17 de outubro de 2014

Marketing eleitoral, farsa bufa e paradoxos

Os marketeiros de Aécio e de Dilma parecem ter fugido da escola no pré-primário. Ou então se formaram em algumas dessas escolas de marketing que foram abertas em garagens nas últimas décadas. A noção de retórica que eles incutem nos candidatos faria corar de vergonha qualquer indiozinho de 12 anos numa missão jesuítica do século XVII.
Todavia, há quem alegue que a campanha está repetindo o lacerdismo: nem como farsa bufa: a qualidade dos argumentos àquela época e a estrutura do discurso tinham outro padrão qualitativo!
Eleições conduzidas pelo marketing: farsa.
Sobra alguma virtude nessa
campanha eleitoral?
Ainda assim, alguns marqueteiros vão se dar bem: vão vender seus serviços como tendo sido capazes de eleger A ou B presidente da república. Claro, pois não há (infelizmente) a possibilidade de os dois perderem as eleições. Apostando nas duas vertentes exclusivas, 50% dos marqueteiros se dá bem: e os perdedores ainda vão arrotar pela conquista dos milhões de votos do segundo (e último) lugar...
Quem perde nisso? O Brasil e a democracia. Embora bem verdade que ambos já não têm mesmo quase nada mais a perde: o país e o regime estão na lona!
Não acredito que o povo tenha capacidade para destilar os conteúdos retóricos de um debate como o de ontem. Na verdade, estou seguro de que não tem. Os discursos têm entrelinhas, subliminaridades, referências implícitas, emoção (raiva, medo, insegurança, paixão, cobiça), treinamento, decorebas, e bem mais que a vã filosofia da plebe ignara pode decodificar: no entanto, tudo foi pensado para captar o voto exatamente do zé-povinho.
Democracia é assim: o regime em que quem vota não dá conta de interpretar a mensagem que os candidatos dirigem aos eleitores. E as pessoas continuam cismando que é o melhor regime possível, sem parar para criar nada mais racional.

Paradoxos:

  • Não seria ótimo poder ler o pensamento das outras pessoas? Mas elas poderiam ler os seus!...
  • Não seria ótimo poder transar que quem você desejasse? Mas quem desejasse também poderia transar com você!
  • Não seria ótimo nunca mais sentir nenhum tipo de dor? Mas também não sentira mais nada...
  • NÃO SERIA ÓTIMO CONVENCER TODOS A VOTAREM SEGUNDO SUA OPINIÃO? MAS... MAS... MAS...

9 de outubro de 2014

Pauladas pré-eleitorais

Não tenha dúvidas: tempos bicudos à frente. O governo Aécio não vai ser uma maravilha de reconstrução nacional, não teremos apenas os esforços e sacrifícios para reconstruir a ordem pública, a justiça e o caixa do erário. Não teremos apenas um inimigo externo nos opondo o peito.
Aécio vence essa, só que não vamos nos livrar do petê assim tão fácil. Arrancá-lo do governo é um passo, mas extirpar o câncer entranhado e todos os institutos do Estado e da sociedade vai ser uma luta para décadas.
Talvez o período do primeiro governo de Aécio seja o mais negro da história recente.
Eu acho que seria melhor Aécio
 vencer sem Osmarina.
Quem com porcos se mistura,
farelo come!
Vamos ter uma luta feroz - infelizmente vai correr sangue sim - para nos livrarmos da quadrilha que solapou os vastos impostos recolhidos e os depositou no exterior. Recursos que serão usados contra nós. Os incontáveis bilhões que saíram do pais voltarão em forma de armas para o MST (você achava que eles eram bonitinhos?). O dinheiro vai ser usado para suborno, para treinamento de milícias, para financiamento de greves, para sabotagens.
Em escola, o PT já fez escola. Os estabelecimentos de ensino viraram lugares de "educação política" e os "educadores" são agentes do Estado. Estamos na trilha do totalitarismo mais arguto dos últimos 200 anos. Ou estávamos, a depender do tamanho da frade que o brasileiro está disposto a engolir.
Osmarina agora oferece apoio a Aécio em troca disso e daquilo. E se ele não aceita? O que a esquelética vai fazer? Mudar de ideia, de novo, e ir oferecer seus cadáveres a dona Dilma? Nem ela aceitaria...
E dona Osmarina, com seu infindável patrimônio de defuntos, ficaria órfã de dois presidenciáveis... podendo fazer com os votinhos que teve o que melhor aprouvesse; talvez se eleger vereadora na sua terra. Amém.

Autoajude-se: não vote em candidata que te prometa ajuda!

O estado de direito virou uma meleca desde que o petê entendeu que tem direito ao Estado.
O que voga são equívocos conceituais e extemporâneos, conceitos que não têm mais a mínima serventia analítica: esquerda/direita, conservador/progressista, socialismo/liberalismo.
E as pessoas estão abandonando conceitos completa e eternamente pertinentes para formar juízos: honesto/desonesto, competente/incompetente, probidade/improbidade.
As opiniões no Brasil são separadas por copos de cerveja e baseadas em conhecimentos destilados com garapa fermentada.
Enquanto isso tudo, as pessoas mais jovens acham que os regimes autoritários, torturas e outras barbaridades são coisas dos livros de história. Pois tratem de começar cortar as asas do petê AGORA, se não desejam testemunhar esse tipo de fato novamente.

