29 de setembro de 2008

Defendendo o texto


Todo mundo tem uma tese, ou mais de uma. Em geral as pessoas defendem suas teses. Alguns as defendem nos botequins, outros nos campos de batalha. Tem gente que invade países remotos para defender a tese do desarmamento, depois tem que se debater na TV para explicar que não encontrou as armas. Existe um tipo de tese defendida na academia, perante banca. Este tipo precisa de texto, reside nele. Acontece que esse texto precisa ser bom. Então surge um problema: a pessoa passou anos se ocupando de tanta ciência que cai nas armadilhas da língua. Aí o autor acaba tendo que defender o texto e não a tese. Claro, todos leram muito. Leram em diversas línguas. Escreveram bastante também. Mas quem leu não estava assim tão preocupado com o texto. A tese era mais importante. Tese a ser apresentada em texto para a defesa. Tese e texto se confundem. Não há como defender um se tem que defender o outro. O grande aliado do texto da tese é o revisor: personagem obscuro com a função de defender o texto. Sobra só a tese para o autor defender. A tese que vai para defesa assinada pelo revisor tem aval de autoridade sobre texto. Eu defendo o texto: sou revisor.
Já defendi minhas teses, aqui e ali. Atualmente só defendo o texto dos outros. Escrevi um Manual para ajudar as pessoas a escrever. O Manual pode ser obtido no link abaixo. Já me perguntaram pelo motivo para eu fazer isso. É simples, na verdade: se ajudo as pessoas a produzirem texto, estou fomentando a criação do meu objeto de trabalho, o texto alheio.

Não deixe de ler no blog da Keimelion - revisores de textos: Como funciona o serviço? - Recomendações dos orientadores - Defendendo o texto

Leilões & Presentes.


Cada vez maior a freqüência dos leilões de arte no Brasil. Reflexo seguro do aquecimento deste segmento de mercado no país e no mundo, bem como dos esforços dos marchands no sentido de popularizar essa prática.
Ao contrário do que se possa pensar, nesses leilões encontram-se obras acessíveis a todos os bolsos. Não apenas aquelas maravilhas de muitos milhões que os jornais noticiam serem vendidas no exterior.
Também os leilões não são um ambiente que só possa ser freqüentando por conhecedores de arte ou por restritos convidados. A entrada aos leilões é sempre franca e são um excelente lugar para se aprender sobre arte. Todos são bem vindos, para aprender ou para comprar; melhor ainda: para aprender a comprar.
Quanto custa? Nada, se não se comprar nada. Desde algumas dezenas de reais se pode comprar alguma gravura, tapetes pequenos ou mesmo quadros a óleo de iniciantes ou artistas menos conhecidos.
O lucro? É certo para quem prestar atenção ao que acontece. Pode-se eventualmente fazer um bom negócio, mas sempre se aprende algo.
Em minha opinião as pessoas poderiam criar hábito de ir a leilões de arte pensando não em mega investimentos ou especulação, coisas que não são para o público em geral. Um bom motivo para a compra de arte pode sempre ser a vontade ou necessidade social de fazer um presente.
Quanto se presenteia com um objeto de arte procura-se algo adequado a ocasião e às personalidades de quem vai dar e receber, bem como às possibilidades financeiras do primeiro. Ao mesmo tempo, está-se oferecendo algo que realmente possa constituir uma lembrança da relação que se tem com o presenteado. Um quadro, escultura ou tapete podem ser algo bem mais pessoal que um ferro de passar, uma frigideira ou um eletrodoméstico e isso em qualquer faixa de preço.
Apenas será necessário conhecer um pouco mais a pessoa a que se vai dar o objeto quando se quiser ser mais audacioso na compra e oferecer, por exemplo, um objeto grande, agressivo ou de gosto muito pessoal.
Os leilões que acontecem nas principais capitais são excelente lugar para se comprar arte para dar presente ou para si mesmo, vá e se divirta comprando ou com as compras dos outros.
(O quadro acima é óleo de Yara Tupinambá - vendido em pregão há alguns anos.)



Articulando
Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

Pentassexual

Resolvi ser pentassexual. Assim por opção. Para evitar o tédio e a mesmice. Dizem que ninguém é hétero ou homossexual por opção, são condicionantes sociais ou biológicas, ou ambas, que não puderam ainda ser estabelecidas com exatidão, mas que determinam o comportamento afetivo e sexual dos mamíferos. Sim, dos mamíferos, pois essas variantes da sexualidade não são privilégio humano não – isso é facilmente constatável por qualquer pessoa afeita ao trato com animais. Até onde tenho lido, nunca vi referências a origens de outras manifestações de sexualidade além da hétero e homo orientadas. Então fica sendo por minha opção mesmo que me torno pentassexual, salvo melhores considerações.

