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15 de setembro de 2014

O mito da homofobia

Sabem o motivo da comoção geral pelo homicídio do rapazola goiano? É que ele era bonitinho. Se fosse um cafuçu rural calejado, pouco importaria se fosse gay. O país gosta dos bonitinhos e tem preconceito contra feios. Não impota às pessoas a religião alheia, não importa a etnia nem as preferências sexuais ou políticas. Mas ser feio é imperdoável.
Inclusive, ser feio é tão discriminado, que não existe nenhuma ONG em defesa dos feios, nenhum deputado feio militante, ninguém querendo criminalizar a unatractifobia.
Criminalização da homofobia.
João Antônio Donati
Viu só? Você nem sabia que existe unatractifobia, medo mórbido a pessoas feias, de tão discriminados que são os feios.
Será que a unatractifobia deveria ser criminalizada também? Afinal de contas, muita gente deve ser morta (inclusive pela polícia) só por ser feia.
Coitados dos feios, para arrumar até emprego de telemarketing eles só conseguem se entram em alguma cota de portador de deficiência física!
E cota para feio, tem? Nadinha, nenhuma! Feio não tem vez na universidade nem no serviço público, coitado. Se feio quiser vagas nessas lugares, tem que ralar o traseiro estudando até superar a feiura com méritos, o que é uma maldade.
Feio é tão discriminado que nenhum candidato pleiteia o voto dos feios! Mesmo todos os candidatos sabendo que a maioria dos eleitores é constituída de gente simplesmente feia, medianamente feia, muito feia. Tá, muitos candidatos são feios, alguns são feiíssimos, mas todos tentam se empetacar ou editar as fotos tentando esconder a feiura.
Eu até andei pensando em concorrer a algum cargo eletivo pleiteando o voto do segmento feio da população, mas logo me dei conta de que estou geneticamente impossibilitado para tal.
Em épocas de tantas pesquisas, só para concluir, alguém já viu resultados de alguns instituto que segmentasse as preferências eleitorais entre feios e bonitos? Não, eles eclipsam esse segmento da sociedade como se os feios não existissem, como se o voto dos feios não fosse importante.
À guisa de pós escrito: fica meu cumprimento e meu louvor a dona Dilma que, em se reconhecendo parte de tão relevante segmento da população, soube fazê-lo representar profusamente em seu ministério. Amém.

2 de junho de 2010

Fotos de criança

Em algum Natal distante de minha infância eu ganhei uma câmera fotográfica. Era uma coisa primitiva, de plástico, sem nenhuma regulagem e foco fixo. Usava filme 127 (mm?) - não me lembro nem da marca do aparato, mas o número do filme, objeto desejado por anos a fio e raramente obtido eu nunca esqueci.
Aquele presente representava considerável dispêndio para meus pais,  principalmente pelos gastos decorrentes de filmes e revelações - que não poderiam ser frequentes. Fica minha gratidão pelo investimento que começou a me propiciar uma visão de mundo diferente, seletiva, pautada pela necessidade de critério no uso do disparador.
Essas foram as duas primeiras imagens que registrei; os companheiros de minha infância e a paisagem de minha terra.

5 de dezembro de 2008

Eu “Ouro Preto”


Pois é, essa crônica tem o nome do bolg do Ronald Peret, mas ele é meu amigo há tempo suficiente para eu tomar essa liberdade de pedir emprestado um título sem comunicar antes. Além do mais, de muita história de nossas infâncias, temos em comum Ouro Preto, terra mais que própria para vivermos as histórias de sempre, da infância, adolescência, maturidade... E vivermos as histórias de antes, de nossos pais, avós... E as histórias de quem está na história: Olímpia Cota, Bené da Flauta, Tiradentes – gente que não existe mais, mas cujas histórias eternizaram e mitificaram seus nomes, apelidos e feitos.

