23 de dezembro de 2010

Um só partido nacional

Um só partido ou partido nenhum?
Um só partido nacional - aqui quero propor passar a conversa por esse ponto. Existe mesmo PT como partido, tanto quanto certamente já terá havido? Sabemos que um dos pontos teóricos que qualificam a existência partidária (e fica claro que estamos descartando outras abordagens formalistas ou segmentárias) é a existência de um núcleo de demanda permanente, difusa e universal. De meu ponto de vista, essa demanda no PT se exauriu, ao conquistar o Estado; o que existe de projeto nuclear passou a ser a manutenção do poder, em detrimento de outras propostas que deixaram de ser atividades fim para se tornarem meios na consecução de tais objetivos. E pior, meios sempre justificados pelo fim, acima de quaisquer peias éticas e apenas levemente contidas pela coerção jurídica.
As bandeiras ideológicas (expressas na dicotomia esquerda-direita) perderam o significado prático, passando a ser mero vínculo romântico com um discurso de outrora ou de além-mar. O discurso sindicalista-reivindicatório esbarrou na realidade da possibilidade do mercado, da furiosa tributação que sustenta a leviatânica máquina assistencialista, na política econômica internacional, pautada pelo socorro de cada player a si mesmo.
Que temos? Um grupo que se aparelhou e ocupou todas as esferas da vida pública; em cujo topo há um núcleo de cerca de 40 pessoas listadas pelo MP como formadores de quadrilha, sub judice no STF. Depois disso um segmento médio vindo quase todo da obscuridade de quadros estaduais e municipais que sempre agiu no interesse de se servir de suas funções mais que servir ao interesse coletivo - até por não existir mais um interesse difuso palpável: falta o grande projeto.
Enfim, a militância. Quem são esses, que abraçam uma causa que não compreendem, até mesmo por não existir, mas que aderem a uma bandeira que tremula com motes sem glosa? Não são praticamente os mesmo que ocupam boa parte da vida e de suas motivações em outras aderências das quais não auferirão nenhum benefício privado ou coletivo? Não são os torcedores do PT os mesmos que torcem por Flamengo aqui, Atlético ali ou Bahia acolá? Mangueira ou Portela esporadicamente. Cesares Cielos de vez em quando. Não é a mesma torcida por uma Copa ou Olimpíada, como se fossem metas reais de desenvolvimento nacional?
Aderem então à bandeira vermelha da estrela, torcendo pelo sindicalista do filme, o herói de boa catarse, com fala de povo quando fala ao povo, sem diploma, mas que foi devidamente preparado por algumas das mais destacadas mentes da academia, sem berço, mas que se tornou interlocutor de tudo que se possa chamar elite pelo mundo afora. É o gato-borralheiro, cujos votos lapidaram o sapato de cristal.
E agora? Existe mesmo partido, existe demanda clara, existe pacto ou delegação nítida para o exercício desse mandato do 1º de janeiro? Que rumo será dado por essa senhora sacada da algibeira para suceder dom Sebastião em sua desconhecida eclipse?


Bem, o caso aqui é a pergunta: o que é o PT agora? Por quanto tempo se sustentará como aparelho de Estado? Haverá fôlego para ultrapassarem a barreira da década no controle que assumiram, sem proporcionarem serviços que ultrapassem a barreira do imediato, setorial, ou personalíssimo?
O nosso querido povo, torcedores que são, nem se importam se o time a cada ano é formado por profissionais muitíssimo bem pagos. Quer gols. Quer a alegria de êxitos pontuais. Êxitos de um pênalti ou de uma Tv de LED. De uma taça de campeão ou de um carro financiado para passar por ruas que não os comportam - e assim por diante.
Vivemos num país continental sem ferrovias, sem hidrovias, sem aerovias suficientes. Aqui pela região Sudeste e Sul temos a ilusão de que coronelismo foi fenômeno dos dois quartéis iniciais do XX; vá-se ao Tocantis ver quem é o dono lá, ou às Alagoas ou ao Ceará - capitanias hereditárias. E partido? Que partido? Um que tem discurso, ou tinha, de combater aqueles que hoje se enfileram em suas tropas de choque? E quem não vê? O povo vê, mas que importa? Já que no futebol os jogadores são vendidos entre os times, basta trocar a camisa e a adesão é instantânea. Basta esse ou aquele figurão apoiar dom Sebastião que fica remido. E o partido, há?

21 de dezembro de 2010

O que fazer?

  • O papo veio daqui.

  • Alba Zaluar O que fazer? Como montar uma oposição ao político mais popular do país? Aguardo ansiosa as respostas.

  • Publio Athayde Não seria talvez o caso, Alba, de se montar a oposição contra aqueles que fazem de Lula o mais popular, ou antes, montar a oposição contra aquilo que faz deles o que eles são. Opor-se a Lula é atacar o efeito; como ele é perfeitamente representativo, além de representante, o objeto a ser focado como causa é aquilo que ele representa: a maioria que expressa aquilo nele representado. Será que expressei corretamente?

  • Alba Zaluar Se entendi você bem, opor-se àqueles que alimentam o mito (representatividade) do líder populista. Tem muita gente que apenas é contra quem é contra o Lula por ele ser um operário de origem humilde, migrante nordestino, etc. Como se isso fosse razão para alimentar tal poder pessoal. É isso?

  • Publio Athayde
    Eu (me) expliquei mal, senti meio confuso, mas estava com pressa. Mas imagino que o caminho é que se façam campanhas políticas com base em valores, em propostas, de longa duração. Desconstruir a mentalidade de barganha, de imediatismo, de sebastianismo. Enquanto as campanhas forem por nomes, e eleitorado for corruptível, o melhor corrompedor vencerá. Como tem vencido. As tolices, tais como alegar a ignorância - e até mesmo supor Lula pouco inteligente - são despropositadas, apontar a corrupção, a prevaricação à véspera da eleição dá em nada, se os valores corrompidos não forem correspondentes aos da maioria. Não é um projeto de 6 meses em 2014 que vai libertar o Estado. Enquanto o plebiscito (e a eleição é plebiscitária) se der entre carismas e perceptivas imediatas de bens ou de análise de passado recente, postas diante de um eleitorado que pactua com os desvios (ou participa deles se tiver chance), que pensa que a TV da sala ou a troca do carro ano que vem será facilitada por um grupo no poder, e isso faz valer a pena eleger aquele grupo, mesmo que o tal grupo esteja dilapidando o Estado em proveito próprio, enquanto o plebiscito se der nessa condição, o resultado presente perdurará.

