23 de setembro de 2011

Eleição direta cá e lá

A universidade embarcou na moda e anseio de eleições diretas quando o país inteiro clamava "Diretas Já" e a adoção intracampi foi mais ou menos um lenitivo para a derrota da aspiração mais ampla. Há argumentos, alguns até bons, favoráveis à eleição direta e mesmo aos critérios proporcionais, de diferentes matizes, adotados; mas creio que estejamos mais sob o império de um dogmatismo enaltecedor do voto direto que propensos à racionalidade argumentativa quando nos alinhamos a estes processos de escolha.
Democracia não é uma explosão de luzes
e cores, toda feita de alegrias. Isso é
queima de fogos no réveillon.
Em tese, sempre fui contra as eleições diretas – aberta exceção histórica do momento da grande campanha de Ulisses e Tancredo. Não aceito o argumento de que as pessoas, todas, a um só tempo, tenham a qualificação suficiente para escolha competente de mandatários executivos. Acredito mais em eleições indiretas, colégios qualificados em escala, eleição distrital e mesmo no fim da escolha eletiva para cargos executivos de mandato imperial temporário como os que temos. Numa utopia em que eu fosse o Licurgo, os executivos seriam designados por competência para exercício ad nutum de funções gerenciais sob diretriz de algum colegiado eleito de forma mista (majoritária e distrital) que tivesse funções bem mais simples que a de tecer louvores e prebendas em causa própria.
Mas não é assim que as coisas são, e que sejam como são. Por absurdo, imaginemos uma grande estatal, ou economia mista, aderindo aos critérios eletivos em voga: a eleição de seu presidente por todos os acionistas: uma cabeça um voto – desesperador; a eleição qualificada (direta), cada eleitor com o peso das ações (ordinárias) em carteira – é o que temos, grosso modo, e é péssimo; ou toda a sociedade sendo chamada a eleger, em voto universal e direto, o presidente da empresa (afinal, como a União é acionista majoritária e o poder emana do povo...). O mesmo tipo de raciocínio já foi quanto à Universidade.
Sou levado a crer que estamos adotando critérios de escolha, de reitores a executivos de Estado, completamente equivocados. Desprovidos de racionalidade finalista e imersos em paixões, motivações históricas, desinformação e demagogia.
De alguma forma, precisamos voltar ao rascunho. É chato citar Sarney, quando ele é tão execrado – não sem razão, mas é fato que a afirmativa dele de que a Carta de 88 deixou o país ingovernável. Ele mesmo substituiu o governo, no sentido próprio, da governança como se entenderia em sentido moderno, por uma série de subterfúgios quem desemperram a gestão do Estado. A Carta Magna, não só é ruim, como é inexequível. O Estado é inconstitucional – ou não haveria mais. Entendo que temos que renunciar à norma constitucional que tece estrutura parlamentarista e arremate presidencialista, essa quimera jurídica, e pensar em convocar uma Constituinte original para fazer o que o Congresso Constituinte recente não deu conta.
Mas que seja uma Constituinte criada para a Constituição, por exemplo: que tal se os constituintes ficassem inelegíveis por... 15 anos? Para minimizar a legislação em causa própria.
Mas já estou na pele de Licurgo novamente; é tentador.
Por enquanto, que tal deixar as escolhas de reitor mesmo nas mãos de que tem poder político? E voltemos, em seguida, a discutir a natureza e qualidade da escolha dos detentores do poder político, no Estado, nas universidades, nas estatais.


6 de setembro de 2011

Fama sem fortuna

Há pouco me dei conta de a pequisa para meu nome no Google, entre aspas, estava retornando mais de 50.000 resultados e imaginei que esse resultado representa minha fama sem fortuna. passeando porentra os resultados da pesquisa dei com esse site vendendo versões digitais,  cuja existência eu desconhecia, de uma de minhas obras. parece que "chuparam" da amazon,com - mas pode ter sido de outros lugares. Esse livro meu nunca o liberei da acesso gratuito nem nada assemelhado. Está aí:
Centenas de downloads violando meus direitos. Vou reclamar com o bispo!

23 de agosto de 2011

Cadeia de responsabilidade: vasos comunicantes de poder

A responsabilidade se distribui entre os
eleitos e os nomeados por vasos comunicantes.
Responsabilidade é atributo que se enlaça em cadeia, tem continuidade e comunicabilidade multidirecional. Responsabilidade flui entre as partes como os líquidos e entre recipientes que se comunicam pela base. Quem preside uma república é responsável por aqueles que nomeia, por aqueles que os nomeados designam sucessivamente. Os poderes outorgados são os fluidos entre as pessoas. As ações ou omissões em qualquer elo desta cadeia se propagam na relação direta em que a delegação for atribuída e na proporção inversa em que não houver cobro pelos atos em delegação. Quem delega tem responsabilidade sobre o delegado enquanto persistir a delegação e quem recebe a delegação é partícipe nos atos dos codelegados na medida em que eles atingem o delegante. Quem permanece ministro conquanto outros ministros estão em falta, incorre na falta na mesma medida. O fluido das ações e omissões percorre a cadeia de responsabilidade como os líquidos se equilibram pelos vasos comunicantes.
Há mecanismos de ações para o controle da responsabilidade, delegação implica controle. E controle haveria de ser outro fluido em equilíbrio, mas não é. Controle se daria pelos delegados em relação a quem delega, na medida em que o delegante controla cada um dos delegados, mantendo o nível em todos os pontos da cadeia. Assim deveria ser, mas as válvulas do interesse e os olhos fechados aos podres alheios não permitem às pessoas ver que incorrem em todas as faltas do conluio quando se omitem em relação a pares. Assim deveria ser nas repúblicas, em que as reponsabilidades emanam do eleitor, confluem à presidência e refluem aos ministros. Assim não seria no feudalismo, em que cada feudatário responde ao suserano e não corresponde ao cofeudatário.
Cadeia de responsabilidade implica qualquer ação na trama, mas implica igualmente qualquer omissão. A alegação de ignorância é omissão do dever de controle, inerente à delegação outorgada e recebida. Na república, o dever de cobro pela fonte de delegação originária, o eleitor, se dá no período em que ele é chamado a opinar. A urna é um continente de fluido que se libera no sistema de poderes. Entre os eleitos e aqueles com os quais os poderes são delegados, ministros, secretários e sectários, a relação de responsabilidade é contínua – ou deveria ser. A responsabilidade flui perfeitamente, tão perfeitamente quanto as instituições estiverem funcionando.
Havendo quebra na cadeia de responsabilidade,
há de haver responsabilidade de cadeia.
Quando as reponsabilidades não estiverem fluindo entre delegantes e delegados dos poderes havidos do eleitor, temos quebra da cadeia de responsabilidade. Os vasos comunicantes, quando se entopem na república, transformam-na em feudos, em domínios do privado subordinados ao suserano eleito, em detrimento da delegação que ele recebeu. O eleitor poderá assumir sua parte de responsabilidade, quando for o tempo; ou poderá entender que, não se tratando mais de república, cabe dar ao caso o mesmo tipo de tratamento que deu fim ao feudalismo clássico.
Por fim, note-se que a cadeia de responsabilidade implica responsabilidade de cadeia, como mecanismo de controle e manutenção ou como mecanismo de ruptura e reinstauração. Quando os vasos não se comunicam por haver entupimento o há algum vazamento no sistema, são necessários reparos antes que o continente dispenda mais fluido.

