Assim, antigamente, havia censura – o primeiro contato que tínhamos com ela era na porta do cinema, exatamente onde aprendíamos que fraudar uma carteirinha de colégio não seria tão mal assim, afinal, era apenas para ver alguns peitos e bundas.
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| Mudar o nome é certeza de melhora no Brasil. |
Pare refrescar a memória: quantos nomes teve o imposto do cheque? CPMF, IPMF e já tentaram pregar a coisa de novo em nós com outro par de nomes; quando inventarem uma sigla sonora pega. E a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), creio que sucedânea da OTN, e depois virou BTN (Bônus do Tesouro Nacional) e soltou um filhote BTNF (F de fiscal) e acho que teve outros apelidos; como chama agora? Para concluir o parágrafo financeiro e monetário: quantos nomes já teve nossa moeda? Toda vez que não cabe mais zeros no papel o capilé muda de apelido: Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Real – listando apenas alguns das repúblicas.
Nos anos sessenta e setenta, quando os subversivos (era assim que a todo mundo se referia aos esquerdopatas àquele tempo) assaltavam um banco, todo mundo chamava de assalto mesmo, mas eles mudavam o nome para expropriação. Agora, quando os mesmos equerdopatas (agora não são mais subversivos, o nome mudou para Governo) te assaltam, eles não chamam mais de expropriação, porém de tributação, mas a grana vai mesmo é para Cuba e outros mesmos lugares autoritários, como dantes. Ou para alguns bolsos, não mais na Suíça que ficou manjada, mas algum paraíso fiscal ínfimo.
Já no ensino (que agora chamam de educação, mas não educa ninguém na verdade – nem ensina mais como dantes), o grupo virou primário, o pré-primário virou primeiro ano, o primeiro grau virou ciclo básico, o ginásio virou científico e depois virou segundo grau, o execrado vestibular único está redivivo com o apelido de ENEM (bem mais substancializado, agora com a dimensão nacional), professoras agora são chamadas de tias e pivete safado sem vergonha agora é menor infrator. Tudo isso, no Brasil. Pode-se fazer lista de nomes para todos os órgãos públicos; não deve haver um só que não tenha passeado por meia dúzia de apelidos nos últimos decênios – sempre para o melhor serviço do cidadão (essa palavra – cidadão – vem da mudança de nome e fusão da nobreza, povo e clero, lá na França, nos fins do XVIII: enfiaram todos os gatos no mesmo balaio, mas pouco, bem pouco tempo depois os ex-nobres grimparam aos castelos, os padres subiram novamente às aras e o povo, sempre o zé-povo, permaneceu ao rés do chão).
O SUS já foi INAMPS e INPS e o Sandu virou SAMU – algo assim, o INSS, por sua vez, já foi IAPM, IAPC, IAPB, IAPI, IPASE, IAPETEC, ISS, IAPTEC, CAPFESP, IAPFESP – sem forçar muito. Contudo, isso melhorou muito – claro que as melhoras foram todas devidas às mudanças de nome. Por causa disso tudo, não há muito tempo, tive uma indisposição em Ouro Preto e chamei um táxi para acorrer ao pronto atendimento médico. Pedi ao taxista: – Leve-me ao pronto socorro! Quando vi que o motorista tomava um rumo diferente do que deveria, fui questionar. O moço estava me conduzindo a uma república estudantil de lá que se chama “Pronto Socorro”! O atendimento médico de emergência tem outro nome, ou tinha – se já não mudou novamente.
Para melhor ou para pior, as pessoas também mudam de nome: José Ribamar da Costa virou Sarney, Luiz Inácio da Silva virou Lula, ambos se deram as mãos e caminham juntos pela seara da república de bananas. Trocaram Império por República – mas os mandantes permaneceram. Trocaram Arena pra PDS, MDB pra PMDB. E os políticos trocam de partido mais que de cuecas. E quando não dá para trocar, invertem: já ouve uma República Velha, depois uma Nova, então sapecaram Nova República – mas os caras são os mesmos, só as caras que derreteram como imagens de cera em incêndio no museu. Trocaram escravidão por salário mínimo. Trocaram mucama por secretária do lar. Trocaram alhos por bugalhos. Melhorou muito.
A fúria da mudança de nomes chagou às raias da loucura com o advento do politicamente correto, estabelecendo-se uma novilíngua em que não há mais crioulos, doidos ou sambistas, senão afrodescendentes, portadores de sofrimento mental e ritmista afro. Assim o samba de crioulo doido passou a ser ritmo afro de afrodescendente portador de sofrimento mental, mas continua sendo Brasil, que já foi Terra de Santa Cruz. Amém!
