19 de dezembro de 2008

Servir: quase 50 anos de colaboração...

Faço parte com movimento escoteiro há tempos que se perdem de vista, não entremos nesse detalhe. Agora, participando ao modo do século XXI, integro a equipe Scouts no projeto World Community Grid, e acabo de receber do Capitão de nosso time, Ray Saunders (Director, Information Technology - World Scout Bureau), a informação de que nossa contribuição coletiva está prestes a integrar 50 anos de trabalhos a diversos projetos, dentre os quais relaciono aqueles com que eu contribuí, modestamente: Nutritious Rice for the World, Human Proteome Folding 2, Help Conquer Cancer, FightAIDS@Home.
Minha contribuição foi, até o momento que redijo esse post, de Total Run Time (y:d:h:m:s) 0:006:03:50:14 - seis dias, três horas, cinqüenta minutos e quatorze segundos de serviços prestados, boa ação cibernética! E o total acumulado pelo time dos Scouts, perfaz: Total Run Time (y:d:h:m:s) 49:129:23:35:30 - pertinho dos cinqüenta anos!
Atendendo a pedido da Direção Mundial, convido os escoteiros a aderirem a essa forma de serviço comunitário que é a mais simples e mais cômoda forma de nos mantermos no preceito da Boa Ação.
Team Stats for SCOUTS
Current Members: 348
Total Run Time: 49 years, 129 days
Total Results Returned: 54094
Total Points: 27063859
Para mais informações, recomendo o post Escotimo Mundial lança parceria tecnológica com a World Community Grid na tradução e serviço de nosso amigo Antônio Hezir:
Se você associa Escotismo apenas com acampamento e nós, pense de novo! Como parte das Celebrações do Século, o Escotismo Mundial lançou hoje um parceria com a World Community Grid em um esforço conjunto para criar um mundo melhor através da tecnologia da informação.

A missão da World Community Grid é criar a maior rede mundial de processamento distribuído para apoiar projetos que benificiem a humanidade. Escoteiros com acesso à internet serão encorajados a aderir como membros na nova equipe "SCOUTS" criado na World Community Grid, contribuindo com a capacidade de processamento não utilizada de seu computador com o esforço global.
Leia na íntegra no blog Buchstaben.

Por gentileza, indiquem esse post aos demais escoteiros de suas relações, contribua pelo menos assim! Obrigado, vamos Servir!

Agora você pode ler na Keimelion - revisão de textos: Quanto custa a revisão de textos? - Foco em revisões de tese e dissertações - Como funciona? - Recomendações dos orientadores

16 de dezembro de 2008

Violência e reação

Temos vivido tempos de violência; na ficção e no cotidiano, recrudesce a visibilidade da violação da integridade física, psicológica, social e econômica da pessoa. Não precisamos acumular dados, datas e números, para convencer nenhum leitor do fato posto. Acredito que estejamos unanimemente cientes de que é a situação que se nos apresenta. Refiro-me ao Brasil, refiro-me à nossa volta, ao país que tem a triste mania de achar que vai acontecer no futuro, mas em que todos ficam a esperar que esse tempo chegue.

Já discutiram as causas sociais da violência: favelização, exclusão, e outros componentes socioeconômicos bem conhecidos. Já discutiram a ineficácia do complexo sistema processual-penal. Já fizeram passeatas, discursos e manifestações a cada episódio em que a barbárie excede o caso anterior: chacinas, execuções, seqüestros. Fraudes pantagruélicas enxugaram bancos, seguradoras e empresas de todo tipo de atividade, produzindo lesões difusas que ninguém sente mas todos purgam.

Não vou bater mais nessas teclas, já é bem conhecido o som que elas produzem – e que se perde sem eco. A questão que ponho é que é hora de reagir. Não estou postulando uma reação social, coletiva, uma mudança de leis ou manifestação pacífica de abraço coletivo a algum prédio público. Isso dá em nada. Comove, alimenta a pauta do jornal mais próximo que não tenha nada melhor que publicar, depois cai no limbo à primeira ocorrência mais efervescente.

O tipo de reação que postulo é a reação individual, exatamente aquela que é condenada pelo senso comum, aquela que se implantou na média da classe média, segundo a qual não se reage ao assalto, não se intromete na vida alheia nem para salvá-la, não se deve ir à rua depois que o Sol se põe. Essa postulação de passividade, não-reação, submissão ou como quer que a chamemos tem sua lógica, pode até salvar vida. Pode, em caso particular – mas não garante a sobrevivência em caso de assalto ou outro tipo de agressão. Do ponto de vista geral, a somatória da passividade de cada um é o estímulo à continuidade da agressão a outrem. Se ninguém vai mesmo reagir, como tem acontecido, assalta-se um aqui, outro ali, outro mais adiante – ninguém fará nada mesmo, todos foram treinados para não reagir. E a polícia, treinadíssima para reagir mal, atabalhoadamente, contra gregos e troianos – uma falange de interesse próprio na guerrilha urbana, não pode e nunca poderá estar presente em todos os pontos.

Quem está, ou deveria estar, em todos os pontos é o cidadão. O cidadão é que deve se tornar apto a se defender e a praticar a defesa mútua. Defesa recíproca é princípio fundante da sociedade. Às milícias é delegado o poder de polícia para exercer por nós o uso da força, mas a delegação não exclui a autodefesa nem a substitui. Se estivermos preparados para exercer a coerção contra terceiros que se aventurem à agressão, ao roubo, essa será a forma eficaz de coibir a escalada da violência.

E devemos, no meu entender, estar aptos ao exercício da legitima defesa no limite do risco real que a situação apresente. Entendo que seja útil ter arma em casa. Mas não precisamos de um revólver para ir ao cinema no shopping. Se alguém tentar entrar à força na casa da gente, o fará antes que possamos recorrer ao serviço público de proteção, mas num ambiente público, repleto de segurança, qualquer atentado é resguardado pelos inúmeros recursos de segurança coletiva disponibilizados. Em nossa casa, temos que resguardar a segurança privada. Fique claro: segurança pública e segurança privada são distintas, embora interdependentes.