16 de agosto de 2011

A influência de cada um

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Todos temos nossas redes de influência e de relações.
Agora, pelas redes sociais e profissionais, blogs e pela exposição e repercussão do que dizemos, redizemos, pensamos e pela quantidade de pessoas que acompanham e aprovam as ideias que expomos na rede, tudo considerado em complexas (e sempre questionáveis) equações, tudo se expressa em números. O nome da coisa é Klout e está disponível e acessível para quem desejar se medir e medir quem quer que seja. O tamanho relativo das pessoas (e talvez em breve seus rendimentos) estará sendo medido por referenciais assim.
Aqui, os meus e de alguns amigos e gente conhecida. Sem querer comparar, comparando.
Os meus:

Alguns de meus amigos:

Aqui alguns famosos:

De um modo geral, ainda se pode afirmar que isso não serve para absolutamente nada. Mas já se pode supor que algum dia pode vir a servir para alguma coisa! Veja por lá quem mais você desejar, é só saber o apelido da pessoa no Twitter. Ah, os números aqui mudarão de acordo com as atualizações reais, está tudo linkado.

11 de agosto de 2011

Que podemos fazer?

Até recentemente, eu não via mesmo como agir quanto à situação de degradação e corrupção no trato da coisa pública no Brasil, mas atinei com uma coisa: precisamos parar de nos intimidar com os petistas, com a militância coerciva, com o os argumentos falaciosos.
Que podemos fazer para passar o
Brasil a limpo?
Temos, cada um de nós, a cada dia, que nos confrontar com o petista adjacente – seja ele o irmão, o vizinho, o colega de trabalho ou parceiro de truco – e dizer a ele, sempre, repetidamente, que não estamos de acordo do o governo que ele escolheu, que ele é cúmplice de cada falcatrua de seus eleitos, que ele vai cair no conceito da gente honesta, digna e trabalhadora que existe no Brasil, pois a militância petista não é mais um grau de filosofia política, uma ideologia, ou uma facção em busca da conquista do Estado. Ser petista, agora, assim como votar neles, é pactuar com uma quadrilha que se apossou do governo e das instituições, em benefício próprio, e agora está se apossando das pessoas – em larga marcha para o socialismo trabalhista (isso traduzido em alemão tem um nome muito feio e conhecido) – oprimindo o pensamento antagônico e visando a universalidade.
Não há mas bem e mal nas cidades, o bem puro e o mal puro morreram na Idade Média, despidos do magistério divino infrutífero dos patriarcas em detrimento dos patrimônios.


Mas há pessoas que estão bem e outras que estão mal, há pessoas que estão com o bem ou com o mal – e quem está com o PT não está com o que é honesto, com o que é probo, com o que é decente e respeitável. É preciso que façamos o petista adjacente ver isso, e que não há mais diálogo possível no campo da política – pois na pólis se confrontam iguais, e não somos iguais a quem se degrada e se despe de princípios em busca de benefícios imediatos para si, para seu grupo, para seu sindicato ou qualquer colundria.
O mundo é assim mesmo, mas as pessoas são como lhes permitimos que elas sejam. O governo está assim por consentimento de quem está ao nosso lado e votou nele, mas não volta atrás em sua opinião por adesismo, partidarismo, opinião adotada, vinculação. As pessoas não são o bem ou o mal, mas estão assim ou assado.
A maioria de nós não será ouvida no Planalto Central, se gritarmos, espernearmos ou nos descabelarmos. Mas o petista vizindário está sempre ao alcance de todos nós. É a ele que devemos nos dirigir.