    Leia neste blog: Insultar - Investigação estética 

20 de dezembro de 2010

Da opinião de cada um

Opinião não é tudo, existem os fatos.
Na filosofia de Parmênides, opinião - doxa (do grego δόξα, doxa, «opinião», «conjectura») é a idéia confusa acerca da realidade e que se opõe ao conhecimento verdadeiro.
O caso é que sobre algumas coisas há mais que opinião, senão conhecimento verdadeiro. Quando o conhecimento em causa denota o desvio ético, moral ou comportamental alheio, o silêncio pode vir a constituir omissão por vezes dolosa. O inverso, tratar tudo como opinião, admissível em tese, incorre em relativismo absoluto. Portanto, admite-se equívoco em qualquer assunto como opinião. Mas não aceito nem me calo diante do comportamento notoriamente criminoso de autoridade ou cidadão conivente.
Este é o costume: pode-se dizer (ou fazer) o que ou como bem entender, inclusive frente as hoje inevitáveis câmeras. Depois, é só dizer que a interpretação do fato é por conta de cada um, que as palavras foram editadas, que a intenção (de inferno cheio das boas) não era aquela... E os coniventes alegam que quem se opõe tem direito à opinião (por enquanto) mas a opinião deles tem maioria. Depois chamam isso de democracia - e dizem que é bom!

13 de dezembro de 2010

Traduzindo a bíblia

Lutero traduziu a bíblia e, como cada leitor, deu a ela a
interpretação que lhe pareceu mais conveniente.
Uns dizem que na biblia há palavras de Deus - em todas que vi as palavras foram escolhida por tradutores, serão eles deuses ou inspirados?
Não existe tradução sem interpretação. Também não existe inquisição, felizmente - então posso dizer livremente o que penso: tenho séria dúvida de que pessoas informadas e inteligente tenham mesmo fés. Têm interesses que escondem sob (sob mesmo!) esse nome! Fé é a improvável crença no impossível. "Interesses ou necessidades, não importa. Interesse em causa própria, necessidade quando se pensa no outro." (Adriana Shnoor)
Até eu mesmo, eventualmente, finjo crer, por pura urbanidade: se um idoso ignorante me diz "deus te ajude", respondo naturalmente "amém, a nós todos", por cortesia.
Afinal, se alguém me disser "bom dia" eu não vou responder que não acredito em augúrios e nem na força das palavras...
E a coisa, partindo da premissa hipotética de que os fatos tenham sido segundo a versão bíblica mais corrente que se têm deles, pensando somente nos evanjelus (quem duvidar confira, está dicionarizada essa forma timorence em nossa língua unificada), começa interpretativa na fonte: o fundador não escreveu bulhufas; seus seguidores, 50, 10 ou 250 anos depois de sua morte registraram o que ele teria dito. O sínodo de Hipona depois escolheu as versões "compatíveis" entre si e com os interesses correntes. Imaginem como deve ter sido o quebra-pau! Quem já participou de algum colóquio sabe. Então, ou a bíblia (recuso a maiúscula) é um texto completamente arbitrário, escolhido por gente, ou todos somos inspirados e podemos reinterpretá-la a gosto (tal qual Lutero - que pegou o texto grego, que já era latino depois de ter sido grego e aramaico).
Fé pra mim, fé mesmo é no catálogo telefônico, mais de 98% das informações nele contidas representam fatos verdadeiros e podem ser constatadas, na hora, por qualquer um. No que me toca, os 2% restantes, falhas gráficas ou evolução dos dados, não correspondendo à situação atual, já são suficientes para meu descrédito naquele volume. E considerando que nunca se soube de um catálogo telefônico que tenha sido traduzido ou interpretado., tenho mais fé em qualquer catálogo telefônico que na bíblia.

