Descartes defendia a razão e se defendia da religião, bem mais esperto que Galileu, nesse ponto. O Discurso do Método nega e recria a existência de deus em diversas passagens todas cobertas de ironias, paradoxos e contrarrazões. Não há material para alega a fé de ninguém, nem a falta de fé. Não se pode dizer que o outro creia e deixe de crer nem pelo que a pessoa diga, pois todos mentem - muitos até para si mesmos. Eu não acredito - para mim - que uma pessoas razoavelmente ilustrada, informada e medianamente inteligente, vivendo lúcida no século XXI creia em mitos divinos. Eu não creio, ou só estou dizendo que não creio, como provocação? A fé não é só da natureza do que se diz, mas do que se pratica? Ah, mas é tão fácil tentar ser coerente nas ações com as palavras... Onde estará a verdade? Perdida em algum deus que muda de roupa, tem inveja e desejos à moda do tempo? Bem, para mim, a verdade está na dúvida... Ops, fiquei cartesiano!
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A inquisição não é um argumento contra a religião,
foi apenas a prática da falta de argumento da religião. |
Não, o argumento não é sempre a inquisição, a inquisição é o argumento dessa imagem; só dessa. Mas é exatamente o mesmo argumento que pode se aplicar a qualquer tese que queira se impor pela força, desde que se inventaram as religiões para oprimir, controlar e explorar as pessoas incautas até continuá-las explorando pela televisão, rádio e internet. Não é na inquisição que se inventou a violência e o opróbrio em nome dos deuses, nem essas coisas terminaram, nem a inquisição terminou: só terminou o poder temporal direto dessa igreja pútrida, falsa, deletéria, perniciosa e decadente do Vaticano. Outras religiões, em nomes de suas verdades alegadas, continuam fazendo exatamente o mesmo pelo mundo afora, exatamente as mesmas e todas as práticas que lhes são negadas aqui eles retomam ali, os deuses são os mesmos, mudam de nome, e os pobres ignorantes, aqui e ali, continuam sustentando estamentos de degradados que dizem isso e praticam aquilo, enquanto abusam da ignorância alheia.
E os deuses, ah, coitados - sempre tão humanos, interesseiros, ególatras, irracionais quanto os homens - pois as criaturas imaginadas e fingidas não podem diferir de seus criadores.
Religião e fé não é só uma mentira do clero, mas uma mentira que as pessoas cismam em manter - para continuar justificando as mentiras anteriores, para continuar sustentando suas dúvidas e castelos de cartas, para ser fiel à camisa do seu time (sim, aderir a uma religião ou a outra é puro adesismo, tradição) e não renunciar ao argumento emprestado para sustentar a fragilidade de sua existência sem encarar o próprio fim, querendo a eternidade - a própria deificação, pois depois de terem inventado os deus, os homens querem se tornar parte dele! Ah, tolinhos. Ninguém vai se tornar parte dos deuses, eles é que são partes de nós: a pior parte, infelizmente.