31 de julho de 2012

Estamos assim no Brasil

  • Nos tempos idos, havia o voto-marmita, o eleitor recebia o envelope pronto, com todas as cédulas de quem votaria. Hoje temos voto self-service: não importa em quem você vote, o fulano vai se servir do dinheiro público.

Esse é o nosso Brasil varonil,
queiramos ou não.
  • Enquanto o Governo Federal continua o Minha Casa Minha Vida, os candidatos municipais seguem no Seu Tijolo Meu Voto. Questão só de escala.
  • Enquanto o Senado forem aquele cordeiros face o Planalto, e os Lobos na boca dos caixas (1, 2, 3...), a indicação presidencial para o STF é pura nomeação. Não era pra ser assim. Precisamos nos livrar, primeiro, do Senado, depois pensar em Supremo "republicano". Por enquanto, vamos comer pizza e engolir sapos.
  • Quando você vai se abrir no confessionário, escancara a alma para Deus. Quado vai se abrir no divã, arreganha os sonhos para Freud. A mulher de Cachoeira resolveu se abrir para o juiz: não sei se tentou franquear a bolsa, descerrar as pernas ou destampar a boca. Foi fechada.
  • As ovelhas negras têm boa lã pra contrastes! As maçãs podres é que não podem ficar no balaio. Ovelhas negras facilitam a contagem do rebanho. São as opiniões diferentes. Maçãs podres estragam as outras, são aquilo que não se pode confundir: tolerância e cumplicidade!

15 de julho de 2012

Poesia que morde


Explicar arte é destruí-la.
Minha poesia morde,
Mas não arranca pedaço;
Morde o calcanhar,
Mas não mata Aquiles.

Minha poesia morde,
Mas não causa dor;
Morde para acordar,
Mas não mata Morfeu.

Minha poesia morde,
Mas não quebra dentes;
Morde pra me alimentar,
Mas não mata Amor
.
Belo Horizonte, 15 de julho de 2012.

8 de julho de 2012

Um pouco de religião

Descartes defendia a razão e se defendia da religião, bem mais esperto que Galileu, nesse ponto. O Discurso do Método nega e recria a existência de deus em diversas passagens todas cobertas de ironias, paradoxos e contrarrazões. Não há material para alega a fé de ninguém, nem a falta de fé. Não se pode dizer que o outro creia e deixe de crer nem pelo que a pessoa diga, pois todos mentem - muitos até para si mesmos. Eu não acredito - para mim - que uma pessoas razoavelmente ilustrada, informada e medianamente inteligente, vivendo lúcida no século XXI creia em mitos divinos. Eu não creio, ou só estou dizendo que não creio, como provocação? A fé não é só da natureza do que se diz, mas do que se pratica? Ah, mas é tão fácil tentar ser coerente nas ações com as palavras... Onde estará a verdade? Perdida em algum deus que muda de roupa, tem inveja e desejos à moda do tempo? Bem, para mim, a verdade está na dúvida... Ops, fiquei cartesiano!
A inquisição não é um argumento contra a religião,
foi apenas a prática da falta de argumento da religião.
Não, o argumento não é sempre a inquisição, a inquisição é o argumento dessa imagem; só dessa. Mas é exatamente o mesmo argumento que pode se aplicar a qualquer tese que queira se impor pela força, desde que se inventaram as religiões para oprimir, controlar e explorar as pessoas incautas até continuá-las explorando pela televisão, rádio e internet. Não é na inquisição que se inventou a violência e o opróbrio em nome dos deuses, nem essas coisas terminaram, nem a inquisição terminou: só terminou o poder temporal direto dessa igreja pútrida, falsa, deletéria, perniciosa e decadente do Vaticano. Outras religiões, em nomes de suas verdades alegadas, continuam fazendo exatamente o mesmo pelo mundo afora, exatamente as mesmas e todas as práticas que lhes são negadas aqui eles retomam ali, os deuses são os mesmos, mudam de nome, e os pobres ignorantes, aqui e ali, continuam sustentando estamentos de degradados que dizem isso e praticam aquilo, enquanto abusam da ignorância alheia.
E os deuses, ah, coitados - sempre tão humanos, interesseiros, ególatras, irracionais quanto os homens - pois as criaturas imaginadas e fingidas não podem diferir de seus criadores.
Religião e fé não é só uma mentira do clero, mas uma mentira que as pessoas cismam em manter - para continuar justificando as mentiras anteriores, para continuar sustentando suas dúvidas e castelos de cartas, para ser fiel à camisa do seu time (sim, aderir a uma religião ou a outra é puro adesismo, tradição) e não renunciar ao argumento emprestado para sustentar a fragilidade de sua existência sem encarar o próprio fim, querendo a eternidade - a própria deificação, pois depois de terem inventado os deus, os homens querem se tornar parte dele! Ah, tolinhos. Ninguém vai se tornar parte dos deuses, eles é que são partes de nós: a pior parte, infelizmente.