23 de julho de 2011

Pontos de vista sobre o governo de dona Dilma

  1. Do ponto de vista fático, o governo de Dona Dilma é inexistente.
  2. Do ponto de vista fotográfico, o governo de dona Dilma é um filme queimado.
  3. Do ponto de vista literário, o governo de dona Dilma é uma página em branco.
  4. Do ponto de vista musical, o governo de dona Dilma é uma distonia desarmônica desafinada.
  5. Do ponto de vista enofílico, o governo de dona Dilma está buchonada.
  6. Do ponto de vista culinário, o governo de dona Dilma é uma maionese desandada.
  7. Do ponto de vista atômico, o governo de dona Dilma é espaço inter-orbital.
  8. Do ponto de vista energético, o governo de dona Dilma é um apagão secular.
  9. Do ponto de vista do Pelé, o governo de dona Dilma é uma bola murcha.
  10. Do ponto de vista do Dr House, o governo de dona Dilma é uma síndrome paraneoplástica.
  11. Do ponto de vista binário, o governo de dona Dilma é ZERO.
  12. Do ponto de vista cinematográfico, o governo de dona Dilma é o cocô do cavalo do bandido.
  13. Do ponto de vista do Twitter, o governo de dona Dilma é #fail
  14. Do ponto de vista revolucionário, o governo de dona Dilma é defecção.
  15. Do ponto de viste leninista, o governo de dona Dilma é pequeno-burguês.
  16. Do ponto de vista marxista, o governo de dona Dilma é historicismo.
  17. Do ponto de vista existencialista, o governo de dona Dilma é o nada.
  18. Do ponto de vista fescenino, o governo de dona Dilma é uma foda empatada.
  19. Do ponto de vista escatológico, o governo de dona Dilma é uma merda.
  20. Do ponto de vista geológico, o governo de dona Dilma é uma fossa abissal.
  21. Do ponto de vista teológico, o governo de dona Dilma é a anemocria do báratro.
  22. Do ponto de vista dos gases, o governo de dona Dilma é nobre (não combina MESMO).
  23. Do ponto de vista citológico, o governo de dona Dilma é um vacúolo.
  24. Do ponto de vista penal, dona Dilma deveria ser condenada a NÃO prestar serviços à comunidade.
  25. Do ponto de vista filosófico, o governo de dona Dilma é acatalepsia.
  26. Do ponto de vista cultural, o governo de dona Dilma é burro.
  27. Do ponto de vista moral, o governo de dona Dilma é pecado.
  28. Do ponto de vista indígena, o governo de dona Dilma é tapera.
  29. Do ponto de vista arquitetônico, o governo de dona Dilma é uma ruína.
  30. Do ponto de vista histórico, o governo de dona Dilma é anacrônico.
  31. Do ponto de vista obstétrico, o governo de dona Dilma é ectópico.
  32. Do ponto de vista urológico, o governo de dona Dilma é uma disfunção erétil.
  33. Do ponto de vista prisional, o governo de dona Dilma é uma evasão frustrada.
  34. Do ponto de vista nomotético, o governo de dona Dilma é um projeto inadmissível.
  35. Do ponto de vista social, o governo de dona Dilma é um vício extirpável.
  36. Do ponto de vista bancário, o governo de dona Dilma é um cheque pré-datado apócrifo.
  37. Do ponto de vista do dicionário, o governo de dona Dilma é uma errata.
  38. Do ponto de vista da mídia, o governo de dona Dilma é um bunda-lelê.
  39. Do ponto de vista gráfico, o governo de dona Dilma é um empastelamento.

Leia no blog Keimelion - revisão de textos: Como revisar um artigo? - Pequenos problemas de digitação - Submissão de artigo científico

22 de julho de 2011

Sobre a construção do museu

por André Legos
Museólogo em formação / UFOP
A construção da ideia de museu é ocidental e, como várias outras instituições ocidentais, por vezes percebidas como inatas ao ocidente, é atrelada ao que é considerado o germe desta sociedade e de todas suas instituições, a antiguidade clássica. O museu, inclusive etimologicamente, teria sua origem no templo das musas, Museion, o local dedicado às nove musas e ao culto e desenvolvimento das artes. Mas, ao se aproximar o museu moderno ao Museion, as semelhanças que podem ser levantadas são rasas e não dariam conta de atender as ações específicas do museu. Mas esse mito de origem do museu não pode ser descartado, pois ele ainda está ligado à ideia que deveria ser construída sobre essa instituição.

O início da construção do museu pode ser posicionado nos séculos XV e XVI, período que trás consigo uma idealização da antiguidade e a extensão do mundo conhecido. O conhecimento europeu posto a prova diante de uma realidade até então desconhecida necessita de elementos de comprovação e de análise; para tanto, demandou-se um espaço específico que permitisse a guarda de objetos que documentassem o mundo desconhecido. Um lugar que cultuasse o conhecimento, para os pensadores interessados em compreender a realidade e para os soberanos interessados nas realidades que pretendiam modificar. Temos aqui a construção de uma instituição que desenvolve ideias construídas por rum grupo a partir de objetos, mas essas ideias ainda estão restritas ao grupo que o produz. O museu, como o concebemos, museu público, aparecerá apenas no século XIX, no contexto de revoluções burguesas e de construções nacionalistas, busca-se tornar público aquilo que era então privado, busca-se construir a unidade de uma nação apropriando-se de discursos do passado e ressignificando-os aos ideais vigentes. O museu é utilizado como espaço de formação do cidadão, é onde ele pode aprender principalmente como se portar e apreender os valores que regem a sua nação e que o torna parte dela.
Impõe-se discutir nesse momento como podem ser construídas ideias a partir de objetos. Primeiramente, tomemos que os objetos de museu são uma categoria de objetos, os artefatos. Artefatos são produções materiais humanas que são estabelecidos a partir das relações dos homens com o com o mundo físico e dos homens entre si. Assim, podemos pensar o artefato em duas dimensões: a morfológica e, por oposição, a semântica. A morfologia dos artefatos está diretamente ligada à expressão corporal, ou seja, artefatos são potencializadores da atividade do corpo, servem para execução de trabalho. Tais atividade se estabelecem nas relações humanas e, portanto, são dotadas de significado, assim os artefatos são diretamente ligados não só a execução do trabalho mas ao sentido dado a ele. “Uma faca, por exemplo, é um objeto reconhecido, de modo recorrente, como algo concebido, inicialmente, para perfurar e cortar materiais moles, ainda que possa ganhar, ao longo do tempo, aspectos cerimoniais ou religiosos” (BITTENCOURT, 2009).
Essas duas dimensões dos artefatos estão entrelaçadas, a expressão corporal do artefato também esta relacionada ao conjunto de códigos estabelecidos pelo corpo e condicionado pelas práticas culturais. Assim, a matéria que os constitui está impregnada de sentido, o que os torna um meio para comunicação entre os homens. O que vemos é que os artefatos podem ser lidos, e informações construídas a partir deles. Essa construção humana que dá conteúdo semântico aos artefatos é que os tornam passiveis de musealização, ou seja, os artefatos possuem valor documental; partindo das informações atribuídas a eles é possível indicar um contexto que não se encontra de fato presente, são dotados de musealidade. Nesse sentido a construção de um museu se dá a partir da musealidade inerentes aos artefatos.
Mas não basta o artefato por si para que a informação seja construída. A inserção do artefato no museu é um processo valorativo, mais que levantar informações sobre ele, as informações serão sempre referentes a um contexto específico, a um ideário determinado. Ocorre que esse processo tem por fim a comunicação de tais ideias de tal contexto. Essa comunicação é feita principalmente por meio da exposição, temos aqui um espaço construído para veicular ideias. Dessa maneira, o espaço do museu é um espaço real, que constrói, a partir de fragmentos materiais tirados do cotidiano, uma realidade, um contexto reconhecível, mas devidamente organizado em perspectiva específica. É um espaço de reconstrução da realidade. “O Museu atuou e, de muitos modos, ainda atua (e não apenas conceitualmente), como um microcosmo do mundo, um espaço sagrado universal, no qual o Homem pode redescobrir e reconstituir seu eu fragmentado” (HOOPER-GREENHILL, 1990).
O que se percebe com todas essas questões ligadas à constituição da instituição museu é que ela está intimamente ligada aos ideais do homem e sua perspectiva sobre a realidade ou como ela deve ser construída, o museu não é apenas uma ferramenta desinteressada a favor das artes e conhecimento. Dessa maneira, pode-se concluir que o museu trabalha com ideias, não com objetos, constituído de valor intrínseco, que cultua a sabedoria humana. Isto não significa que os objetos são dispensáveis, pois a veiculação de tais ideias necessita base material. As ideias são expressas, ou impressas, nos objetos no início do processo valorativo, e são articuladas no espaço por meio deles. O museu, visto sob esta perspectiva, permite uma ação mais consciente por parte dos profissionais que atuam nessa área, pois é importante perceber que ideias estão a favor ou contra algo ou alguém, portanto existe uma responsabilidade do museus e seus profissionais com relação a reprodução das ideias e da construção e modificação da realidade.
Referências
BITTENCOURT, José Neves. As coisas dentro da coisa. In: AZEVEDO, Flávia Lemos Mota de et al. Cidadania, memória e patrimônio: As dimensões do museu no cenário atual. Belo Horizonte: Crisálida, 2009. 17-31.
HOOPER-GREENHILL, Eilean. O espaço do museu. In: The Australian Journal of Media & Culture. vol. 3, nº. 1, 1990.