Para possuir e saber fazer bom uso de uma arma é preciso treinamento, é preciso prática. Assim como para uma reação física a um assalto em via pública é preciso alguma preparação, é preciso, sobretudo, o correto julgamento da oportunidade e eficácia da reação. O que postulo é que as pessoas se preparem para reagir.

Claro que existe a possibilidade de insucesso em qualquer reação contra violência, por mais preparada que esteja a vítima. Mas a reação já é, em si, a frustração do agressor. O que o agressor espera é a passividade. Se hoje ínfima parcela das vítimas reage, e a polícia e as leis não coíbem nem coibirão a violência – esse é o fato que nos circunda, fica facílima para os meliantes a agressão, o assalto. Se parcelas significativas da população passarem a reagir, estou certo de que a redução da violência se dará em proporção escalar à daqueles que se preparem para agir na defesa de seus interesses próprios ou dos coletivos contra a passividade postulada.

Sei que minha tese é contrária ao que se prega, ao que os especialistas recomendam, conheço razoavelmente a discussão sobre o tema. O que pergunto é qual tem sido o resultado da política desses especialistas? Qual tem sido o efeito da passividade do cidadão diante das múltiplas violações de sua integridade física e patrimonial? A passividade atinge tal proporção que nem mais à polícia se recorre, nem para narrar os fatos, pois todos sabem que recorrer aos órgãos de segurança pública é só prolongar o episódio, sem nenhum efeito. Ninguém vai à polícia se for furtado na esquina, pois a maior probabilidade é que nada seja feito. Na remota hipótese de que a polícia pegue o meliante, na semana seguinte ele estará, na mesma esquina, pronto a se vingar do desavisado que violou seu direito de espoliar transeuntes naquele sítio. A passividade ultrapassou a não-reação ao assalto, mas alcança o desprezo pelo recurso às autoridades, pois ele seria até contraproducente. – É melhor não fazer nada. É assim que se pensa. É assim que estamos sendo destreinados para não-agir. Estamos sendo desprovidos dos recursos que existem à disposição para exercermos as habilidades naturais de defesa de nossos interesses, bens, direitos e tranqüilidade.

A reação que estou pregando é comportamental, é individual com benefícios coletivos. É que cada um tome suas providências em benefício de todos. Se cada vez for maior a probabilidade de encontrar um morador armado dentro de casa, menor será possibilidade de que o meliante se aventure à invasão. Se for maior a possibilidade de ser detido na esquina, é bem pouco provável que alguém assalte no meio do quarteirão.

Estamos em guerra, tal a escalada da violência. Vai haver vítimas de ambos os lados. O que estou pretendendo é vencer a guerra, estar do mesmo lado em que nasci, nesse conflito social, e ver o fim da beligerância, ver a redução da insegurança pública. Vai haver vítimas, inclusive algumas dentre aqueles que reagiram. Mas a reação, em si, já é a frustração do sucesso do meliante. Ele não quer a violência, ele quer o lucro fácil. A violência é o meio para alcançar o lucro, mas mais que isso: a hipótese da violência é a coerção de que o meliante dispõe para o sucesso de seu objetivo. Se a hipótese da reação passar a ser tão vívida quanto tem sido a da passividade, a expectativa de lucro fácil se reverte e a redução da criminalidade só pode ser a conseqüência.

Modo de sobrevivência


Recortando daqui e dali, deparei-me com essa fantástica contabilidade que reproduzo de graça, citando as fontes:
"A cada ano, 50.000 brasileiros são assassinados, o que dá 138 brasileiros por dia, ou 414 a cada três dias. Se a questão é que “um homossexual é assassinado a cada três dias”, isso dá 1 a cada 414 pessoas. Ou seja, 0,25% dos assassinatos totais. Ocorre que “... o movimento gay declara que o número de homossexuais na população brasileira atinge o percentual de 10%...”. Juntando essas duas afirmações, se verídicas (procedem, ambas dos grupos gays) chega-se à conclusão que morrem menos homossexuais do que o restante da população (414 x 10% = 41). Isto é, morrem 40 vezes menos homossexuais do que heterossexuais. De acordo com essas estatísticas distorcidas, a melhor forma de escapar com vida, no Brasil, é virar gay."

11 de dezembro de 2008

Sentença judicial de 1833.

Clique na imagem para ampliar.



Vermelhos e amarelos (12)

Segundo Ricardo Arreguy Maya:
“Das lúgubres lombrigas aos lapsos pós-maçônicos, Públio Athayde empreende uma parábola de grande introjeção. Às vezes cavaqueado e carnavalizante, tudo ali transpira. Entrementes, a julgar pelos adornos tipicamente neo-kantianos, impõe-se com sua prosódia em prosopopéias de grande subjetivismo acutangular. Engajado e engajante, pinturesco, sua messe quase messalínica e telúrica atua como metaplasmas lingüísticos em sua ode à frialdade pagã.”

Públio Athayde,
Óleo sobre tela de juta colada sobre eucatex.
(OST) 90cm por 120 cm, 2006
À venda.

Ricardo Arreguy Maia é
Aprendiz de Polyhistor
e servente de pedreiro
na beirã da albufeira da Aguieira,
em Santa Comba Dão.



9 de dezembro de 2008

Proxêmica

Proxêmica se define como "conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço como produto cultural específico". Neste artigo apresento algumas observações particulares em diversos aspectos do tema e uma proposta de escala discreta para avaliações.
Proxêmica



7 de dezembro de 2008

Direito e Democracia em Habermas: Faticidade, Validade e Racionalidade

Texto em que discuto as disfunções do Estado Moderno, que afogam a vida coletiva, destroem o “sentido” do público e anulam a crença na vida democrática (enquanto a própria maquinaria da 3ª revolução científico-tecnológica instiga o individualismo e a solidão) e ajudam a desvincular os homens das formas de solidariedade mínima que emprestaram certa coerência aos atuais padrões civilizatórios e ao próprio Estado Moderno, decadente e sem rumo.

