26 de setembro de 2009

Vencer a eleição



Engraçado como as pessoas “torcem” em política com a mesma irracionalidade que no futebol ou no turfe! Um pouco menos paixão faria bem. Ano que vem vamos às urnas, todos sabem, e as articulações estão em curso. Para a maioria, o projeto é “vencer a eleição”. Esse projeto, essa meta, existe para os concorrentes no pleito ou para muitos eleitores, para os quais o critério consiste em “adivinhar” quem vai se eleger e sufragar aquele nome, como uma aposta. À aposta se segue a “torcida” para que o resultado corresponda à pule (bilhete de aposta; boleto). Muitas vezes a aposta e torcida antecedem o voto, quando o eleitor adere à candidatura ou partido, exteriorizando seu alinhamento ou mantendo-se reservado.

A grande confusão está no conceito de vencer a eleição. Na maior parte das vezes as pessoas entendem “vencer a eleição” exclusivamente como “ser eleito”. Um pouco como vencer a corrida ou a partida significa exclusivamente derrotar um ou mais adversários. Mas vitórias eleitorais são de natureza diferente. Participar de uma eleição, concorrendo nela, tem mais de um objetivo – principalmente quando a possibilidade de eleição é remota ou nula. Aderir a candidaturas, participando ativamente delas, quando a eleição é inviável é da mesma natureza.

Uma vitória eleitoral pode ser simplesmente a divulgação de um projeto, a consolidação de um partido, a afirmação de uma ideia. Vejamos alguns exemplos de grandes vitórias eleitorais sem eleição: do general Euler Monteiro ninguém se lembra, mas ele foi candidato a presidente da República em 1978 – sem nenhuma chance no Colégio Eleitoral, mas marcou a presença da oposição; Ulisses Guimarães, também concorreu no Colégio e venceu perdendo. Mais perto de nós? Fantástica a vitória de Lula em sua primeira candidatura à presidência – mesmo que o eleito tenha sido Collor, o estupendo resultado obtido consolidou o partido dele e a ideia de que um operário não estava fora do páreo. Somente na quarta e quinta candidaturas o sufrágio conduziu Lula ao Governo, mas talvez a vitória tenha sido maior na primeira – se considerarmos o ineditismo da postulação e a dimensão da concorrência; por esses dois últimos critérios, quando foi eleito, Lula enfrentou candidatos mais pífios e já era contumaz em pleitos nacionais. Exemplificando mais: alguns se lembram do fabuloso resultado do Dr. Enéias quando, do nada, surgiu em nossas telinhas rugindo: –“Meu nome é Enéias” e acolheu significativa votação, a maioria de protesto, mas que constituiu uma vitória do marketing e que, posteriormente, resultou na enxurrada de votos para deputado que fizeram daquele médico a locomotiva do partido dele na Câmara. No último pleito nacional, a grande vitoriosa foi Heloisa Helena; advinda do ostracismo de seu partido original, aquela senhora levantou milhões de votos e viabilizou seu novo partido.

Postos esses exemplos históricos, imaginemos o que pode significar aderir a candidaturas, sem “torcer” – no sentido de apostar em eleição, ou mesmo no sentido irracional de desconsiderar as alternativas como prováveis, possíveis, ou mais viáveis. Postular uma vitória nas urnas pode ser bem diferente de propugnar por um cargo, e tem sido em aparentes derrotas que se construíram grandes biografias, coroadas muitas vezes de êxitos eletivos posteriores.

Na via inversa, muitos são os candidatos que, inadvertidamente alçados ao cargo que postularam, transformam em fragorosa derrota, algumas vezes coberta de escárnio, a ascensão pelo voto. Nesse rol, para ficarmos na esfera da Presidência da República, incluamos Jânio Quadros e Collor, que colecionam, em suas facetas biográficas convergentes, o fato de terem sido defenestrados por forças claras ou ocultas.

Claro que há grandes vitórias que culminam em diplomação. Aqui temos o exemplo de Tancredo Neves, indiretamente eleito, mas soberanamente ungido pela vontade de reconhecida maioria dentre os cidadãos. Sua ausência na posse deve ter sido a maior das frustrações nacionais. A eleição de Obama tem a mesma característica, é uma vitória, conquanto não por outros fatores, no mínimo pelo significado de alguém com sua etnia naquele cargo. A posse do atual presidente americano representa, subsidiariamente, a revisão dos valores de seu antecessor – e aqui está um dos grandes benefícios da alternância.

