29 de outubro de 2009

Patrimônio, colecionadores e museu


por André Legos,
estudante de Museologia
na UFOP

O homem atua no espaço. Em todos os processos e fenômenos em que participa, ele interfere diretamente nas estruturas do meio, nos objetos que o compõe, e nas as práticas por ele realizadas nesse meio. Assim, nesses processos e transformações, a sociedade escolhe, conscientemente ou não, as ideias e práticas a serem preservadas em sua memória. Uma maneira de manter a memória é preservar os objetos e as ideias que a documentam. Esses objetos, enquanto vestígios, são possuidores de uma marca perceptível aos sentidos, pois tudo que o homem diz, escreve, fabrica ou altera pode e deve informar sobre ele (Bloch, 2001). Consequentemente, esses objetos se tornam coleção ou acervo, eles perdem o valor de uso, e passam a ter valor por essa capacidade informativa, suas características invisíveis, que o irão classificá-los como semióforos (Pomian, 1984).
Diversos aspectos são abordados na prática de colecionar objetos. A constituição da coleção parte do pressuposto de que cada colecionador tem sua própria visão a respeito do que é acumulado e preservado, podendo então ser movido pelo ego, por uma demonstração do status social, acúmulo de riquezas, demonstração de conhecimento, por afeto ou preservação da memória. Tais motivos são fatores determinantes ao resultado da coleção. A posse viabiliza todas essas sensações, seja pelo gosto do próprio colecionador ou pelo valor comercial e cultural do objeto. Assim, possuir ou manter objetos seria, na verdade, materializar a própria personalidade, uma vez que existe uma necessidade básica, involuntária e afetiva dos seres humanos em se preservar a memória transportando para o objeto em si, um valor único, original, autêntico e insubstituível. O ato de colecionar implica em um ato de preservação (Pomian, 1984), por vezes o colecionador detém e preserva objetos que possuem significados na memória coletiva. Objetos que representam a memória coletiva, “um campo discursivo de força em que as memórias individuais se configuram” (Albuquerque Junior, 2007), fazem parte do imaginário de indivíduos, pois suas memórias individuais se relacionam com tais objetos. Assim, os objetos adquirem valor na cultura e são preservados. Na sociedade contemporânea o papel da preservação fica a cargo de instituições museais e veiculam a idéia de que tais objetos pertencem a todos, mas a idéia de pertencimento coletivo parece equivocada quando se nota a importância social de algumas coleções privadas. E por essa importância da coleção, que o colecionador passa a ter outra representação na sociedade.
O colecionador, ao possuir uma coleção que tenha correspondência na memória coletiva, está em posição privilegiada, para muitos colecionadores a plenitude de uma coleção só é atingida no momento em que essa pode ser admirada por um maior número de pessoas (Almeida, 2001), o museu enquanto instituição de preservação da memória, seria o espaço mais adequado a legitimar o valor da coleção e, por consequência, a importância desse colecionador para sociedade, o que justifica as doações de coleções particulares. Segundo Pomian (1984), a doação voluntária para o Estado sempre implica em troca de interesses que se dá mais no campo simbólico que no econômico. A figura do doador, seja o organizador da coleção ou seus herdeiros, estará, a partir de então, reconhecidamente atrelada à própria coleção, reafirmando seu papel social, seus gostos requintados e sua contribuição para proteção do patrimônio coletivo. Assim, coleção e colecionador passam a ser uma coisa só, tornando a admiração pelos objetos simultaneamente um ato de admiração daquele que os adquiriu e organizou (Almeida, 2001).
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. (2007). Violar memórias e gestar a história: a abordgem de uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um parto difícil. In: D. M. Júnior, História a arte de invertar o passado (pp. 199-209). Bauru: Edusc.
ALMEIDA, C. A. (2001). O "colecionismo ilustrado" na gênese dos museus contemporâneos. In: M. H. Nacional, Anais Museu Histórico Nacional (pp. 123 - 140). Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.
BLOCH, M. (2001). Apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
POMIAN, K. (1984). Coleção. In: Enciclopédia Einaudi (Vol. I, pp. 51-86). Lisboa: Imprensa Nacional.


11 de outubro de 2009

Medida Procrastinatória


Assim como existe a Medida Provisória e ela devia atender necessidades de urgência e relevância, deveria haver uma Medida Procrastinatória para atender os casos irrelevantes e delatáveis. A Medida Procrastinatória poderia ter sido inaugurada com louvor se aplicada ao Acordo Ortográfico. Perguntaram-me em uma discussão de linguistas qual a pior parte dele e respondi que seria quinhão do erário dilapidado em caso tão desimportante.

