30 de dezembro de 2012

Algumas saudades da AP-470

Estou sentindo falta das brigas da Ação Penal 470. Quando uma novela boa termina, não fica um vazio existencial naquele tempo do dia? Pelo menos até que a gente se envolva com outra trama, outro folhetim, que substitua aquele, ou que a memória imediata do anterior se esmaeça.
Plenário pleno de razões e de sem-razões.
Pois bem, estou sentindo falta da raiva de Barbosa, não que ele tivesse raiva dos réus, bandidos cuja culpa ele já conhecia a vários anos e de quem se aproximava só pelos autos. Mas da raiva figadal pelos pares que intentavam contra suas teses, contra a cristalinidade fática, contra a lógica da ciência jurídica e contra a consciência necessária ao magistrado.
Estou sentindo falta sim, falta do fautor da quadrilha travestido de sobrejuiz. Falta da bravura com que alguém sacrifique carreira, honradez, imagem e sabe-se lá mais o quê em troca de vantagens desconhecidas, misteriosas e cuja natureza, por melhor hipótese, há de ser numérica. É preciso ser um bravo para trocar todo tipo de valor humano, social e pessoal por valores que podem ser impressos, transferidos eletronicamente e que tenham sido subtraídos ao contribuinte: e fazer isso sem grandes cachimônias, à luz dos spots e frente a câmeras da TV institucional e para ter as imagens editadas, expondo o que nelas houver de mais pútrido em redes e jornais nacionais. Eis um bravo. Destemido. Sem brio, mas sempre beluíno em seu propósito.
Tenho saudade dequeloutro que não conseguia formar bem a concordância nominal, verbo-nominal, ou sequer - seja pela impuberidade ou impudecência - perseguir concordâncias de gênero, número ou grau, exceto quando lia os bem articulados votos inscritos por assessores concursados, estuados e competentes, o que o ele nunca pode ser: digno de muito dó, pois não? Mas sempre prontíssimo a seguir fielmente e em plena concordância o voto do sequaz que o precedia, não que peleiteasse diretamente alguma vantagem que sobreviria em paraíso de dinheiros, mas em gratidão pelo imerecido pódio a que já estava alçado - sem nenhuma das qualidades prescritas para tão elevada tribuna, e mesmo sem os quesitos para as tribunas mais ao rés do chão que fossem.
Tenho saudades das vaidades e dos argumentos das damas, dos cavalheiros, dos causídicos e do parquet. Mas tenho sobretudo saudade do doce sabor do néctar da vingança e da ambrosia da razão e do direito escorrendo pelas condenações, a despeito das tramas insidiosas armadas contra ela.
O bem venceu ao cabo desse episódio trilógico. Aguardemos os segmentos, certamente em 3D.

24 de dezembro de 2012

Os três reis magros

Os três reis magros saíram em viagem rumo a Belém do Pará. Uma estrela os guiava. Era uma enorme estrela vermelha que já desviara do caminho muita gente, mas mesmo assim eles se mantinham naquele sem-rumo. Não se sabem os nomes deles, até mesmo o número de três foi construído – afinal é uma boa quantidade para um conto. Talvez se chamassem, Bempior, Maispior e Baitazar; talvez seus nomes fossem Joãopulo, Zédiceu e Ingenuino... Não! Esses são personagens de outra peta; fiquemos com os nomes anteriores.
Bempior, Maispior e Baitazar
De qualquer modo, para empreender a viagem, fossem quantos fossem, necessitavam de recursos – para seus propósitos e para custear o translado. Viram-se então na necessidade de surrupiar algumas coisas de valor. Apropriaram-se então de algum ouro, todo o incenso e a maioria da mirra que puderam.
O ouro eles conseguiram desviando umas tantas verbas publicitárias e seria o suficiente para custear outras tantas campanhas vindouras, aqueles e outros transcursos. O incenso eles usariam para louvar seu mestre, uma divindade enedáctila, apostrofada com cognome de certo cefalópode. Já a mirra eles pegaram só por ouvir dizer que valia muito, mas não sabiam exatamente qual a utilidade dela, então esconderam-na nas cuecas e deixaram lá. É claro que, com isso, seus dotes mirraram!
Ao longo do percurso, mesmo sem perceberem que aquela estrela era um ícone de autoritarismo, meteoro que se aproxima da Terra a cada meio século, empreenderam muita pregação, uma ou outra inauguração e mesmo uns tantos showmícios. Venderam casas para a vida no lado ímpar da Avenida Atlântica, em Copacabana, prometeram ferrovias ligando o Nordeste eleitor ao Sul-Maravilha e trens de bala jujuba entre as maiores capitais do país. Juraram que construiriam um espaçoporto em cada cidade com nome de santo e que fariam a transposição de toda água benta possível para operarem muitos milagres em nome da deidade pelágica teutoide.
Toda essa epifania mitificada encontrou ampla adesão por um povo que jura gostar de república, mas adora o Rei do Futebol, o Rei Roberto, o Rei do Pop, e faz reisados para cada bobo sem corte que se arvora salvador da Pátria. Pelo caminho, à medida que despendiam recursos, os magérrimos e famérrimos reis se viam na contingência de explodir um ou outro caixa eletrônico com que deparassem, mantendo assim os níveis da reserva estabilizados, sem ampliar o spread das dívidas que iam contraindo: papagaios que volitariam por dez ou quinze anos antes de pousarem em algum paul já sob outra gestão.
Ainda que estivessem bem providos no necessário e se reabastecessem quando a condição sobrevinha, telegrafavam... Não, agora mandavam e-mail. Bem eles solicitavam à gerenta do Erário mais e mais fundos. E vinham fundos mútuos, fundos a fundo perdido, fundos de caixa, e mais e mais fundos para fundarem outras células de adoração ao Dorytheutis brasiliensis ou para refundarem alguma que minguasse. Os tais fundos também serviam para subvencionar os melhores votos de fim de ano de outras seitas, sempre que se fizesse necessário.
E enquanto a caravana dos reis magros passava, cães magérrimos ladravam – e os reis mercantes faziam ouvidos moucos, pressurosos de seus deveres precípuos de rumarem à estrela rubra em sua órbita de ilusões perdidas.