Tomei essa decisão há algum tempo, mas ainda não a implementei. Estou escolhendo as quatro formas de sexualidade que pretendo praticar e que ainda não estão incorporadas a minha vida. Para não haver dúvida, pentassexualidade é a expressão físico-afetiva por parceiros de cinco naturezas distintas. Sendo didático: heterossexualidade é a manifestação orientada por parceiros do sexo oposto pelo vértice, homossexualidade é a manifestação que busca parceiros do sexo adjacente, bissexualidade é aquela desorientação que se perde em triângulos escalenos. Essas são as mais comuns. Há ainda os que se dizem pansexuais, mas seria muito para mim: definitivamente eu prefiro me abster de qualquer envolvimento sexual com alimárias, e não tenho nenhum tesão por árvores mortas, cupinzeiros com buracos de tatu, pontes e nem mesmo pela Estátua da Liberdade ou Vênus de Milo, por mais antropomórficas que sejam. A dificuldade tem sido então escolher os dois pares ou quatro parceiros ímpares que ainda me faltam para interar cinco, penta. Uma preferência eu já tenho, mas qual seja é assunto exclusivamente meu e de quem estiver comigo.

Os profissionais de saúde de plantão que se abstenham, minha prática não poderá ser enquadrada como “Disfunção sexual não causada por transtorno ou doença orgânica” (CID10-F52), tampouco caberá o rótulo de “Apetite sexual excessivo” (CID10-F52-7) e muito menos na vala comum da “Outra disfunção sexual...” (CID10-F52-8). Também não caberá a pecha de “Transtorno da identidade sexual” (CID10-F64) e nenhuma de suas variantes decimais. Pulem tudo o mais que houver na CID10, F65, F66, Q95-3, Q95-8 (Isso tudo é papo técnico, o leitor humano comum nem precisa procurar saber o que é, basta entender: doença? Estou fora.) O Código Internacional de Doenças não relaciona o “Transtorno da pentassexualidade” porque ele não existe. Inventei a pentassexualida para mim e ela não é nenhum transtorno. Bem se sabe que o tal código tinha números até pouco tempo até para quem gostava de parceiros do mesmo sexo, mas, como a maioria dos profissionais de saúde não queria estar enquadrada, tiraram. Espero que não se dêem ao trabalho que arrumar um número para a pentassexualidade, pelo menos enquanto eu for o único adepto da coisa. Se outros aderirem, passaremos a ser uma minoria – e teremos ampla proteção social, nessa qualidade. Por ora sou só eu, não se ocupem de mim.

Minha opção é mero exercício do livre-arbítrio. Estejam certos de que os parceiros humanos que porventura eu escolher serão adultos e capazes para mútuo consentimento. Os animais não serão submetidos a dor nem a práticas que os coloquem em risco ou firam seus direitos legais. Toda minha atividade pentassexual será praticada no recesso do lar ou onde esteja garantida a privacidade necessária. Só não estou seguro sobre a necessidade de consentimento ou proteção legal quanto a seres de outras naturezas; por exemplo: se eu for transar com uma montanha, será necessário relatório de impacto ambiental? Se eu escolher uma relação estável com um Ipê-Roxo (tenho forte atração por eles) será necessário o acompanhamento do Ibama? E se eu me sentir atraído por Três Marias (o lago!) será necessária interveniência da Marinha ou do Ministério das Minas e Energia? Essas são questões legais importantes para a minha escolha de parceiros; afinal, nada é mais brochante que excesso de burocracia.

Uma última dúvida: será que eu devo patentear a pentassexualidade, antes que a notícia se espalhe e um Bilgaytes da vida a registre, ganhe milhões, e até eu tenha que paga para ser o que eu inventei ser?



Articulando

Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.

Leia agora neste blog: Orientação sexual, opção ou condição? - Produção de ovos de páscoa - O que fazer?
Leia também no blog da Keimelion: Informações sobre revisãoRevisão ortográfica, revisão gramatical - Desencalhe sua tese

24 de setembro de 2008

Plágio de trabalhos acadêmicos se profissionaliza com a internet

Monografias podem ser compradas por preços que
vão de R$ 50 a R$ 750

KATIA BREMBATTI para Gazeta do Povo, 4 de maio de 2007.