7 de outubro de 2014

Petardos político-eleitorais

Imagine-se no dever de falar algo de novo, contra ou a favor de qualquer candidato. Algo que captasse ou mudasse algum voto. Você seria capaz? Acha que alguma informação já existente não é de domínio público? A situação já está decidida. O segundo turno poderia ser hoje. Mas, mesmo assim, pode-se alinhar algumas ideias mal amarradas...
Acertar dona Dilma onde mais dói.
Primeiro, trata-se de retomar o Estado.

Aécio Neves não é santo, não vai resolver todos os problemas em janeiro. Aécio vai enfrentar o segundo e terceiro escalões de todos os órgãos do Estado aparelhados pelo petê, vai ter que tratar de invasões no campo e nas cidades, vai ter que lidar com greves, manifestações de tropa paga, vai ter sabotagem de todo tipo.
Talvez o período do primeiro governo de Aécio seja o mais negro da história recente. Os petralhas roubaram e desviaram recursos suficientes para contratar terroristas mercenários no exterior, financiando as fainas lá e cá! Elas já se mostraram aliados de tudo que há de pior no mundo, têm montanhas de dinheiro. Vão usar as duas coisas em sua guerra contra a decência; não vão largar o osso sem muita briga não. A vitória eleitoral contra eles é só uma batalha... a guerra será sangrenta - literalmente, não duvidem.
Mas é preciso começar a passar o Brasil a limpo. Eu compro essa briga ao lado de Aécio, se eu puder ajudar em algo. Compro essa briga ao lado de meus amigos que estiverem dispostos à necessária limpeza no Estado e na sociedade.
Precisamos banir, de uma vez por todas, a tentativa de bolivarização do Brasil. Precisamos fazer isso o quanto antes - e já não vai ser nada fácil, pois demoramos demais a começar.
Vai ser agora, pessoal?

Se não fosse o absurdo da hipótese, poderíamos considerar a condição de os petralhas jogarem limpamente, sem as bolsas-voto, com os coeficientes históricos de uso da máquina estatal, sem mentir muito mais que o esperado: Aécio estaria eleito em primeiro turno e Dilma teria perdido até da Luciana Genro. Só por ela ser bem pior que a média.

Você sabe o que é o Estado?

É aquele bicho que que faz tudo para os amigos e para os inimigos faz leis!
É aquele comprador que só paga se convém e se tiver um troco por fora para alguém de dentro.
É aquele monstro que quer tomar dos pais o direito sagrado de educar os filhos e impedir as escolas de ensinar!
É uma invenção pra nos guardar as costas que está roendo nossos calcanhares!
É aquele sócio que tira do seu bolso para investir em infraestrutura em Cuba e na África!
É aquele sócio que entra em seu negócio sem capital e leva 40% de seu faturamento sem te ajudar
É aquele monstrengo que só tem polícia para garantir a segurança nos estádios da Fifa.
É quem tem a máquina de fazer dinheiro e a usa para desvalorizar as notas em seu bolso.
É monstro de três cabeças, municipal, estadual e federal, cada uma numa altura, para não serem cortadas de um golpe.
Pois é esse estado de coisas em que precisamos mudar o Estado!

3 de outubro de 2014

Fraude eleitoral no Brasil

Não é porque eu sei que a candidata mais abominável será proclamada vencedora que tenho dito que a eleição foi roubada. Não porque meu voto está mais longe dela que de qualquer outro que eu grito para quem quiser ouvir: fraude eleitoral! Não é por insatisfação com o pleito que eu proclama sua inconsistência.
Já vi eleições antes no Brasil cujos resultados não me agradaram, inclusive a primeira eleição da principal postulante. Mas nunca senti no ar a malícia da fraude prévia como agora: todos, todos os subterfúgios e expedientes ilícitos pré-eleitorais foram engendrados sob as barbas do MP Eleitoral e no conforto das pálpebras cerradas dos magistrados.
O fantasma da fraude ronda as urnas eleitorais de 2014.
As eleições presidenciais de 2014 já estão fraudadas.
A imprensa está amordaçada, comprada e sustentada pelos anúncios governamentais. Os comediantes, nem eles podem criticar os governos, sob a falsa alegação de que não podem mencionar nenhum candidato, os artistas não podem cantar nem pintar a verdade, pois vivem de editais que lhes permitem a sobrevida alimentando-se no cocho do Estado com as migalhas que as estatais e subsidiárias distribuem "culturalmente". As universidades estão no bolso do partido e têm nas bolsas a carteirinha do sodalício criminoso que controla o governo federal e tem braços em todas suas derivações.
Não bastasse todo o esmagador uso dos recursos financeiros e administrativos públicos, para salvaguardar-se contra o risco de haver maioria honesta no país, sobra um sistema eletrônico de pleito e de apuração que já não tem mais nenhuma credibilidade: qualquer pessoas mais ou menos ilustrada sobre informática proclama a volatilidade da segurança do sistema coletor e apurador.
O resultado da eleição está previamente posto, previamente garantido também por projeções de institutos de pesquisa cuja venalidade é equiparável à da imprensa, do judiciário e do MP. Estamos órfãos e pouco nos resta, à beira do bolivarismo mutuamente assistido e que se sustenta em tudo que há de pior no mundo; não bastasse o que já havia de ruim no planeta, o governo que afutura dá suporte até ao famigerado estado islâmico, como foi posto na fala da mandatária na ONU.
Nossa esperança? Nenhuma: sabemos que o gigante quedará em sua poltrona, assistindo o Fantástico do domingo anunciar a vitória que eu já anuncio agora, enquanto fingirá acreditar nos resultados.

