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4 de maio de 2016

O tropeiro e o juiz

Dr. Athayde
Antônio Augusto Athayde
Meu bisavô era juiz pelo interior de Minas, nos tempos do Onça. Consta que não se dava muito ao trabalho de ser elegante e, como usual à época, ia à estação ver o trem chegar e prosear com quem estivesse por lá.
Um tropeiro, recém-chegado à cidade, não o conhecia e pediu que ele amparasse um balaio, enquanto tratava de equilibrar a carga. Não foi negado o préstimo, que foi recompensado com uma moeda, embolsada com o comentário: trabalho honesto!
Sou levado a supor que meu ancestral tenha posto fim àquele níquel em algum estabelecimento cirunvizinho, pois aquela moeda não chegou a mim por herança.
Dia seguinte, ou semana seguinte, o tal tropeiro precisou assuntar no fórum alguma demanda havida lá e se inteirou de que o chapa da estação era o meritíssimo togado (dos Arcos de S. Francisco!). Horrorizado com o evento, o digno patrono dos burros de carga precisou ser informado pelo emérito julgador de que não havia nenhuma incompatibilidade entre a judicância e eventual serviço de pré no cais dos trens
!

29 de julho de 2013

Qual o masculino de lésbica?

Outro dia estive pensando: o substantivo e adjetivo "lésbica" não têm correspondente masculino!
Lésbica refere-se exclusivamente a mulher. Homossexual cabe aos dois sexos (paradoxalmente!). Gay aplica-se a homem e mulher (embora menos frequentemente a elas).
Que feminismo machista, porco chovinista, é esse que preserva uma ilha inteira (Lesbos) para mulheres que se amam, mas não tem nenhum cantinho no mundo que premie os homens adeptos daquele amor nem nem se dez o nome?
Papai Noel é muito chegado a suas renas para ser sério.
Nem pense em Sodoma ou Gomorra, pois aquilo que se fazia na primeira, sempre se faz em relações heteroafetivas ou homoafetivas - já na segunda, queria descobrir qual a prática pecaminosa dali, ninguém me diz. Afinal de contas, será que passarei por essa vida sem conhecer, sequer platonicamente, a gomorria?
Mas como solução ao caso da falta de correspondente para o termo lésbica, lembrei-me do Papai Noel; quem sabe, sua origem possa servir à criação de um termo correspondente? Afinal, um velho que passa o ano com um bando de anões, depois dá umas voltas pelo mundo com uma dúzia de veados (renas são veados grandes), coloca as criancinhas no colo e dá balinhas fazendo promessas a elas, além de ficar boa parte do tempo com pau na mão (báculo é eufemismo!)... Como se não bastasse, gosta de roupa vermelha e com pom-pom, além de gostar de umas sinetas... Isso nem é caso de suspeição, qualquer gaydar (o radar desenvolvido pela NASA para identificar o coeficiente de viadagem nas pessoas) indicaria mais de 85% de boiolice no bom-velhinho!
Pois bem, de onde vem o Papai Noel mesmo? Polo Norte não dá um adjetivo bom. Ah! Dizem que é da Lapônia. Perfeito, então fica, doravante: o masculino de lésbica é lapônico!

3 de junho de 2012

Cacetadas - umas aqui, outras ali

Dá-se uma cacetada na cruz,
 outra no caldeirão.