5 de dezembro de 2010

Educação versus instrução

(Creio que esta imagem seja original daqui, tendo depois sido adaptada para português.)
Este texto, no qual coloco algumas ideias que estão sendo alinhavadas, é parte de uma discussão latente, mas também candente, cuja postulação central é a de que a educação é função da família e deve ser prerrogativa da esfera de vida privada, ao passo que a instrução pode ser praticada na vida pública do indivíduo, por instituições públicas ou privadas – sem privilégios.
A discussão tem se processado, como muitas outras, pela internet e em bem poucos fóruns, pois os pontos que ela ataca ainda são considerados pacíficos pela maioria, a despeito de considerações que tenho por bastante óbvias.
Encontrei alento, há poucos dias, para retomar o debate, por ensejo do encontro nas palavras de Regina Cascão eco perfeito ao cerne de minha tese:
“A missão do professor foi sendo deturpada com o tempo. A repartição que cuidava era a de Instrução – e então o professor era o instrutor, aquele que instruía, que dava conhecimento. Depois, as Secretarias e Ministérios passaram a ser de Educação – e aí, os professores chamados de Educadores, os pais passaram a transferir a tarefa de educar seus pimpolhos à escola. Resultado: aviltada, a categoria não instrui mais, porque ela mesma não foi instruída, e não tem como substituir a família, os pais, na educação. E temos o que temos hoje, que nem quero falar porque me dá enjoo e ânsia de vômito.”(1)
Concordo com Regina Cascão em gênero, número e grau. Tenho dito e repetido isso há mais de uma década, inclusive em meia dúzia de cursos de pedagogia em que lecionei! Estou em festa por encontrar que pense exatamente como eu no caso. (2)
Instrução – mesmo a mais técnica, pode passar (e quando é boa passa) pelos crivos do humanismo, mas a distinção que está feita aqui é entre as funções da esfera privada restritas ao lar – espaço reservado à educação – e a esfera pública e política – na qual o indivíduo é instruído. Os pedagogos têm muitos “nomes de santos” a invocar para justificar suas posturas, Darcy Ribeiro, por exemplo, renomadíssimo, é um dos pais das trapalhadas que estão por aí... Ele e todos os mais pedagogos que se imiscuíram no ensino, degenerando-o e levando-o à falência absoluta.
A "visão contemporânea" de educação (seja lá o que for isso) fracassou de fio a pavio. Não há argumento pedagógico que justifique a manutenção das maluquices enfiadas no ensino, deturpando-o e apelidando-o de educação, frente à total falência do sistema. Nada se salva no que os pedagogos enfiaram em nosso sistema de ensino nos últimos 40 anos. Pra concertar a trapalhada precisaremos de meio século – se começarem a agir, – do que não há nenhum indício.
Quando o Estado se apropria da educação está usurpando a função parental, para – em seguida – propor diretivas. A maior parte dos problemas brasileiros decorre da promiscuidade entre as esferas pública e privada. Desde quando um funcionário do governo toma para si o que é publico, ou quando ainda um pedagogo gramiciano (ou de qualquer outra seita) tenta tomar parte do processo familiar para a instituição como forma de cooptação política.
Vou continuar a postular no mesmo sentido assistematicamente aqui. Não com qualquer pedagogo que se desqualifique como interlocutor e tente ostentar docere argumento ab auctoritas et in casu ex hypotesis vanum argumentandum – pra rebolar um "latim de cozinha" que doura a pílula sem torná-la amarga e deixando-a tão placebo quanto sempre.
No Direito Romano (pedindo licença pra dar um pitaco jurídico de historiador) auctoritas se opunha potestas et imperium e, para que não me suponham tão historiador quanto jurista e professor (três das coisas para as quais, há que o diga, não tenho perfil) passo daqui à psiquiatria, imisquindo-me em outro métier: quem evoca autoridade deve ter demandas obscuras pela paternidade – encontrando nessas demandas o suprimento das transferências feitas ao Estado. Simplificando, psiquiatricamente, isso redunda na "síndrome de falsas lembranças" em que a autoridade se converte em corrupção, alienação, manipulação. Mas para que não me acusem de exercer mais alguns ofícios sem a devida qualificação ou pendor, volto a Sêneca – em detrimento de Freud: postulando melhor separação entre público e privado. Fique a autoridade com a família, que educa, o poder e o império com o Estado.
Todo mundo que viveu o magistério tem muitas histórias a contar. De historinha em historinha, num dia de desaviso saí da Universidade do Espírito Santo pra ir lecionar na Universidade do Tocantins. Aquela coisa de estado recém-criado me instigou e deu vontade de fazer coisas, contribuir – como eu era bobo!
Lá vi coisas que até os deuses duvidam: no último ano do curso de história eu tinha na mesma sala três alunos que NUNCA haviam lido um livro sequer. Sondei bem, nem ao menos um livrinho de bolso, NADA. Havia dois ainda, dois que eram incapazes de redigir um parágrafo simples em que houvesse nexo textual. Não texto, assintaxe.
Pois bem, coincidentemente, os cinco já lecionavam! Todos estavam encarregados de turmas de primeiro e segundo graus pelas escolas das adjacências... Analfabetos funcionais. Lecionavam história, português, matemática... e não redigiam nada, ou não liam. O salário claro que não chegava aos R$1024,67 da lei de hoje.
Andei por todo tipo de escola, mas sei que os professores que ganham de mal a pior raramente valem o que ganham. O círculo viciado faz do magistério a periferia do mercado de trabalho, o restolho da sobra dos excluídos de todas as demais profissões leciona. Ganha-se melhor em qualquer ofício – até como pedreiro – sendo bom. Já no ensino, basta cumprir a tabela que no fim de cada mês vem a merreca. E tem mais: o magistério é o único ofício em que, se não tem tu, vai tu, a saber, se não há o licenciado, vai o estudante, se não o que houver; importante é que haja um palhaço entre a turba e a lousa. E importa também que a corriola toda seja promovida ao fim de cada ano, para não se macularem as estatísticas, o que denigriria o pedagogo de plantão.
De mais a mais, a vítima do pó de giz está sempre refém de pedagogos cobrando resultados inalcançáveis, alunos que não querem nada com aquele conteúdo, sem educação e violentos, e sendo sugado do que não tem de vida e saber. E nada disso vai mudar. Ninguém está tentando mudar nada disso. Não há nada sério sendo feito, sendo pensado.
Despir as emoções, nessa querela, é desprezar a história. Cansados estamos todos de ver os resultados materiais das teorias pedagógicas, mas como se pode intuir: as opiniões manifestadas não foram construídas neste debate. São fruto de alguma maturação de ideias que não reputo absolutas, mas não declino a opinião – assim como nenhum de nós renuncia aos fatos da experiência de vida ou observações pessoais. Há diferentes pontos de vista sobre cada coisa, cada processo, mas temos que nos manter distanciados do relativismo absoluto, pois realmente há coisas basilares das quais não abriremos mão. Sabe, ter princípios? É ter educação, daquela boa – que só pai e mãe dão.
Claro que este amálgama de ideias está mal amarrado, mas é só um post – aqui não cabem mesmo as teses nem os atributos delas. Há muito que dizer... Mas os resultados, novamente, estão à vista: o Brasil vai de mal a pior e não há nenhuma luz ao fim desse túnel. Nenhuma luz.
[1] Cascão, R. In Beraldo, L. “Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor.” FaceBook, publicado a 2 de dezembro de 2010.
[1] A maior parte das colocações é de Athayde, in Beraldo, ibidem.

No blog da Keimelion: Revisando seus textos - Revisão de textos em contexto - Emprego do verbo haver - Locuções com e sem crase

4 de dezembro de 2010

Os fatos desmentem Lula

pathayde
Públio Athayde
Comentado em: Os fatos desmentem Lula
4 de Dezembro de 2010 | 11h37
Infeliz(mente) os fatos nem mentem nem desmentem, eles têm a mania de ser completamente passivos e aceitarem quaisquer interpretações suas sem se alterarem. Pode-se dizer de qualquer fato, a qualquer tempo, o que bem se entender - o ouvinte... é que vai entender segundo sua vontade de entendedor ou fazer ouvidos moucos, como o antigo merca(dor). Os fatos podem ser mesmo bem maltratados, torcidos (assim como os verbos, os substantivos...) não reclamam. A gente sabe que os fatos, além de irretocáveis, são irretratáveis: essa mania de pedir desculpa que temos também não muda os fatos, nem os (arte)fatos se mudam com as escusas. Fatos e coisas ([arte]fatos] também têm outras propriedades semelhantes: as duas categorias podem ser compradas e vendidas, encomendadas até pela internet, daquém ou dalém mar - a única diferença é que, do outro lado do atlântico o fato vira facto, mas permanece fático mesmo com o passaporte carimbado. Felizmente, quando se quer desmentir, nem de fato a gente precisa - basta olhar na cara do mentiroso. Pois não há fato, torcido ou invertido, que resista à lógica cristalina de um olhar bem intencionado. Lula mente, independentemente dos fatos ou atrelado a eles.

