Recorro a uma das mais curiosas expressões do tupi, que devemos aos bravos goitacás precedentes aos bandeirantes, para dar uma pálida ideia do que penso de nosso sistema educacional.
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| O buraco onde Dilma vai se enfiar. |
Claro, poucos sabem: Anhanhonhacanhuva significa água parada que some no buraco da terra, é o antigo nome indígena da localidade, em Minas Gerais, atualmente conhecida pelos nomes Fidalgo e Quinta do Sumidouro (distritos de Pedro Leopoldo, MG), onde situa-se a Lagoa do Sumidouro (a dita Anhanhonhacanhuva), local sagrado dos citados índios e referencial geográfico central e principal do Parque Estadual do Sumidouro. A ocorrência de sumidouros não é rara, principalmente em regiões calcárias.
Anhannhonhacanhuva, palavra quase impronunciável – onde nasalar ou não? É simplesmente um sumidouro. Sobrou em nossa língua como toponímico, embora restem lembranças de seu significado comum: sumidouro, a espiral que suga as águas e desaparece com elas pelo interior ignoto dos oceanos subterrâneos de água doce.
Pois bem, uns dizem que o sistema educacional do Brasil é um círculo vicioso: professores mal pagos, profissionais insatisfeitos e desqualificados extraídos do restolho do mercado de trabalho, condições de trabalho abaixo da crítica, carga horária exígua, superlotação das salas, legislação castradora, hierarquia administrativa vertical, resultados desastrosos – e os mais infelizes produtos dessa tragédia se tornam, para fechar a ciranda, professores de novo! Podem-se acrescentar ou retirar elementos dessa roda infernal, mas o resultado é sempre o analfabetismo funcional com que a juventude surge de todos os graus de ensino, cada vez mais elevados em tese.
Mas não bastava, pioraram tudo. Não era suficiente a trama circular e nefasta que já degringola a educação brasileira há quase quatro décadas, fartamente nutrida por correntes de pensamento pedagógico hauridas nas mais pitorescas fontes, sempre em detrimento da experiência dos professores pelo experimento dos pedagogos.
Agora que todo o conhecimento do mundo está disponível universalmente, justo quando o ideal iluminista do ensino cíclico e universal (egkuklopaideía – enciclopédia) se torna verossímil pelo advento da internet, mergulham de vez o sistema educacional em um buraco sem fundo, trocam a ciranda viciada pelo sumidouro com a introdução de um abantesma a que chamam educação a distância.
Educação a distância há de ser o golpe final no sistema que nos fará eternamente fornecedores de mão de obra desqualificada, atacadistas de açúcar (desde o século XVII), de minérios (desde o XVIII), de grãos (XIX em diante) até chegarmos ao petróleo (a promessa do XXI no pré-sal) – sempre commodities mercantilizadas sem agregação de valor, apenas o extrativismo ou cultura primária, prescindindo de conhecimento ou trabalho agregados.
Educação a distância é o que há de mais distante da educação. Não há nenhuma dúvida de que os seus fautores fazem o pior uso possível da internet, tornando-a o inverso do que ela representa de positivo: ao invés de uma fonte imensurável de todo conhecimento humano a ser gerida no processo educativo pelos professores, torna-se o substituto do próprio professor e a alternativa para a gestão do processo de apropriação do conhecimento passa a ser sua redução ao apostilismo eletrônico. O sistema educacional mergulha no sumidouro em que o magistério será a primeira vítima: professores se tornarão dispensáveis, pelo menos nas quantidades até aqui demandadas. Se já impunham quatro, cinco, seis ou mais dezenas de alunos em cada turma, chagando alguns professores a somar cinco ou seis centenas de alunos dentre suas diversas turmas, agora esses números se exponenciam. Milhares podem ver as aulas gravadas (telecurso mudou de nome?) e difundidas pelos sites das instituições de ensino (para as privadas isso virou o negócio da China!). Na propaganda governamental, os dados retumbam: dobram o número de alunos dos cursos superiores (superiores em relação a quê?).
Os casos de que tomo conhecimento se tornam dia a dia mais escabrosos. Vou citar apenas três, suficientes para formar opinião de quem quer ter alguma no caso. Primeiro, na mesma instituição de minha primeira graduação há um curso de bacharelado a distância em administração de empresas. Mais de cinco mil – não errei não: cinco mil – cinco mil infelizes recebem apostilas, vídeo-aulas e diplomas (não consigo deixar de me lembrar do Instituto Universal Brasileiro – meu pai aprendeu desenho mecânico com eles). Quero saber quem é que vai dar emprego para essa moçada depois de formados. Hoje já temos o mercado inflacionado de administradores advindos de faculdades abertas em qualquer garagem que estivesse desocupada. Agora termos desocupados desinformados longe das faculdades e das garagens. O débito social para com essa massa de juventude ludibriada por tal política pública falsífica é incomensurável. A frustração do desemprego decorrente, ou subemprego para os menos infelizes, terá repercussão nos índices de criminalidade, de suicido, alcoolismo e em todos os mais nefastos indicadores sociais. Pessimismo? Predicação friamente calculista eu diria.
Segundo caso: tenho notícia da existência de um curso de graduação em artes cênicas a distância... Podem imaginar algo mais grotesco que isso? Imaginem as aulas de mímica, de improvisação (para as quais, então, a faculdade pode ser substituída pelo Youtube). A profundidade dramática que tais alunos alcançarão ultrapassará todas as didascálias, estejamos certos. Mas aqui ainda nos resta o consolo de que não se morre de rir, por melhor que seja a comédia – nem se morre de raiva, por pior que seja o drama.
E a pior noticias de todas: há treinamento a distância também na área de medicina. Tenho notícia segura de treinamento a distância em cirurgia oncológica pediátrica. Creia-me. Não preciso divagar sobre os benefícios e qualidades de tal programa – todos adorariam ter um filho canceroso operado por um cirurgião formado pela internet. Morbidez no sentido mais literal impossível.
Estão conseguindo romper o círculo vicioso do sistema educacional no Brasil. O giro sem fim dos vícios do sistema está findando. Abriram um sumidouro para engolir a didática, o humanismo, a humanidade da relação professor-aluno. Estamos mergulhando numa incógnita do tamanho do Aquífero Guarani. E para nutrir o aquífero, nada tão eficiente como um sumidouro, ou anhanhonhacanhuva.
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