“Calouro de um curso da área de Exatas, o estudante Fábio, 19 anos, mal ingressou na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e já utilizou recursos inadequados para conseguir nota em uma disciplina. Ele confessa que, diante da falta de tempo, entregou ao professor um texto copiado da internet. O plágio em trabalhos acadêmicos não é novidade em instituições de ensino superior, públicas ou particulares. Na graduação – quando as exigências quanto a referências e citações são menores que em cursos de pós-graduação – não é difícil encontrar professores que tenham recebido trabalhos como o de Fábio. Embora comum, copiar textos sem dar o devido crédito ao autor, além de antiético, é crime.”

O primeiro parágrafo dessa reportagem foi copiado do jornal interno da Universidade de Brasília (UnB) e serve para mostrar como é fácil se apropriar da produção alheia. Bastou uma procura rápida num sistema de buscas na internet de alguma referência sobre o assunto e mudar o nome da instituição e do estudante, para provocar a sensação de verossimilhança e aproximação. Não existem estimativas conclusivas sobre a prática de plágio, mas os professores consultados pela Gazeta do Povo são unânimes em afirmar que ela é a cada dia mais freqüente.

Especializado

Há os casos de plágio amador, com estudantes tentando se “resolver” sozinhos, copiando ou adaptando textos da internet e de livros. Mas o plágio no meio acadêmico alcançou níveis profissionais. Cartazes nos murais de universidades, páginas na internet e propagandas no site de relacionamentos Orkut oferecem todos os tipos de trabalho para os estudantes, desde resenhas de livros a teses de doutorado. O negócio se especializou de tal forma que algumas “prestadoras de serviço” se apresentam como empresas confiáveis, com registro na Junta Comercial e endereço fixo. E prometem originalidade nos trabalhos.

Os preços variam muito. Monografias prontas, sem direito a alterações, custam a partir de R$ 50. Um exemplo é o site www.soimprimir.com.br. Já o trabalho personalizado e a oferta de segurança exigem desembolso maior. A reportagem fez um orçamento on-line de 50 páginas de material inédito ao custo de R$ 750, parcelados em duas vezes. O “serviço” permite que o contratante escolha o tema, indique livros e peça mudanças de acordo com as recomendações do orientador. Muitos professores prestam serviço para essas empresas ou oferecem o trabalho de forma “autônoma”.

Historiador e cientista político com a experiência de 15 anos como professor universitário, desde 1999 Públio Athayde decidiu se dedicar exclusivamente à revisão de textos acadêmicos e montou uma editora. Depois de ver o número de pedidos de correção e adequação às normas técnicas despencar, ele e outros colegas procederam uma auditoria em 80 monografias selecionadas de quatro cursos (dois de universidades públicas e dois de particulares) de Belo Horizonte (MG). “O índice de fraude encontrado foi na ordem de 70% dos trabalhos, que não resistem à menor verificação sistemática”, conta.

A indignação o levou a criar uma comunidade no site de relacionamentos Orkut, que ganhou o nome de “fraude acadêmica” e tem tópicos de pesquisadores revoltados com o fato de terem se empenhado tanto e dedicado tempo considerável para realizar uma pesquisa enquanto outros conseguem o mesmo resultado sem esforço algum. “Não há como moralizar um aspecto isolado em uma sociedade em que a fraude, o suborno e a corrupção são socialmente aceitáveis. Vender um voto no Senado ou uma tese é a mesma coisa, o preço é que é bem diferente”, pondera Athayde.

Fracasso escolar

Autor do livro Direitos autorais: entre as relações sociais e as relações jurídicas, o doutorando Sérgio Said Staut Júnior conta que abandonou a prática de pedir trabalhos aos alunos. Tinha sempre que conferir, caso a caso, para saber se não eram cópias. Voltou a aplicar provas. A última experiência com pesquisas de estudantes foi decepcionante. De 60 estudantes de um curso de especialização em Direito realizado em Santa Catarina, 22 cometeram algum tipo de ilícito no trabalho final da disciplina. “Essa situação é um atestado da péssima formação escolar”, resume.

Casos recentes levaram à reprovação de alunos

No segundo semestre de 2005, na Unibrasil, em Curitiba, 17 estudantes de Direito foram reprovados e dois foram expulsos por plágio. De acordo com o coordenador-geral do curso, Emerson Gabardo, existe um sistema de verificação muito rigoroso, o que acaba resultando num alto índice de casos confirmados. Há uma pessoa designada exclusivamente para conferir as normas técnicas dos trabalhos e a originalidade dos textos.