30 de setembro de 2014

A eleição mais incerta de todas

Não sei quem está mais perdido no processo eleitoral: políticos ou politólogos. Estou com a impressão de que ninguém mais tem nenhuma certeza sobre o que cria decisão de voto, os políticos não sabem o que oferecer, os marqueteiros não sabem escolher as mídias, não sabem que pílula dourar. As propostas se esvaziaram, caíram na vala comum (saúde, segurança, educação), os alinhamentos se evaporaram (há alianças estaduais contrariando as federais), os nomes se repetem (as mesmas caras retocadas no photoshop).

Teorizar entre esquerdas e direitas é um exercício acadêmico de filiação a torcidas, com argumentos perdidos no passado (pré)histórico do XIX com raízes no XVIII.
Os debates televisivos não têm audiência, o público nos comícios aparece com a mesma trucagem que os exércitos nos filmes de Hollywood: multiplicação dos pães, que nem pães nem circo são mais oferecidos nas aglomerações.
Ninguém mais sabe como investir os recursos de campanha que ninguém sabe bem explicar de onde vêm, então é melhor enfiar uma boa parte em um banco remoto, para garantir algo em meio a tanta insegurança e garantir, primordialmente, o futuro dos netos - de preferência, bem longe daqui.
O nosso líder mente melhor que o vosso!
A incerteza é geral: inclusive quanto à segurança jurídica.

As carreatas só mantiveram o distúrbio que provocam no tráfego e a poluição sonora que incomoda os desavisados.
Os blogs são lidos por quem já está com o voto alinhado, Twitter e Facebook são lócus de discurso endógeno e de piadas internas: não existe proselitismo eficaz.
A credibilidade é nula: ninguém crê nas promessas eleitorais, todos duvidam das pesquisas (exceto quando apresentem números favoráveis ao próprio voto projetado); a urna sagrada está posta sob suspeição.
Os tribunais são cortes de lacaios, ou coortes de jagodes - quando não, ambas as coisas. Ninguém confia em juízes ou sobrejuízes eleitorais, que todos têm juízo para tanto.
O pleito e seus resultados estão à borda do caus, e não me parece que seja democrático amar tanta incerteza; alguma, vá lá. Mas um sistema em que as regras não valem, já foram violadas, e não valerão: sabe-se que a justiça não será justa, periga dissolver-se mesmo em terreno de leniência e ilécebras pseudo-sociais.
Nossos vagidos teórico-especulativos são improfícuos. Eu não aposto em resultados. Vejo que estamos em meio a uma geleia geral mal aglutinada e azeda.
O caso é que ninguém mais sabe o que fazer para captar votos e poucos sabem em que alça do caixão dessa republiqueta de bananas e laranjas se seguram para escolher esse ou aquele! O resultado dos pleitos sempre fui misterioso, mas agora as urnas estão mais para bolseta de Pandora que cornucópia de esperanças.
Nessa meleca, eu quero é tratar de salvar meu traseiro infértil - assim como muitos.

15 de setembro de 2014

O mito da homofobia

Sabem o motivo da comoção geral pelo homicídio do rapazola goiano? É que ele era bonitinho. Se fosse um cafuçu rural calejado, pouco importaria se fosse gay. O país gosta dos bonitinhos e tem preconceito contra feios. Não impota às pessoas a religião alheia, não importa a etnia nem as preferências sexuais ou políticas. Mas ser feio é imperdoável.
Inclusive, ser feio é tão discriminado, que não existe nenhuma ONG em defesa dos feios, nenhum deputado feio militante, ninguém querendo criminalizar a unatractifobia.
Criminalização da homofobia.
João Antônio Donati
Viu só? Você nem sabia que existe unatractifobia, medo mórbido a pessoas feias, de tão discriminados que são os feios.
Será que a unatractifobia deveria ser criminalizada também? Afinal de contas, muita gente deve ser morta (inclusive pela polícia) só por ser feia.
Coitados dos feios, para arrumar até emprego de telemarketing eles só conseguem se entram em alguma cota de portador de deficiência física!
E cota para feio, tem? Nadinha, nenhuma! Feio não tem vez na universidade nem no serviço público, coitado. Se feio quiser vagas nessas lugares, tem que ralar o traseiro estudando até superar a feiura com méritos, o que é uma maldade.
Feio é tão discriminado que nenhum candidato pleiteia o voto dos feios! Mesmo todos os candidatos sabendo que a maioria dos eleitores é constituída de gente simplesmente feia, medianamente feia, muito feia. Tá, muitos candidatos são feios, alguns são feiíssimos, mas todos tentam se empetacar ou editar as fotos tentando esconder a feiura.
Eu até andei pensando em concorrer a algum cargo eletivo pleiteando o voto do segmento feio da população, mas logo me dei conta de que estou geneticamente impossibilitado para tal.
Em épocas de tantas pesquisas, só para concluir, alguém já viu resultados de alguns instituto que segmentasse as preferências eleitorais entre feios e bonitos? Não, eles eclipsam esse segmento da sociedade como se os feios não existissem, como se o voto dos feios não fosse importante.
À guisa de pós escrito: fica meu cumprimento e meu louvor a dona Dilma que, em se reconhecendo parte de tão relevante segmento da população, soube fazê-lo representar profusamente em seu ministério. Amém.

