Pois é, essa crônica tem o nome do bolg do Ronald Peret, mas ele é meu amigo há tempo suficiente para eu tomar essa liberdade de pedir emprestado um título sem comunicar antes. Além do mais, de muita história de nossas infâncias, temos em comum Ouro Preto, terra mais que própria para vivermos as histórias de sempre, da infância, adolescência, maturidade... E vivermos as histórias de antes, de nossos pais, avós... E as histórias de quem está na história: Olímpia Cota, Bené da Flauta, Tiradentes – gente que não existe mais, mas cujas histórias eternizaram e mitificaram seus nomes, apelidos e feitos.
Eu “Ouro Preto” é título, aqui e lá no blog do Ronald, mas esse título é verbo, percebem? Eu “Ouro Preto”, tu ouro pretas, ele ouro-preta, nós ouropretamos... É o verbo ouropretar, regularíssimo, conjugável em todos os tempos, modos e pessoas. Todos podem ouropretar, todos podem praticar a ação de viver Ouro Preto que o verbo expressa. Mas ouropretar expressa sentir a cidade, interpretá-la, tentar compreendê-la, passar pelo menos uma noite gélida perambulando em meio à névoa, entrevendo as ruas e as torres, e pelo menos um dia tórrido no alto do morro apreciando o conjunto setecentista. Em ponto menor, ouropretar pode ser até despencar de ônibus pelo meio da manhã, passar pelo Pilar em meia hora, correr para São Francisco e Conceição, engolir um feijão tropeiro com torresmo, ver um museu de cada lado da Praça Tiradentes e voltar para a rodoviária. Mas fazer isso é sempre uma experiência incompleta de ouropretação.
Nem todos têm o privilégio do Ronald e meu, que pudemos ouropretar desde o primeiro vagido e seguir ouropretando por décadas. Mas não é o tempo que conta, não é o tempo da quantidade de horas, semanas ou anos. O que conta é á intensidade do olhar, a obliqüidade da análise, a sutileza de perceber as diferenças do aroma da cidade na canícula de uma estiagem invernal ou na bolorenta invernada das consoadas. O que conta é tentar aprender a distinguir a voz o Elias dentre seus pares. É saber qual pedra da capistrana oferece risco quando garoa. Para entender as coisas que mencionei nas últimas frases, precisa ter ouropretado o suficiente para consumir no Chafariz o angu de uma bruaca de fubá. Tem que ter tomado cafezinho de mocotó e de
Ouropretar é viver os tempos da cidade, o tempo de agora, pois a cidade está viva, pulsante, se transformando, crescendo. Ouropretar é viver Vila Rica no tempo geológico, de seus morros que escorrem quando a piçarra satura de águas, em aluviões de ouro ou de morte, riqueza ou miséria. É viver os tempos das artes, nos resquícios de saramenha, nos contrafortes de São João, nos arcos das sete pontes. É chorar por um verso de Dirceu e por um compasso de Lobo de Mesquita. Ouropretei Nelo Nuno e ouropretei Jair Inácio. Ouropretava Honório Esteves e ouropretava Athayde se tivesse tido chance. Mas podemos ouropretar tudo de melhor desses quantos, pois, assim como a cidade, permanecem.
Ouropretar é viver nos tempos do calendário, até mesmo da folhinha de Mariana, tão certa no tempo da chuva, do sol e do vento quando podem ser as tabelas canônicas. É viver os tempos das festas e das rezas: Amendoim, Setenário, Bom Jesus, Reisadas, Semana Santa, Cinzas, e mais meia dúzia para cada altar pela cidade afora, mais uma para cada cruzeiro, ponte, passo, oratório ou promessa feita. Ouropretar é namorar no adro, conhecer pelo menos uma centena de nomes da aguardente de cana – goste dela ou não – e saber que remédio era a cardina que mitigava as penas do Aleijadinho.