23 de dezembro de 2012

Três considerações

Consideremos que todos os mensaleiros estejam em cana, como hipótese? Você se sentirá aliviado, vai achar que o Brasil vai entrar em uma nova fase, já que os condenados são a cúpula do governo, pega com a mão no bolso do Dr. Erário? E que novos tempos virão?
Tá, viu?
Deduzo que Dilma e as ministras descansam.
Como foi que você se sentiu quando Collor foi apeado? Ahhh.
Não é por aí, não, gente. Só poderá haver algum Brasil quando cassarmos a mentalidade que leva essa gentalha ao poder - e não há nem o mais tênue sinal que isso esteja em processo!
* * *

Toda vez que alguém me vêm com esse papo de dizer que precisamos de "educação" para elevar a capacidade de discernimento ético do povo eu me lembro do exemplo de Marilena Chauí - será que essa tal "educação" que tanto decantam faltou para ela?
A educação que falta é aquela que umas mães e pais dão, outros não. Escola não resolve problemas de falta de vergonha na cara de ninguém!
* * *
Um dos critérios técnicos de mensuração da democracia em algum Estado é pela avaliação da possibilidade material de que haja alternância no poder. Assim, vimos que o resultado da eleição recente nos EUA só foi sabido depois da apuração. Pois bem, qual seria a possibilidade que que o PT não esteja governando o Brasil depois de 2014? Absolutamente nenhuma. É que não temos oposição, pode-se dizer. É que não há condição para que haja, é o que se responde.

18 de dezembro de 2012

Nãotícia

"Notícia ridícula: 'Chegada do Corinthians a São Paulo terá trio elétrico e pagodeiro'. Ora, desde o tempo do jornal de pedra lascada sabe-se que um cão morder um homem não é notícia; o oposto é. Manchete seria se o curíntia fosse recebido com orquestra sinfônica e espetáculo de balé." [Ricardo Miyake]
Se o mundo acabar, não vai ser notícia.
É o que chamo de nãotícia. Jornal tem sempre mais nãotícia que notícia; dia a dia, os jornais mudam pouco a pauta em relação ao mesmo dia no ano anterior - o que varia mesmo é a data - em que pese o ciclo dos dias da semana se repetir hebdomedariamente, mesmo que eles não saiba o que é isso. A pauta é assim: 50% de nãotícia: os eventos, efemérides, estações do ano, episódios. (Pode repeteir a matéria do ano anterior, só muda a data). 20% de seminãotícia: campeonatos, eleições, óbitos, crimes, casamentos. (Pode repetir matérias inteiras, basta mudar nomes, datas e placares.) 20% de embromação: receitas, poesia, regimes, moda, cabelos, decoração. (Pode preparar a matéria a qualquer tempo e publicar a qualquer tempo, ou republicar, requentar - ninguém nota mesmo.) 5% de notícias: fatos, opiniões, investigação... (Mas só se imprime isso se houver alguma brecha no resto do material.) O resto é matéria paga. Mas a maioria de não pensantes prefere nãotícias. (Acabo de ver que não fui o inventor do termo nãotícia - embora ele seja intuitivo, eu tinha essa pretensão: Contraditorium)