  • Um dos pressupostos inegociáveis do que chamam democracia é a possibilidade concreta de que haja alternância no controle do Estado. Quando Lula declara publicamente que não consentirá no retorno de seus opositores ao governo fica patente a índole autoritária dos que tomaram para si governo, estatais, ONGs e instituições de ensino. Estamos sob o mais inteligente e sub-reptício regime totalitário de que me lembro.
  • Para nos livrarmos dos que nos molestam lá do alto, precisamos tratar primeiro dos que estão perto de nós. Nossa indignação e frustração não vai chegar ao Palácio do Planalto ou ao Congresso, mas pode atingir o eleitor dessa corja que está a nosso lado. Temos que começar a mudar o Brasil em nossa esfera, pelas pessoas de nossas relações. Diga em bom tom ao petista adjacente: você está errado!
  • Convocação pra depor em CPI é igual a eleição. Você tem que comparecer, mas não precisa dizer nada. Você tem que ir a urna, mas pode votar em branco. Você vai à Comissão e alega direito de silêncio. Ah, você também pode ir ao circo - e não precisa aplaudir os palhaços.
  • As pessoas se fixam em números como se fossem salvar a pátria. Agora o pleito é de 10% para educação. Imagine-se, tal seja atribuído em Lei. Aí um governo, com outros interesse, aloque 8% nas academias militares (é educação) e 1% para cursos de parlamentares no exterior (é educação). Sobra 1% pra patuleia. Adianta alguma coisa falar em engessar orçamentos em percentuais? Que tal tentarmos ser governados por 90% de gente bem intencionada? Não seria melhor?
  • Ouvi outro dia, de dona Dilma, no rádio: -- [...] "e quando se quer, pode-se transformar a realidade"... Juro que ela disse isso, mas ela não queria dizer que se pode construir uma mentira - embora seja isso que ela tenha dito. O problema de uma pessoa, quando ela fala muito mal, como é o caso, é que tudo que ela diga traindo seus interesses pode ser redeturpado, transmudado, travestido de sentido; nem o benefício do ato-falho pode ser aplicado. O discurso petista, lulesco, dilmentiroso, petralhano, é torpe, obtuso, tortuoso, eivado de bordões e de lugares-comuns. Raramente quer realmente dizer algo, normalmente pretende apenas preencher um espaço temporal com a verborragia já conhecida e acalentada pela patuleia. Nas poucas vezes que algo é dito e se pode depreender alguma informação, logo a seguir ou quando ela é questionada, o dito passa a ser desdito, o afirmado volta negado, o concreto fica interpretado e a realidade, queira-se ou não se queira, é transformada em mentira.
  • De vez em quando eu tenho vontade de falar mal do governo, mas os assuntos são tão repetitivos: corrupção, ingerência, autoritarismo, burocracia, nepotismo, sectarismo... Perde-se o sabor da novidade e as piadas se tornam velhas com tanto mais do mesmo nos proporciona a malta petista.

  • 12 de julho de 2011

    Projeto Agávia Azul

    Casal de agávias azuis em voo.
    Como a maioria sabe, a Agávia Azul (Cyanopsitta tequilana) é uma ave da família dos psitacídeos originária do México (onde está praticamente extinta) e que migrou para o Recôncavo Baiano e busca de habitat seguro. Originária do deserto de Chihuahua, a ave vinha sendo capturada há décadas pelo seu valor econômico, como insumo na fabricação de tequila, em cuja fermentação seu fígado e outras glândulas são importante elemento catalisador, assim como as penas – que, queimadas na destilação, agregam delicado aroma ao produto.
    O fenômeno da arribação da agávia, sem par na história ornitológica recente, precisa ser mais conhecido para que aqui a ave encontre a proteção que na origem lhe faltou. Ambientada onde a pita abunda essa ave tem uma convivência quase simbiótica com aquela planta e suas variedades; a pita (Furcraea foetida) proporciona fibras para a nidificação da agávia e tanino para combater dermatoses que acometem, assim como previne a ressaca depois de intensas libações.
    Pita nativa no Recôncavo.
    Outro componente necessário no habitat da agávia azul, que foi bem provido no Recôncavo, são depósitos de sal, cuja presença na dieta da ave é muito importante, assim como de répteis e outros integrantes da fauna salobra que integram o cardápio da ave.
    Nesse contexto, em que o ambiente acolhedor e propício do Recôncavo se tornou o porto seguro da agávia, são três os riscos a que aquele habitat está sujeito, todos decorrentes da ganância dos indivíduos e da sociedade. O primeiro fator que tende a comprometer o novo habitat é o projeto da Ferrovia Norte-Sul que está na iminência de cortar em duas a área em que agora a agávia azul está se reproduzindo e em vias de alcançar uma população com massa crítica estável. O transtorno ambiental das obras, no primeiro momento, e dos os ruídos do deslocamento das composições acarretarão um nível de estresse nas aves cujas consequências não se podem prever, mas certamente implicarão em redução da fertilidade. Depois, o braço Sul da Transposição do São Francisco irrigará grande parte das áreas em que atualmente a pita abunda, propiciado a troca da cobertura natural por lavouras de uvas e tâmaras, quem podem vir a impactar por dois motivos, primeiro pela redução de fibras e tanino, depois pela mudança que as próprias frutas venham a introduzir no cardápio das aves e do consequente combate que os agricultores derem a elas pelos ataques às lavouras. Por fim, e mais drástico, é o uso que já se faz na região, das glândulas da ave para extrair as enzimas da fermentação de álcool de mandioca para a produção de um simulacro de tequila – e a agávia azul passa a encontrar aqui o mesmo predador que teve a origem: o homem e sua sede de bebidas destiladas.
    Existe atualmente uma única ONG atenta para o problema, a Blue Peace, que ainda está em fase de arrecadação de recursos para empreender projetos de preservação e atuar junto aos parlamentos no sentido de sensibilizar os governos para a preservação dessa ave exógena que buscou socorro em nossa Terra Brasilis, segura de que aqui não falta abrigo para aqueles que arribaram por não termais segurança em outros portos. Procure um posto de arrecadação e colabore, antes que seja tarde, na preservação da Agávia Azul, e que em nosso céu haja sempre espaço para a diversidade.