Ele evita dizer que a prática é mais grave quando parte de acadêmicos de Direito. “Não precisa de formação jurídica para saber que é errado”, argumenta. Para ele, é um problema crônico, associado à inabilidade dos alunos para a leitura e a escrita.

Na relação entre quem compra e quem vende o serviço não há lastro legal. Portanto, cada parte não tem a quem queixar-se se o produto não foi entregue a contento ou mesmo se o pagamento não foi efetuado. Em uma universidade curitibana, recentemente, um estudante foi à coordenação de curso reclamar que um acadêmico não havia pago os R$ 200 acordados pela monografia solicitada. Ambos foram reprovados. Os casos geralmente são mantidos em sigilo principalmente porque as universidades avaliam que a imagem das instituições pode ser maculada com alunos tidos fracos, que não conseguem fazer os próprios trabalhos.

Punição restrita à área cível

O advogado Mário Elias Soltoski Júnior argumenta que o plágio é um caso de crime qualificado porque tem intuito de lucro, que não necessariamente precisa ser dinheiro. “Pode ser a aprovação no curso”, explica. O que acontece é que mesmo em situações raras, em que a questão é levada à Justiça, a discussão se concentra na área cível e não criminal, com o autor exigindo indenização do fraudador. E quando alguém concorda em ceder a autoria de uma produção intelectual, a chance de algum tipo de punição acontecer despenca. No caso das universidades, um trabalho original comprado, de comum acordo entre as partes, dificilmente é descoberto. E quando é, restam sanções administrativas, que variam conforme a normatização de cada instituição, começando com a exigência de refazer o trabalho e chegando até a expulsão.

“Se um aluno usa a monografia de outro para obter o grau de bacharel, fere o princípio da originalidade. Se ele diz que é dele, mesmo com a autorização de outro, no caso ambos estão professando falsidade ideológica”, defende o professor universitário Luiz Eduardo Simões de Souza. Para o revisor Públio Athayde, é possível enquadrar como fraude em alguns casos, formação de quadrilha em outros, e violação de direitos autorais quase sempre. Ele cita o possível enquadramento no artigo 298 do Código Penal, que fala sobre falsificação de documento particular e como falsidade ideológica, já que quem copia partes da obra de outros sem atribuir o crédito estaria omitindo informação.

Há ainda o artigo 299, que versa sobre “omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”. (KB)

23 de setembro de 2008

DESESPERO

DESESPERO
Em paroxismo de dor, à beira do abismo,
Pranteio inerte o desidério vil, solerte,
Que entre augúrios, quer legítimos quer espúrios,
Dúvida crua crava meu peito como grua.


Em sintonia com a alma o corpo que agonia
Roga por paz a um Deus que há muito nada faz.
Em um espasmo cardíaco, qual um orgasmo,
Meu ser soluça e sobre o nada se debruça.

Miro o vazio, como fuga, e me extasio.
Escuto e vejo as vagas, clamando de ensejo,
Qual rude sina que a esperança assassina.

Mas a esperança já é morta desde que, criança,
Soubera ter toda vilania, sem poder
Optar sofrido ter vivido ou morrido.

Belo Horizonte, 19 de maio de 1995.
Gravado pelo autor em junho de 2008.

E o José Dirceu, onde está?