17 de dezembro de 2012

A fortuna de dona Dilma

Dona Dilma, arrivista no cenário da alta cúpula, foi aonde está por mérito alheio. Encargos da fortuna e articulações comezinhas. Mas sorte, quando nos acaricia, vem-nos seduzir. Fortuna, cum blanditur, captatum venit. [Publílio Siro]. Novamente a sorte favorece essa senhora: não foi por obra dela que Lula foi pego no pulo. Bastará que ela se omita um pouco em defendê-lo, não extrapolando suas funções, e a marcha lenta e inexorável da Lei dará cabo do sindicalista enedáctilo. Novamente a roda da fortuna gira em benefício da dama mineira. A sorte é cega, mas geralmente também cega aqueles a que abraçou. Fortuna caeca est, sed eos etiam plerumque efficit caecos quos complexa est. [Cícero, De Amicitia 54]
Não nos enganemos, Dilma quer mais quatro anos.
Restará saber por quanto tempo a justiça não estabelecerá o elo de culpabilidade entre todos os integrantes do primeiro escalão. Elo que é cristalino para qualquer ótica isenta. A sorte inverte todas as coisas. Fortuna cuncta versat in contrarium." [Eurípides / Grynaeus 262].
Dilma agora está gestando sua primeira obra de arte em engenharia política: como deixar Lula se estrepar sem respingar nela?
Até agora, a suprema mandatária da república de bananas está se saindo muito bem (no que se refere a economia palaciana). Lula está perdendo o apito e ela não vai deixar a bola cair. O criador vai ser devorado pela criatura? Não, o criador vai ser devorado pelas pontas de rabo que não recolheu a tempo. A criatura não vai precisar chutar cachorro morto, nem vai se queimar em disputa fratricida: surgirá como salvadora do time deles e faxineira impoluta. Como se ela não partilhasse, desde o início, o domínio dos fatos. Sic transit gloria mundi.
Por mais que interesse a mim e a qualquer pessoa de bem que Lula se ferre de oito a oitenta, sobrepões-se que a maior interessada em sua decadência política é Dilma. Agora cumprirá a ela o papel de fingir que o defende - para salvar para si os votos dos que o veneram - e deixá-lo se estrepar, para eliminar o único concorrente á vista na disputa pelo Planalto.
Por enquanto, a sorte tem favorecido dona Dilma, sobejamente. Prova de que mais elevará os filhos a sorte que a sabedoria. Fortuna extollet plus quam sapientia natos. [Pereira 124]. A sorte exerce sua influência sobre todas as coisas: ela mais pelo capricho que pela verdade proporciona a glória ou o esquecimento às ações dos mortais. Fortuna in omni re dominatur: ea res cunctas ex lubidine magis quam ex vero celebrat obscuratque. [Salústio, Catilina 8.1].
Mas, a fortuna é uma deusa leviana. Fortuna levis est dea. [Lodeiro 459]. Uma grande fortuna é uma grande escravidão para seu dono. Fortuna magna magna domino est servitus. [PSa]. Dona Dilma é a que sempre foi, pois a sorte não dá sabedoria (virtù) nem muda nossa natureza.  Fortuna non addit sapientiam. [Rezende 2087] / Fortuna non mutat genus. [Horácio, Epodon 1.4.6].
Dois de tudo, onde a sorte quebrou alguma coisa, é inútil tentar restaurar. Fortuna unde aliquid fregit, cassum est reficere. [Publílio Siro].
Eu quase não precisei dizer nada sobre a fortuna de dona Dilma: já estava tudo dito, bastou recolher aqui e ali. O mais, eu entrego à sorte. Fortunae cetera mando. [Públio Ovídio, Metamophoses 2.140].

10 de dezembro de 2012

Meia dúzia de porradas

Por que cargas d'água metemos em nossas caixolas inocentes que havíamos nos livrado dos totalitarismos? A nassa em que nos metemos tinha uma isca apetitosa: uma peça reluzente de democracia.

Essa tal de democracia é mesmo atraente, uma musa que nos encanta com tudo aquilo que nós desejamos, e assume para cada um a feição que este um lhe projeta. É a meretriz mais sedutora e a amante mais volátil.

Nem se pode dizer que compramos gato por lebre: comemos gambá errado.
Agora, para tudo, só restar carpir lágrimas crocodálicas - pois nem fechar os olhos nos será dado. Tudo veremos, tudo entenderemos, completamente impotentes. Viramos bolsa de madame sem sequer termos dormido de touca. E o rico dinheirinho que foi juntado? O bicho papão de inflação vai devorar todinho.

Jacaré, mesmo sem bunda, não vai ter cadeira pra sentar.
Creio que passaremos, o mundo todo (ou a parte dele que nos interessa), por maus bocados em algum tempo... A situação sécio-econômica-política-financeira-militar está em vias de se liquefazer...
Não sei pra quando teremos confusão, mas essa paz e tranquilidade em que vivemos é completa exceção na história... E exceções têm a mania infeliz de servirem para confirmar regras!
O solo ressequido vai ser untado com sangue.
Nós, de fora, nos horrorizamos com o conflito do Oriente-Médio e ficamos elucubrando soluções. Difícil para nós é entender que eles gostam da briga. Se não gostassem, em 6000 ou 8000 de confusão, já daria para terem solucionado o caso. Para  eles um pega-pra-capar (atualmente com mísseis ou foguetes) deve ter o sabor mais ou menos de um Fla-Flu ou Grenal...
Eu não entendo nenhum desses comportamentos, nem os belicosos de lá nem os futebolísticos de cá. No fundo, dá tudo na mesma - só o saldo de cadáveres é um pouco diferente... Quer dizer, nem sei se é diferente, se pusermos na conta aqui os que morrem por falta de assistência médica ou de rodovias adequadas, já que preferimos construir estádios a estradas, preferimos copos e Copa à sala (de aula) e por aí afora.
Sabiá está perto de mudar de cantiga, estejam alertas.