    11 de maio de 2011

    Honório Guimarães - 2º

    Depois das duas postagens mencionando Honório Guimarães, ficou no ar uma promessa de algo mais sobre aquele educador e poeta. A primeira referência foi a propósito de se livro que tece o título do soneto com que a obra inicia, Restos de Alma. A segunda postagem referenda a menção feita na primeira sobre como a obra chegou à minha família, divertida história. Aqui, para encerrar o caso, quero fazer algumas observações sobre a história que o papel de carta daquele educador nos conta.
    O curioso papel, reproduzido integralmente na postagem anterior, mais que suporte da correspondência do professor, aparentemente tinha as funções múltiplas de cartão de visitas, currículo e de anúncio de serviços, tudo isso, combinado com a forma de "colocação" de sua obra poética, faz supor que a condição financeira da aposentadoria não seria satisfatória, que o antigo mestre ainda tentava vender seus saberes e que, aparentemente, a vaidade dos títulos, funções e encargos da biografia estava conjugada à procura de renda.
    Das informações pode-se extrair: republicano, geógrafo, revolucionário em 1930, jornalista, polícia, músico, romancista, poeta, contista, ensaista, revisor... A lista é longa, mas um pequeno destaque centralizado ao pé do papel, sintetiza:
    "Lecciona Admissão,
    Humanidades e Escriptu-
    ração Mercantil."
    A aposentadoria não lhe provia suficientemente, e o ofício de professor particular e as rendas de suas obras se fazia complemento necessário à subsistência.
    Aqui fica bem caracterizado que não há tanta novidade assim nas insuficientes remunerações dos diferentes ofício de magistério, bem como na tibieza das aposentadorias. O mito de que outrora os professores foram mais bem pagos não se sustenta. Os muitos louvores de que a categoria se cobria não eram condignamente recompensados pela forma real e única suficiente de dignificação de um profissional, a remuneração condizente com sua qualificação e com a relevância da tarefa desempenhada.
    Por aqui, pelo Brasil todo, professor é menos que um ofício, já que se lança mão do que houver e não do necessário, é menos que um sacerdócio, pois os votos não são cumpridos, menos que uma devoção, pois o profissional é descartado, muito mais que aposentado. O magistério é um martírio: anos de labuta sem progressão funcional e sem progresso financeiro; agora como dantes.

    Leia mais por aqui: Diferenças entre historiadores e jornalistas - Coerção eleitoral - Memória e imagem - A conspiração da Reforma Política
    Leia também no blog da Keimelion - revisão de textos: Partes de um artigo científico e Submissão de artigo científico

    11 de dezembro de 2008