Todos nos lembramos da impolutíssima figura do José Dirceu, ministro da Casa nos primórdios do governo Lula. Figura de biografia bem conhecida de alguns, andou pelos cárceres da ditadura e pelo exílio, com passagens por Cuba e pela clandestinidade antes de ser alçado pelo PT aos píncaros do Planalto.
Caído em desgraça no episódio dos mensaleiros teria sido devidamente defenestrado pelo chefe que não sabia de nada, a bem da transparência e credibilidade do alto escalão da República. Sabem por onde tem andado esse senhor, desde que perdeu a pasta que tinha, assim como lhe cassaram o mandato que o povo paulista lhe havia conferido na Câmara?
Pois bem, lugar em que não lhe tem faltado espaço, a mídia, continua havendo: “Procurador inclui José Dirceu na lista de 40 acusados do ‘mensalão’”: Diário de Notícias (Lisboa) 13 de abril de 2006; “Ministério Público acusa Dirceu” JC on line, 21 de outubro de 2005; “Ministério Público acusa Dirceu, Delúbio e Valério por improbidade”: O Estado de S.Paulo, 21 de agosto de 2007; “STF processa José Dirceu e faz afirmação de independência”: Reuters, 27 de agosto de 2007; das notícias mais recentes destaco: “(...) o esquema do mensalão [e] envolveu dirigentes petistas e a alta cúpula do governo Lula, como o então ministro José Dirceu (Casa Civil)”: Estadão de Hoje, 12 de setembro de 2008; estes alguns exemplos que poderiam prosseguir ad nauseam. E haja náusea!
Vou destacar ainda alguns dados: Foram acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão ilegal de divisas, corrupção ativa e passiva e peculato. 1) José Dirceu de Oliveira e Silva – brasileiro, casado, advogado, nascido em 16/03/1946, filho de Castorino de Oliveira e Silva e Olga Guedes da Silva, residente na SQS 311, Brasília/DF. O mais curioso é que este senhor precede a lista integrada por 40 acusados; lembro-me bem de quando Chico Anísio foi suspenso por algum tempo de aparições na TV por ter comparado o número de ministros do General Figueiredo com o de asseclas de Ali-Babá; que tempos aqueles!
Claro que esses dados foram todos pinçados como premissa para a tese que pretendo apresentar, mas nenhum deles foi inventado por mim, como é do conhecimento geral, podendo todos ser constatados. A enorme publicidade da vida dos dirigentes hoje, aliada à facilidade da recuperação dos dados, se possibilita a manipulação das informações, possibilita igualmente a confrontação dos dados. Quem tiver maior curiosidade não terá dificuldade em levantar as informações que relacionei ou obter muitas outras do mesmo sentido. Faça isso. “Ali Babá blindado, sub-chefe é enquadrado” / “Mensalão: Dirceu vira réu por formação de quadrilha”: Minuto Político, 28 de agosto de 2007.
Tudo poderia ser intriga da oposição ou abuso da imprensa, mas está lá no STF: INQ/200538000249294, Assunto DIREITO PENAL | Crimes contra a Paz Pública | Quadrilha ou Bando/ Crimes Praticados por Funcionários Públicos Contra a Administração em Geral / Crimes Previstos na Legislação Extravagante | Crimes de “Lavagem” ou Ocultação de Bens, Direitos ou Valores. Denunciado: JOSÉ DIRCEU DE OLIVEIRA E SILVA (e outros). Qualquer um pode verificar pela internet no site do Supremo.
Lembra-se de como o Presidente foi “blindado” – eximido de responsabilidade no caso? Ele não sabia de nada. Ele foi pronto e rápido em afastar os envolvidos nas mensalidades.
Pois bem, e o José Dirceu, onde ele está? Vou dar o endereço: Palácio do Planalto, 3º Andar, Praça dos Três Poderes, CEP 70150-900, Brasília - DF. Quer ligar para lá e conferir ou bater um papo com ele? (0xx61) 3411-1202 e 3411-1573, passe um fax: 3411-2222. Se quiser procurar pelo cargo, chame o Secretário Executivo do Conselho da República – é esse o título atual do ilustre senhor. Sabe o que é esse órgão? Veja na Constituição Federal: Compete ao Conselho da República: I - Pronunciar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio; II - Pronunciar-se sobre as questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas. Quem faz parte do Conselho? Dilma Vana Rousseff, Almino Monteiro Alvares Affonso, Aldo Lins e Silva, José Alencar Gomes da Silva, Edmar Batista Moreira, Arlindo Chinaglia, Alberto Silva, Paulo Brossard de Souza Pinto, Roberto Balestra,Tarso Fernando Herz Genro. Quem preside o Conselho? Luiz Inácio Lula da Silva. Se houver alguma defasagem nos dados, culpa do Sistema de Informação do Governo.
O endereço mencionado no parágrafo anterior é o mesmo do Gabinete Pessoal do Presidente da República, portanto o senhor José Dirceu continua com seu expediente a poucos metros do dignitário maior do Executivo, o presidente Lula. E o senhor José Dirceu, pelo que se pode apurar, divide seu tempo entre responder no STF por formação de quadrilha e secretariar assuntos relevantes para a estabilidade das instituições democráticas junto ao Presidente da República. Para tratar de uma ou outra questão, basta atravessar a Praça dos Três Poderes; bem prático.