Leia também no blog Keimelion - revisão de textos:  Revisando seus textos - Como escrever bem - Erros comuns - Plágio e fraude acadêmica

12 de julho de 2011

Projeto Agávia Azul

Casal de agávias azuis em voo.
Como a maioria sabe, a Agávia Azul (Cyanopsitta tequilana) é uma ave da família dos psitacídeos originária do México (onde está praticamente extinta) e que migrou para o Recôncavo Baiano e busca de habitat seguro. Originária do deserto de Chihuahua, a ave vinha sendo capturada há décadas pelo seu valor econômico, como insumo na fabricação de tequila, em cuja fermentação seu fígado e outras glândulas são importante elemento catalisador, assim como as penas – que, queimadas na destilação, agregam delicado aroma ao produto.
O fenômeno da arribação da agávia, sem par na história ornitológica recente, precisa ser mais conhecido para que aqui a ave encontre a proteção que na origem lhe faltou. Ambientada onde a pita abunda essa ave tem uma convivência quase simbiótica com aquela planta e suas variedades; a pita (Furcraea foetida) proporciona fibras para a nidificação da agávia e tanino para combater dermatoses que acometem, assim como previne a ressaca depois de intensas libações.
Pita nativa no Recôncavo.
Outro componente necessário no habitat da agávia azul, que foi bem provido no Recôncavo, são depósitos de sal, cuja presença na dieta da ave é muito importante, assim como de répteis e outros integrantes da fauna salobra que integram o cardápio da ave.
Nesse contexto, em que o ambiente acolhedor e propício do Recôncavo se tornou o porto seguro da agávia, são três os riscos a que aquele habitat está sujeito, todos decorrentes da ganância dos indivíduos e da sociedade. O primeiro fator que tende a comprometer o novo habitat é o projeto da Ferrovia Norte-Sul que está na iminência de cortar em duas a área em que agora a agávia azul está se reproduzindo e em vias de alcançar uma população com massa crítica estável. O transtorno ambiental das obras, no primeiro momento, e dos os ruídos do deslocamento das composições acarretarão um nível de estresse nas aves cujas consequências não se podem prever, mas certamente implicarão em redução da fertilidade. Depois, o braço Sul da Transposição do São Francisco irrigará grande parte das áreas em que atualmente a pita abunda, propiciado a troca da cobertura natural por lavouras de uvas e tâmaras, quem podem vir a impactar por dois motivos, primeiro pela redução de fibras e tanino, depois pela mudança que as próprias frutas venham a introduzir no cardápio das aves e do consequente combate que os agricultores derem a elas pelos ataques às lavouras. Por fim, e mais drástico, é o uso que já se faz na região, das glândulas da ave para extrair as enzimas da fermentação de álcool de mandioca para a produção de um simulacro de tequila – e a agávia azul passa a encontrar aqui o mesmo predador que teve a origem: o homem e sua sede de bebidas destiladas.
Existe atualmente uma única ONG atenta para o problema, a Blue Peace, que ainda está em fase de arrecadação de recursos para empreender projetos de preservação e atuar junto aos parlamentos no sentido de sensibilizar os governos para a preservação dessa ave exógena que buscou socorro em nossa Terra Brasilis, segura de que aqui não falta abrigo para aqueles que arribaram por não termais segurança em outros portos. Procure um posto de arrecadação e colabore, antes que seja tarde, na preservação da Agávia Azul, e que em nosso céu haja sempre espaço para a diversidade.

30 de junho de 2011

Deseducação programática

Volta e meia vem a baila o argumento de que os governos não promovem a educação (sic) por pretenderem que um povo menos instruído (sic) seja mais condutível, de alguma forma. Não me recordo de nenhum teórico maquiavélico (tampouco Maquiavel) ter proposto essa ideia. parece-me absurda e imprópria, advinda das teorias conspiratórias que sempre estiveram em voga e são mais férteis que a mente de qualquer conspirador.
Já ouvi o argumento de que as falhas no sistema de ensino sejam programa de governos de todo tipo de ator político, de todas as cores partidárias. "É 'programático' o ensino ser ruim", já isso ouvi de TODOS os governos, desde que me entendo por gente. Mas não, penso que as falhas do ensino sejam incompetência de governantes mesmo, deixam a coisa na mão de pedagogos e dá nisso!