Ouropretar é viver nos tempos dos relógios, no tempo do relógio do Museu, de meia em meia hora audível nas caladas. Esse tempo que marca a divisão entre o trabalho ou estudo e o ócio. Entre construir e preservar a cidade ou fruí-la, desfrutá-la, ouropretá-la. Esse é o tempo do sono sob pilhas de cobertas, o tempo de despertar cedo para ficar mais tempo à toa, o tempo do encontro ou do desencontro – dependendo se o ouro-pretano use como referência o relógio d
Pode-se ouropretar cada um a seu modo, a seu tempo, a sua arte, mas garanto-lhes que sempre Eu “Ouro Preto”.
Parabéns pelo post, Públio. Me senti como se passeando em Ouro Preto lendo seu texto. Me presenteou até com uma certa nostalgia e uma vontade inexplicável de estar lá. Tenho acompanhado seus escritos, são ótimos. Um grande abraço!
ResponderExcluirObrigado, apareça sempre e acompanhe. Fico muito feliz...
ResponderExcluirMuito bom! Ouro Preto: lugar transcendente! E ouropretemos, sempre!
ResponderExcluirIlustríssimo Públio. Suas palavras transpõem os tempos, minha humilde sabedoria...correu da gramática a muito tempo, ora aqui, ora lá... tem um erro a cá. Bem aprendi aqui lendo no Orbas Meas- Eu “Ouro Preto”, tu ouro pretas, ele ouro-preta, nós ouropretamos... É o verbo ouropretar, regularíssimo, e mais que isto importantíssimo... para que todos nas vastidões da internet, possam como nos também ouropretar.
ResponderExcluirPúblio,
ResponderExcluirLiiiinda crônica! Revive toda a minha infância e como foi bom.
Eu "Ouro Preto" sempre, sempre e sempre.
Abraço,
Michelle
Que crônica!!! Maravilhosa! Eu não sou nascida na cidade, mas eu a adotei de coração... adoro as histórias que ai se passam. Parabéns!!!
ResponderExcluirAdorei o texto Públio, nunca tinha pensado no EU OURO PRETO da maneira como você interpretou! maravilhoso! Vamos Ourupretar sempre, cada vez mais! São pessoas como vc, Ronald e vários outros ourepretanos que fazem do olhar e sentir a nossa cidade este amor transmitido em imagens e palavras. Uma declaração de amor, cuidado e preservação. Isto é ouropretar! Parabéns!
ResponderExcluirCaro Públio,
ResponderExcluirDe tanta saudade, ando ouropretando agora pelas bandas de Mato Grosso. É daqui que meu coração ainda sobe e desce ladeiras. Um grande abraço!
De repente deparo com esta mistura fantástica que me arremete aos gloriosos momentos de infância e juventude... Ronald, Públio e o ouropretar! Surpreendente? Sim... mas tanto quando solidário á minha necessidade de introspecção e reflexão sobre outroras vividas, e tão bem vividas, por sinal!
ResponderExcluirMeninos amigos, da minha juventude ! Ronald e Públio, que emoção saber o quanto, hoje, vocês se expressam e nos expressam por palavras, textos e crônicas tão belas. Acredito que esse se lançar à arte da linguagem,seja através da literatura, da plástica ou mesmo da prosa provêm e compõe o arsenal do verbo ouropretar.
Parabéns por contemplarem tão bem estes belos dons.
Um beijo no coração,
Amiga,
Suzana
De repente deparo com esta mistura fantástica que me arremete aos gloriosos momentos de infância e juventude... Ronald, Públio e o ouropretar! Surpreendente? Sim... mas tanto quando solidário á minha necessidade de introspecção e reflexão sobre outroras vividas, e tão bem vividas, por sinal!
ResponderExcluirMeninos amigos, da minha juventude ! Ronald e Públio, que emoção saber o quanto, hoje, vocês se expressam e nos expressam por palavras, textos e crônicas tão belas. Acredito que esse se lançar à arte da linguagem,seja através da literatura, da plástica ou mesmo da prosa provêm e compõe o arsenal do verbo ouropretar.
Parabéns por contemplarem tão bem estes belos dons.
Um beijo no coração,
Amiga,
Suzana
Amei esta crônica!
ResponderExcluiramei!
ResponderExcluirparabéns
saudades ju alagoa
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