9 de novembro de 2010

The e-book is on the tablet

Livros em português para kindle

Já há diversos livros em português na Kindle Store da Amazon. Veja aqui alguns dos meus que estão à venda. Estão disponíveis para download para o tablet deles e em outras versões também, inclusive para PC - com um programinha de leitura que eles disponibilizam gratuitamente. Já pode valer a pena verificar o que há de interessante para você

Eu mesmo ainda não comprei meu tablet, mas não vejo a hora de o fazer, pois há muito abandonei quase por completo o uso de livros de papel - comprá-los então, só mesmo em último caso. Segundo o mesmo raciocínio, assim que pude providenciei a edição de meus livros para leitura nos modernos gadgats, até porque a primeira edição de quase todos eles foi em formato de e-book. Eu sempre aderi à ideia de que the e-book is on the tablet.
SKSW98RFP6M5

24 de outubro de 2010

Vade retro satana


Crux sancta sit mihi lux (que a cruz sagrada seja minha luz)
Non draco sit mihi dux (não deixe o dragão ser meu condutor)
Vade retro satana (passa pra trás, satanás)
Numquam suade mihi vana (Não me tente coisa vã)
Sunt mala quae libas (é o mal que me ofereces)
Ipse venena bibas (bebe então teu próprio veneno.)

Precisa explicar quem é o dragão?
Vana - coisa vã - no quarto verso, é nome do meio de quem?
BlogBlogs.Com.Br

21 de outubro de 2010

Sete cidades

Segundo levantamento feito pela empresa internacional de auditoria PricewaterhouseCoopers, a cidade de São Paulo deverá figurar como a décima terceira do mundo em produção de riquezas.
Outras seis cidades brasileiras deverão figurar na lista das cem cidades mais ricas do mundo, segundo o levantamento; Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Recife e Salvador.

São Paulo, a cidade, tem uma economia equivalente à do Chile ou Portugal. Rio de Janeiro, a cidade, produz tanto quanto Finlândia ou Israel. Belo Horizonte equivale à Guatemala ou Angola. Essas três cidades reunidas, apenas três cidades, produzem tanto quanto um país inteiro como a Argentina. Os três Estados dessas três cidades, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, produzem juntos o equivalente a Coréia do Sul ou Canadá. Mais de um trilhão de dólares !

Algumas pessoas criticaram meu artigo anterior, "Vote na Elite", talvez por não entenderem o real significado da palavra elite. O quadro apresentado acima não deixa dúvidas. O Brasil é um país da elite mundial, nossas cidades mais ricas também.

Devemos tirar das nossas cabeças a idéia de que a riqueza, a prosperidade, a elite são coisas ruins. Porque temos que olhar sempre para a pobreza ? O que faz de um rico uma pessoa ruim, assim automáticamente ? Que mal há na riqueza ?

No passado, os senhores de engenho colocaram essa besteira nas nossas cabeças para nos manter escravos. Depois os "coronéis" usaram a mesma tática para nos manter no cabresto. Hoje, a esquerda pobre, que só sabe meter a mão nas burras do erário público, tenta dominar nossas instituições usando essa mesma idéia e tentando nos segregar.

Basta olhar para Venezuela, Cuba, Nicarágua, Bolívia, etc. e ver que esses países foram transformados em “substrato de pó de bosta” por seus tiranetes de esquerda. Eram pobres e agora são miseráveis, após a aplicação das teorias empobrecedoras da esquerda.

O socialismo é a arte de transformar pobreza mal distribuída em miséria rigorosamente bem dividida.

Não quero mais ficar calado enquanto transformam nosso país numa republiqueta de escândalos patrocinados por pobres que nunca comeram mel e agora estão se lambuzando. Essa gente sem eira nem beira de PT e seus partidecos aliados.

Não sou ingênuo. Sem o nosso controle, sem a nossa cobrança nenhum governo, de esquerda ou direita, pode dar certo. Ao contrario da esquerda, que se acha indicada por Deus para guiar os destinos da nossa nação, não creio que um governo de direita ou centro seja melhor somente porque é de direita ou centro.

Creio que precisamos nas nossas instituições de pessoas que tenham um mínimo de coerência. Cansei de pessoas que usam o fato de serem pobres e de origem humilde mas que na verdade são aves de rapina profissionais. Cansei de pessoas que são parte efetiva da elite do Brasil mas fazem política criticando essa mesma elite.

Elite significa: o que há de melhor ! Eu sou da elite e coerentemente quero a elite no governo. Quero um país de elite. Definitivamente a pobreza não é meu objetivo.

Chega dessa esquerda ignorante e suas idéias empobrecedoras ! Chega de pobres no governo !

Nas próximas eleições vote nos ricos, vote na elite. E não pense que sem o seu, o meu, o nosso controle, as coisas vão funcionar sozinhas. Assuma seu papel de controlador da coisa pública. Manifeste-se e cobre !