O que desanda tudo, na realidade é que o lugar certo de educar é em casa - e não educam - os pais mandam as crianças sem educação às escolas que as devolvem sem instrução. Ninguém faz o que deve, uns põem as culpas nos outros, e fica o povo como está aí, elegem essa troupe e se deleitam com as bolsas-miséria.
Se o desensino tiver sido programático para os tais governos, não funcionou como programa, pois eles vieram sendo alijados do poder uns depois de outros!
Educação (em casa) e instrução (pública ou privada) tem que ser programa social (da sociedade), político (do povo da polis), comunitário, e de todas as mais esferas - até, até! - a de governo, mas esta segundo os ditames das anteriores. Aqui em nosso país, relegamos tudo ao governo, esperamos tudo dele - e sem muita esperança! Brasileiros costumamos ver governos como panaceia para tudo, leis como bulas infalíveis (ou feitiços onipotentes).
Para uma nação (não uma pátria) ter rumo, só se despindo das fantasias de adesismos (tirando as camisas das facções), assumindo que nenhum time de salvadores vai resolver o milagre da multiplicação no erário e tomando em mãos firmes a rédeas do público e do privado, uma em cada mão, sem inversões espúrias!
Para complicar tudo, ainda vivemos no Estado nacional mais antigo de todos, pois o nosso é sequência direta, ser rupturas, do velho estado português - que até em Portugal se reformou! - mas aqui ainda perdura feudal, corrupto, burocrático, paternalista e patriarcal.
Já é hora de essa sociedade, esse povo, se erguer do berço esplêndido a que somos relegados até pelo Hino Nacional. Descubra-se o óbvio - é tomando para si a gestão que se gere, delegar é uma forma de gestão, mas relegar (como os brasileiros fazemos com a coisa do Estado) é renunciar ao resultado.


24 de junho de 2011

Públio Athayde indicado para a ABL

Acabo de se honrado com minha indicação para a Academia Brasileira de Letras. Oh... Serão tantas visitas a fazer, tanto chás a tomar, tantos repórteres que nunca leram uma linha minha querendo perguntar sobre meu "eu poético"... Enfim, quero me ver com ombreado Sarney e Paulo Coelho - mais dois que nunca leram bulhufas de minha vasta obra.


 Resta-me abrir o debate, sair à cata de votos, amealhar partidários e encetar férrea campanha pela Internet (dizem que até presidente dos EUA já foi eleito assim) - claro que vou precisar arrecadar fundos, mas meu comitê se encarregará dessa parte.
Não sei ainda se há alguma vaga aberta naquele conspícuo pretório ou se precisaremos também cuidar de abrir tal vaga, nisso todos sabemos que o maior especialista é o Jô Soares.
Bem, alea jact est - e que as pontes da mídia virtual me permitam transpor esse Rubicão de ignorado a celebridade até o próximo pleito; senão, prolongaremos a a campanha e a arrecadação até que eleito eu esteja. A luta começa!

8 de junho de 2011

A mulher de César e o ônus da prova

Cleópatra para César
Óleo sobre tela de Jean-Leon Gerome
Não basta à mulher de César ser honesta, ela precisa parecer honesta.
No sentido histórico, essa afirmativa se refere ao episódio em que Pompeia (mulher de Júlio César) deveria organizar um evento (as festas da Boa Deusa) destinado exclusivamente às mulheres, mas meu xará Públio Clódio Pulquer conseguiu entrar na casa,  durante as celebrações, disfarçado de mulher. Em resposta a este sacrilégio, do qual não foi provavelmente culpada, Pompeia recebeu uma ordem de divórcio. César admitiu publicamente que não a considerava responsável, mas justificou a sua ação com a célebre máxima com que iniciei esta postagem.
O adágio romano passou a ser referido sempre que se evoca a necessidade de transparência e lisura na coisa pública, mas principalmente num sucedâneo do Direito Romano, o ônus da prova, que deve ser invertido quando o réu é gestor público - e para os fins da função pública.
Àquele que exerce cargo de serviço público, eleito ou comissionado, sobrevém o dever de ser honesto e a necessidade premente de parecer honesto. Ao homem privado, basta ser honesto - e cumpre a quem lhe imputar qualquer desvio de conduta prová-la ou arcar com as penas da calúnia.
Nosso Código do Consumidor assume uma posição parecida, imputando o ônus da prova ao fornecedor e privilegiando o consumidor em querelas nas quais ele seria parte mais fraca, principalmente se tal inversão não ocorresse.
Não me ocorre lei específica, que inverta o ônus da prova para políticos e gestores públicos, mas na prática ocorre o mesmo. Temos a candente queda de Palocci da chefia da Casa Civil, assim como sua anterior exoneração do Ministério da Fazenda - nos dois episódios não houve prova de sua culpa, no sentido jurídico, e até ele apresentou matéria que lhe fosse favorável em ambas as ocasiões, mas a mulher de César já não parecia honesta e precisava ser repudiada. Só que César agora é que é mulher, e a mulher em juízo é o duplamente ex-ministro. Outro caso ainda mais grave, de semelhança quanto ao ponto em questão, foi o afastamento, julgamento e condenação política de Collor, ao passo que nos tribunais nada se provou contra ele.
Enquanto isso, o governo de nossa César vai perdendo sua credibilidade, pois de má fé e de questões de dúvidas patentes o grupo dos que a cercam está repleto. Todos os homens e mulheres da César têm que ser honestos e parecer honestos, mas todos os cidadãos estão completamente convictos de que isso não ocorre - quer aceitem, quer repudiem tal situação.
Infelizmente sabemos que não será de nosso Senado nem dos Tribunos da Plebe que há de vir um saneamento para o Pretório, esperemos que tal não ocorra tão cedo aos Pretorianos.



2 de junho de 2011

Pobrema, poblema, probema e outros problemas.



