Na verdade, são pouquíssimos os que apoiam Bolsonaro, ele mesmo. Muitos querem algumas partes do discurso radical, a metralhadora giratória, a verborreia eloquente e até a coerência das propostas dele. Postar-se num córner, qualquer um, e abrir fogo em leque de ângulo obtuso é uma estratégia política conhecida. Na verdade, só quem parece não conhecer a fundo as estratégias políticas são os eleitores: caem e continuam caindo em todo tipo de esparrela: Bolsonaro é só mais uma, Collor e Lula já foram outras!
O problema de engolir essas histórias é que você não compra só uma parte do discurso, quando se vota numa pessoa, nesse sistema maluco que temos, você dá uma procuração (sem cláusula de controle) para o fulano fazer o que deseja pelo tempo que conseguir! Tanto faz se é um executivo ou um parlamentar: entregue o diploma eleitoral, o eleito está com o cabresto solto. Pode fazer o que der na telha.
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| Sem opção, eleitor pode tacar na caçapa de Bolsonaros. |
Assim, em nosso sistema, alguém pode disser isso, isso e mais isso na campanha; depois, pode fazer aquilo, mais aquilo e aquilo outro - impunemente! Não há nenhum vínculo entre propostas eleitorais ou eleitoreiras e exercício de mandato. Nem se trata da discussão entre mandato delegado e mandato outorgado (se não sabe o que são, veja no Google!) - trata-se do mais puro e constante "estelionato eleitoral", essa maluquice de que Dilma e PT são arquétipos.
Até certo ponto, essa geleia asquerosa que desacreditou totalmente o sistema eleitoral para os eleitores é devida a meleca que é o sistema partidário (sem programas, sem identidade, sem fidelidade, sem caráter, venal, circunstancial, fluido, burocrático...), mas também se pode creditar ao constante desvio de função entre executivo, legislativo e judiciário e a obsolescência do sistema de controle (checks and balances) entre três poderes que não alcançam mais a totalidade do Estado, que não são independentes e muito menos harmônicos.
Bolsonaro é, para uns, o caçador de marajás da vez; para outros, ele representa as qualidades (!!!) do regime militar; para alguém, ele encarna a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé; outros veem nele Tradição, Família e Propriedade; deve haver quem projete até a Ku Klux Klan no deputado. Ele espelha as taras e frustrações de muita gente e quer amealhar todos esses votos díspares. Depois, o que ele fará - se eleito for, seja lá para o que for - será exatamente o que pensa ser necessário, útil ou de seu interesse, não importa muito (como já vimos!): o mandato é sem peias! A família já está representada em diversos foros políticos, vem aí um clã, à moda dos Sarneys ou dos Magalhães? Talvez até pior: não estão circunscritos ao longínquo estado das Alagoas ou à folclórica Bahia.
Enquanto isso, continuamos brincando de política e de democracia, como se fosse um joguinho de sinuca: a cada lance há uma bola da vez - com possibilidade de apostas fora da sequência. Para ficar nessa metáfora, convenhamos, estamos mesmo é numa tremenda sinuca de bico! Para quem não sabe, é aquela posição em que não se pode alcançar diretamente a bola da vez, ficando forçado a uma aposta temerária. Quem serão os deputados de 2018? Kim Kataguiri e Fernando Holiday? Dois é um número pequeno demais para um país de 200 milhões. Quem serão os senadores de 2018? Marco Antônio Villa e Sergio Moro? Dois continua sendo pouco. Feitos os expurgos que a maioria do dia 13 de março execrou, quem são as lideranças que sobram no Brasil? Meia dúzia de gatos pingados! Não teremos bolas da vez em 2018 - já pensaram nessa tragédia? O povo pode mesmo acabar optando por Bolsonaros!