26 de agosto de 2014

Mitos eleitorais e políticos

Muita gente já percebeu que nosso sistema político está falido, sem nenhuma possibilidade de recuperação, sob meu ponto de vista.
Boa parte das pessoas acha que haja um ou outro ponto fraco nele e se apegam a aspectos míticos que mudariam a situação se fossem atacados.
As urnas não vão resolver o problema político.
Desencantem: não haverá salvador da pátria.
Alguns desses mitos, ou equívocos focais são:
O voto obrigatório: o primeiro engano quanto a isso é que, de fato, o voto não é obrigatório! É "obrigatória" a presença do eleitor em uma seção, para votar, para anular, para se abster ou para justificar sua ausência do domicílio eleitoral – coisas bem diferentes de votar. Ainda assim, a coerção a tal comparecimento, do ponto de vista legal, é irrisória. Há muito mais pressão social para que o malfadado eleitor escolha entre as lastimáveis opções que sanção legal ao rebelde. O argumento, muitas vezes, é que, sendo o voto facultativo haveria melhora qualitativa na escolha. Claro que cada um pensa que essa melhora seria escolher de acordo com os critérios de quem tem tal opinião!
Outro mito é a substituição do voto proporcional pelo distrital misto (e cada um formula essa equação em que só há incógnitas de acordo com as variáveis que supõe sejam propícias a suas aspirações políticas). O eleitor não foi capaz de entender, ao longo de algumas décadas de prática, como se processa o sistema vigente – duvido que entenda qualquer outro processo muito mais complexo. Distritos? Feudos, vale dizer. Querem lotear o país entre micro lideranças. Muito bem, e daí? Qual o passo mágico fará acabar com o clientelismo, a hereditariedade, a demagogia e a presença malfadada de personagens tragicômicos destacados pela mídia nesse processo?
Mais um mito é a suposição de fraude na urna eletrônica. Como se fraudes materiais não tivessem sido constatadas exaustivamente nas urnas e cédulas físicas ao longo de toda a república! Eu não sei de nenhum caso concreto de fraude no sistema atual. Os temores quanto a tal ponto, para mim, caem todos na vala comum das teorias conspiratórias.
Há ainda inúmeros mitos numéricos, ligados à duração de mandatos, às eventuais possibilidades de reeleição, à coincidência ou alternância entre as eleições nacionais e municipais, idades eleitorais e eletivas... Praticamente essas questões ficam fora do campo da ciência política e parecem ter mais vieses numerológicos que técnicos – principalmente, posto que várias combinações foram testadas sem nenhum resultado prático auspicioso ou perverso diretamente decorrente das variações impostas ou opostas.
Sobram as considerações de que um eleitorado mais instruído redundaria em resultado eleitoral melhor (só não se diz melhor para quem!). Essa suposição praticamente contradiz o pressuposto republicando do voto per capta. Se eleitores mais instruídos são melhores, por que não requerer o diploma de graduação, então, para a concessão do título eleitoral? Em seguida trabalharíamos para todo o eleitorado fosse diplomado... inclusive os anões da fábrica de brinquedos do Papai Noel.
Que mais? O fim dos “políticos profissionais”. O financiamento público dos partidos. O bi, tri ou penta partidarismo. As cláusulas de barreira. A presença ou ausência de “horário gratuito” na mídia. Tais ou quais restrições irrealizáveis na propaganda eleitoral. É só pensar mais um pouco, ou observar as opiniões alheias, que a lista vai crescendo. Mas será que qualquer desses pontos teria mesmo o condão de ressuscitar uma república que, de emendas em emendas, nunca existiu de fato?
Não se trata de, para nós brasileiros, de identificar um ou outro ponto de reajuste. O sistema está todinho errado, desde a presidência imperial, a que estamos acostumados, ao ficcional Estado de três poderes, artifício descritivo aplicável no século XVIII, talvez, mas que está tão distante de nossa realidade quanto os três estados (nobreza, clero e povo) medievais. Vejam como, na prática temos, ou deveríamos ter, outros poderes que atuam, ou deveriam atuar, com a alegada independência (ficta) e harmonia (mítica) que a Constituição apregoa entre Executivo, Legislativo e Judiciário: o Ministério Público seria outro poder, e está bem perto disso para nós, o Banco Central (ou equivalente) está para tanto (se for realmente independente do executivo, se torna poder). E talvez ainda pudéssemos alçar á “categoria” de poder outras instituições, e apear algumas de tanto. O senado, por exemplo, poderia ser rebaixado a grêmio senil recreativo, e certamente só haveria lucro; principalmente se lhe fosse amputada uma parcela aí de uns 95% de seus gastos.
Se eu tenho a solução? Por favor, parem de pensar em salvadores da pátria! Nem mesmo eu me proponho apresentar a fórmula mágica: não é de meu feitio tamanha vaidade. Mas está na hora de sentarmos, a comunidade, a sociedade, a nação, e repensarmos o tipo de pacto que queremos e a que chamaremos de Estado. Enquanto isso não for feito, estaremos sempre remendando a colcha de retalhos rota. Teremos que equacionar o que pretendemos do Leviatã e o que nos propomos a entregar a ele. Teremos que pensar em que partes ele deverá ser seccionado e como gerir e controlar essas partes sem precisamos contar com almas puras ou espíritos iluminados (eles não virão pela via eleitoral). Não é para tão cedo, infelizmente.