Muitas pessoas se equivocam no uso dessas palavras, pela semelhança que existe entre elas e mesmo pela raiz comum de algumas delas. É natural que haja este tipo de confusão em um país pobre no qual a população não dá valor ao conhecimento, ao aprendizado e à cultura ancestral.
Não é nosso intuito aqui uma profunda análise sociolinguística, até porque esse tipo de abordagem caiu em descrédito recentemente, pelas posturas do MEC em relação a um livro didático bem em voga, mas que prefiro não declinar. Sociolinguística passou a ser eufemismo para demagogia governamental e política arrebanhadora de eleitorado.
Passando aos fatos, e deixando de lado ainda as questões filológicas (ainda se pode falar em filos ou já está no índex do politicamente incorreto?) – para ser bem prático e apresentar as diferenças ortográficas ortoépicas e semânticas dos vocábulos.
  • Pobrema (pronuncia-se póbrêma) – é um tipo de dificuldade inerente a pessoas pobres (pobre + ema), provavelmente por nunca terem podido comer carne de emas. Por extensão de sujeitos, passou a designar qualquer questão social, disfunção orgânica ou controvérsia relativa às camadas menos favorecidas da sociedade: diarreia é pobrema, greve é pobrema, MST é pobrema. Por extensão de objeto, designa tudo aquilo que atinge os segmentos abaixo da linha de pobreza absoluta: fome é pobrema, analfabetismo é pobrema, falta de saneamento básico é pobrema e assim por diante. Por esvaziamento semântico (e de estômago) passou a designar aquelas historinhas com continhas que as professoras passam na escola: “Joãozinho tinha três maçãs, comeu duas...” – claro que todo mundo sabe que Joãozinho nunca teve maçãs nem comeu nenhuma, ele é pobre, por isso a historinha é um pobrema. Finalmente, por alteridade subjetiva, pobrema passa a ser aquela questão relativa ao outro, que não nos diz respeito: é pobrema seu (quem mandou ser pobre?).
  • Poblema (pronuncia-se pôblêma) – são as dificuldades inerentes a pessoas com ética, moral e participação social ativa (pob – de poblacion/ povo, em basco arcaico + lema – sentença que rege um ideal). Por extensão subjetiva, designa as questões inerentes à coluna social e disfunções intrassociais: poblema de condomínio, poblema de taxa de câmbio, poblema de o Word ficar corrigindo-me – trocando poblema por problema toda vez que eu escrevo. Por extensão de objeto, refere-se ao que atinge das camadas emergentes ao topo da pirâmide socioeconômica: poblema de congestionamento, poblema com o Imposto de Renda, poblema pra arrumar babá. Quando sofre esvaziamento, o termo passa a ter significância reflexiva, inerente ao sujeito social ativo: isso é poblema do Governo, nós vamos resolver esse poblema, o FMI resolve o poblema dos banqueiros – e assim por diante.
  • Probema (pronuncia-se como convier) – já são dificuldades mais específicas, no campo da disfonia, que requerem a intervenção de psicolinguistas e fonoaudiólogos na primeira infância para correção, ou viram caso de polícia depois. Etimologicamente probema vem de (prob(a) – prova + ema – que esconde a cabeça no buraco quando tem dificuldades). Exemplos contemporâneos muito claros são os senhores Lula e Palocci – ambos têm dificuldades de articulação, ainda que de naturezas diversas, que poderiam ser minoradas com as adequadas intervenções, mesmo com as diferentes etiologias: Lula tem probema por ter tido pobrema na infância (não tem mais, mas os probema – palavra inflexível – persistem); Palocci tem probema sem ter tido muitos poblemas (essa palavra é excessivamente flexível) na infância, e os probema do tipo que ele tem se agravam se ele tem, por exemplo, poblema na justiça.
Espero que tenha ficado claro; se você não entendeu é p....... seu! (Complete a linha pontilhada.)
Por terem me inspirado, dedico esta artigo a Regina Athayde e Bolívar Lamounier.

Leia também outras postagens no blog da Keimelion: Publique sua tese - Redação técnica e científica - Descrição de normas e procedimentos - Conjunção, uso e abuso

1 de junho de 2011

Lobão e a Controladoria Geral da União



Estão abertas as inscrições para o 6º Concurso de Monografias da Controladoria-Geral da União (2011), realizado pela Secretaria de Orçamento Federal do Ministério do Planejamento (SOF/MP). O concurso tem por finalidade estimular pesquisas voltadas à prevenção e ao combate à corrupção no Brasil, como forma de incentivar a participação do cidadão no controle da Administração Pública.
Lobão abriu também um concurso de monografias sobre segurança residencial de porquinhos. Ele sabe que Palito e Palhaço agora têm cada sua-casa-sua-vida, mas quer saber como suplementar a segurança residencial daqueles lares, assim como quer se informar das senhas de acesso, das armadilhas escondidas. Uma questão especial que Lobão quer saber é como se podem quebrar paredes de alvenaria, pois Pedrito agora que ultrapassou a linha da classe média também está bem gordinho.



31 de maio de 2011

Crestomatia Política


Política todo mundo acha que sabe o que é.
Crestomatia, segundo mestre Houaiss:
substantivo feminino
Rubrica: literatura.
1 coletânea de trechos em prosa ou verso escolhidos da obra de um ou mais autores, ger. com finalidade didática; antologia
2 obra que contém esta coletânea; antologia
Aqui se trata de mais um de meus e-news - isso, se você não sabe ainda o que é, espie lá que vai entender.
Na página, em Arquivos, também se podem acessar os números anteriores.
http://paper.li/pathayde/Politicos





30 de maio de 2011

Crônicas e críticas


Meus livros de crônicas e críticas continuam na praça - ou melhor, continuam nos HDs das editoras on demand - aguardando sua encomenda. Aqui estão eles dois (por enquanto são só dois desse série - mas tem os outros) reapresentados e reoferecidos. É meu peixe, quero vendê-lo.
Articulando
Coletânea de artigos. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos.
Novo livro publicado. Não necessariamente novos textos, pois se trata de uma coletânea de Públio Athayde:
"Juntei alguns artigos espalhados (mentira: estavam todos na mesma pasta do computador), selecionei bastante (outra mentira: coloquei tudo que era pertinente) e organizei esse livrinho eletrônico com o que prestava (ou eu pensei assim). O bacana é a facilidade, o baixo custo (zero) e a provisoriedade: tudo pode e vai ser revisado montes de vezes e nunca estará perfeito."
Coletânea de textos e ideias bem típicas de um ouro-pretano, não são apenas artigos, mas alguns textos foram propositadamente desarticulados para propiciar leitura esparsa e agradável.
No ano em que Ouro Preto completa 300 anos da autonomia política, essa obra é também a homenagem de um cidadão que nasceu e foi educado naquela cidade, com a qual mantém vínculos indeléveis e dos quais manifesta grande orgulho.
As críticas aqui expostas vêm no bojo deste orgulho cidadão consciente de que "'Ouro Preto não é um museu'. Vi frases equivalentes em vários templos europeus, abertos aos visitantes, mas permanentes no culto. Há 300 anos que Vila Rica, depois Ouro Preto, é uma urbe (um conjunto urbano) uma civitas (coletivo de cidadãos) e uma polis (entidade política) – os templos de musas que há ali são integrantes das três constituintes da cidade, mas a cidade não se limita a eles nem se destina a eles."