Direito e Democracia em Habermas: Faticidade, Validade e Racionalidade



5 de dezembro de 2008

Eu “Ouro Preto”


Pois é, essa crônica tem o nome do bolg do Ronald Peret, mas ele é meu amigo há tempo suficiente para eu tomar essa liberdade de pedir emprestado um título sem comunicar antes. Além do mais, de muita história de nossas infâncias, temos em comum Ouro Preto, terra mais que própria para vivermos as histórias de sempre, da infância, adolescência, maturidade... E vivermos as histórias de antes, de nossos pais, avós... E as histórias de quem está na história: Olímpia Cota, Bené da Flauta, Tiradentes – gente que não existe mais, mas cujas histórias eternizaram e mitificaram seus nomes, apelidos e feitos.

Eu “Ouro Preto” é título, aqui e lá no blog do Ronald, mas esse título é verbo, percebem? Eu “Ouro Preto”, tu ouro pretas, ele ouro-preta, nós ouropretamos... É o verbo ouropretar, regularíssimo, conjugável em todos os tempos, modos e pessoas. Todos podem ouropretar, todos podem praticar a ação de viver Ouro Preto que o verbo expressa. Mas ouropretar expressa sentir a cidade, interpretá-la, tentar compreendê-la, passar pelo menos uma noite gélida perambulando em meio à névoa, entrevendo as ruas e as torres, e pelo menos um dia tórrido no alto do morro apreciando o conjunto setecentista. Em ponto menor, ouropretar pode ser até despencar de ônibus pelo meio da manhã, passar pelo Pilar em meia hora, correr para São Francisco e Conceição, engolir um feijão tropeiro com torresmo, ver um museu de cada lado da Praça Tiradentes e voltar para a rodoviária. Mas fazer isso é sempre uma experiência incompleta de ouropretação.

Nem todos têm o privilégio do Ronald e meu, que pudemos ouropretar desde o primeiro vagido e seguir ouropretando por décadas. Mas não é o tempo que conta, não é o tempo da quantidade de horas, semanas ou anos. O que conta é á intensidade do olhar, a obliqüidade da análise, a sutileza de perceber as diferenças do aroma da cidade na canícula de uma estiagem invernal ou na bolorenta invernada das consoadas. O que conta é tentar aprender a distinguir a voz o Elias dentre seus pares. É saber qual pedra da capistrana oferece risco quando garoa. Para entender as coisas que mencionei nas últimas frases, precisa ter ouropretado o suficiente para consumir no Chafariz o angu de uma bruaca de fubá. Tem que ter tomado cafezinho de mocotó e de jacuba na cozinha.

Ouropretar é viver os tempos da cidade, o tempo de agora, pois a cidade está viva, pulsante, se transformando, crescendo. Ouropretar é viver Vila Rica no tempo geológico, de seus morros que escorrem quando a piçarra satura de águas, em aluviões de ouro ou de morte, riqueza ou miséria. É viver os tempos das artes, nos resquícios de saramenha, nos contrafortes de São João, nos arcos das sete pontes. É chorar por um verso de Dirceu e por um compasso de Lobo de Mesquita. Ouropretei Nelo Nuno e ouropretei Jair Inácio. Ouropretava Honório Esteves e ouropretava Athayde se tivesse tido chance. Mas podemos ouropretar tudo de melhor desses quantos, pois, assim como a cidade, permanecem.
Ouropretar é viver nos tempos do calendário, até mesmo da folhinha de Mariana, tão certa no tempo da chuva, do sol e do vento quando podem ser as tabelas canônicas. É viver os tempos das festas e das rezas: Amendoim, Setenário, Bom Jesus, Reisadas, Semana Santa, Cinzas, e mais meia dúzia para cada altar pela cidade afora, mais uma para cada cruzeiro, ponte, passo, oratório ou promessa feita. Ouropretar é namorar no adro, conhecer pelo menos uma centena de nomes da aguardente de cana – goste dela ou não – e saber que remédio era a cardina que mitigava as penas do Aleijadinho.

Ouropretar é viver nos tempos dos relógios, no tempo do relógio do Museu, de meia em meia hora audível nas caladas. Esse tempo que marca a divisão entre o trabalho ou estudo e o ócio. Entre construir e preservar a cidade ou fruí-la, desfrutá-la, ouropretá-la. Esse é o tempo do sono sob pilhas de cobertas, o tempo de despertar cedo para ficar mais tempo à toa, o tempo do encontro ou do desencontro – dependendo se o ouro-pretano use como referência o relógio da torre da nascente ou do poente de Santa Efigênia, suprema sabedoria do arquiteto português que, financiado pelo africano com ouro da Encardideira, dá direito de optar até no ritmo da vida. Ouropretar é fundir os tempos dos verbos e da história, é amalgamar o passado ao manhã, projetando o futuro em que se possa manter contato com o ontem.

Pode-se ouropretar cada um a seu modo, a seu tempo, a sua arte, mas garanto-lhes que sempre Eu “Ouro Preto”.



3 de dezembro de 2008

Monumento ao mau gosto

Recentemente estive em Pratápolis, Circuito das Nascentes, sudoeste de Minas Gerais. Lá me deparei com o monumento que aqui lhes apresento, esta fonte luminosa, ou fonte da obscuridade... Todas as cores reunidas em animais despropositadamente reunidos de absurda coleção de fantasia e desinformação estética.
Não sou dado a críticas qualitativas sobre a produção alheia, mas tudo tem limite: deparar-me com uma aberração desta e me manter em silêncio me faria remorso, eu sentiria culpa por conivência com tamanha agressão à paisagem.
Se o autor dessa estapafúrdia montagem não se incomodou em agredir a estética, não sou eu que me incomodarei em dizer com todas as letras que sua obra é a mais escandalosa porcaria que já vi em praça pública.
Nem o menor exercício de caridade é possível neste caso, é necessário informar urgente às autoridades que essa monstruosidade, bem na praça da Matriz da cidade, agride não só a paisagem como a inteligência e a paz de qualquer transeunte. manter essa aberração em via pública é passar atestado de completa, profunda e insanável ignorância e cegueira inclusive para a bela paisagem conspurcada por essa aberração plástica.





