
por André Legos,
estudante de Museologia
na UFOP
O homem atua no espaço. Em todos os processos e fenômenos em que participa, ele interfere diretamente nas estruturas do meio, nos objetos que o compõe, e nas as práticas por ele realizadas nesse meio. Assim, nesses processos e transformações, a sociedade escolhe, conscientemente ou não, as ideias e práticas a serem preservadas em sua memória. Uma maneira de manter a memória é preservar os objetos e as ideias que a documentam. Esses objetos, enquanto vestígios, são possuidores de uma marca perceptível aos sentidos, pois tudo que o homem diz, escreve, fabrica ou altera pode e deve informar sobre ele (Bloch, 2001). Consequentemente, esses objetos se tornam coleção ou acervo, eles perdem o valor de uso, e passam a ter valor por essa capacidade informativa, suas características invisíveis, que o irão classificá-los como semióforos (Pomian, 1984).estudante de Museologia
na UFOP
Diversos aspectos são abordados na prática de colecionar objetos. A constituição da coleção parte do pressuposto de que cada colecionador tem sua própria visão a respeito do que é acumulado e preservado, podendo então ser movido pelo ego, por uma demonstração do status social, acúmulo de riquezas, demonstração de conhecimento, por afeto ou preservação da memória. Tais motivos são fatores determinantes ao resultado da coleção. A posse viabiliza todas essas sensações, seja pelo gosto do próprio colecionador ou pelo valor comercial e cultural do objeto. Assim, possuir ou manter objetos seria, na verdade, materializar a própria personalidade, uma vez que existe uma necessidade básica, involuntária e afetiva dos seres humanos em se preservar a memória transportando para o objeto em si, um valor único, original, autêntico e insubstituível. O ato de colecionar implica em um ato de preservação (Pomian, 1984), por vezes o colecionador detém e preserva objetos que possuem significados na memória coletiva. Objetos que representam a memória coletiva, “um campo discursivo de força em que as memórias individuais se configuram” (Albuquerque Junior, 2007), fazem parte do imaginário de indivíduos, pois suas memórias individuais se relacionam com tais objetos. Assim, os objetos adquirem valor na cultura e são preservados. Na sociedade contemporânea o papel da preservação fica a cargo de instituições museais e veiculam a idéia de que tais objetos pertencem a todos, mas a idéia de pertencimento coletivo parece equivocada quando se nota a importância social de algumas coleções privadas. E por essa importância da coleção, que o colecionador passa a ter outra representação na sociedade.
O colecionador, ao possuir uma coleção que tenha correspondência na memória coletiva, está em posição privilegiada, para muitos colecionadores a plenitude de uma coleção só é atingida no momento em que essa pode ser admirada por um maior número de pessoas (Almeida, 2001), o museu enquanto instituição de preservação da memória, seria o espaço mais adequado a legitimar o valor da coleção e, por consequência, a importância desse colecionador para sociedade, o que justifica as doações de coleções particulares. Segundo Pomian (1984), a doação voluntária para o Estado sempre implica em troca de interesses que se dá mais no campo simbólico que no econômico. A figura do doador, seja o organizador da coleção ou seus herdeiros, estará, a partir de então, reconhecidamente atrelada à própria coleção, reafirmando seu papel social, seus gostos requintados e sua contribuição para proteção do patrimônio coletivo. Assim, coleção e colecionador passam a ser uma coisa só, tornando a admiração pelos objetos simultaneamente um ato de admiração daquele que os adquiriu e organizou (Almeida, 2001).
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. (2007). Violar memórias e gestar a história: a abordgem de uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um parto difícil. In: D. M. Júnior, História a arte de invertar o passado (pp. 199-209). Bauru: Edusc.
ALMEIDA, C. A. (2001). O "colecionismo ilustrado" na gênese dos museus contemporâneos. In: M. H. Nacional, Anais Museu Histórico Nacional (pp. 123 - 140). Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.
BLOCH, M. (2001). Apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
POMIAN, K. (1984). Coleção. In: Enciclopédia Einaudi (Vol. I, pp. 51-86). Lisboa: Imprensa Nacional.