29 de maio de 2011

Tadinha

Hélia Athayde


Arranjo e interpretação (março de 2009)
©Arcesio Andrade
Letra e música (março de 2004),
edição de áudio e vídeo (maio de 2011)
©Públio Athayde


Tadinha
Tadinha, tadinha,
Tadinha de mim, tadinha.
Eu era nova, bem bonitinha,
Ganhei um beijo, um só, tadinha.
Agora eu vou, oh, tadinha,
Querer mais um, assim asinha.
Mas a hora, já passou!
Tadinha de mim, tadinha.
Tá rindo de mim? Sou feia assim?
Tadinha de sua mãezinha
Que deu um beijo e mais que um queijo...
E deu em você... Tadinha.
Não tive beijos, nem tive queijos,
Nem tive você!
Não sou coitadinha... Só tadinha.
Tadinha de mim, tadinha!
Belo Horizonte, 10 de março de 2004.
©Públio Athayde.



28 de maio de 2011

E-news: Ouro Preto em Tópicos

Ouro Preto em Tópicos é um e-news que reúne boa parte do que surge na web sobre nossa cidade. Nos 300 anos de criação de Vila Rica, só mesmo com muita tecnologia para acompanhar tudo que vai surgir na internet. Fiz este "jornal" para mim e para todos os pais que partilham comigo essa paixão visceral pela Cidade do Aleijadinho.
São duas edições diária, e todas as anteriores ficam disponíveis nos arquivos. Agora você já pode saber tudo que rolou no Twitter e na Web a cada dia, e voltar a se inteirar melhor do assunto.
Conheça Ouro Preto em Tópicos e assine a publicação para receber informação de cada edição, de graça, é claro.


26 de maio de 2011

Kit gay do MEC

Não a todo tipo de discriminação.
Parece até que este título está em outra língua, e está mesmo – para ser coerente a um ministério de educação (com minúsculas sim) que tem tão pouco apreço pela Flor do Lácio.
Prepararam o material para a tal campanha de Educação sem Homofobia, certamente imprimiram e compraram coisas, sem falar em muito cacau gasto em viagens e reuniões. Agora dizem que não, que a coisa estava em projeto, em estudo e que era para ser distribuída entre professores... Tudo mentira. Só faltava distribuir para as escolas os três filmezinhos idiotas (pela qualidade) e sei lá mais que cartilha que iria junto. Os filmes eu vi na internet, continuam por aí, para serem vistos por quem desejar. Não vou passar link para não recomendar o que não gostei. Você sabe como encontrar. As crianças sabem.
Irresponsável como de costume, esse governo inventou desculpa porca para aceitar a pressão (chantagem mesmo) da bancada de Cristo e jogar no lixo o material. Verdade que não valia a pena nem fazer aquilo, nem gastar mais nenhum centavo daquela baboseira. Mas daí a mentir que não estava pronto, enganar que era só para professores, fingir que estava em estudo e, principalmente, esconder que tudo foi descartado apenas para (tentar) salvar o senhor Palocci com os votos obtidos entre os cristãos militantes eleitoreiros, é muito! Fica patente que se negociam alhos por bugalhos e que voto é moeda, mesmo todos nós sabendo que moeda é dinheiro – logo, voto é dinheiro!
Só falta proibirem a veiculação dos filmezinhos, censura mesmo da boa! Aí sim, aquelas péssimas produções se transformarão em sucesso de público na mídia virtual. Todo mundo que desejou, já viu. As crianças interessadas sabem encontrar. Até a família Bolsonaro viu e divulgou – com as ressalvas que eles têm, claro. Sabe o que mais? Se aquilo chegasse às crianças na escola seria recebido como as coisas normalmente o são, com o tédio e o déjà vu habituais. Tolinhos é que os cristãos militantes não são, agora só querem mesmo causar, ter seu palanque e auferir seus votos. Dona Dilma ficou publicamente desautorizada por Garotinho, o meninote colocou a faca no pescoço da presidenta e exigiu (essa é a palavra) que ela puxasse a orelha do ministro da educação – e ele bem que merece, mas por outros motivos.
Tudo errado, pelos motivos errados, na hora errada, pessoas erradas. Não é possível, nem por acidente, algum acerto nesse governo? Nem por acidente eles incorrem, ao menos em acertos de concordância – entre si e na gramática do preconceito linguístico? Enquanto isso, o povo e o governo que se escolheram se aplaudem e vão dizendo que não existe nada melhor que democracia. Eu é que não tenho engolido mais essa.

Agora leia no blog da Keimelion: Revisando seus textos - Como escrever bem - Recomendações dos orientadores - Como escrever palavras compostas

11 de maio de 2011

Honório Guimarães - 2º

Depois das duas postagens mencionando Honório Guimarães, ficou no ar uma promessa de algo mais sobre aquele educador e poeta. A primeira referência foi a propósito de se livro que tece o título do soneto com que a obra inicia, Restos de Alma. A segunda postagem referenda a menção feita na primeira sobre como a obra chegou à minha família, divertida história. Aqui, para encerrar o caso, quero fazer algumas observações sobre a história que o papel de carta daquele educador nos conta.
O curioso papel, reproduzido integralmente na postagem anterior, mais que suporte da correspondência do professor, aparentemente tinha as funções múltiplas de cartão de visitas, currículo e de anúncio de serviços, tudo isso, combinado com a forma de "colocação" de sua obra poética, faz supor que a condição financeira da aposentadoria não seria satisfatória, que o antigo mestre ainda tentava vender seus saberes e que, aparentemente, a vaidade dos títulos, funções e encargos da biografia estava conjugada à procura de renda.
Das informações pode-se extrair: republicano, geógrafo, revolucionário em 1930, jornalista, polícia, músico, romancista, poeta, contista, ensaista, revisor... A lista é longa, mas um pequeno destaque centralizado ao pé do papel, sintetiza:
"Lecciona Admissão,
Humanidades e Escriptu-
ração Mercantil."
A aposentadoria não lhe provia suficientemente, e o ofício de professor particular e as rendas de suas obras se fazia complemento necessário à subsistência.
Aqui fica bem caracterizado que não há tanta novidade assim nas insuficientes remunerações dos diferentes ofício de magistério, bem como na tibieza das aposentadorias. O mito de que outrora os professores foram mais bem pagos não se sustenta. Os muitos louvores de que a categoria se cobria não eram condignamente recompensados pela forma real e única suficiente de dignificação de um profissional, a remuneração condizente com sua qualificação e com a relevância da tarefa desempenhada.
Por aqui, pelo Brasil todo, professor é menos que um ofício, já que se lança mão do que houver e não do necessário, é menos que um sacerdócio, pois os votos não são cumpridos, menos que uma devoção, pois o profissional é descartado, muito mais que aposentado. O magistério é um martírio: anos de labuta sem progressão funcional e sem progresso financeiro; agora como dantes.