15 de junho de 2014

Vai tomate cru!

Vai, vai, vai, vai,
Vai tomate cru,
Ó, dona jaburu,
Vai que a casa cai.
Vai tomate cru para madame na Copa do Mundo.
Vai tomate cru!

Vai fazer cafifa?
Vai tomate cru
Também pra Fifa,
Sai, seu urubu.

Vai no Itaquerão?
Vai no Mineirão?
Canela de jacu,
Vai tomate cru.

Já no Nacional,
Ou no Pantanal,
Se comer pacu,
Vai tomate cru.

Ir no Vivaldão,
Ou no Machadão,
Não vai ter senão,
Vai tomate cru.

Maracanã açu,
Metrô a Beira-rio,
Jurou, não alivio:
Vai tomate cru.

Tanta arena nova,
Só pra ter desova,
De índio paiacu.
Vai tomate cru!

Só pra seu governo,
Madame baiacu,
Vai tomate cru,
Vai na Copa, vai no...
(marchinha) ©Públio Athayde
Convido os compositores que desejarem musicar
ou os cantores que quiserem gravar a se
apresentarem; podem postar suas obras, aquela
que o povo aclamar fica sendo oficial.

8 de junho de 2014

Desvia uma grana daqui, outra dali...


Depois dos revezes na justiça que a quadrilha governante teve com seus esquemas de mega desvios de grana no Brasil, aprenderam que os desvios devem ser feitos diretamente no exterior, para ficar longe do rastreio do fisco, do MP e da justiça. Vou citar três exemplos do esquema: 
  • PRIMEIRO, aumenta-se o preço pago pela energia de Itaipu, unilateralmente (deve ser o único na história em que um pagante rompe contrato para pagar a mais), daí um troco sobra na contabilidade paraguaia e vai para onde? Adivinhem... O dinheiro sai daqui limpinho, sob a rubrica de conta de energia, e é lavado no vertedouro de Itaipu (bela lavanderia!) para aterrar em contas fora do país... de quem serão tais contas?
  • SEGUNDO, viola-se um contrato de compra de uma sucata de 40 milhões, de modo a pagar mais um bilhãozinho pela quinquilharia... Pasadena é uma lavanderia a seco: sem uma gota d'água, limpou uma grana Federal (com trocadilho) de que uma parcela só pode ter ido parar na conta de quem? Onde? Adivinhem...
  • TERCEIRO, uma tal de Copa do Mundo, já ouviram falar? Montanhas de dinheiro sairão do país, limpinhas, pelos canais formais, sem nenhum ônus fiscal, diretamente para o poço sem fundo que é o caixa da Fifa - a entidade mais corrupta e venal da face da Terra.
Alguém acredita que tanto estímulo a essa Copa foi por amor ao futebol? No varejo, a mamação pelo evento futebolístico escamoteou parte do dinheiro público para bolsos privados de norte a sul do Brasil. No atacado, parte da receita da Fifa só pode ter pulado, lá pela Europa, para contas de gestores coniventes com a... a... desculpem, tem hora que não dá para meios termos: gestores coniventes com a putaria feita com o dinheiro do povo.
Assim, ao fim e ao cabo, cada ministério gasta 15%, 20% ou 35% do que o Orçamento Federal previa para justiça, saúde, educação, segurança e outras futilidades. Enquanto o grosso dos impostos é carreado para as bolsas-reeleição e para fazer estádios catedrálicos, hiperfaturadíssimos, que garantam um troco da Fifa lá fora.

Nítida impressão de que as coisas mais virulentas que tenho escrito no Facebook contra a corja que nos governa está desaparecendo da TL, os amigos não estão vendo... Para quem seleciona as propagandas que nos mostram, de acordo com o que andamos procurando, nada mais fácil que eclipsar os textos que não lhes interessa que os outros leiam. Censura seletiva e modernosa.