A prodigalidade presidencial e prolatar e posteriormente promulgar as provisórias medidas só irrita menos que a ressonância de seis palavras cultas começadas em p. Os congressistas, juristas e politólogos são unânimes em reclamar que o Congresso não legisla por a pauta estar sempre emperrada pelas Medidas Provisórias

Considerando


Já é obvio ululante que a mídia pôde catapultar a pré-candidata petista aos pináculos da pesquisa eleitoral, deflagrando prematuramente o processo da sucessão presidencial; destarte, inseridos prematuramente no contexto maniqueísta de bem e mal, caberá ao eleitorado, cônscio de suas responsabilidades cívicas, não incorrer em erro gritante de consequências imprevisíveis, mas sufragar uma postulante alicerçada com base a apresentação do chefe do Executivo, conquanto biografia pregressa não tem histórico de vitórias eleitorais anteriores.

Não se pode prever, assim de improviso, uma vitória esmagadora da candidata tão somente por estar atrelada firmemente ao líder carismático do PT; é obvio que ambos fizeram por merecer a posição que ocupam, com direito à posição que têm nas pesquisas. Se não é tão caloro
sa a recepção que a candidata mineira tem tido, apresentada até o momento como estrondoso sucesso de seus marqueteiros copartidários e importados do exterior, pode surgir sempre outro candidato correndo por fora, ou pelo lado adjacente, e que também se coloque em sintonia com os corações e mentes do eleitorado pelas vias ordinárias do mesmo líder operário.

O eleitor, via de regra, não está vislumbrando nenhuma luz no fim do túnel, e ainda tem em mente o prejuízo incalculável produzido pelo voto ao último salvador da pátria, Collor; não que estejamos agora no fundo do poço, como a Honduras ou Haiti, nem tampouco na situação de inflação galopante de consequências imprevisíveis de décadas passadas, mas nem por isso podemos tomar uma decisão eleitoral a toque de caixa, chegar a um denominador comum para preencher a lacuna abissal que será gerada pelo fim do mandado de Lula, de atuação irretocável; esse mister será fonte inesgotável de debates acalorados das lideranças, que se verão na contingência de trocar muitas figurinhas antes de poderem respirar aliviados e fazer a colocação definitiva dos nomes para o sufrágio.

Nova vertente inserida no contexto sucessório, a resolução tirada há tempos atrás pe
lo TSE, a partir da reivindicação de um dos partidos, limita a possibilidade da multiplicidade de coalizões, unificando-as em nível nacional. A decisão proferida está provocando ruído ensurdecedor de pesadas críticas por parte dos parlamentares que se sentem prejudicados em seus direitos adquiridos de conluio. O egrégio tribunal pôde assim abrir com chave de ouro sua interveniência no pleito, mesmo sob duras críticas dos parlamentares.

A candidata, enquanto mulher, pode agora atirar duras farpas àquela corte pela decisão que está coberta de requintes de crueldade chauvinista. O ataque fulminante daqueles magistrados não visava certamente a candidata, nem pretendia impedi-la de fazer uso de sua incalculável herança partidária e recursos do erário público na campanha, afinal isso não seria mesmo fator decisivo, sabe-se que a eleição é sempre uma caixa de surpresas, e o equipamento sofisticado de avançada tecnologia representado pela urna eletrônica, se for equipado com a plataforma eleitoral XP, certamente será indefectível.

A carreira brilhante da candidata poderá, não obstante, ser coroada de êxito, se ninguém
mais, correndo por fora, deflagrar um pavoroso incêndio nos cartórios eleitorais e nas juntas de apuração, tal como o causado pela irreparável perda a nível democrático da decisão do TSE.

Cumpre-nos debelar as chamas do retrocesso político daquele tribunal, literalmente tomado de entulho autoritário no uso da internet e esbulho posserório no caso do MST, e fazer coroar de êxito a candidatura petista, outorgando um caloroso abraço às instituições progressistas sem denegrir familiares inconsoláveis nem se deixar trair por emoções visíveis.

Certamente não seria demais quebrar o protocolo e intimar a colenda corte a rever suas deliberações eivadas de equívocos. Há de haver uma forma de aparar essas arestas entre o direito e a democracia, calorosos aplausos hão de substituir as estrepitosas vaias que se fazem ouvir àquele tribunal no presente momento, já não obsta a campanha prévia com eficácia impeditiva.


Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

10 de outubro de 2009

Significação


Para representar as metáforas emuladas são levantados os signos mais representativos. As estações do ano, por exemplo: uma cena ou paisagem situadas em estação do ano bem determinada geralmente correspondem ao estado de alma do sonhador. As cenas alegres acontecem quase sempre na primavera ou verão, os sonhos de renascimento na primavera. Não obstante, com maior freqüência se tem consciência do elemento característico da estação (por exemplo: sol muito forte, brotos nas árvores ou neve que cai) antes da estação em conjunto. Na interpretação, há que se ter em conta tanto o elemento subjetivo dominante quanto a estação em si mesma. Tanto os signos quanto os significados se codificaram em representações metafóricas e repletas de emulações transversais.