Leia mais por aqui: Diferenças entre historiadores e jornalistas - Coerção eleitoral - Memória e imagem - A conspiração da Reforma Política
Leia também no blog da Keimelion - revisão de textos: Partes de um artigo científico e Submissão de artigo científico

9 de maio de 2011

Honório Guimarães - 1º

Em minha postagem anterior, mencionei Honório Guimarães, poeta do soneto a que deu causa a matéria. Mencionei ainda o caso de ele ter remetido a meu avô seu livro Restos de Alma - à revelia - e posto preço na remessa.

Essa história eu conhecia há muitos e muitos anos, assim como conhecia o soneto de ouvido, a fonte de ambos era minha mãe. Fui muito fiel aqui, ao relatar o fato, pois o conhecia indiretamente e sequer tinha informação se minha mãe presenciara o caso.
Eu já havia procurado o texto impresso do soneto, pela internet, sem o encontrar, à epoca em que gravei e editei aquele vídeo, da mesma postagem. Não conhecia o livro em causa, ele estivera dormindo em algum canto da casa de minha infância e juventude, oculto por elipse ou eclipse. Ao desmontarmos o lar materno, depois da morte dela, o livro floresceu e coube-me como escrivinhador mais ativo da estirpe. Mas releguei o obra a seu canto, tendo folheado somente até o soneto título. Ontem, procurei o volume para fazer aquela postagem alusiva ao dia das mães e, logo em seguida, publicada a gravação e o poema, quando ia guardar o livro encontrei nele a missiva (não é uma carta não, naquele papel e naqueles termos é uma missiva mesmo!) de Honório Guimarães a meu avô. O documento respaldou integralmente minha narrativa e a narrativa de minha mãe!
Ri bastante, e fiquei repleto de orgulho filial e de historiador: Eu havia confiado no caso que me fora contado, contando-o com toda dúvida que o historiador atribui à história oral, inclusive a da própria família. Meu pai, onde quer que possa estar, também há de ter se orgulhado, pois era máxima dele que devemos confiar desconfiando. Finalmente, meu mestre de metodologia da École des Annalles, o cônego José Geraldo, deve ter vibrado de alegria lá em Viçosa: "pas de document, pas d'histoire"!
Para benefício do leitor, transcrevo o parágrafo crucial à questão, o que referenda que Honório estava "colocando" entre os amigos a sua obra:
"Por hoje eu peço-lhe aceitar o exemplar incluso do meu último livro, que estou colocando entre meus amigos e conhecidos de antanho ao preço de Cr$8,00, sendo que felizmente não registrei uma recusa até agora."
 Ah, se essa moda pega... Fico me imaginando impingindo a meus quase 2000 amigos do Facebook e outras redes os dez opúsculos que tenho encalhados, sem falar nos 10000 nomes de meu mailing!... E ainda fica a sugestão a outros autores mais famosos e de relações mais amplas que eu, Bolívar Lamounier - para citar só um, se ele atinasse que pode impingir cada volume seu impresso a cada amigo ou conhecido de antanho... seria a fortuna!
Eu vou voltar a este assunto, a carta de Honório Guimarães, por si merece mais tinta e papel - ainda que sejam virtuais. Só as bordas de seu papel impresso dão um tratado!

Leiam neste blog: Educação versus instrução - Significação - Minha gênese - Sonhos e estado de direito

8 de maio de 2011

Restos de alma

A obra de Honório Gumarãis.
Todo mundo sabe que hoje é dia das mães - o segundo, pra quem não sabe, desde que não tenho mais a minha.
Então, resolvi postar um pouco do que resta dela, uma pouca de sua alma que nos restou. Ao gravar o vídeo que lhes apresento, no dia do aniversário dela, penúltimo de sua existência, sabia que estava registrando para um dia ter o que guardar e exibir. Só ainda não tenho coragem de rever a gravação atualmente.
Nesse tempo, dona Laura já estava privada da leitura há algo como uma década, por insuficiência visual. Mas a memória não lhe faltou, bastava pedir que os versos fluíam. Alguns próprios, mas a a maioria alheios, como estes de Honorio Gumarãis, poeta paulista nascido em 1888 cuja obra não é muito conhecida e que mais se destacou como educador em Minas Gerais.
Ao que consta, esse livro dele, cuja imagem reproduzo e de onde extraio o poema em versão autêntica, foi "impingido" a meu avô: o autor o enviou, por correio, dizendo que o livro custava tanto, que o tinha impresso em dificuldades financeira e tal! Imaginem se a moda pega! Bem, se a história não é verdadeira, foi-me bem contada por minha mãe.
Então, bastava pedir que dona Laura recitava, recitava, por horas a fio - se houvesse vinho suficiente. Ela foi culpada de eu me tornar poeta, óbvio. Inclusive, é culpada de ter me ensinado a fazer diferentes coisas pelas quais recebo elogios mas bem pouco dinheiro. Reclamei com ela, em vida, por essa falha na minha educação - com o que ela concordou plenamente.
Tenho outros vídeos dela gravados, mas estou com pequenos problemas técnicos para editá-los, além de grandes problemas emocionais para o fazer tão cedo dela privado. Portanto, os que me derem a hora de continuar partilhando coisas, fica a promessa de mais desses para a frente, sem data.


Os versos:

Leia outros posts deste blog: Mais um livro publicado - Educação versus instrução - Álbum de Joaquim Moreira Athayde - Do fundo do baú