17 de maio de 2014

Vontade política não faz efeito

Vontade política não resulta mesmo: eu queria que Lula não fosse eleito - foi; eu queria que Lula não tomasse posse - tomou; eu queria que Lula não fosse reeleito - vocês conhecem a história recente. Se bem que Lula, duas vezes, e a sucessora dele não tiveram antagonistas, então ganharam por WO - mas ganharam.
Sempre há mais de um caminho ao mesmo destino: o mundo é esférico.
Quem fica na vontade política,
 fica só na vontade.
Agora, eu não quero que dona Dilma se reeleja, mas acho que vão reeleger essa senhôra. Depois, acho que - se, por acidente (tenho falado em curto-circuito nas urnas eletrônicas, mas pode ser um estalo de Vieira no eleitorado), um dos antagonistas dela for eleito, não toma posse: eles simplesmente não podem dar posse a um opositor que lhes vasculhe as contas. Como vão vencer (quase sem sombra de dúvida) ou como não darão posse? Não sei! Das formas mais escusas, tacanhas, abjetas e ignóbeis que se fizerem necessárias - rasgar a Constituição nem mais é gesto de efeito: aquilo já é um trapo mesmo.
Se, por incompetências das vontades governantes (e suma incompetência eles têm amplamente demonstrado) e por ventura, a dama de vermelho perde as eleições e dá posse a outrem, outrem não governa.  Passará quatro anos enfrentando o segundo escalão em todos os braços do Estado e nos organismos paraestatais (inclusive UNE e MST - que são também para(sitas)estatais - para citar só dois deles).
O eventual, presuntivo e improvável vencedor de dona Dilma fará o pior governo de toda a história da República - e olhe que vencer esse certame é algo de se notar! Resultado: depois de quatro anos, a corja que está no Planalto volta triunfante e com aquela derrisão asquerosa que já nos habituamos a ver neles, o escárnio diante de nossa impotência e inércia.
Senhoras e senhores, o rumo do país não será traçado pelos resultados das urnas de outubro. A questão a ser sufragada não é um nome, a questão a ser debatida não é de programas, o pleito não é plebiscitário. Não importa o nome - ninguém vai salvar a pátria. Não importa o programa proposto - nenhum deles será executado. Não importa a vontade do povo - ela pode ser manobrada demagogicamente com os dinheiros das bolsas, das empreiteiras e as propinas do petróleo e da energia. Vontade do povo não é soberana: é serva, é barregã. Quase o mesmo ocorre com a vontade política: mas esta é veleidade. Não se trata de por em causa a vontade política, é hora de invocarmos a ação política. Ficar na vontade não resulta. É hora de agirmos. Ou fugirmos.

15 de maio de 2014

As fogueiras juninas e as manifestações para hoje

Sinto que hoje haverá fogueiras. Talvez sejam alguns incêndios aqui e ali, talvez seja uma grande queima - não sei. Fogueiras são mesmo nosso hábito junino. Por mais que a FIFA esteja mandando cancelar o São João, a canção ainda dirá "acende a fogueira do meu coração" ou "vem, vamos embora, que esperar não é saber".
Haverá problemas, não sei a dimensão nem que vai sair chamuscado.
As coisas vão esquentar a partir de hoje.
Eu não vou pular nas chamas, já disse, se precisarem de um apoio aqui e ali, de uma orientação sobre como empilhar a lenha ou dar um sopro, estou junto.
Até as criancinhas sabem que, para haver fogo, são necessários três elemento: combustível (o povo) o comburente (o descontentamento) e o calor (a Copa), ignição.
Para combater o fogo, chamam os bombeiros (ou polícia, exército...) e para apagá-lo se usam extintores (ou jatos de pimenta), macheados e foices (ou cassetetes).
Mas, se houver vento na direção certa, não há combate que extinga as chamas. Só não seio rumo que elas tomarão nem quanto a situação vai esquentar. Afinal, seja como for, ainda estamos no princípio do angu que soe ser mingau.

As letras da música todo mundo sabe:

"pula a fogueira,iaiá
pula fugueira ioiô
cuidado para não se queimar
olha que a fogueira
já queimo o meu amor..."

Agora, as recomendações de sempre continuam válidas:

  • limpe bem o terreno ao redor de onde o fogo será aceso;
  • mantenha ao alcance água suficiente para extinguir o fogo, caso ocorra algum problema;
  • quem brinca com fogo faz xixi na cama (quem nunca ouviu isso?);
  • quem cospe no fogo fica tuberculoso;
  • quem fax xixi no fogo, nunca mais consegue urinar e morre;
  • não é bom apagar o fogo de uma fogueira com os pés e sim batendo com galhinhos de árvores.
  • leve gaze, água ou soro fisiológico, que são mais eficientes para remediar os efeitos das armas;
  • não use lentes de contato. Os gases tendem a aderir a elas, irritando ainda mais os olhos;
  • se possível, leve máscaras e óculos que protejam o nariz e os olhos;
  • coloque, se possível, um lenço embebido em água em torno do nariz e da boca;
  • se você tem asma, leve sua bombinha, pois tanto a bomba de gás lacrimogêneo quanto o spray de pimenta causam broncoespamos (contrações nas vias respiratórias) e dificuldade para respirar;
  • os gases causam, também, sensações de ansiedade. Não entre em pânico, os efeitos são reversíveis e passam rapidamente, em no máximo 30 minutos. A maioria das pessoas tende a suportar bem os efeitos dessas substâncias;
  • esses produtos também irritam a pele, causando sensação de queimadura. Cubra a maior parte possível do corpo para evitar a absorção dos componentes químicos. Tecidos impermeáveis, como os de capas de chuva, são os mais indicados.