26 de novembro de 2008

Popularidade no Google

Até poucos anos passados, índices de popularidade eram números que se referiam a políticos e personagens públicos de primeira grandeza, aquelas pessoas a quem interessava contratar caras pesquisas de opinião pública sobre a veiculação e aceitação de seus nomes, as tais celebridades – reais ou presumidas. Com o advento da internet o mundo mudou, principalmente após a introdução dos fantásticos mecanismos de pesquisa, que representam a meta-revolução da informação: não só tudo está veiculado, mas está ao alcance de qualquer internauta. Tais engenhos de pesquisa permitem, em muitos casos, constatar imediatamente a veiculação e mesmo a reverberação dos nomes pela grande rede. Basta lançar o nome pretendido nos sites de busca e temos um número mágico que representa a visibilidade da pessoa naquele instante.
Claro que o procedimento, do ponto de vista metodológico, é completamente cheio de buracos, não tem validade absoluta. Mas é uma brincadeira que se pode fazer sempre e a custo tendente a zero. Na verdade, o procedimento é mais válido como comparação entre pessoas da mesma esfera e cujos nomes sejam realmente indicativos do indivíduo, excluídas as possibilidades de homônimos e parônimos. Senão vejamos:
  • Aproximadamente 154.000.000 para "barack obama".
  • Aproximadamente 27.700.000 para lula.
(Pesquisa de 26 de novembro de 2008, às 8h31, hora de Brasília.)
Consideremos a enormidade da presença do presidente americano, comparada a nosso líder petista, posto o fato de que o nome do eleito do Norte é relativamente novo na mídia, mais ainda se comparado aos 20 ou 30 anos de carreira pública de Lula. Consideremos ainda que, para o nome Barak Obama, não deve haver muitas ocorrências que não se refiram ao recém-eleito, ao passo que Lula é um apelido relativamente comum, e ainda existem os moluscos cefalópodes cujo nome se confunde com o do Presidente. Para extirpar dúvidas, comparemos os nomes completos:
  • Aproximadamente 4.120.000 para "Luiz Inácio Lula da Silva".
  • Aproximadamente 2.310 para "barack houssein obama".
(As pesquisas estão sendo feitas ao tempo em que redijo este artigo – tudo na atualidade tem que ser em tempo real e imediatista. Refaça a pesquisa quando ler esse artigo e obterá números diferentes.)
Bastante curiosa a inversão de números ocorrida aqui, entre os presidentes. Provavelmente só pode indicar a menor ocorrência de nome completo na cultura de um que de outro.
Teste você com outras pessoas públicas, compare os governadores dos estados, compare jornalistas, verifique os BBBs. Que tal comparar os autores?
  • Aproximadamente 2.400.000 para "josé saramago".
  • Aproximadamente 6.720.000 para "paulo coelho".
Observe que, aqui, ambos possuem nomes que os identificam bem, são os dois vivos e presentes na mídia mundial, são pessoas de mesmo jaez e mesma estatura, o que permite concluir que feitiçaria dá mais repercussão que Nobel. Pessoalmente, não sei qual destes é mais chato.
Bom mesmo é quando trazemos a comparação para a esfera de nossas relações. Verifiquei recentemente os “índices Google” de alguns colegas revisores, usei os nomes pelos quais eles se apresentam no Orkut, em nossa comunidade de profissionais. Obtive os seguintes dados:
  • 957 para"saulo krieger"
  • 250.000 para"camila rodrigues"
  • 3 para"telma mazzocato"
  • 5 para"martha studart"
  • 48 para"robson falcheti"
  • 41.800 para"josé muniz"
  • 5,190 para"felipe de paulo"
  • 317 para"maria helena benedet"
  • 17.600 para"miss ceará"
  • 2.540 para"thomé de oliveira"
  • 9.070 para"letícia cortes"
Observe-se que alguns têm outras atividades, além da revisão, o que distorce o dado. Existem nomes, Letícia Cortes, por exemplo, que sugerem grande homonímia, a maior parte das ocorrências não reporta a colega em questão. Camila Rodrigues ainda mais, é uma combinação de nomes relativamente comum. Robson Falcheti é uma combinação que remete exclusivamente ao revisor, nosso colega; este é bem jovem, o que explica a menor incidência. Saulo Kriger deve ser só um, a combinação de nome também é mais rara. Naturalmente, quando não estamos tratando de pessoas de vida pública e o nome realmente identifica o indivíduo, o dado determinante é se a pessoa tem produção voltada para a internet ou se opta por outros canais. Ou a combinação produção e homonímia: Thomé de Oliveira é um nome para o qual deve haver mais de uma pessoa, mas o colega revisor tem diversas outras atividades de visibilidade: é músico e trabalha com vídeo, faz roteiros e outras participações. Já Miss Ceará é fake de um dos colegas que, naturalmente, concorre na formulação do número com a beldade cearense, o que distorce completamente o número alcançado.
Bem, dei alguns exemplos de como usar a ferramenta. Apontei algumas considerações metodológicas, bem simples, de como fazer melhor a comparação. Não é científico. Mas a brincadeira é boa e os indícios que aponta são significativos.
Resta apresentar meu próprio índice:
  • Aproximadamente 9.910 para "públio athayde".
Eu tenho um homônimo, um só, mas ele é muito jovem e não tem produção. Praticamente todas as ocorrências se referem a mim. A maioria se refere a minha atividade de videomaker; apesar da pequena produção, os vídeos postados na rede se replicam em milhares de sites, em cascata. Boa parte das referências a meu nome estão ligadas a publicações de artigos e poesia pela web afora. Tenho escrito bastante. Escrevo e publico na internet. Bem, há bastante referência também a minha atividade como revisor. Cruzando o dado de meu nome com o nome comercial, obtenho:
  • Aproximadamente 435 para "públio athayde" keimelion.
Esse dado acima corresponde ao meu índice a ser comparado com outros revisores exclusivamente nessa qualidade.
Sabem esses números significam? Muito pouca coisa. Se desejarmos uma "identidade" na net, no sentido de gostarmos de ser identificados por nos feitos e malfeitos, devemos adotar um nome mais ou menos raro, mais ou menos simples, mais ou menos... Eu tive a sorte de ter um nome assim, não precisei inventar nada. As pessoas que desejam ficar conhecidas e ser facilmente encontradas, mas não têm tais nomes, estão mudando, adaptando seus apelidos cartoriais. Há o recuso em moda do hífen (nosso amigo aí!). Temos os Donadon-Leal, Souza-Silva, Mota-Filho, etc... Outros inventam palavras mesmo: meu amigo Julio Cesar de Souza Reis virou Julio Meiron (enfiou o Meiron no nome, no cartório, direitinho). José Ribamar da Costa virou José Sarney e alçou píncaros da glória.
Quando pesquisarem por seus nominhos no Google, não se esqueçam de inverter - pra quem tem coisas publicadas e pode ter sido invertido pelas normas.
  • Aproximadamente 371 para "athayde, publio".
Esse dado reporta quase exclusivamente as publicações e citações bibliográficas.
Divirtam-se agora fazendo os levantamentos dos “índices Google” dos colegas, amigos e familiares. Claro, não deixem de verificar também os desafetos. Não é ótimo esse mundo em que podemos obter números para comparar as pessoas?