7 de julho de 2012

Bedendi´s Ristorante

Havia um restaurante aqui em Belo Horizonte que ficava às moscas, o chefe proprietário chamava-se Mario Bedendis, do Vêneto. Sei-lhe até o nome, o que em mim é completa raridade. A casa ficava mesmo às moscas (não havia uma mosca sequer, era limpíssimo - e elas não seriam bem-vindas)... O chefe estava no ramo há décadas, havia começado na Itália, teve casa na Austrália e veio parar aqui. O cara era o melhor anfitrião que jamais vi; íamos ao estabelecimento dele, minhas tias e eu, umas duas vezes por mês - variávamos muito os destinos àquela época. Éramos recebidos como se da realeza fôssemos! Havia bons garçons, bem treinados. Aos domingos, uma cantora muito simpática e bem acompanhada desfiava o repertório do bel canto para nós e mais uma ou duas mesas, no máximo. Eu nem me dava ao trabalho de abrira carta, discutia com o chefe o que comeria (claro que ele oferecia o que interessava e eu pedia o que me inspirasse); da mesma forma, bons vinhos eram sugeridos para o que tivéssemos pedido.
Bedendi´s Ristorante era Instalado
no prédio do Hotel Royal Savassi.
Ainda achei este prato, de lá, para
ilustrar o texto. É mais simples
do que o que eu costumava
encontrar por ali.
Eu me sentia muitíssimo bem naquela casa. Sempre havia um regalo extra: mandava-me um licor com o café, ou presenteava-me um charuto à saída... Eu me sentia um lorde (hoje me pergunto se sinto lordose!). O estabelecimento era muitíssimo bem situada e bem decorada. Pois bem, era um paraíso - e nem era caríssimo, longe disso. O povo daqui nunca entendeu a casa, durante uns dois ou três anos foi daquele jeito: nós e mais uma, nós e mais duas mesas para almoço; calhou que nunca fui lá à noite, não sei como era. Como era um restaurante apenso a hotel, funcionava diariamente, das 7h às 0h! Por fim, arribou-se daqui o Chefe Bedendis, deixando derrubada a tese que a casa boa lota. Escrevendo esse comentário, fui procurar pelo chefe e por sua casa, se estaria em outra parte do mundo - na internet só encontre sites desatualizados falando (bem) da antiga casa. Lota é casa da moda (deus me livre). Casa da moda até pode ter comida boa, mas não é comum. Mas zoeira faz qualquer vinho acre. Qualquer coisa mais que burburinho já pré-indispõe o quimo. Não, não. Restaurante bom é aquele que tem termômetro para servir a comida bem quente e decibelímetro (ou desconfiômetro) para as vozes da clientela. Amém.
Sei de mais dois ou três exemplos do naipe, que derrubam aquela tese segundo a qual restaurante bom fica cheio. Detesto muvucas, filas e espera. Prefiro ir quando os muitos não vão. Prefiro estar onde eles não estejam. Amém, para todo o sempre, amém.

2 de julho de 2012

Pipocas existenciais

Preste muita atenção em seu próprio umbigo caso haja uma pipoca nele. Já o grão de milho no umbigo é o Viagra do pobre... O pinto sobe para comer o milho e pronto!

Pronto mesmo! Dei um jeito na coluna e mal estou me movendo. Enésima vértebra lombar, ao sul do embigo (embigo ou umbigo, o buraco tapado é o mesmo!) - no lado oposto dele, claro; nem saí para almoçar, mandei vir. Para quem não tinha nada que fazer, agora só me resta o entretenimento do repouso. Ficarei aqui, como milho na espiga; a espera de ser debulhado para me jogarem na panela e eu voltar a saltitar! Homessa, milho velho na espiga não dá pipoca!