A vitória eleitoral pode ser expressa em números que se diluem na expectativa. Qualquer desconhecido terá facilmente 100.000 votos para presidente da República. O que não significará necessariamente vitória, mas somente que há aquele mesmo número de esquizoides ou empatias. Se eu obtivesse 10.000 para deputado em qualquer dos cinco maiores colégios do Brasil, seria um feito – pois sou ninguém – e teria somado á uma legenda um número relevante, seria uma vitória para mim, que nem sequer tenho pretensão nesse sentido – mas não seria eleito.

Torcer por uma vitória eleitoral é torcer para que uma ideia floresça, que um nome desponte, ou que algo seja passado a limpo. Mas torcer não precisa ser o ato irracional que o verbo expressa em sentido próprio, mas que bem representa a atitude de quem se desespera por um resultado desportivo. Torcer por uma vitória eleitoral pode ser elencar as prioridades, por critério pessoal ou coletivo, e implementar ações racionais que produzam efeito no sentido pretendido.

Para nossas eleições presidenciais do ano que vem temos muitos postulantes alinhados. Bem poucos poderão vencer. Começando pela candidata da situação, dona Dilma não ganha, nem leva: se ela for eleita, a vitória é do Lula (e será uma vitória tão grande quanto sua primeira derrota – posta é remota a possibilidade de essa candidatura prosperar). As outras senhoras, Heloisa Helena e Marina da Silva, não vejo como esse palanque inglório lhes venha acrescentar à biografia uma lauda que seja, quanto menos qualquer láurea. Ciro já nem tem mais a idade aventureira nem argumento que lhe emprestem maior significado nessa concorrência. O azar da disputa pode fazer dele qualquer coisa, se não escorregar com a palavra mais que na outra vez. O azar da disputa provavelmente não fará dele nada mais. José Serra teve sua vez no palanque nacional, não acrescentou nada – foi uma candidatura meramente formal, pra cumprir a tabela e dar posse ao concorrente. Ele poderá trazer algo de novo agora? Certamente não. Suas realizações no governo paulista não fazem dele nenhum expoente pelo país afora. Essa candidatura, mesmo eu admitindo nela a possibilidade de prosperar, não será uma vitória, pois terá sempre o sabor de regresso ao período FHC no que ele tinha de menos interessante: a falta de audácia e criatividade.

Os partidos pequenos surgirão com nomes mais ou menos desconhecidos, aqueles que, despreparados para a edilidade de qualquer capital, pleiteiam a magistratura suprema. Não haverá surpresas por esse lado.

Não sei quem vai ser eleito presidente da República em 2010, mas só vejo um postulante apto a vencer nas eleições: Aécio Neves. Essa candidatura, caso se concretize, tem a força da juventude do governador de Minas conjugada à inigualável experiência legislativa e de dois mandatos consecutivos no governo de seu estado. Aécio, eleito presidente, seria a sublimação da frustração da posse de seu avô, mas, sobretudo, seria o aporte de uma filosofia política alicerçada na ética posta à prova por gerações consecutivas de atividade pública ilibada. Em seu currículo, traz o jovem governador a bagagem da mais vibrante reforma administrativa de uma máquina pública que já se viu no país. As magníficas reformas na estrutura física da administração estadual, obras de vulto e altamente representativas em Minas, completam-lhe o perfil para fazer dele presidente da República, já no próximo pleito. Para completar o quadro, imagine-se a expectativa de um debate bilateral, visto em todos os recantos, em que Dilma tenha que enfrentar Aécio. Não vejo bolsa família que supere a abissal diferença qualitativa entre estes dois postulantes.

Mas há os azares e os interesses múltiplos. Pode ser que o PSDB entenda fazer o governador dos paulistas candidato. A vitória de Aécio estará configurada, nesse caso, pela derrota nas urnas que poderá advir a Serra. Serra perdendo a eleição a tese de Aécio vence. Caso Dilma perca para Serra, e ela é tão ruim que isso pode acontecer – aquela senhora já teve algum voto? – Aécio terá apoiado de tal forma e com tal peso seu correligionário que lhe sobrará, na pior das hipóteses, um dos mais importantes ministérios quando não estiver no Senado.