JOSÉ LUIZ BONES DE SOUZA
Cidadão exercendo seu direito constitucional de manifestar-se.
Março 2008

Post político

Tenho me afastado de pessoas e pessoas têm se afastado de mim durante essa campanha eleitoral; isso desgasta, mas tem seu lado bom: sinto-me em paz comigo. Não discuto nem vou discutir com quem parte de premissas de transigir com corrupção, vida, honestidade, caráter, verdade. Valores básicos.
Não é uma questão simplista de adesão a este ou aquele projeto político, é uma questão bem anterior de postura, de ética e de respeito a valores dos quais não abro mão e com as quais o PT manobrou para usurpar o Estado. É que projetos não há na mesa, nenhum dos candidatos tem nada de tão propositivo que os distinga para além de suas cores básicas, mesmo que as tais  cores sejam meramente artifício marqueteiro para os embalar e vender: não há no pacote a descrição do conteúdo – não apresentaram programas formais – e mesmo se houvesse, nenhuma garantia haveria de seu cumprimento.
Tenho entendido a dicotomia do eleitorado principalmente pelo meu ponto de vista (e existe outro para cada um de nós?): não há propostas de nenhum dos dois lados, só bordões - saúde, educação, segurança, salário, etc. - mas há por uma parte do público votante a aceitação tácita de que valerá a pena engolir um "pouco de corrupção" se sobrar alguma bolsa para mim; pode ser uma bolsa-família pra uma cachacinha a mais ou uma bolsa de recém-doutor pra um desempregado que lê mais editais que livros.
Há três tipos de interesses pelos quais as pessoas permanecem nos PT: os interesses escuso, os inconfessáreis, os corporativos. Podemos também identificar três tipos de interesses pelos quais as pessoas votam no PT: os interesses próprios, os nepotistas, os enganatórios.
Vou querer ver essa corriola correndo daqui prali quando o "pouco de corrupção" vier adjunto de "um pouco de autoritarismo" - pois essas duas "poucas incúrias" são mesmo como "um pouco de gravidez".
Por outro lado, já há indícios de fraude na estatística, pode haver e há no estado da coisa e no Estado do coisa. Não se pode crer em tamanho erro ou diferença metodológica que resulte em números tão diferentes quanto os que hoje temos à mesa: Vox Populi e Ibope estão dando ampla margem para Dilma; Sensus repete o prognóstico da semana passada: empate técnico. Ninguém seja tão manso de coração a ponto de imaginar que a quadrilha dominante e seu macho alfa entreguem a carcaça sem rosnar e babar; ademais, mesmo sendo afastados do corpo putrefato do Estado, essa malta ainda deixará um enxame de varejeiras sugando-lhe as exsudações cadavéricas remanescentes.
Fico bem feliz de estar incomodando as pessoas com coisas que digo; se não houvesse verdade nelas, seria tudo inerte. O fato é que a putrefação dos aderentes a esse governo está bem além de meu limiar de tolerância.

20 de outubro de 2010

Lições de História

Lições de História: o caminho da ciência no longo século XIX (Editora FGV/EdiPUCRS). Peças seminais de Voltaire, Daunu, Chateaubriand, Michelet, Ranke, Gervinus, Marx, Carlyle, Macaulay, Acton, Bordeau, Monod, Coulange, Lavisse, Seignobos, Lacombe, Berr e Troeltsch.
Em traduções comentadas e apresentadas por Daniela Kern, Lilia Schwarcz, Teresa Malatian, Julio Bentivoglio, Tereza Kirschner, Sérgio Gonçalvez, Marcos Lopes, Temístocles Cézar, Helenice Rodrigues, Raimundo Barroso, Sérgio da Mata, José Carlos Reis e Jurandir Malerba. Textos inéditos de Leandro Konder e François Dosse.

17 de outubro de 2010

O Chefe

Nos dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diversos casos de corrupção sacudiram o País. O mais grave ficou conhecido como escândalo do mensalão. Dirigentes do PT foram denunciados por montar uma organização criminosa. Lula tratou de abafar investigações e proteger correligionários e aliados.

Presidenta?


Novo regime: dilmocracia em janeiro.
 Por José Bones:
(Nosso repórter em um país distante e civilixado)
Tenho notado, assim como aqueles mais atentos também devem tê-lo feito, que a candidata Dilma Roussef e seus apoiadores, pretendem que ela venha a ser a primeira presidenta do Brasil, tal como atesta toda a propaganda política veiculada pelo PT na mídia.

Presidenta?

Mas, afinal, que palavra é essa?

Bem, vejamos:
No português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...

Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.

Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do gênero, masculino ou feminino. Se diz capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".

Um exemplo (negativo) seria:
"A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta. "
 Atenção: tanto o autor deste texto quanto o dono do blog têm dicionários e os sabem usar muito bem. Antes de fazer algum comentário, tente entender a posição linguística proposta sem vir com considerações óbvias. Recebi meia dúzia de comentários tolos e mal-educados com considerações primárias que estão ultrapassadas aqui e não vou responder a cada uma dessas bobagens. Públio Atahyde

Não deixe de ler, neste Blog: Violência e reaçãoMudando, só por mudar - Excomunhão - Colocar ovos - Eu "Ouro Preto" - Retórica da ação nas poéticas visuais
Leia ainda no blog da Keimelion: Normas de formatação acadêmica - Portfólio de trabalhos acadêmicos - Orçamento para revisão de texto

16 de outubro de 2010

Bíblia, casamento e Estado



Um dos primeiros argumentos que vêm à tona quando se discute essa ou aquela forma de casamento é o que diz a bíblia.
A bíblia não diz nada. Bíblia é livro e livros não dizem, eles trazem as coisas escritas (não sei se você já viu algum, mas é assim que eles são). E coisas escritas cada um lê como quer. Quando o livro é grosso, confuso, compilado politicamente, nele se encontra justificativa para qualquer coisa. Por coisas escritas na bíblia muita gente foi pra fogueira, muitos foram seviciados, muita grana foi roubada dos pobres.
Então não me diga que há isso ou que há aquilo na bíblia, pois aquela mixórdia de textos se presta e sempre se prestou a todo tipo de interesse.
Sim, sim, minha gente - religiões definem e interferem nas relações afetivas das pessoas, controlando-as. Então vamos dar azo à liberdade religiosa e permitir os casamentos poligâmicos aos mórmons e islamitas brasileiros, vamos reconhecer o direito (cristão) de "prima note" aos coronéis nordestinos (não sei se Sarney vai dar conta, mas gostaria) e vamos entregar crianças a orgias de algumas ínfimas seitas indianas que não sei se há por aqui... Pois se religião serve para coibir essa ou aquela prática, também há de servir para liberar alguma.
 Ora, argumento religioso para assunto de Estado é coisa de outrora - superada aqui.
Quem quiser se juntar, dessa ou daquela forma, sendo adultos e mutuamente consentido, não é da competência de outrem. Chamar isso ou aquilo de casamento, não é uma questão legal - é puramente semântica e os pares (ou trincas) que vivem maritalmente se dizem casados independentemente de contrato explicito ou reconhecimento religioso - portanto são casados de fato, tacitamente. Lei usa palavras para designar situações; ao chamar isso de casamento, e não aquilo, só expressa a limitação que lhe é inerente quanto à universalidade das situações de fato que deveria prever em abstrato.
Veja só como as coisas, não só as que estão escritas, mas mesmo sendo vistas, podem ser diferentes: a cena à direita aqui é a de um homem servindo vinho a seu companheiro (namorado, marido, parceiro) ou seria Jesus resolvendo o problema do noivo de Canã? - Não é nenhuma das duas coisas, é só uma imagem e representação que pode servir a qualquer propósito.  A cena não é um fato, a história o intérprete conta segundo seu interesse ou segundo a leitura que a bandeira do arco-íris mais acima tiver lhe inspirado, mesmo que até aqui nenhuma referência tenha sido feita a ela.
Se uma imagem pode dar margem a visões tão distintas, imaginem os textos - seja lei do Estado ou bíblia de quem quer que ela seja.

