30 de janeiro de 2009

O Homem a Concha e o Universo

Exposição de Rodrigo Brasil.
O Homem a Concha e o Universo
Local: 5AVENIDA, Rua Alagoas 1314 Piso C
De 2 a 28 de Fevereiro
Savassi, Belo Horizonte
Sobre o autor: quadros, trabalhos, textos, um geral das cosas dele - arquitetura - Orkut.


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23 de janeiro de 2009

Colocar ovos


"Galinha coloca ovo em forma de batata na Croácia"

"'Ninguém nunca havia visto nada assim antes', disse Neda Glibota.
Ovo foi colocado por uma de suas galinhas na cidade de Slivno."

Impropriedade vocabular

Colocar não é sinônimo de desovar nem aqui nem na Croácia.
A confusão, muito comum em pessoas dos grandes centros, que não tiveram galinheiros em seu quintal, ocorre da sinonímia entre pôr e colocar. Todavia, a interseção de sentidos entre os dois verbos não alcança o sentido de desovar.

Botar tem 36 acepções em HOUAISS, dentre as quais:
transitivo direto e intransitivo
6 pôr (ovos, falando de animais ovíparos); desovar
Ex.: a tartaruga bota seus ovos na areia; a galinha tem botado pouco

Pôr tem 52 acepções, inclusive:
transitivo direto e intransitivo
15 expelir (ovos); deitar, botar
Ex.: a galinha só pôs um ovo; a pata ainda não pôs hoje

Colocar tem 18 sentidos, nenhum se refere à desova. Colocar ovos é forçar demais a habilidade dos ovíparos: inadequação vocabular.

Não se colocam todos os ovos no mesmo cesto, mas as aves podem pôr (ou botar) todos no mesmo ninho. Jornalistas devem colocar as palavras certas nos lugares devidos e não desovar batatas à revelia.

Se alguém se opuser, que se coloque, ou desove seus impropérios. Se se sentir ofendido, que vá botar ovo.

9 de janeiro de 2009

O edifício do conhecimento

Li:
Que as lacunas da formação não são de todo inofensivas. O prédio não se sustenta por causa delas...
Realmente, nenhum prédio se sustenta nas lacunas, mas é por elas que transitamos. A arquitetura não é a arte do sólido, mas administração dos vazios. As lacunas do conhecimento são os espaços do saber a serem administrados, elas não são inofensivas, mas são essenciais ao fluxo das ideias; não são o ponto em que podemos nos apoiar, mas podem ser a única rota de fuga da ignorância quando as reconhecemos.

7 de janeiro de 2009

Mudando, só por mudar...


Fiz um soneto outro dia, inspirado por conversa com ilustre colega que teve feliz oportunidade de passar as consoadas em Portugal - e ela ainda estava por lá na oportunidade.
Levado pelo fato (ex-facto) de o som das palavras ditas à moda portuguesa estar ressoando em minha imaginação enquanto compunha, usei a grafia de lá - mais perto daquela fonética. Depois me dei conta de que, mudada a ortografia, por lei, meu soneto caduca. Veja por si:

Caixa de saüdade

Não cuides dos objectos,
Que te esperam as cousas;
Os troços onde pousas
Têm os mesmos afectos.

Não mudam os aspectos
Se dos factos não ousas
Fugir de tuas chousas
E dos teus trens dilectos.

Querer é nossa falha,
Ter é uma quimera,
Cada posse é acuera.

Saüdade da tralha
É mal que se supera:
O que é, logo já era.

Belo Horizonte, 2 de janeiro de 2009.

Agora, veja o mesmo na nova ortografia - como perde o sentido na amputação ortográfica:

Não cuides dos objetos,
Que te esperam as cousas;
Os troços onde pousas
Têm os mesmos afetos.

Não mudam os aspetos
Se dos factos não ousas
Fugir de tuas chousas
E dos teus trens diletos.

Querer é nossa falha,
Ter é uma quimera,
Cada posse é acuera.

Saudade da tralha
É mal que se supera:
O que é, logo já era.

Aspetos - essa palavra arde nos ouvidos... - socorro: destruíram meu soneto! Felizmente ainda tenho heróis a que recorrer: eles não estão desbundados, não perderam os respectivos acentos. Mas teremos que nos acostumar a viajar de avião de pé? Não tem mais acento em voo nenhum! Só mais um detalhe técnico para esclarecer: quase sempre saudade já vinha sem trema, mas os poetas tínhamos a licença de colocar os dois pinguinhos para requerer o ditongo, quando a métrica solicitava: caçaram-nos a licença poética, não podemos mais poetar sem cometar desobediência civil.