13 de novembro de 2016

Propina para o Lula

Propina tem a ver com o hábito de oferecer bebida. Etimologicamente, a palavra vem do latim medieval, propina(æ) – que significava taverna. Ainda há um verbo em português que resguarda o sentido antigo: propinar, que tem pouco uso e significa, em sua primeira acepção, dar de beber. Assim, pode-se propinar leite ao bebê, ou propinar cardina ao enedáctilo. Já desviando do sentido original, mas mantendo-se entre o entendimento primitivo e o atual, há propinação, palavra que mantém o sentido do ato ou efeito de propinar, no sentido de saciar sedes, mas já tem a possibilidade de emprego como ato de beber uma porção do que se oferecia nos sacrifícios, vale dizer, desvio de função dos fluidos.
Vale anotar que houve um tempo em que a propina se referia a emolumento, gratificação e outras recompensas lícitas, antes de descambar para o sentido geral de quantia que se oferece ou paga a alguém para induzi-lo a praticar atos ilícitos, suborno. Note-se ainda o paralelo, em diversas outras línguas, entre os sentidos de propina – original – e suas relações com tavernas, casas de pasto, hospedarias e recompensas pecuniárias ou libações partilhadas. A propina, ou gorjeta, no francês de hoje é pourboir (literalmente: para beber!) – a própria gorjeta, por sua vez vem de gorgegorja (garganta) + eta; gorjeta é dinheiro para molhar a garganta, beber.
Lula recebeu propina de todos os lados.
Nem se todos os contadores do mundo tivessem acesso aos
dados, jamais se conseguiria levantar o montante de propina
recebida por Lula.
Se você chegou sua leitura até aqui, passando pelas digressões mais propínquas, disponíveis em Houaiss e quejandos, vamos ver o que nos traz Bluteau (1728): “Parece que [propina] se deriva do verbo latino propinare, brindar à saúde de alguém e (…) antigamente, em Castela, era uma merenda que dava em algumas juntas [povoados!]. (…) Hoje se dá propina em dinheiro ou em tantas varas [unidade de medida] de pano. (…) Nos Parlamentos de França, ainda hoje [séc. XVIII] se dão propinas de alguns frascos de vinho especial e por essa razão chamam os franceses a algumas gratificações pot de vin (pote de vinho). (…) Em Portugal, dão-se propinas aos oficiais da casa real [funcionários públicos], aos tribunais, ao reitor, lentes, licenciados, bedéis, etc.… [Atualizei um pouco o texto, para benefício do leitor.] Remeto o leitor ao verbete do clérigo setecentista para mais digressões, todas coerentes com o argumento daqui. A. de Moraes Silva (1789) além das coisas já relacionadas, com maior síntese, aponta que “os doutorandos dão a cada doutor 1600 reis de propina (e) um tanto aos bedeis” [!!!]. Ainda em nossos dias, em Portugal, se chamam propina a algumas taxas acadêmicas. Para L. M. Silva Pinto (1831), propina é o que se dá ou se adquire além da paga (tout court).
Se dermos um passo à retaguarda, Quicherat (1844), nos informa que a propina(æ) latina vem do grego propinw [pro-, “a favor”, mais pinein, “beber”] e acrescenta que é o mesmo que popina(æ), verbete em que se relacionam os sentidos de baiuca, bodega, taverna, casa de pasto (restaurante) e ainda comida farta, a dona da casa de pasto, taverneira… por derivação direta.
Portanto, propina é o lugar de beber ou comer, o dinheiro ilício (obtido pelo crime de iliçar: enganar (alguém) vendendo, hipotecando, penhorando bens que pertencem a outrem ou sobre os quais pesam encargos de qualquer espécie), propina o dinheiro pago além do devido, é o ilícito, o ilídimo! Propina é um conceito em que se fundem dois elementos: a ilegalidade e o etilismo! Propina é o que se dá e quem recebe. Propina é onde se dá e onde se recebe. Propina é suborno para pinguço.
Quod erat demonstrandum: não é necessário mais que mero levantamento etimológico para ligar Luiz Inácio Lula da Silva à propina!