Leia aqui mesmo: Azellite, a pop estar! - Orientação sexual, opção ou condição? - O banquete de dona Onça

26 de setembro de 2010

Coerção eleitoral


Alguns aspectos na coerção eleitoral, um antigo que perdura, outro mais recente, outro que mistura métodos antigos e novos, remasterizando-os:
  • A cooptação compulsória do voto dos barnabés; ninguém que bata carimbo em qualquer repartição pública, de qualquer escalão administrativo, está se sentindo livre para optar, ou melhor, todos são livres para votar no grupo que controla a repartição.
  • A expressão pública de intenção de voto; mesmo que nas urnas o indivíduo tenha seu momento de privacidade, no seu carro, em sua casa, seu muro, seu chaveirinho exibe as cores e números do candidato que o controla. Esse tipo de coisa pode vir a ser mais importante mesmo que o voto individual e uno. Se pessoa circula de carro o dia todo, se 90% dos carros no estacionamento do órgão estão com tal adesivo, fica a impressão de que é a vontade de cada um expressa – podendo ser, na verdade, a expressão do controle hierárquico sobre o voto. Não preciso alongar o raciocínio: o cabresto agora vai em quem está ao volante.
  • Mais uma, existe a possibilidade de que estejam, muitas pessoas humildes, interpretando as pesquisas eleitorais como inquirição do Estado – possibilitando-lhe, inclusive controle das benesses. Para complicar esse fator, há ainda o censo – gente batendo de porta em porta à mando do governo e perguntando quanto tem em seu bolso.

Pontos em comum

Há três coisas preconizadas pelos políticos unanimemente, mas segundo suas condições:
  • DEMOCRACIA - quem mantenha a ordem natural das coisas e meu grupo no controle do Estado;
  • REFORMA ELEITORAL - que me possibilite contínuas reeleições e depois a meus filhos, pelos séculos dos séculos;
  • REFORMA FISCAL - que aproxime mais as brasas de minha... sardinha; facilitando a captação do milho e garantindo o pedaço maior da broa para os meus.

22 de agosto de 2010

Texto da memória


Este texto não se faz por partes. Ele é concebido, projetado e registrado em conjunto, todas as partes ao mesmo tempo. Trata-se uma recuperação de memória e seu registro simultâneo, trata-se de dar estrutura sintática a cada lembrança e explorar semanticamente cada possibilidade representativa das palavras para fixar uma memória. Trata o texto de ser de uma macroestrutura representativa estática tentando fixar uma estrutura hipercomplexa e dinâmica. E o texto não é todo a um só tempo, mesmo já o sendo. O texto é a parte dele em que estamos, mesmo sendo o que já dele conhecemos e o que viremos a conhecer. Assim como a vida, ou as memórias – que são igualmente apenas o presente e a afloração do agora, também sendo o perfeito e o mais-que-perfeito tanto quanto os devires. E note aqui que saí do campo das metáforas, não substituindo texto por vida – apenas traçando entre ambos o paralelo material.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
[…] (Gregório de Matos)
As pesquisas envolvendo busca de memória, principalmente as baseadas na oralidade, têm a fala como veículo das lembranças e os artifícios metodológicos (posto que toda metodologia é artificial em busca de uma complexidade fática inalcançável) resultam em procedimentos de elicitação da informação de diversos sujeitos passivos na pesquisa por um (ou mais) pesquisadores ativos.

