André Leandro
(Estudante de História na UFOP)
Populismo é uma expressão comum aos brasileiros. Com frequência a encontramos na mídia e nas acusações ao governo. Todos nós sabemos que populismo é a prática de um líder carismático que, por conceder benefícios às classes populares, é capaz de manipulá-las, assim como de seus malefícios para o país. Mas se todos sabem o que é o populismo, como pode haver manipulação? Para tanto, é necessário saber o que é populismo.(Estudante de História na UFOP)
No Brasil, a análise teórica do populismo se iniciou na década de 1950. Nesses anos, segundo Jorge Ferreira, a teoria da modernização influenciava a produção acadêmica, portanto as noções iniciais de populismo. Segundo o autor, essa teoria é a explicação da modernização dos países latinoamericanos que transitaram da economia tradicional, agrária, de participação política restrita, para a economia de mercado, industrial, de participação política ampliada; fizeram isso de forma rápida, devido às ânsias das massas populares, deslocadas do meio rural para o urbano, desrespeitando as etapas do desenvolvimento democrático liberal europeu e, assim, possibilitando o surgimento do populismo. Seguindo essa teoria, um grupo de sociólogos patrocinado pelo Ministério da Agricultura, Grupo do Itatiaia, apontado por Ângela de Castro Gomes, foram os primeiros a identificar o surgimento do populismo no Brasil. Para este grupo, o populismo foi a política de massas surgida a partir de 1945. Originada de uma sociedade em que a classe dominante está em crise e necessita de apoio; que está em processo de modernização, ou seja, transformação de mão-de-obra agrária em industrial; em que a classe trabalhadora possui tímida consciência de direitos; que, por não haver hegemonia de classe, necessita de um líder carismático, com capacidade de manipular as massas e garantir a organização do Estado.
Ainda nos anos 50, outra interpretação ao populismo feita por sociólogos dentro das universidades, chamada por Luiz Werneck Vianna de “interpretação sociológica”, buscava refletir o papel dos camponeses na formação da classe operária. Esse grupo propõe que o surgimento do populismo esteja relacionado ao surgimento de uma classe operária sem espontaneidade e ação revolucionária. Consideram que a classe operária organizada, de influência anarquista, dos anos de 1910, sofre uma perda de consciência a partir de 1930, com a burocratização dos sindicatos. A causa dessa mudança, para a interpretação sociológica, está no processo de modernização, que trouxe à mão-de-obra industrial trabalhadores rurais e, com eles, o tradicionalismo agrário, patrimonialista e individualista. Isso, para o grupo de Vianna, tornou a classe operária incapaz de realizar ações coletivas, deixou-a passiva e dependente do Estado. Assim, para esse grupo de sociólogos, surge o populismo como resultado dessa conjuntura.
Depois do golpe de 1964, houve uma mobilização para se compreender as causas de seu acontecimento. Nesse contexto, os estudos do populismo passaram a integrar a explicação para o golpe. Dessa nova interpretação do populismo, Ângela Maria de Castro Gomes destaca a produção de Francisco Weffort. Em seu trabalho, Weffort reitera a teoria da modernização. Divide o fenômeno populista em dois tempos: as origens, no estudo da Revolução de 30, como apontado pela interpretação sociológica; a república populista 1945-1964. Weffort considera as origens do populismo na instabilidade dos anos 30. Sem a possibilidade de se apoiar nas velhas oligarquias rurais, nem no novo empresariado urbano, o Estado buscará apoio nas classes populares, possuidoras de uma força original, mas sem condições de exercer uma participação política autônoma. Assim, o Estado, confundido no estadista, seria capaz de manter alguns compromissos com os diferentes grupos dominantes, se apoiando nas classes populares, por meio de concessão de benefícios, sendo capaz de subordiná-las. Mas para o autor, a manipulação populista não se opera de maneira a beneficiar apenas o Estado, como pensado pelas teorias anteriores. Para ele, apesar de ser uma forma de controle, a política de massas atende às necessidades das classes populares, dando a elas certa participação política e social, já que não eram capazes de fazê-la por si sós. Weffort compreende o populismo de maneira processual. Após esse primeiro momento, quando existe uma relação de dependência das massas perante o estadista, elas com o tempo reconhecem sua cidadania, por meio dos direitos concedidos. A inserção das massas, que Werffort considera ocorrer no momento da república populista, gera, para ele, uma mobilização popular verdadeira, criando uma crise na manipulação populista. Assim, a mobilização popular real, querendo reformas radicais, fará eclodir o golpe militar em 64.