Leiam:
Google: popularidade em queda
publicado em janeiro de 2009.
Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.



23 de novembro de 2008

Os Indesejáveis


As cidades do Ciclo do Ouro se tornaram pólos turísticos nas Minas Gerais, mas a urbanização e o desenvolvimento trouxeram para o ambiente citadino um visitante indesejável, representando um mal a ser combatido.

Wilde Lacerda
aquarela



Os Idesejaveis



21 de novembro de 2008

Aos voluntários nas ONGs


A existência de uma entidade é uma corrida de revezamento. Cada um de nós corre nossos metros como pode. Mas em qualquer outra ONG não tem linha de chegada nem pódio. Não se trata de um bastão pra cada um segurar de sua vez, é um poste que temos que segurar juntos; um cai, levanta e pega de novo; outro cai e é pisoteado; vez em quando chega alguém pra tomar o lugar de alguém que caiu; alguns postes são largados à beira da estrada ou no meio do caminho pra atrapalhar outras equipes. Uns postes são de bambu: finos e lisinhos, outros são de paineira: grossos e cheios de espinhos! Tem entidade que distribui medalhas pra todo mundo! Medalhas de Gratidão pra quem cortou o poste e começou a corrida, Bons Serviços pra que fica mais tempo com o poste no lombo, Valor pra quem é pisado pelo meio da corrida. As medalhas maiores e mais bonitas ficam para o Comitê Olímpico. O reconhecimento dos corredores é bom: valoriza as pessoas e estimula outros é emprestarem o ombro; mas é ruim se a chama da motivação for substituída pela fogueira das vaidades. O tiro de largada é a consciência da solidariedade, mas não temos fitas a romper com peito estufado: lembremo-nos de que a meta é a corrida em si. Cada um tem seu papel: os mais baixos ficarão pendurados no poste quando a rota passar no fundo do vale, mas serão fundamentais para transpor os cumes - se estiverem no segmento médio do poste, ou ao contrário se sua posição for às extremidades. Tem função pra todo mundo. Bom, em tempos de Lula na presidência, estamos no reino das metáforas... Saudações e abraços.



Retórica da ação nas poéticas visuais

Conheça o Blog
As Quatro estações: Mimeses
Cesar Ripa
Equinócio da primavera

  • Actio – do grego hipocrisis (ação): preparar o que foi escrito para ser proferido; acrescentar ao discurso efeitos de voz, gestos, mímicas; nesta etapa o orador deve tratar o texto como ator. Por extensão, tomo o termo ação como preparação de qualquer tipo de texto.
  • Dispositio – do grego taxis (disposição): ordenar os argumentos e os elementos encontrados, buscando a organização interna do discurso, seu plano. A melhor tradução para dispositio seria composição, mas este termo será adotado aqui com os cuidados para não gerar ambigüidade, pois compositio, em latim, diz respeito unicamente ao arranjo das palavras no interior da frase. Numa sintagmática aumentativa ela seria a primeira classe, seguida pela conlocatio, que designa a distribuição das frases no interior de cada parte, e a dispositio que designa a disposição das partes no todo. REBOUL, 2000.
  • Elocutio – do grego aexis (elocução): redigir o discurso, zelando por seu estilo e ornamentação.
O objeto de arte apresenta-se e apresenta arte e poesia, demandando espaço, tempo e se pauta pela disposição preconizada. Essa apresentação é recurso retórico integrado na elocução com o objetivo de alcançar as significações e públicos desejados.
Todos os elementos integrantes, textos, suporte, signos, personagens, são articulados – ou seja – postos com arte. Isso significa que cada aspecto da estrutura demanda conhecimento de fatores e variáveis intervenientes no resultado e que a operacionalização das ações tenha escopo adrede concebido. À natureza específica dessa forma de operacionalização é que se chama arte.
O referido escopo de se pôr com arte os elementos em interação significativa é construto que, por ter um tipo linguagem caracterizada pela complexidade do belo, pela polissemia, pela flexibilidade e por muitos mais aspectos, inclusive subjetivos – motivo de querelas teóricas há milênios por essa especificidade tão fugidia, mas totalmente perceptível, rege a arte de modo muito especial e se chama poesia.