17 de agosto de 2010

Memória e imagem

Foto: MUSEU DA IMAGEM E MEMÓRIA DE CONGONHAS
 
Memórias nos acorrem livremente, sem que para isso seja necessário maior esforço ou concentração.
Há imagens que acodem à mente facilmente e em sequência ordenada à medida que são chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamente quando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. (Agostinho de Hipona, 1999)
Quando faz o exercício intelectual de abstrair a existência do conhecimento teórico e filosófico, sobra para Henri (Bergson, 1999) a presença da imagem. Imagem como elemento da percepção sensorial do exterior, da existência alterna, exterioridade e alteridade ao Ego – ultrapassando aqui aquele autor. Dentre os registros sensoriais, há claro privilégio para o imagético. E o conhecimento pela imagem, que em Bergson era possível para o mundo exterior, inclusive para o exterior do próprio sujeito que, mesmo se conhecendo interiormente, sobre esse ângulo não o fazia por imagem, alcança agora os limites do interior do corpo alheio ou próprio, pois os registros imagéticos rudimentares da radiografia estão há muito superados pela tomografia computadorizada, capaz de registros materiais do interior dos indivíduos como não o eram à época do autor. E os registros sensoriais que permitiam aos indivíduos a existência em conflito com o mundo exterior adverso, permitem-lhe agora combater os males internos de natureza física.
Tudo se passa como se, nesse conjunto de imagens que chamo universo, nada se pudesse produzir de realmente novo a não ser por intermédio de certas imagens particlares, cujo modelo me é fornecido por meu corpo. (Bergson, 1999, p. 12)
E pelas semelhanças e contrastes entre as imagens se constrói o conhecimento. E as redes neurais, preconizadas pela neuroanatomia do XIX, agora são mapeadas à exaustão pelos escâneres magnéticos, tomógrafos ou microscópios eletrônicos, cada um sob um prisma, reproduzindo em imagens a estrutura geradora da emoção e da lembrança, registrando-lhe até mesmo a atividade, sem contudo decifrar-lhe a completa motivação ou natureza transcendente ao registro imagético. E a representação das imagens em nosso cérebro é de tal natureza significativa que pode ser presumida pela grande parcela daquele órgão reservada a seu processamento, assim como pela dimensão do nervo ótico, condutor dos dados visuais.
O cérebro é parte do mundo material, que nele é representado principalmente por imagens. O cérebro não condiciona as imagens, mas as interpreta. O cérebro interpreta as relações entre as imagens do corpo e as exteriores como movimento. Compreendendo o corpo como matéria ou imagem, Bergson infere que se o corpo é capaz de agir sobre os outros corpos, sofre deles igualmente influência, em qualquer das duas naturezas.
Essa influência é recíproca e sua manifestação de maior interesse aqui é a memória.
Se, por acaso, alguma coisa, como qualquer corpo visível, desaparece da vista, não da memória, conserva-se interiormente a sua imagem e, procura-se, até que seja restituída à vista. Logo que for encontrada, é reconhecida pela imagem que está dentro de nós. Não dizemos que encontramos o que estava perdido, se não o reconhece-mos, nem o podemos reconhecer, se não nos lembrarmos: mas aquilo que, de fato, estava perdido para os olhos, conserva-se na memória. (Agostinho de Hipona, 1999).

13 de agosto de 2010

Minha gênese

Casa em que fui criado, em Ouro Preto
 
Sou quinto filho, caçula extemporâneo. Meus pais , primos entre si, advêm de antigas famílias portuguesas radicadas no Brasil ainda pelo tempo da Colônia, na maior parte das raízes. No século e meio que me antecedeu, todos os troncos familiares indicam meus ancestrais e os colaterais situados posições socioeconômicas da média para cima. Parece que meus pais representariam um vale no gráfico que expressasse as situações sociais de meus ancestrais.
Três varões e deles me separa uma irmã, dez anos mais velha que eu, antecederam-me na prole de meus pais. Pela diferença de idade, só muito depois da maturidade deixei de ser – de um modo ou de outro – menos ligado a eles que eles entre si.
Meu pai  tinha curso médio, exerceu os ofícios de desenhista e montador mecânico, um operário de qualificação intermediária nas indústrias metalúrgicas da região. Detestava a condição de empregado. Sempre que entrevia a possibilidade, aventurava-se em algum negócio próprio, malversando capitais de heranças, indenizações trabalhistas e raras economias nas mais diferentes empreitadas falimentares.
Minha mãe  tinha formação de magistério. Lecionava vez ou outra pelas escolas das redondezas quando a bolsa requeria – o que não era raro. Mas não tinha nenhuma vocação para o ofício de mestra. Formou-se em Turismo já madura, quando eu já havia ingressado na universidade. Mas o bacharelado não lhe serviu a outra coisa além de ao exercício – novamente – do magistério, agora no ensino técnico. Ela e eu fomos colegas no último emprego que ela teve, um dos primeiros meus: uma escola estadual em Mariana.
Meus avôs eram médico e farmacêutico um, juiz de direito outro – assim como o pai de ambos. Estes três foram internos no Seminário de nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana, a seus tempos, mesmo lugar em que eu estudaria com muitas décadas de intervalo. Minhas avós provinham de famílias muito abastadas, ligadas às grandes propriedades rurais, mineração aurífera e todo tipo de renda da propriedade. Nenhuma delas teve educação formal superior, mas aquelas prendas que cabiam às moças de posses a seu tempo não lhes foram negadas.
Ainda pela minha infância, meus irmãos foram saindo de casa. Saiam e depois voltavam, segundo as marés da vida lhes fossem favoráveis aqui ou alhures. Depois foram se casando, mas as idas e vindas continuaram bissextas e o lar paterno teimava em ser-lhes o porto seguro.
Este lar, de minha infância e primeira parte de minha vida adulta, foi também para mim o estaleiro de minha formação e a doca onde me abriguei a cada mau sucesso. A casa ainda está lá, quando escrevo estas linhas. Mas já não há pais nem filhos nela: está vazia e à venda. Do desmonte daquele lar os objetos da infância e dos ancestrais ali acumulados tomaram outros rumos, em anemocoria de recordações latentes em coisas cuja ordem ou desordem, proximidade e guarda residia um discurso que está agora perdido – exceto na memória. E para que esta memória se reconstrua surge este texto.

23 de julho de 2010

Tratando de varal de tripas...

Vou dissertar sobre o Varal de Tripas. Já viram?
Para se fazerem os embutidos, à l'ancienne, necessitamos tripas limpas e secas; então após abatida a rês e seus intestinos devidamente esvaziados do quimo, quilo e demais dejetos alimentícios-fecais, lava-se bem o tubo intestinal e se o coloca a secar. Para que sequem sem aderência, preservando a luz (n.b.: luz aqui está empregado no sentido anatômico do termo).
O resultado é um patético varal que parece ser uma linha cheia de camisinhas desenroladas e sopradas.
Pronto, descrito materialmente o varal de tripas, passemos às profundas metáforas de vida que o mote enseja.
Primeiramente, balançam ao vento aqueles cilindros de vento, falos leves ao sabor do ar, secando e enrijecendo erotizados pela luz do Sol. Se venta menos apontam ao solo, se o vento é contínuo, permanecem na horizontal, mas com vento intermitente as tripas saltitam alcançando inclusive o prumo do máximo tesão.
Aqueles túbulos, originariamente destinadas à digestão, tem por fim revestirem novamente o alimento, ingressando - por sua vez - em outro intestino (como a cobra do destino se comendo pela ponta do rabo), inicio e fim, princípio e destino amalgamados.