22 de setembro de 2008

Deletar, excluir, bloquear

Quase todos nós apreciamos a internet. Surgida há coisa de duas décadas, ou bem menos que isso para a maioria das pessoas, a internet é a síntese de nossos sonhos de informação barata, comunicação imediata. É também a realização que mais se aproxima da realização delírios dos enciclopedistas do Renascimento.
Acostumamo-nos aos e-mails, chats, programas de mensagens de todos os tipos. Reencontramos amigos perdidos nas névoas do passado, fazemos novas relações, transferimos dinheiro, fazemos compras, programamos viagens: tudo pelo teclado e pela telinha, nessa invenção que é uma série de cruzamentos pouco imagináveis há meio século. O telefone casou com a máquina de escrever e nasceu o telex; a televisão casou com o arquivo e nasceu o computador; o telex casou com o computador e nasceu a internet. Essa é a genealogia da ferramenta que nos escravizou no lar, na escola, no trabalho. Ninguém vive no século XXI sem internet.
De todos os benefícios e prazeres da internet, todas as possibilidades, faculdades e alegrias ligadas a esse fantástico artifício tecnológico que herdamos da tecnologia militar da Guerra Fria, nada, absolutamente nada, nos causa maior alegria que as ações que se expressam pelos verbos deletar, excluir e bloquear.
Deletar é um prazer que vem do tempo dos computadores desplugados; o verbo sofreu discriminação xenofóbica pelos que esqueciam sua nobilíssima origem latina, malgrado a passagem demérita pelas línguas bárbaras antes de aportar em terras lusófonas. Mas delatar, mesmo antes de chegarmos à internet, já era ótimo: significa eliminar arquivos sem produzir resíduo. Ainda melhor que, ao deletar, o lixo virtual ficava num depósito por algum tempo, sem incomodar ninguém, prontinho a ser reabilitado em caso de arrependimento.
Mas deletar assumiu sentidos de onipotência quando conjugado em coro com excluir e bloquear, a trindade de nossa onipresença no universo virtual. Foi com o advento da internet que pudemos passar a deletar pessoas, excluir desafetos e bloquear os chatos. Não é um mundo ideal, melhor que a República platônica ou Utopia de Morus? Sentimo-nos senhores de nossas relações, poderosos, quase divinos em nossa presença virtual pelos poderes que nos conferem esses verbos. Ninguém nos incomoda além de nossa paciência, ninguém invade nossos espaços ou nos impõe sua existência se fazemos os sinais mágicos que programam nossas páginas para nos livrarem de alguém deletando a pessoa, excluindo-a ou bloqueando-a. É mais eficiente que qualquer exorcismo.
Na verdade, somos mais poderosos deletando, excluindo e bloqueando que a própria divindade: nas maiores ofensas decaiu Lúcifer aos infernos e perderam Adão e Eva o paraíso. Na morte, o pecador se dana e o justo se salva. Mas para quem é deletado não há lugar, para o excluído resta o limbo e ao bloqueado nem sobra cair em si. Ser deletado é pior que a morte, ser excluído é pior que a condenação eterna e ser bloqueado é mais penoso que a morte-viva de um zumbi.
Imaginem o mundo em que podemos excluir os cobradores, bloquear a sogra e os cunhados, deletar qualquer concorrente, desafeto, ou quem quer que cometa a desfaçatez de ter uma opinião contrária! Assim é a internet. Alguém nos mandou uma mensagem idiota? Bloqueado. Repetiu a mesma piada sem graça? Excluído. Teve uma opinião que não soubemos refutar? Deletado.
O mundo ficou melhor por podermos deletar, excluir e bloquear. Nós nos sentimos mais ativos, pois impedimos a ação que quem nos contraria. Nós nos sentimos mais bem relacionados, pois a existência alheia passou a ser condicionada por nossa vontade. Nós nos sentimos mais inteligentes, pois podemos ignorar totalmente o argumento alheio. Com tudo isso, nós nos tornamos mais focados em nós mesmo, cada um de nós se torna o centro de seu próprio mundo virtual, senhor de nossas possibilidades e eclipsando nossas limitações. O outro deixa de ser, de ter alteridade, passa a ser aquilo que consentimos que ele seja. E nos regozijamos.
Não é essa a grande alegria da internet? Pois bem, em tempos de Lula e reinado das metáforas, quero sugerir a todos, no dia da eleição que se aproxima, que se lembrem dos prazeres que temos em deletar, excluir e bloquear na internet. E que se lembrem de que apertando os botões da urna eletrônica também somos senhores de bloquear corruptos, deletar incompetentes, excluir indesejáveis.
Enfim, se não gostou do que digo, delete-me, bloqueie-me e exclua-me. O prazer será recíproco.


Articulando

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