Leia a série toda:
Retórica da ação  nas poéticas visuais - Arte - Poética - Prolepse



Retórica da ação nas poéticas visuais - Arte

Revisar seu texto é na Keimelion.
Cesar Ripa
Equinócio de outono

  • Arte – Regras, & methodo, com cuja a ob∫ervação ∫e fazem muitas obras, aggradaveis, & nece∫∫aria à Republica. Ne∫te fentido Arte se differença de Sciencia, cujos pricipios con∫i∫tem em demon∫traçoens, & ne∫te proprio ∫entido ∫e divide a Arte em dous ramos, a ∫aber o das Artes Liberaes, que fão ∫ete, Grammatica, Rhetorica, Logica, Aritmetica, Mu∫ica, Architetura, A∫trologia, & ∫e cõprehendem ne∫fte ver∫o: Lingua, Tropus, Ratio, Numerus, Tomus, Angelus, A∫tra, & o das artes mechanicas, que tambem fão ∫ette principaes, das quaes dependem todas as mais, Agricultura, caça, guerra, todos os oficios fabris, a cirurgia, as artes de tecer, & navegar. (BLUTEAU, 1712). Por arte entenda-se aqui a tradução do grego tecné (técnica), conjunto de regras que podem ser analiticamente desvendadas, terminologicamente objetivadas e sistematicamente ensinadas. REBOUL, 2000:XIV.
Os procedimentos técnicos da síntese dos ornatos da elocução são encenados no texto poético-visual, disso decorre sua estruturação em forma especular, tal como texto decorrente de vários textos – música, poesia e imagens – produzidos a partir da análise das tópicas da invenção e segundo prescrito na disposição. Os ornatos, que figuram significações análogas às dos conceitos obtidos pela análise da matéria da inventio e da dispositio, são-lhes sobrepostos, multiplicando-os como sinédoques de efeitos icônicos. Não se trata nunca de expressão de conceitos, ou de exercício de teoria estética, mas sempre de dramatização iconográfica de conceitos por meio de técnicas retóricas e representações objetivamente partilhadas. Fazendo a análise e a classificação das imagens da elocução com as categorias aristotélicas, busca-se a maravilha, pois esta aplicação permite aproximar conceitos de coisas distantes e detalhá-los pela reapresentação de suas particularidades icásticas e fantásticas como substância nova na síntese, qualidade diferente, quantidade alteradas, lugar outro, relação diversa, tempo distinto, situação transitória, hábito divergente .
Assim como Camões sempre pensa a poesia como artifício que resulta de operações técnicas (para ele, o poema é literalmente poiema, produto, controlado racionalmente por preceitos), a poesia visual pressupõe inúmeras ações desta natureza.
Na poesia, música ou pintura, o artifício do ato da invenção é operado como máquina ou maquinação, do latim machina, do grego mekhané, (invenção astuciosa), como na expressão “máquina do mundo”, do Canto X de Os Lusíadas. Em latim, o equivalente de mekhané é ingenium, de gignere, (gerar), e designa o talento intelectual da inventio retórico-poética a que geralmente se associa instrumentum, de instruere, (dispor), como na expressão ciceroniana que define a inteligência, instrumentum naturæ, (instrumento da natureza). Os objetos das poéticas visuais são engenhos, na linguagem retórica.


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Retórica da ação  nas poéticas visuais - Arte - Poética - Prolepse




Retórica da ação nas poéticas visuais - Poética

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Cesar Ripa
Primavera

  • “Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.” ALMEIDA (sXVI) apud MUHANA, 2006.
Até aqui foram apontados principalmente os aspectos retóricos da poesia visual considerando sua gênese e sua proposta de discurso. Como levantamento retórico, aponta o que pode ser ou não ser, hipóteses constituintes ontológicas no texto plástico. Quanto aos elementos poéticos, indicam aspetos metafísicos (no sentido de sua imaterialidade) e da possibilidade de esses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta.
Em certo sentido, e em linguagem atual, serão apontadas aqui algumas idéias – com plena consciência de seu caráter provisório – e indicativos de continuidade da investigação em curso. O que não é, mas pode vir a ser.
A investigação estética, investigação pela produção e para a produção, assim como a investigação pelo conhecimento, têm a característica de que, concluída a etapa, ela já pode ser reiniciada, pois se não tiver sido trilhado o caminho do conhecimento do que fazer, certamente já se terá progredido em alguns passos na direção contrária do que não se fazer.
Posto que, poeticamente, o artifício resulte de maquinações do engenho e do instrumento, significando a ficção produzida com arte e indústria visando fim determinado, as invenções, fricções e experimentalismos – esta a novidade – serão os fios a moverem essa máquina do poema visual, na contemporaneidade, exercitando-se a poética cujo impacto estético decorra da forma utilizada, da configuração das imagens no espaço do suporte que a suplemente .
A questão que se coloca não é se o belo , de alguma forma, é alcançado, mas antes se – por se prender ou se desprender tão fortemente quanto desejado de elementos ligados ao belo residente na grandeza, na unidade, na proporção e na ordem preconizadas pela retórica – terá havido aproximação desse desiderato, ainda que não haja enteléquia.
A questão seguinte é se as qualidades dinâmicas do produto: tensão, energia, força, vibração, atração, inerentes à sensibilidade contemporânea, foram conjugadas no construto em harmonia ou contraponto às noções de balanceamento (proporção e ordem), composição (unidade), espaço (grandeza) do mesmo modo, poeticamente.
Na fugacidade da poesia visual, apesar do esquema flagrantemente aristotélico da retórica e seus desdobramentos, pela ambigüidade e polissemia dos instrumentos verbais e não-verbais das obras que foram objeto direto da mimese , dos quais foram extraídos os topoi, o referencial resta mais alicerçado no pensamento platônico.
  • Mimese em retórica: figura em que o orador, usando discurso direto, imita outrem, na voz, no estilo ou nos gestos; literatura: recriação, na obra literária, da realidade, a partir dos preceitos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das Idéias [É em ARISTÓTELES, na Poética (XXI-128), que se encontra a primeira teorização acerca desse procedimento da arte; no entanto, para este filósofo, a mimese seria a imitação da vida interior dos homens, suas paixões, seu caráter, seu comportamento (idem, II e III)]; literatura: a partir do Classicismo (s. XV), princípio que orientou os artistas quinhentistas e seiscentistas que acreditavam ter a arte greco-latina qualidades superiores, devendo por isso ser imitada. HOUAISS.
O tempo da doutrina concomitante ao engenho (a obra de arte) estabelece uma promiscuidade salutar entre os elementos temporais cronológicos e kairológicos, resultantes dessa busca de meta-referências e especularidade intertextual, trazendo a desordem como ponto de partida para a invenção. Desordem inventiva, daquela situada à borda do caos. A questão deste tempo não-reconciliado vai tornando nítida uma série de paradoxos na disposição do invento, no corpo de cada figuração, paradoxos que se aceleram e se retroalimentam no desvelamento recíproco de doutrina e engenho.
A obra de arte é exercício estético pautado pela forma, território por excelência da retórica. Mas como discurso pretensamente convincente, em delícia de atração e repulsa, é autoconvincente – ou procura sê-lo. Assim, nos meandros nas metáforas e metonímias, no abscôndito das polissemias e da complexa trama intersemiológica poderá ser encontrada a autopoiesis.
No discurso da forma, de referências tópicas constantes, na transdisciplinaridade entre lugares-comuns, ressurge ou fulgura a autoria personalíssima, expressão inexoravelmente constituída de mimeses consciente ou inconscientemente hauridas. A essência do ser se sobrepondo, contrapondo ou – mais que tudo – se expondo em discurso poético que, como representação, trata da projeção da experiência e expectativa vivenciais pelas lentes dos lugares-comuns emulados.