Nossa! Estou penando! Lombalgia. Prestem atenção: não estou depenando, não estou soltando penas. Estou pagando pena, sofrendo! Posso agora imaginar como sente o milho de pipoca rebolando no fundo quente da panela, isolado fogo por um material excelente condutor de calor e sendo agitado por uma insidiosa colher... É cruel. Pense no milho quando você for fazer pipoca. Cada baguinho é uma semente, uma vida que você está sacrificando a seu deleite. E eu aqui, mal dando conta de me levantar da cadeira, andando como se houvesse me borrado e gemendo como uma porteira velha! Apiede-se. Socorro, preciso de alguma cardina que acompanhe a pipoca salgada.
Eu acho que as pipocas são socialistas. Todas elas são
praticamente iguais, se enfileiram em seus saquinhos sem
nenhuma distinção entre si, levam o mesmo sal e quase
nenhuma manteiga, são consumidas na velocidade em
que são produzidas e quase sempre há fila de espera.

Disseram que milho não sofre, ele desabrocha com o calor. Ora, cada coisa desabrocha por alguma motivo, certo? Mas alguém acha que eu devo tentar sentar na chapa quente pra ver se desabrocho? Melhor não.

Eu acho que foi a a excessiva cutucação do fim de semana que abalou minha coluna dorsal. Só pode ser... Vou parar de ficar à toa por hoje e só volto no sábado. Nem vai dar pra ir à cozinha estourar mais pipoca hoje. É que pra fazer pipoca a gente precisa rebolar, circular e pendularmente, no sentido inverso da rotação da colher na panela, de modo a manter o umbigo o mais estático possível. Quem nunca reparou, repare: quem tenta fazer pipoca sem dar o devido balaço ao quadril não alcança o mesmo êxito daqueles que o fazem com a maestria necessária.

Quer agradar a alguém? Diga o obvio, faça o que já foi feito. Repita. Tente de novo o que já deu certo. Coma pipoca no cinema! O problema é que o pacote acaba, normalmente, logo depois do trailer. Me agradaram muito, recentemente, com um pote de caviar. Vou lembrar pra sempre! E durou algumas hora a degustação!

1 de julho de 2012

Pipoca e autoajude-se

De manhã, assim cedinho, um café gostoso, fumegante, um pedaço de broa de fubá com queijo e uma cuia de pipoca!
Sabe quando a gente vai ao pipoqueiro, compra um pacotão quentinha, doce ou salgada, sai comendo e namorando, pensando na morte da bezerra e, de repente, uma pipoca da outra no pacote? Se você comprou doce, vem uma salgada - se você comprou salgada, vem uma doce. Acontece sempre. Poizé, aquela é a pipoca que a gente come primeiro: é a pipoca cotista.
Na fertilidade de nossa mente, as ideias
deveriam se expandir feito milho de pipoca,
mas o sistema de ensino se encarrega
de transformar o cérebro das pessoas
em piruá sem sal.
O sistema de ensino deveria ampliar as capacidades, habilidades e possibilidades das pessoas na mesma proporção em que o milho se expande ao virar pipoca, mas os pedagogos inventaram um sistema infalível, chamado de educação, em que a maioria não arrebenta. As escolas se transformaram no inverso do que os jovens desejariam delas, são lugares entediantes, pasteurizadores, castradores e repletos de artifícios para impedir o desenvolvimento pleno da personalidade, da criatividade e da curiosidade. Usar a escola que está aí como instrumento de desenvolvimento integral é quase como tentar estourar milho em panela de pressão: a proporção entre piruá e pipoca é inversa à aceitável.
Divulgados alguns resultados do senso, tantos católicos, mais evangélicos, apareceram os ateus. Apareceu uma nova classe média que está dando muito trabalho para o Bolívar Lamounier. A expectativa de vida aumentou, diz que tem mais gente na escola. Mas, na prática, piruá continua piruá e pipoca é bem melhor.

Cansei disso por hoje e por muito mais tempo. Os papos políticos, muitas semanas antes das eleições, já estão parecendo pipoca murcha, aquele finzinho que a gente insiste em comer mas já está ruim. Muito sal. Melhor para e jogar o restou fora: a maioria é piruá, mesmo. Então, vou lavar a boca e catar as casquinha de milho entre os dentes. Inté pra vocês que ficam.