Propina tem a ver com o hábito de oferecer bebida. Etimologicamente,
a palavra vem do latim medieval, propina(æ)
– que significava taverna. Ainda há um verbo em português que resguarda o
sentido antigo: propinar, que tem pouco uso e significa, em sua primeira
acepção, dar de beber. Assim, pode-se propinar leite ao bebê, ou propinar
cardina ao enedáctilo. Já desviando do sentido original, mas mantendo-se entre
o entendimento primitivo e o atual, há propinação, palavra que mantém o sentido
do ato ou efeito de propinar, no sentido de saciar sedes, mas já tem a
possibilidade de emprego como ato de beber uma porção do que se oferecia nos
sacrifícios, vale dizer, desvio de função dos fluidos.
Vale anotar que houve um tempo em que a propina se referia a
emolumento, gratificação e outras recompensas lícitas, antes de descambar para
o sentido geral de quantia que se oferece ou paga a alguém para induzi-lo a
praticar atos ilícitos, suborno. Note-se ainda o paralelo, em diversas outras
línguas, entre os sentidos de propina – original – e suas relações com tavernas,
casas de pasto, hospedarias e recompensas pecuniárias ou libações partilhadas.
A propina, ou gorjeta, no francês de hoje é pourboir
(literalmente: para beber!) – a própria gorjeta, por sua vez vem de gorge > gorja (garganta) + eta; gorjeta é dinheiro para molhar a garganta,
beber.
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| Nem se todos os contadores do mundo tivessem acesso aos dados, jamais se conseguiria levantar o montante de propina recebida por Lula. |
Se você chegou sua leitura até aqui, passando pelas
digressões mais propínquas, disponíveis em Houaiss e quejandos, vamos ver o que
nos traz Bluteau (1728): “Parece que [propina] se deriva do verbo latino propinare, brindar à saúde de alguém e (…)
antigamente, em Castela, era uma merenda que dava em algumas juntas [povoados!].
(…) Hoje se dá propina em dinheiro ou em tantas varas [unidade de medida] de pano.
(…) Nos Parlamentos de França, ainda hoje [séc. XVIII] se dão propinas de alguns
frascos de vinho especial e por essa razão chamam os franceses a algumas
gratificações pot de vin (pote de
vinho). (…) Em Portugal, dão-se propinas aos oficiais da casa real [funcionários
públicos], aos tribunais, ao reitor, lentes, licenciados, bedéis, etc.… [Atualizei
um pouco o texto, para benefício do leitor.] Remeto o leitor ao verbete do clérigo
setecentista para mais digressões, todas coerentes com o argumento daqui. A. de
Moraes Silva (1789) além das coisas já relacionadas, com maior síntese, aponta
que “os doutorandos dão a cada doutor 1600 reis de propina (e) um tanto aos
bedeis” [!!!]. Ainda em nossos dias, em Portugal, se chamam propina a algumas
taxas acadêmicas. Para L. M. Silva Pinto (1831), propina é o que se dá ou se
adquire além da paga (tout court).
Se dermos um passo à retaguarda, Quicherat (1844), nos informa
que a propina(æ) latina vem do grego propinw [pro-, “a favor”, mais pinein,
“beber”] e acrescenta que é o mesmo que popina(æ),
verbete em que se relacionam os sentidos de baiuca, bodega, taverna, casa de
pasto (restaurante) e ainda comida farta, a dona da casa de pasto, taverneira…
por derivação direta.
Portanto, propina é o lugar de beber ou comer, o dinheiro ilício
(obtido pelo crime de iliçar: enganar (alguém) vendendo, hipotecando,
penhorando bens que pertencem a outrem ou sobre os quais pesam encargos de
qualquer espécie), propina o dinheiro pago além do devido, é o ilícito, o
ilídimo! Propina é um conceito em que se fundem dois elementos: a ilegalidade e
o etilismo! Propina é o que se dá e quem recebe. Propina é onde se dá e onde se
recebe. Propina é suborno para pinguço.
Quod erat
demonstrandum: não é necessário mais que mero levantamento etimológico para
ligar Luiz Inácio Lula da Silva à propina!