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Retórica da ação nas poéticas visuais - Prolepse

Cesar Ripa
Outono

  • Prolepse é a figura de retórica que consiste na previsão de objeções, refutando-as a priori; antecipação de um argumento ou réplica em relação a uma esperada objeção. HOUAISS.
Não cabe discutir a psicologia do eu poético-visual, nem cabe buscar na obra confessionalidade autoral, tampouco se podem denegar ambas as coisas. Se não se pretende em nossos dias o mais perfeito afastamento pessoal do objeto da ciência, escusado dizer é que não se pretenda tal façanha em produto cuja função seja estética.
Nas poesias visuais, os planos das superfícies dos signos conectam-se aos planos das superfícies dos suportes. As interfaces são criadas entre suportes e signos em combinações diferentes e eles suplementam-se ou friccionam-se, a ponto de fazerem da imagem design ubíquo que permeie outras e diversas manifestações estéticas e exercícios linguageiros.
A busca não é por uma doutrina, caracterização ou mesmo investigação teórico-bibliográfica no campo da arte, mas da produção nesse campo; todavia a doutrina está latente no invento e vice-versa. A poesia visual é a entrega à prática polissêmica transdisciplinar, subsunção a meta-referências retóricas sublimando-as na autofagia do modelo que foge à frieza da categorização aristotélica podendo inclusive aderir-lhe à estrutura. Aceitando-lhe os fundamentos, mas negando-lhe as conseqüências.
A reapropriação da retórica figura como ressonância de causalidade acrônica, espécie de isomorfia não-contígua, decorrente da idéia de recaimento (retombée) . Para explicitar essa idéia, o caminho adotado pode ser o cotejo entre os campos da arte e da ciência, à luz das relações entre esses dois campos e a opção pela investigação no campo da estética negando implicitamente a dicotomia ortodoxa dos campos . Em segundo passo, elementos daquela arte e daquela ciência são examinados empiricamente sob o prisma da mesma episteme, quando “a seqüência de recaimentos assegura a primazia da artificialização como via possível para encararmos a rede de textos que se entrecruzam, gerando uma mestiçagem fértil e salutar de saberes e estéticas irmanados” .
A isomorfia consiste em encarar na poesia visual a prática retórica operacional para teatralizar, no âmbito do discurso artístico, a incorporação, pela expressão plástica, de linguagens artísticas e reflexivas afins. Ao aquiescer à expansão desse intercâmbio estético e discursivo, são engendrados simulacros que evocam recursos técnicos a que já se aludiu como neobarrocos , mas prefira-se o cioso distanciamento de enquadramentos que tendem a se tornar restritivos, quando não minimizantes, afinal, não existem mais modelos a copiar nessa episteme visual que tem sede na ruptura.
O jogo especular transdisciplinar das poesias visuais deixa ao espectador o trânsito pelos espaços interespeculares, não sem lhe esconder alguns pontos de vista, mas sem querer limitar-lhe a vista a um ponto. E nesse jogo de palavras, como no jogo de espelhos, há caminhos para se perder, mas os há para se achar ou para achar o outro. “A consciência desse espaço vacante, onde repousava a solidez dos pilares conceituais a sustentar verdades irrefutáveis erigidas pela ratio, franqueia a proliferação retórica, a metástase irreprimível do discurso, a contrapelo da linguagem econômica e funcional, refratária ao desperdício.”
Essa linguagem econômica e funcional, tão característica da manifestação artística dos dias de hoje, é a expressão da poesia visual. É a linguagem que, criando espaços vacantes entre os espelhos e prismas da significância pretendida, estabelece os limites e a forma a serem ocupados pela interpretação.
O produto repleto de retórica e de poéticas do tempo e do espaço contemporâneo que pode parecer paradoxal, mas passado e presente coexistem. As poéticas visuais reinscrevem continuamente em seus diferentes suportes a multiplicidade apontada pelos concretismos, tão farta de signos visuais que se atualizam a cada processo, mas podem reinscrever com os signos da retórica, tal se está postulando.
Cada processo de atualização dos signos e suportes abre possibilidades visuais, mas também, auditivas, tácteis. Sobretudo são propostas discursivas. Cabe sobrepor à metáfora do labirinto especular o desfiladeiro de ecos, não transpondo a construção imagética do raciocínio para a sonora, mas transliterando os tropos literários e musicais para a expressão plástica e, aí sim, amplificar pela matéria que ocupa o espaço de ressonância a experiência sensorial-estética. Essa é a tentativa.
Resta que não caberá ao autor, nem ao crítico, interpretar ou explicar o objeto de arte quanto ao que reside no óbvio ou o transcende, pois tal seria o mesmo que destruir a obra. Fiquem os textos em aberto, mantidos os espaços lúdicos para o autor e os intérpretes na eterna dialética reinterpretativa.