20 de julho de 2010

Anhanhonhacanhuva

Recorro a uma das mais curiosas expressões do tupi, que devemos aos bravos goitacás precedentes aos bandeirantes, para dar uma pálida ideia do que penso de nosso sistema educacional.
O buraco onde Dilma vai se enfiar.
Claro, poucos sabem: Anhanhonhacanhuva significa água parada que some no buraco da terra, é o antigo nome indígena da localidade, em Minas Gerais, atualmente conhecida pelos nomes Fidalgo e Quinta do Sumidouro (distritos de Pedro Leopoldo, MG), onde situa-se a Lagoa do Sumidouro (a dita Anhanhonhacanhuva), local sagrado dos citados índios e referencial geográfico central e principal do Parque Estadual do Sumidouro. A ocorrência de sumidouros não é rara, principalmente em regiões calcárias.
Anhannhonhacanhuva, palavra quase impronunciável – onde nasalar ou não? É simplesmente um sumidouro. Sobrou em nossa língua como toponímico, embora restem lembranças de seu significado comum: sumidouro, a espiral que suga as águas e desaparece com elas pelo interior ignoto dos oceanos subterrâneos de água doce.
Pois bem, uns dizem que o sistema educacional do Brasil é um círculo vicioso: professores mal pagos, profissionais insatisfeitos e desqualificados extraídos do restolho do mercado de trabalho, condições de trabalho abaixo da crítica, carga horária exígua, superlotação das salas, legislação castradora, hierarquia administrativa vertical, resultados desastrosos – e os mais infelizes produtos dessa tragédia se tornam, para fechar a ciranda, professores de novo! Podem-se acrescentar ou retirar elementos dessa roda infernal, mas o resultado é sempre o analfabetismo funcional com que a juventude surge de todos os graus de ensino, cada vez mais elevados em tese.
Mas não bastava, pioraram tudo. Não era suficiente a trama circular e nefasta que já degringola a educação brasileira há quase quatro décadas, fartamente nutrida por correntes de pensamento pedagógico hauridas nas mais pitorescas fontes, sempre em detrimento da experiência dos professores pelo experimento dos pedagogos.
Agora que todo o conhecimento do mundo está disponível universalmente, justo quando o ideal iluminista do ensino cíclico e universal (egkuklopaideía – enciclopédia) se torna verossímil pelo advento da internet, mergulham de vez o sistema educacional em um buraco sem fundo, trocam a ciranda viciada pelo sumidouro com a introdução de um abantesma a que chamam educação a distância.
Educação a distância há de ser o golpe final no sistema que nos fará eternamente fornecedores de mão de obra desqualificada, atacadistas de açúcar (desde o século XVII), de minérios (desde o XVIII), de grãos (XIX em diante) até chegarmos ao petróleo (a promessa do XXI no pré-sal) – sempre commodities mercantilizadas sem agregação de valor, apenas o extrativismo ou cultura primária, prescindindo de conhecimento ou trabalho agregados.
Educação a distância é o que há de mais distante da educação. Não há nenhuma dúvida de que os seus fautores fazem o pior uso possível da internet, tornando-a o inverso do que ela representa de positivo: ao invés de uma fonte imensurável de todo conhecimento humano a ser gerida no processo educativo pelos professores, torna-se o substituto do próprio professor e a alternativa para a gestão do processo de apropriação do conhecimento passa a ser sua redução ao apostilismo eletrônico. O sistema educacional mergulha no sumidouro em que o magistério será a primeira vítima: professores se tornarão dispensáveis, pelo menos nas quantidades até aqui demandadas. Se já impunham quatro, cinco, seis ou mais dezenas de alunos em cada turma, chagando alguns professores a somar cinco ou seis centenas de alunos dentre suas diversas turmas, agora esses números se exponenciam. Milhares podem ver as aulas gravadas (telecurso mudou de nome?) e difundidas pelos sites das instituições de ensino (para as privadas isso virou o negócio da China!). Na propaganda governamental, os dados retumbam: dobram o número de alunos dos cursos superiores (superiores em relação a quê?).
Os casos de que tomo conhecimento se tornam dia a dia mais escabrosos. Vou citar apenas três, suficientes para formar opinião de quem quer ter alguma no caso. Primeiro, na mesma instituição de minha primeira graduação há um curso de bacharelado a distância em administração de empresas. Mais de cinco mil – não errei não: cinco mil – cinco mil infelizes recebem apostilas, vídeo-aulas e diplomas (não consigo deixar de me lembrar do Instituto Universal Brasileiro – meu pai aprendeu desenho mecânico com eles). Quero saber quem é que vai dar emprego para essa moçada depois de formados. Hoje já temos o mercado inflacionado de administradores advindos de faculdades abertas em qualquer garagem que estivesse desocupada. Agora termos desocupados desinformados longe das faculdades e das garagens. O débito social para com essa massa de juventude ludibriada por tal política pública falsífica é incomensurável. A frustração do desemprego decorrente, ou subemprego para os menos infelizes, terá repercussão nos índices de criminalidade, de suicido, alcoolismo e em todos os mais nefastos indicadores sociais. Pessimismo? Predicação friamente calculista eu diria.
Segundo caso: tenho notícia da existência de um curso de graduação em artes cênicas a distância... Podem imaginar algo mais grotesco que isso? Imaginem as aulas de mímica, de improvisação (para as quais, então, a faculdade pode ser substituída pelo Youtube). A profundidade dramática que tais alunos alcançarão ultrapassará todas as didascálias, estejamos certos. Mas aqui ainda nos resta o consolo de que não se morre de rir, por melhor que seja a comédia – nem se morre de raiva, por pior que seja o drama.
E a pior noticias de todas: há treinamento a distância também na área de medicina. Tenho notícia segura de treinamento a distância em cirurgia oncológica pediátrica. Creia-me. Não preciso divagar sobre os benefícios e qualidades de tal programa – todos adorariam ter um filho canceroso operado por um cirurgião formado pela internet. Morbidez no sentido mais literal impossível.
Estão conseguindo romper o círculo vicioso do sistema educacional no Brasil. O giro sem fim dos vícios do sistema está findando. Abriram um sumidouro para engolir a didática, o humanismo, a humanidade da relação professor-aluno. Estamos mergulhando numa incógnita do tamanho do Aquífero Guarani. E para nutrir o aquífero, nada tão eficiente como um sumidouro, ou anhanhonhacanhuva.

Leia por este blog: Fé e confiança Entendeu? - Foto ilustrativa - Panóptico da contemporaneidade