótimo, perfeita mesmo - desde que seja aquela que eu tenha em mim.
Depois disso, vêm a adoração de democracia como corolário adverso de ditadura. E a dicotomia ditadura-democracia ressurge entre nós como a contraposição entre os regimes burocrático-militar (de 1964, neste caso) e seus antecedentes e sucedâneo. Há mais que isso, democracia nunca foi o contrário de ditadura (nem para Aristóteles!). Quando as pessoas juram que amam a democracia, penso que elas estejam apenas querendo dizer que odeiam ditadura. Eu também odeio ditadura - exceto se eu for o ditador - como todo mundo! Como não hei de ser ditador, democracia deve ser melhor.
Mas ainda não vi um conceito de democracia tão amplo que possa ser adotado e praticado; por enquanto, só vejo a adesão acrítica ao termo, à falsa noção de que ele contém um (ou mais de um) valor universal amplamente partilhado!

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