Estou sentindo falta das brigas da Ação Penal 470. Quando uma novela boa termina, não fica um vazio existencial naquele tempo do dia? Pelo menos até que a gente se envolva com outra trama, outro folhetim, que substitua aquele, ou que a memória imediata do anterior se esmaeça.
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| Plenário pleno de razões e de sem-razões. |
Pois bem, estou sentindo falta da raiva de Barbosa, não que ele tivesse raiva dos réus, bandidos cuja culpa ele já conhecia a vários anos e de quem se aproximava só pelos autos. Mas da raiva figadal pelos pares que intentavam contra suas teses, contra a cristalinidade fática, contra a lógica da ciência jurídica e contra a consciência necessária ao magistrado.
Estou sentindo falta sim, falta do fautor da quadrilha travestido de sobrejuiz. Falta da bravura com que alguém sacrifique carreira, honradez, imagem e sabe-se lá mais o quê em troca de vantagens desconhecidas, misteriosas e cuja natureza, por melhor hipótese, há de ser numérica. É preciso ser um bravo para trocar todo tipo de valor humano, social e pessoal por valores que podem ser impressos, transferidos eletronicamente e que tenham sido subtraídos ao contribuinte: e fazer isso sem grandes cachimônias, à luz dos spots e frente a câmeras da TV institucional e para ter as imagens editadas, expondo o que nelas houver de mais pútrido em redes e jornais nacionais. Eis um bravo. Destemido. Sem brio, mas sempre beluíno em seu propósito.
Tenho saudade dequeloutro que não conseguia formar bem a concordância nominal, verbo-nominal, ou sequer - seja pela impuberidade ou impudecência - perseguir concordâncias de gênero, número ou grau, exceto quando lia os bem articulados votos inscritos por assessores concursados, estuados e competentes, o que o ele nunca pode ser: digno de muito dó, pois não? Mas sempre prontíssimo a seguir fielmente e em plena concordância o voto do sequaz que o precedia, não que peleiteasse diretamente alguma vantagem que sobreviria em paraíso de dinheiros, mas em gratidão pelo imerecido pódio a que já estava alçado - sem nenhuma das qualidades prescritas para tão elevada tribuna, e mesmo sem os quesitos para as tribunas mais ao rés do chão que fossem.
Tenho saudades das vaidades e dos argumentos das damas, dos cavalheiros, dos causídicos e do parquet. Mas tenho sobretudo saudade do doce sabor do néctar da vingança e da ambrosia da razão e do direito escorrendo pelas condenações, a despeito das tramas insidiosas armadas contra ela.
O bem venceu ao cabo desse episódio trilógico. Aguardemos os segmentos, certamente em 3D.