As reflexões de cada grupo acadêmico, elencado anteriormente no texto, possuem suas particularidades, mas todos eles conservam as concepções da incapacidade dos operários de se organizarem e expressarem suas vontades, da presença de um Estado demagogo, traidor e manipulador. A questão da manipulação das massas possui problemas. Os pesquisadores acreditavam que as classes trabalhadoras iriam ter um caminho predeterminado, que seus interesses reais convergiriam necessariamente à desestruturação do capitalismo. Portanto, para eles, a inexistência de mobilização trabalhadora nesse sentido só foi possível devido ao controle, pela burocracia, do movimento operário e sindical, e à manipulação das massas pelo estadista, com a veiculação da ideologia de um estado benevolente. Mesmo na interpretação de Weffort, que aponta uma relação de ambiguidade na manipulação, os setores populares ainda se encontram em situação de fraqueza e passividade, meros objetos de manobra do Estado, desviados de uma ação consciente. O problema está em determinar qual era a ação consciente, pois preestabelecendo uma ação, esperando que ela aconteça, não será possível observar a ação consciente de fato acontecendo, pois dificilmente as experiências humanas no tempo respeitam previsões. E ainda refletindo sobre manipulação, pode-se pensar que ela, pelo menos na formulação maquiavélica que foi construída, não seria possível existir. As pessoas não possuem a cabeça vazia à espera de uma ideologia para ser colocada ali dentro. Pelo menos culturalmente, as pessoas expressam suas vontades. Uma ideologia não pode ser imposta, como proposto por essas gerações de pensadores, pois para que seja minimamente aceita ela deve, pelo menos, ter algumas ligações com a cultura dos indivíduos.
Seguindo essas idéias de que os indivíduos não são manipuláveis, em meados dos anos 1980, alguns historiadores brasileiros buscaram compreender o populismo sob a perspectiva da História Cultural. A História Cultural procura estudar seus temas sob os conceitos de cultura, tradição, disseminação de idéias na sociedade, apreensão e resistência a essas idéias. Jorge Ferreira indica E. P. Thompson como principal influência metodológica no Brasil em diversos estudos atuais. Ele aponta que a concepção de classe social do autor inglês “é incompatível com a noção de populismo e de suas inevitáveis consequências, como manipulação das massas, mistificação ideológica e consciências desviadas de seus interesses ‘reais’”. Assim, Ferreira faz uma pequena análise do populismo sob a perspectiva de Thompson. Em sua análise ele desmancha a concepção de classes manipuladas, admite que o projeto trabalhista sofresse intervenção do Estado, mas pondera que, apesar da contribuição do Estado, os trabalhadores não foram manipulados. O que ocorreu foi a identificação de interesses entre as partes.10 Colocando a classe trabalhadora sobre esse enfoque, o autor os retira da condição de objeto de regulamentação, para participante de seu projeto. Afirma, portanto, que o projeto trabalhista não foi desviado, muito menos imposto, desconstruindo a categoria populismo.
Por fim, pontuo a necessidade, não apenas acadêmica, de se refletir sobre o que é o populismo. Em nosso cotidiano, utilizamos esse termo em diversas ocasiões. Atribuímos a ele a manutenção das mazelas de nosso país. Pessoas instruídas acreditam que os políticos ludibriam as massas, que essas os mantêm no poder e por conseqüência as desigualdades. Mas estarão sendo manipuladas, ou reivindicando suas necessidades dentro do aparato social e cultural em que estão inseridas? E os intelectuais, que estão longe da manipulação, seus projetos individuais, suas ações na sociedade, como manifestam suas vontades, e como elas contribuem para solução dos problemas do país? Refletindo sobre o populismo, o penso como uma expressão que procura identificar culpados, ou ainda um mito do mal nacional, uma expressão utilizada com tanta demagogia, quanto a sua prática, se ela realmente existisse como idealizada.







