19 de setembro de 2017

Digressões sobre a "cura gay"

Digressões

Se houvesse uma pílula para "transformar" héteros em homossexuais, duvido muito que alguém tomasse. Se houvesse tal pílula (ou gotinhas), poderia haver o que chamam “opção sexual”, pela decisão de domar a pílula, ou jogá-la no lixo.
Se houvesse uma pílula para "transformar" homossexuais em héteros, duvido muito que alguém tomasse – por livre exercício de vontade. Se houvesse tal pílula, poderia haver o que chamam “opção sexual”, ou o que seria a “cura gay” – na consideração absurda de que ser gay seja doença.
Não se tem notícia de ninguém que procure por tais pílulas nas farmácias, assim como não tenho notícia de ninguém pesquisando tal medicamento. Todavia, eu sou favorável a pesquisas para desenvolver tais drogas e a que, cumpridos os protocolos de praxe, elas fossem disponibilizadas nas farmácias.
Cura gays em gotas ou drágeas.
Viadil: em gotas o drágeas -
Cura gays em até três dias.

Mas talvez fosse diferente se ambas as drogas estivessem disponíveis! É bem possível que alguém tomasse uma ou outra, eventualmente, tranquilizado pela possibilidade de reversão! Isso sim, seria opção – pois a liberdade perfeita de opção é aquela que permite a experiência inclusive por sua eventual reversão!
Inclusive, havendo tais drogas, não seria ótimo se as pessoas pudessem resolver, por exemplo, serem gays por uma semana ou um mês, depois resolverem reverter o processo? Ou o inverso disso, poderia ser bacana para alguém ser hétero durante uma quadra de dias, só para saber como é, ou para satisfazer os desejos de paternidade…
Mas desconheço demanda por tais medicamentos. Desconheço pesquisa no sentido. Duvido muito que haja.
Também desconheço “tratamentos” psicológicos (ou pílulas) que transformem assassinos, corruptos, mentirosos, tabagistas, alcoólatras, anêmicos, ou quaisquer outras condições, sejam elas patologias ou características inerentes às pessoas, em algo contrário ao original – seja lá isso possível, ou não. Conversas de divã, em tese, podem ajudar as pessoas a contornar ou suportar as situações; quanto a reverter a personalidade ou a patologia, não tenho notícia se alguém tem o devaneio de o prometer. Assim como as conversas de divã, não temos notícia de medicamento que transforme portadores de patologias sociais em santos. O próprio temo “patologia social” é um tropo da classe das metáforas e metonímias. – e não vai um milímetro além disso.
Entretanto, seria inegavelmente útil se uma pílula curasse o tabagismo ou o alcoolismo. Seria excelente se um assassino serial nunca mais tivesse ímpetos de matar depois de determinado tratamento. Se, eventualmente se – e não mais que se – tal fosse possível, talvez chegássemos a tais drogas milagrosas pelas pesquisas daquelas que permitissem a “opção sexual” (este mês eu quero ser gay, mês que vem eu volto a ser hétero!).

Minha tese é que qualquer investigação pode ter proveito. O que não exime qualquer pesquisa dos crivos éticos necessários, do consentimento livre e informado de quem participar dela, do rigor da proposta e dos métodos invocados. Que se pesquise o que bem se intender – como parte dos exercícios de liberdade que nossa sociedade assumiu como valores inegociáveis. Que se limitem as pesquisas segundo os males que elas possam causar às pessoas pesquisadas, ou à sociedade.
Afinal, havendo a droga que curasse o homicida ou o tabagista, também estaria aberta a possibilidade de transformar alguém em assassino ou fumante! Será que valeria a pena fazer tais pesquisas? Se não podemos pesquisar, por enquanto podemos digressionar... enquanto nos for dado!