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por André Legos
Museólogo em formação / UFOP |
A construção da ideia de museu é ocidental e, como várias outras instituições ocidentais, por vezes percebidas como inatas ao ocidente, é atrelada ao que é considerado o germe desta sociedade e de todas suas instituições, a antiguidade clássica. O museu, inclusive etimologicamente, teria sua origem no templo das musas, Museion, o local dedicado às nove musas e ao culto e desenvolvimento das artes. Mas, ao se aproximar o museu moderno ao Museion, as semelhanças que podem ser levantadas são rasas e não dariam conta de atender as ações específicas do museu. Mas esse mito de origem do museu não pode ser descartado, pois ele ainda está ligado à ideia que deveria ser construída sobre essa instituição.
O início da construção do museu pode ser posicionado nos séculos XV e XVI, período que trás consigo uma idealização da antiguidade e a extensão do mundo conhecido. O conhecimento europeu posto a prova diante de uma realidade até então desconhecida necessita de elementos de comprovação e de análise; para tanto, demandou-se um espaço específico que permitisse a guarda de objetos que documentassem o mundo desconhecido. Um lugar que cultuasse o conhecimento, para os pensadores interessados em compreender a realidade e para os soberanos interessados nas realidades que pretendiam modificar. Temos aqui a construção de uma instituição que desenvolve ideias construídas por rum grupo a partir de objetos, mas essas ideias ainda estão restritas ao grupo que o produz. O museu, como o concebemos, museu público, aparecerá apenas no século XIX, no contexto de revoluções burguesas e de construções nacionalistas, busca-se tornar público aquilo que era então privado, busca-se construir a unidade de uma nação apropriando-se de discursos do passado e ressignificando-os aos ideais vigentes. O museu é utilizado como espaço de formação do cidadão, é onde ele pode aprender principalmente como se portar e apreender os valores que regem a sua nação e que o torna parte dela.
Impõe-se discutir nesse momento como podem ser construídas ideias a partir de objetos. Primeiramente, tomemos que os objetos de museu são uma categoria de objetos, os artefatos. Artefatos são produções materiais humanas que são estabelecidos a partir das relações dos homens com o com o mundo físico e dos homens entre si. Assim, podemos pensar o artefato em duas dimensões: a morfológica e, por oposição, a semântica. A morfologia dos artefatos está diretamente ligada à expressão corporal, ou seja, artefatos são potencializadores da atividade do corpo, servem para execução de trabalho. Tais atividade se estabelecem nas relações humanas e, portanto, são dotadas de significado, assim os artefatos são diretamente ligados não só a execução do trabalho mas ao sentido dado a ele. “Uma faca, por exemplo, é um objeto reconhecido, de modo recorrente, como algo concebido, inicialmente, para perfurar e cortar materiais moles, ainda que possa ganhar, ao longo do tempo, aspectos cerimoniais ou religiosos” (BITTENCOURT, 2009).
Essas duas dimensões dos artefatos estão entrelaçadas, a expressão corporal do artefato também esta relacionada ao conjunto de códigos estabelecidos pelo corpo e condicionado pelas práticas culturais. Assim, a matéria que os constitui está impregnada de sentido, o que os torna um meio para comunicação entre os homens. O que vemos é que os artefatos podem ser lidos, e informações construídas a partir deles. Essa construção humana que dá conteúdo semântico aos artefatos é que os tornam passiveis de musealização, ou seja, os artefatos possuem valor documental; partindo das informações atribuídas a eles é possível indicar um contexto que não se encontra de fato presente, são dotados de musealidade. Nesse sentido a construção de um museu se dá a partir da musealidade inerentes aos artefatos.
Mas não basta o artefato por si para que a informação seja construída. A inserção do artefato no museu é um processo valorativo, mais que levantar informações sobre ele, as informações serão sempre referentes a um contexto específico, a um ideário determinado. Ocorre que esse processo tem por fim a comunicação de tais ideias de tal contexto. Essa comunicação é feita principalmente por meio da exposição, temos aqui um espaço construído para veicular ideias. Dessa maneira, o espaço do museu é um espaço real, que constrói, a partir de fragmentos materiais tirados do cotidiano, uma realidade, um contexto reconhecível, mas devidamente organizado em perspectiva específica. É um espaço de reconstrução da realidade. “O Museu atuou e, de muitos modos, ainda atua (e não apenas conceitualmente), como um microcosmo do mundo, um espaço sagrado universal, no qual o Homem pode redescobrir e reconstituir seu eu fragmentado” (HOOPER-GREENHILL, 1990).
O que se percebe com todas essas questões ligadas à constituição da instituição museu é que ela está intimamente ligada aos ideais do homem e sua perspectiva sobre a realidade ou como ela deve ser construída, o museu não é apenas uma ferramenta desinteressada a favor das artes e conhecimento. Dessa maneira, pode-se concluir que o museu trabalha com ideias, não com objetos, constituído de valor intrínseco, que cultua a sabedoria humana. Isto não significa que os objetos são dispensáveis, pois a veiculação de tais ideias necessita base material. As ideias são expressas, ou impressas, nos objetos no início do processo valorativo, e são articuladas no espaço por meio deles. O museu, visto sob esta perspectiva, permite uma ação mais consciente por parte dos profissionais que atuam nessa área, pois é importante perceber que ideias estão a favor ou contra algo ou alguém, portanto existe uma responsabilidade do museus e seus profissionais com relação a reprodução das ideias e da construção e modificação da realidade.
Referências
BITTENCOURT, José Neves. As coisas dentro da coisa. In: AZEVEDO, Flávia Lemos Mota de et al. Cidadania, memória e patrimônio: As dimensões do museu no cenário atual. Belo Horizonte: Crisálida, 2009. 17-31.
HOOPER-GREENHILL, Eilean. O espaço do museu. In: The Australian Journal of Media & Culture. vol. 3, nº. 1, 1990.
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