Referências

BLUTEAU, Rafael. Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, etc. autorizado com exemplos dos melhores escriptores portuguezes e latinos, e oferecido a el-rey de Portugal D. João V., 8 tomos. Coimbra, 1712 a 1721.
CASA NOVA, Vera & BAHIA, José Aloise. O que se passa aí? Acesso a em 2 de julo de 2007.
FAZENDA, Carla Maria Arantes. O sentido da cor: uma investigação interdisciplinar. São Paulo: FAU/USP (Tese), 2001.
HANSEN, João Adolfo. A máquina do mundo. Acesso a em 2 de julho de 2006.
HANSEN, João Adolfo. Barroco, neobarroco e outras ruínas. Teresa. Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 2, 2001.
HERKENHOFF, Paulo. Monocromos, a autonomia da cor e o mundo sem centro. In: Ferreira, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Jneiro, FUNARTE, 2006; p.365-80.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Editora Objetiva, 2001.
MONGELLI, Lênia Márcia. A indisciplinada retórica de Platão. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
MUHANA, Adma. Discurso sobre o poema heróico. Comentário. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006.
PEDROSA, Mário. Ciência e Arte: vasos comunicantes. In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 2006; p.49-54.
PEDROSA, Mário. Ciência e Arte: vasos comunicantes. In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 2006; p.49-54.
REBOUL, O. Introdução à Retórica. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2000.
TREFZGER, Fabíola Simão Padilha. Neobarroco – a apoteose do artifício. Acesso a em 1 de julho de 2007.
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20 de novembro de 2008

Pessoas inteligentes


As pessoas que não são inteligentes costumam não entender como a inteligência funciona.

A frase é minha,
dou pra você.




Foto ilustrativa, o retorno


Publiquei há algum tempo, um artigo intitulado Foto Ilustrativa, em que dava azo a algumas divagações. Alguns devem ter achado interessantes meus argumentos e idéias. O CDL de Porto Alegre reproduziu o tal artigo em sua newsletter, o que gerou grande revolta de um de seus leitores, expressa na mensagem que me foi gentilmente repassada pela assessoria de imprensa daquela entidade. Agradeço pelo favor. Publico a seguir a mensagem recebida pelo CDL. Não argumentarei nada, não vejo polêmica.

De: Rafael Fay [mailto:rafaelfay@gmail.com]
Enviada em: quinta-feira, 20 de novembro de 2008 13:54
Para: Sinara Oliveira da Silva
Cc: Vilson Noer
Assunto: Re: Foto Ilustrativa

Prezados Almir Freitas, Ariana Oyarzabal e Sinara Oliveira Silva,

Respondo aos senhores por constar seus nome como responsáveis pela publicação dos textos da CDL news.

Sou publicitário e fiquei indignado ao ler o artigo acima mencionado. Talvez pela sua falta de experiência ou pela falta de conhecimento de causa vieram a fazer críticas severas à frase "foto ilustrativa" que acompanha anúncios publicitários. Pois bem, tal frase é aplicada em TODOS os países do mundo por boa prática em relação ao próprio consumidor. Quando se vende um apartamento na planta, a imagem "meramente ilustrativa" expõe como será o prédio no futuro, uma vez que o mesmo ainda NÃO EXISTE e seria impossível ter uma foto do mesmo. E sabe o que mais? Caso tal prédio já existisse e fosse realmente fotografado, a frase "foto ilustrativa" ainda assim deveria ser aplicada, pois a foto estaria estampada em um pequeno anúncio e não impressa em uma folha ou lona vinílica do tamanho real do prédio. Catálogos, folders, panfletos, outdoors, sites da internet e outras tantas formas de venda onde imagens de produtos são expostas trazem tal frase em respeito ao consumidor, mostrando que as imagens correspondem SIM a tais produtos, mas ali estão em tamanho diminuído para caber no anúncio. Aproveito para lhes perguntar: se alguma vez os senhores comeram em uma famosa rede americana de hambúrgueres devem ter visto que há painéis com imagens enormes dos lanches oferecidos, e quando os seus sanduíches são servidos eles não têm 50 centímetros de largura como a imagem da "foto ilustrativa". Por que não chamar o PROCON ou fazer um discurso sobre os direitos do consumidor, uma vez que os seus sanduíches não têm meio metro, nem a mesma "cara" da foto, inclusive com discrepâncias quanto à quantidade de gergelins? Tal reclamação seria uma tragicomédia... Comédia pela reclamação, e trágédia pela falta de discernimento dos clientes.
A frase "foto ilustrativa" é BOA PRÁTICA em respeito ao consumidor.
E aproveito para perguntar-lhes: cada vez que os senhores precisaram enviar fotos 3x4 suas a alguém, por acaso os senhores escreveram no canto ou no verso da foto a frase "foto ilustrativa"? Nunca? Bem, devo dizer então que tratava-se de uma imagem caluniosa, a não ser que o tamanho das suas cabeças correspondessem ao tamanho das cabeças "ilustradas" nas fotos. E quanto às pessoas que receberam as fotos, devo julgar que as mesmas deveriam esperar que as suas cabeças fossem do tamanho das cabeças "ilustradas nas fotos"?
Gostaria que esta errata fosse publicada na próxima edição da CDL NEWS, pois o artigo "foto ilustrativa" foi escrito por uma pessoa mal informada em relação ao assunto. Caso tivessem consultado um publicitário, não teriam publicado tal artigo que fere a moral dos profissionais da publicidade que muito se esforçam para vender os produtos dos próprios lojistas, muitos destes dirigentes e sócios da CDL Porto Alegre.

Atenciosamente,

Rafael Fay
(51) 9951.5036
rafaelfay@gmail.com