Sendo a poesia visual montagem de signos codificados e abstratos, ela é construída (e interpretada) em referência às convenções associadas ao gênero polímnico, utilizando meio específico de comunicação. Embora existam discrepâncias em relação à possibilidade de se dizer a mesma coisa em dois ou mais sistemas semióticos que utilizem unidades semânticas diferentes, e sendo consciente das limitações que tal diferença estabelece em relação aos possíveis códigos utilizados , a proposta é aproveitar favoravelmente tais fatos. Se os diversos sistemas semióticos fossem sinônimos, então a proposta iconográfica da poesia visual não faria sentido nenhum.

As teorias que lidam com a construção dos sentidos na relação entre leitores incluem opções entre: objetivistas, para quais o significado está inteiramente incorporado ao texto (sendo então o significado simplesmente transmitido ao leitor); construtivistas, para quais o significado é construído na interação entre texto e leitor; terminando nos subjetivistas, para quais o significado é recriado segundo interpretação do leitor. Isso pode ser resumido em duas tendências gerais: as formais e as dialogais. Ao se estabelecer o texto iconográfico, definem-se os elementos semânticos (e entre eles os não-verbais) a serem aproveitados em função das suas possibilidades narrativas (com as suas potencialidades conotativas, designativas, simbólicas, indicativas ou icônicas), com o objetivo de entabular comunicação direta com o leitor. Estabeleceram-se os códigos e subcódigos que organizam o sistema de signos textuais, procurando conscientemente refletir valores, atitudes, crenças, paradigmas e práticas, a fim de que as relações entre eles gerassem o sentido desejado nos leitores, mesmos os de diversas culturas e diferentes graus de erudição. Nesse sentido, observa-se a necessidade de ultrapassar os elementos comumente aceitos e gerais no percurso inventivo. Procura-se incorporar algum elemento conectado às visões autorais de mundo. O desafio é grande. É daí a idéia de lidar com algumas das questões humanas mais culturalmente inquietantes, entre que se contam sexo, morte, origem da vida, existência de Deus (ou de algum tipo de ser superior), o Além (da morte, da terra, a vida extraterrestre). Em termos mais gerais e usando terminologia mítica e psicanalítica: a resultante da relação entre Eros e Tanatos, entre a invenção e a destruição.



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América Latina, século XXI


Há 30 anos havia ditaduras em praticamente toda a América Latina; há 10 anos a AL era amplamente democrática. Que temos agora? Bolivarismo. O que é o bolivarismo? A incógnita que está se delineando. Passo a passo, os regimes latinoamericanos vão se distanciando das liberdades civis. É bem claro que a direção dos regimes na AL é na contramão da história. Estamos em franco retrocesso político e cultural. Curiosamente, as populações dos diferentes países na AL estão vendo os regimes autoritários ser implantados e ficam inertes. As diferentes facetas de autoritarismo, nenhuma delas tem eixo ideológico nítido. O continente virou um caleidoscópio de interesses egoístas. Mas as diferentes formas de restrição à liberdade que estão em curso na AL são orquestradas pelos governantes dos vários países. Em meio a diferentes justificativas, múltiplos artifícios e variados meios de pressão e repressão, o bolivarismo vai apresentando sua face. A incógnita que temos chamado de bolivarismo tem denominadores comuns: restrições à imprensa, corrupção dos parlamentos, incoerência ideológica. A mais clara ação no sentido de redução das liberdades democráticas são as restrições à alternância no poder. Como isso se dá na AL? Diferentemente de outra época, em que a quartelada era o caminho do golpe, hoje o curso e recurso institucional é a via do autoritarismo. Em cada país na Sulamérica se usa um artifício para continuar no poder, alternância entre cônjuges, plebiscitos, reformas constitucionais. As brechas no direito são o espaço da infiltração do autoritarismo desideologizado que o bolivarismo representa. O pluralismo é a vítima. Pluralismo significa a conjugação, a atenção à somatória de interesses. Dar voz e vez a todos os grupos. Isso que se tenta anular na AL. Pluralismo é alternância no poder e liberdade de imprensa. Eleições livres e competitivas. Tribunais independentes. Estamos perdendo isso.
Este artigo foi inteiramente tuitado, composto diretamente no Twitter. Esta versão contém apenas pequenas revisões como diferença em relação ao conteúdo original.

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