12 de maio de 2014

E se Lula morre?

Hoje fiquei imaginando. E se Lula morre? Sim, pois ele ainda não está acima ou fora dessa hipótese; na verdade, nem se trata de hipótese, é um evento indeclinável de ocorrência futura em data incerta; portanto, ele vai mesmo morrer e eu posso considerar que isso venha a ocorrer mais ou menos tardiamente. Pois bem, e se fosse de imediato?
A primeira decorrência da morte de Lula seria o PT se transformar no partido mais partido da história. Quanto mais um cacique centraliza, menos possibilidade de continuidade o regime terá. Ou alguém espera que Lulinha advenha um Kim Jong-un? Pronto: coloquei a exceção que confirma a regra, de modo a neutralizar as críticas por antecedência.
Em se supondo que o fato certo ocorra antes de um mês das eleições, fica mais certo ainda e sabido que Dilma não se reelegerá: sem o padrinho e cabo eleitoral, sem o partido que se partirá, ela vai se esvair como um traque expelido pelo terceiro tarol da bateria da Mangueira na apoteose: sem ruído audível, sem odor perceptível.
Dilma não se elege nem síndica de cabeça de porco sem Lula.
Um dia ele se vai, não há como cooptar a morte.
Depois, desmantelando-se o poderoso partido, já partido, apeados do Planalto, instaura-se o salve-se quem puder: imagine se as contas de tudo aqui vão parar na mão um governo antagônico? Xilindró pra meio mundo. A trupe vai achar que, em o circo pegando fogo, é hora de sumir do picadeiro e tentar fruir os dividendos de Passadena noutra praia. Como se as ações reipersecutórias (não perco a chance de usar essa palavra pedante) e personaperseguintes (também aproveitei a chance de um neologismo, por que não?) não rodassem o mundo em todas as direções: não há mais rota segura para trânsfugas; os israelenses desenvolveram a tecnologia necessária para perseguir facínoras onde e como quer que eles se escafedam. Com o advento da internet e a tal da globalização, até um caixeiro gorducho e safado como o PC Farias foi grampeado do outro lado do mundo e trazido para ser deletado aqui.
Que mais podemos esperar? Com esses três tópicos eu já me dou por satisfeito. A partir desses eventos podemos começar a reconstruir o que a mais deletéria quadrilha de nossos tempos depenou. Para isso, convoquemos deus e o papa, pois vamos precisar benzer todas as repartições públicas, queimar enxofre em todas as universidades, jogar cânfora atrás das portas de cada sala de aula do país... Há de haver creolina para os quartéis e formol para os tribunais. Hipoclorito para os legislativos e clorexidina nas estatais: não se trata apenas de passar o país a limpo, como não poderemos fazer tábula rasa, teremos que expurgar toda forma vegetativa de todos os microrganismos patogênicos instalados em todos os braços do Estado. Esse é o problema.
A sorte é que não estamos lidando com a Hidra de Lerna, nem com a Medusa, mas com um Leviatã Uniceps (que tem uma só cabeça), corta-se lhe e ele esfarela putrefato.