Eu “Ouro Preto” é título, aqui e lá no blog do Ronald, mas esse título é verbo, percebem? Eu “Ouro Preto”, tu ouro pretas, ele ouro-preta, nós ouropretamos... É o verbo ouropretar, regularíssimo, conjugável em todos os tempos, modos e pessoas. Todos podem ouropretar, todos podem praticar a ação de viver Ouro Preto que o verbo expressa. Mas ouropretar expressa sentir a cidade, interpretá-la, tentar compreendê-la, passar pelo menos uma noite gélida perambulando em meio à névoa, entrevendo as ruas e as torres, e pelo menos um dia tórrido no alto do morro apreciando o conjunto setecentista. Em ponto menor, ouropretar pode ser até despencar de ônibus pelo meio da manhã, passar pelo Pilar em meia hora, correr para São Francisco e Conceição, engolir um feijão tropeiro com torresmo, ver um museu de cada lado da Praça Tiradentes e voltar para a rodoviária. Mas fazer isso é sempre uma experiência incompleta de ouropretação.

Nem todos têm o privilégio do Ronald e meu, que pudemos ouropretar desde o primeiro vagido e seguir ouropretando por décadas. Mas não é o tempo que conta, não é o tempo da quantidade de horas, semanas ou anos. O que conta é á intensidade do olhar, a obliqüidade da análise, a sutileza de perceber as diferenças do aroma da cidade na canícula de uma estiagem invernal ou na bolorenta invernada das consoadas. O que conta é tentar aprender a distinguir a voz o Elias dentre seus pares. É saber qual pedra da capistrana oferece risco quando garoa. Para entender as coisas que mencionei nas últimas frases, precisa ter ouropretado o suficiente para consumir no Chafariz o angu de uma bruaca de fubá. Tem que ter tomado cafezinho de mocotó e de jacuba na cozinha.

Ouropretar é viver os tempos da cidade, o tempo de agora, pois a cidade está viva, pulsante, se transformando, crescendo. Ouropretar é viver Vila Rica no tempo geológico, de seus morros que escorrem quando a piçarra satura de águas, em aluviões de ouro ou de morte, riqueza ou miséria. É viver os tempos das artes, nos resquícios de saramenha, nos contrafortes de São João, nos arcos das sete pontes. É chorar por um verso de Dirceu e por um compasso de Lobo de Mesquita. Ouropretei Nelo Nuno e ouropretei Jair Inácio. Ouropretava Honório Esteves e ouropretava Athayde se tivesse tido chance. Mas podemos ouropretar tudo de melhor desses quantos, pois, assim como a cidade, permanecem.
Ouropretar é viver nos tempos do calendário, até mesmo da folhinha de Mariana, tão certa no tempo da chuva, do sol e do vento quando podem ser as tabelas canônicas. É viver os tempos das festas e das rezas: Amendoim, Setenário, Bom Jesus, Reisadas, Semana Santa, Cinzas, e mais meia dúzia para cada altar pela cidade afora, mais uma para cada cruzeiro, ponte, passo, oratório ou promessa feita. Ouropretar é namorar no adro, conhecer pelo menos uma centena de nomes da aguardente de cana – goste dela ou não – e saber que remédio era a cardina que mitigava as penas do Aleijadinho.

Ouropretar é viver nos tempos dos relógios, no tempo do relógio do Museu, de meia em meia hora audível nas caladas. Esse tempo que marca a divisão entre o trabalho ou estudo e o ócio. Entre construir e preservar a cidade ou fruí-la, desfrutá-la, ouropretá-la. Esse é o tempo do sono sob pilhas de cobertas, o tempo de despertar cedo para ficar mais tempo à toa, o tempo do encontro ou do desencontro – dependendo se o ouro-pretano use como referência o relógio da torre da nascente ou do poente de Santa Efigênia, suprema sabedoria do arquiteto português que, financiado pelo africano com ouro da Encardideira, dá direito de optar até no ritmo da vida. Ouropretar é fundir os tempos dos verbos e da história, é amalgamar o passado ao manhã, projetando o futuro em que se possa manter contato com o ontem.

Pode-se ouropretar cada um a seu modo, a seu tempo, a sua arte, mas garanto-lhes que sempre Eu “Ouro Preto”.