O quadro está posto, e em diversas alternativas plausíveis, o grande vencedor em 2010 já está definido. Mas há ainda a mais negra alternativa a ser aventada: não se sabe por que torpe caminho e raciocínios, o risco da bolivarização – que seja remoto – existe, e a perspectiva de extensão do mandato atual ou de sua recandidatura enfrentam apenas a tênue barreira de uma reforma constitucional. Nesse caso, seremos todos derrotados.

Articulando

Coletânea de artigos. O artigo acima e outros mais estão publicados no livro Articulando, excelente sugestão para entretenimento ou presente. Alguns são artigos leves, outros bem mais profundos. Alguns têm origem em trabalhos acadêmicos e foram simplificados para essa edição, estando disponíveis inclusive pela internet, suas versões completas e anotadas. Há artigos bem recentes e outros de mais de dez anos. Clique nos links o no livro para adquirir.

25 de setembro de 2009

Ex-embaixador comenta caso Zelaya


Em entrevista à TV Estadão, Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos analisa a presença do presidente deposto Manuel Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Reportagem de Giulianna Correia.

24 de setembro de 2009

Discurso do senador Demóstenes Torres sobre Celso Amorim


Discurso proferido pelo
Senador Demóstenes Torres

Plenário do Senado Federal,
23 de setembro de 2009.


"O Ministério de Lula, que teve e tem até pessoas decentes, será lembrado pela quantidade de pastas e a inutilidade de algumas. Os componentes do time, para usar uma expressão cara ao senhor Presidente, se dividiram em trapalhões, aloprados, mensaleiros, sanguessugas, malfeitores e uma gente que parece sempre estar com enxaqueca ou com a gravata muito apertada."

Discurso do senador Demóstenes Torres sobre chanceler Amorim

17 de setembro de 2009

admoestação


... e depois de increpar Luiza no canto, Alberto esperou a hora certa para profaçar a moça como há tanto tempo ele desejava... todo mundo queria mesmo reprochar Luiza, mas só Alberto teve a chance de asperejar com tanta abundância, depois de açoimar profunda e demoradamente...

16 de setembro de 2009

Trans Posição Francisco


O livro Trans Posição Francisco, sobre a expedição que fizemos no Vale do Rio São Francisco em abril de 2008 está pronto. Temos somente mil exemplares à venda no site da Annablume. Se for um "sucesso" (como tudo na arte tem que ser...) a editora nos prometeu novas edições...
Portanto se você tem curiosidade, gosta de fotografia, arte, assuntos polêmicos e algumas gracinhas, ajude a dar continuidade à publicação da obra e compre um dos mil exemplares no site da Annablume (ou por telefone). Apesar de terem colocado a capa deslocada na lojinha online, o livro está realmente bonito - profundo mas mantém uma certa leveza, em inglês e português.

Marcia Vaitsman

Alguns dos participantes

Marcia Vaitsman, Julio Meiron, Luísa Nóbrega, Luiz Mizukami, Silas Martí, Vitório Rodrigues, Nabor Kisser, Kendra Johnson, Pascal Glissman, Otávio Carvalho, Fernando Valença, Públio Athayde, Frei Gilvander...



Resumo do livro

Em abril de 2008, os cinco integrantes do projeto Expedição Francisco, contemplado com recursos pelo programa Conexão Artes Visuais da Funarte, percorreram o Rio São Francisco de Januária (MG) até sua foz, em Piaçabuçu (AL), realizando performances artísticas que propunham, cada uma, sua relação específica com o rio, bem como uma tentativa particular de entender questões que se colocam para a arte contemporânea no momento em que ela se dirige a espaços distantes do circuito artístico de cidades como São Paulo. Direcionado para a pesquisa, o projeto Expedição Francisco se propunha a compreender a maneira pela qual nosso trabalho de arte contemporânea se transformaria pelo contato com o Rio São Francisco em momento chave, marcado pelo início das obras de transposição de suas águas.

Neste livro, Trans Posição Francisco, surgido da Expedição, optamos por não dissolver artificialmente as muitas controvérsias que envolvem os temas de que tratamos, deixando que um texto conteste e contradiga o outro. Cientes de que nossa contribuição ao debate da transposição não terá o mesmo aprofundamento e rigor de um trabalho sociológico escrito por especialistas, aproveitamo-nos da qualidade de artistas para fazer aproximações entre as dificuldades que encontramos para realizar nosso projeto e as tensões do momento político atual do Rio São Francisco que, se poderiam soar descabidas de um ponto de vista teórico rigoroso, arriscamos dizer que são pertinentes.