12 de março de 2014

Mudanças de nome

No Brasil, as grandes reformas são as mudanças de nome. Algo não vai bem? Troca-se-lhe o apelido.
Assim, antigamente, havia censura – o primeiro contato que tínhamos com ela era na porta do cinema, exatamente onde aprendíamos que fraudar uma carteirinha de colégio não seria tão mal assim, afinal, era apenas para ver alguns peitos e bundas.
Mudar o nome é certeza de melhora
no Brasil.
Depois, com a Constituição de 1988, cujo nome foi imediatamente mudado para “A Cidadã” (poderia ter sido “A Meretriz” – mas o doutor Ulisses estava com a melhor das intenções e completamente míope); bem, com o advento da nova Carta, a censura foi proibida. Como não seria de bom alvitre deixar impúberes verem os já costumeiros peitos e bundas no cinema (em casa, na TV paga, podem à vontade – ou então na Globo, depois do JN), inventaram uma classificação indicativa cujo escopo seria orientar os pais quanto à conveniência de seus rebentos adolescentes verem no escurinho e comendo pipoca aquelas partes antes pudendas agora despudoradas. Pois bem, a isso se prestava a classificação indicativa: categorizar o espetáculo (pois o mesmo se aplica ao cinema, ao teatro, ao circo). Já ontem, vi na porta do cinema de um shopping um aviso informando que o fulano, para ver... já disse muito o que se vê, todo mundo sabe: pra ver um pouco de sacanagem na telona agora tem que exibir a carteira de identidade. Mas não era exatamente assim quando tomávamos o primeiro contato com a censura? Mudaram o nome de censura para classificação indicativa – mas coisa permanece do mesmo tamanho: serve apenas para os mais crescidos falsificarem o documento de identidade e entrarem nas salas de recreação. Só que agora a falsificação é de um documento público. Só que agora é muito fácil escanear e imprimir em altíssima resolução: você pode não saber fazer isso, mas os adolescentes sabem. Mas afinal, não faz tão mal assim, pois é apenas para ver (pô! Como vou dizer agora para ficar diferente?), para ver aquela putaria fora de casa.
Pare refrescar a memória: quantos nomes teve o imposto do cheque? CPMF, IPMF e já tentaram pregar a coisa de novo em nós com outro par de nomes; quando inventarem uma sigla sonora pega. E a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), creio que sucedânea da OTN, e depois virou BTN (Bônus do Tesouro Nacional) e soltou um filhote BTNF (F de fiscal) e acho que teve outros apelidos; como chama agora? Para concluir o parágrafo financeiro e monetário: quantos nomes já teve nossa moeda? Toda vez que não cabe mais zeros no papel o capilé muda de apelido: Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Real – listando apenas alguns das repúblicas.
Nos anos sessenta e setenta, quando os subversivos (era assim que a todo mundo se referia aos esquerdopatas àquele tempo) assaltavam um banco, todo mundo chamava de assalto mesmo, mas eles mudavam o nome para expropriação. Agora, quando os mesmos equerdopatas (agora não são mais subversivos, o nome mudou para Governo) te assaltam, eles não chamam mais de expropriação, porém de tributação, mas a grana vai mesmo é para Cuba e outros mesmos lugares autoritários, como dantes. Ou para alguns bolsos, não mais na Suíça que ficou manjada, mas algum paraíso fiscal ínfimo.
Já no ensino (que agora chamam de educação, mas não educa ninguém na verdade – nem ensina mais como dantes), o grupo virou primário, o pré-primário virou primeiro ano, o primeiro grau virou ciclo básico, o ginásio virou científico e depois virou segundo grau, o execrado vestibular único está redivivo com o apelido de ENEM (bem mais substancializado, agora com a dimensão nacional), professoras agora são chamadas de tias e pivete safado sem vergonha agora é menor infrator. Tudo isso, no Brasil. Pode-se fazer lista de nomes para todos os órgãos públicos; não deve haver um só que não tenha passeado por meia dúzia de apelidos nos últimos decênios – sempre para o melhor serviço do cidadão (essa palavra – cidadão – vem da mudança de nome e fusão da nobreza, povo e clero, lá na França, nos fins do XVIII: enfiaram todos os gatos no mesmo balaio, mas pouco, bem pouco tempo depois os ex-nobres grimparam aos castelos, os padres subiram novamente às aras e o povo, sempre o zé-povo, permaneceu ao rés do chão).
O SUS já foi INAMPS e INPS e o Sandu virou SAMU – algo assim, o INSS, por sua vez, já foi IAPM, IAPC, IAPB, IAPI, IPASE, IAPETEC, ISS, IAPTEC, CAPFESP, IAPFESP – sem forçar muito. Contudo, isso melhorou muito – claro que as melhoras foram todas devidas às mudanças de nome. Por causa disso tudo, não há muito tempo, tive uma indisposição em Ouro Preto e chamei um táxi para acorrer ao pronto atendimento médico. Pedi ao taxista: – Leve-me ao pronto socorro! Quando vi que o motorista tomava um rumo diferente do que deveria, fui questionar. O moço estava me conduzindo a uma república estudantil de lá que se chama “Pronto Socorro”! O atendimento médico de emergência tem outro nome, ou tinha – se já não mudou novamente.
Para melhor ou para pior, as pessoas também mudam de nome: José Ribamar da Costa virou Sarney, Luiz Inácio da Silva virou Lula, ambos se deram as mãos e caminham juntos pela seara da república de bananas. Trocaram Império por República – mas os mandantes permaneceram. Trocaram Arena pra PDS, MDB pra PMDB. E os políticos trocam de partido mais que de cuecas. E quando não dá para trocar, invertem: já ouve uma República Velha, depois uma Nova, então sapecaram Nova República – mas os caras são os mesmos, só as caras que derreteram como imagens de cera em incêndio no museu. Trocaram escravidão por salário mínimo. Trocaram mucama por secretária do lar. Trocaram alhos por bugalhos. Melhorou muito.
A fúria da mudança de nomes chagou às raias da loucura com o advento do politicamente correto, estabelecendo-se uma novilíngua em que não há mais crioulos, doidos ou sambistas, senão afrodescendentes, portadores de sofrimento mental e ritmista afro. Assim o samba de crioulo doido passou a ser ritmo afro de afrodescendente portador de sofrimento mental, mas continua sendo Brasil, que já foi Terra de Santa Cruz. Amém!